Sl 82,1-8  

Só é divino o direito se ele for justo  

 

lae_-td:[]B; bC'înI ~yhiªl{a/

1a ´élöhîm impõe-se na assembléia de ´ël,

`jPo)v.yI ~yhiäl{a/ br<q<ßB.

1b no meio dos deuses, (ele) julga.

lw<["+-WjP.v.Ti yt;îm'-d[;

2a Até quando promovereis injustiça,

`hl's,(-Waf.Ti ~y[iªv'r>÷ ynEïp.W

2b e as faces dos criminosos levantareis?

~At+y"w> ld:î-Wjp.vi

3a Defendei o direito do pobre e do órfão,

`WqyDI(c.h; vr"äw" ynIß['

3b ao aflito e necessitado, fazei justiça.

!Ay=b.a,w> ld:î-WjL.P;

4a Livrai o pobre e o enfraquecido,

`WlyCi(h; ~y[iäv'r> dY:ßmi

4b da mão dos criminosos libertai-os.

 

Wnybiªy" al{ïw> W[’d>y") al{Ü

5a (Eles) não sabem nem têm entendimento.

WkL'_h;t.yI hk'îvex]B;

5b Na treva andam.

`#r<a'( ydEs.Amï-lK' WjAMªyI÷

5c Vacilam todos os fundamentos da terra.

 

~T,_a; ~yhiäl{a/ yTir>m;a'â-ynIa]

6a Eu (mesmo) disse: deuses (é o que) sois,

`~k,(L.Ku !Ayæl.[, ynEßb.W

6b e filhos do Altíssimo sois todos vós.

!Wt+WmT. ~d"äa'K. !kea'â

7a Todavia, como homem morrereis,

`WlPo)Ti ~yrIåF'h; dx;Þa;k.W

7b e, como qualquer dos príncipes, sucumbireis.

 

#r<a'_h' hj'äp.v' ~yhil{a/â hm'äWq

8a Levanta, ´élöhîm, julga a terra,     

`~yI)AGh;-lk'B. lx;ªn>ti÷ hT'îa;-yKi(

8b porque tu é que tens a posse de todas as pessoas.

 

Comentário

 

Continuo minha busca pela possibilidade de “defesa” – retórica – de um insight: o termo ´ädäm, utilizado em Gn 1,26 e 27, isto é, na narrativa sacerdotal da criação (Gn 1,1-2,4a) não significava, na origem, ou seja, no contexto pragmático de redação e instrumentalização da cosmogonia, “homem”, “ser humano”. A meu ver, trata-se, aí, do sentido de “rei”. Vou mais longe: trata-se do rei de Jerusalém. Como o texