Sl 8,2-10

O "filho de homem", quase-deus, governa sobre a criação de Yahweh

 

WnynE©doa] hw"Ühy>

2a Yahweh, senhor nosso,

#r<a'_h'-lk'B. ^m.viâ ryDIäa;-hm'(

2b quão poderoso é o teu nome sobre toda a terra!

`~yIm")V'h;-l[; ^ªd>Ah÷ hn"ïT. rv<ïa]

2c como puseste a tua majestade sobre os céus!

z[oï T'ñd>S;çyI é~yqin>yOw>) ~yli’l.A[) yPiÛmi

3a Da boca das crianças e dos que mamam (tu) suscitasse força,

^yr<_r>Ac ![;m;îl.

3b por causa dos teus agressores,

`~QE)n:t.miW byE©Aa÷ tyBiîv.h;l.

3c para destruir o hostil e vingador.

^yt,_[oB.c.a, yfeä[]m; ^ym,v'â ha,är>a,-yKi(

4a Quando (eu) vejo os teus céus, obras dos teus dedos,

`hT'n>n")AK rv<åa] ~ybiªk'Akw>÷ x;rEîy"

4b lua e estrelas, que estabeleceste,

WNr<_K.z>ti-yKi( vAnða/-hm'(

5a o que é o homem, para que te lembres dele,

`WNd<(q.p.ti yKiä ~d"ªa'÷-!b,W

5b e o filho do homem, para que o visites?

~yhi_l{a/me j[;M.â WhrEäS.x;T.w:

6a Contudo, o fizeste pouco menos que um deus,

`WhrE(J.[;T. rd"åh'w> dAbßk'w>

6b e de glória e de honra o coroaste.

^yd<_y" yfeä[]m;B. Whleyvim.T;

7a (Tu) o fazes governar sobre as obras das tuas mãos,

`wyl'(g>r:-tx;t;( hT'v;ä lKo÷

7b tudo colocaste debaixo dos pés dele:

~L'_Ku ~ypiäl'a]w: hn<åco

8a ovelhas e bois, a totalidade deles,

`yd"(f' tAmïh]B; ~g:©w>÷

8b e também animais do campo,

~Y"+h; ygEåd>W ~yIm;v'â rAPæci

9a ave dos céus, e os peixes do mar,

`~yMi(y: tAxïr>a' rbeª[o÷

9b o que cruza os caminhos dos mares.

WnynE+doa] hw"ïhy>

10a Yahweh, senhor nosso,

`#r<a'(h'-lk'B. ^ªm.vi÷ ryDIîa;-hm'(

10b quão poderoso é o teu nome sobre toda a terra!

 

Comentário

 

Cheguei a esse salmo de forma casual. Estava ouvindo a conferência da Prof. Dra. Maria de Lourdes (PUC-Rio), no V Seminário de Antiguidades Judaicas e Cristãs, na UERJ, 28 de dezembro próximo, e ela fez referência justamente a “homem” no Sl 8. Eu ia, pouco depois, apresentar minha comunicação, onde arriscaria, ali, como arrisquei, a dizer que ´ädäm, em Gn 1,26 e em toda a cosmogonia sacerdotal (Gn 1,1-2,4a) consiste numa referência ao “rei”, e não, ao “homem” ou à “humanidade”.

 

Não importa que tenha ouvido do titular de História daquela Universidade, coordenador do evento, e então presente, que minha intuição não levava nem a uma boa Tese no campo da História, nem a uma boa Tese no campo da Teologia – porque eu demonstrava, desde o Seminário do ano anterior, uma “mania” de ver ideologia (demais) nos textos bíblicos. Digo não importa, porque, o que importa, são os “indícios”, para citar Carlo Ginzburg, que tenho em altíssima conta. Está anotada a observação do organizador do Seminário, mas ela já se me havia apresentado por mim mesmo, já que, diante de uma aparentemente (duvido) inusitada intuição, o próprio pesquisador, se metodologicamente consciente, deve ser o primeiro a problematizá-la. Naturalmente que, por inusitado que seja, não se verá disposto a sair correndo dela, deixando-a à beira do caminho. Até porque, à beira do caminho, qualquer um que passe, bica e come.

 

Tendo eu intuído o que intui (e não foi “de graça”, como, aparentemente, quem me ouve pela primeira vez, pode julgar: “ah, é um louco, subjetivista”), antes de qualquer coisa, é duvidar disso que intuí, e, ao mesmo tempo, porque isso é duvidar em pesquisa, é verificar as condições de plausibilidade. Em Ciências Humanas, não há “prova” no sentido técnico-laboratorial do termo. Na qualidade de exegeta, um “cientista das humanas”, a “prova” a que estou limitado é aquela do alfaiate. É uma questão de ver se a roupa cai bem, o que significa, na prática, verificar se há argumentos retóricos suficientemente organizados, estruturados, articulados, que sustentem a intuição. Ainda que se tenha dito, como François Dosse (Império do Sentido), que, segundo alguma epistemologia histórica contemporânea, a interpretação de um evento faça parte dele, uma coisa é o evento inaugural, outra, absolutamente diferente e independente, a história de sua recepção ou de seus efeitos.

 

Ora, se a “tradição”, seja teológica, seja exegética, seja eclesiástica, seja acadêmica, não sabe de um ´ädäm-rei em Gn 1,1-2,4a, isso não quer dizer que, portanto, não haja um ´ädäm-rei em Gn 1,1-2,4a. O estado da tradição pode significar, dentre outras coisas, que ninguém viu o ´ädäm-rei lá. Quantas vezes só se vê o que se procura? Metodologicamente, o que estou tentando fazer é verificar se a hipótese de um ´ädäm-rei funciona em Gn 1,1-2,4a, hipótese essa que nasceu, registre-se em negrito, não do teste de teorias, mas da reflexão sobre alternativas para problemas da narrativa sacerdotal da criação, tornados evidentes depois de um longo período de intimidade com o texto.

 

É o que estou tentando fazer com ´ädäm. Quero ver se, na Bíblia Hebraica, ´ädäm comporta o sentido de “rei”. No momento, posso dizer o seguinte. No Sl 53, no Sl 58 e no Sl 80, não restam dúvidas de que a resposta é sim. Ali, a expressão “filho de homem” refere-se ao “rei”. Aqui, no Sl 8, é muito plausível que a resposta também seja sim, mas é mais escorregadia a “prova”, porque, à semelhança do uso de ´ädäm em Gn 1,1-2,4a, a referência à criação acabe gerando um contexto semântico geral, segundo o qual ´ädäm poderia ser, simplesmente, “homem”.

 

Por outro lado, há argumentos significativos para se tomar o sentido de ´ädäm no Sl 8 como uma referência ao “rei”. Vou enumerar alguns argumentos.

 

Primeiro, é dito que esse “homem” (´énôš), isto é, esse “filho de homem” (ben-´ädäm) tenha sido feito pouco menos do que um deus – um ´élöhîm. Se essa afirmação for tomada diretamente a partir de uma leitura clássico-criacionista de Gn 1,26, ou seja, como uma afirmação consequëntemente natural em relação à doutrina da criação do homem à “semelhança” de Deus, o argumento que vou construindo resulta prejudicado.

 

Há outro modo de acessar a declaração, contudo. No Sl 58, onde, a meu ver de forma indiscutível, é clara a identidade do “filho de homem” como “rei”, o regente seja interpelado pelo vocativo “ó, ´élöhîm”. Por ora, bastaria essa referência para indicar a possibilidade de que, igualmente, no Sl 8, a proximidade de “filho de homem” e ´élöhîm testemunhem uma tradição israelita de referência ao “rei” através de metonímia – ´ädäm.

 

Outro argumento seria a declaração do salmo de que “7b tudo colocaste debaixo dos pés dele” (v. 7b). A afirmação, ou constitui ideologia da coroa, ou ideologia teológica. Das duas uma: ou se trata do “rei”, debaixo de cujos pés a divindade teria colocado “tudo”, ou o “israelita”, etnicamente falando, uma vez que não é possível – quanto a isso penso haver consenso – que já se trabalhe, ali, com a abstração humanista de uma hipóstase idealista do gênero humano. Estamos a quilômetros, a séculos, da teologia platônico-cristã.

 

Uma vez que não penso ser plausível uma teologia israelita de submissão de tudo aos pés do “israelita” médio, penso ser muito mais plausível que se trate, afinal, do “rei”. Até porque essa declaração vem de ser esclarecida, no verso anterior, por outra: “(Tu) o fazes governar sobre as obras das tuas mãos” (v. 7a). O verbo “governar” traduz a raiz lvm (mšl). Nesse ponto, é importante recordar pelo menos três grandes “coincidências” entre a presença de ´ädäm em Gn 1,1-2,4a em Sl 8. Nos dois casos, o termo ´ädäm comporta o sentido de “rei”. Nos dois casos, a “origem” desse ´ädäm está diretamente ligada ao termo ´élöhîm. Lá, ´ädäm é criado segundo a imagem e a forma de ´élöhîm. Aqui, ele é “feito” pouco menos (ou menor) que um ´élöhîm. Nos dois casos, é prerrogativa desse ´ädäm situar-se ideológica e pragmaticamente acima da “criação”. Lá, ele deve “dominar” sobre ela. Aqui, deve “governar” sobre ela.

 

Eu penso que, diante dessas “coincidências”, pelo menos dessas, teria sido muito mais prudente que a advertência feita a mim, na qualidade de comunicador, tivesse sido formulada no sentido de expressar o estado de plausibilidade da intuição, o que, seria entendido, como uma preocupação legítima da academia, qual seja, a de orientar epistemologicamente os iniciantes. Na forma como se deu, na prática, interditando o insight, a advertência tanto se faz cega, antecipadamente a qualquer diálogo e argumentação retóricos, quanto se arrisca, desnecessariamente, a uma refutação pragmática – que, cuido, não tarda.

 

Meus olhos já enxergam. Há um ´ädäm-rei em Gn 1,1-2,4a. Tanto na referência específica, isolado, dos versos onde o termo ´ädäm ocorre, quanto no conjunto recursivo do texto da cosmogonia. Na parte e no todo, vejo um rei ali. E, até onde posso perceber, foi o próprio texto quem me contou, depois de passarmos muito tempo juntos.

 

Não se trata, em nenhum sentido, de “positivismo”. Mas não vou me obrigar a falsear o processo como ele se deu. Claro que uma série já não de todo recuperável de questões concorreram para que meus olhos pudessem, finalmente, entrever, em ´ädäm, um “rei”. Não vou dizer, para satisfazer algum postulado acadêmico, que entrei no texto com a “hipótese”. Absolutamente. A hipótese de um ´ädäm-rei nasceu do próprio texto. Agora, precisa ser testada. Precisa ser levada a sério, e, com seriedade, analisada. Afinal, os textos são polissêmicos, e se a plástica morfossintática de uma narrativa me leva a pensar na figura de um “rei”, isso não significa, e eu estou muito consciente disso, que esse “rei”, depreensível nesse caso, apenas da narrativa, estivesse presente na referência original, em conformidade com o registro da intencionalidade histórica que redigiu o texto.

 

Em resumo: a presença de um rei cabe perfeitamente na narrativa. Como, contudo, o que me  interessa não é a narrativa, isto é, a grandeza polissêmica, posto que literária, mas o seu recuo histórico-social à condição de fala original, resta-me verificar se, além de na plástica, esse rei também está lá, na História.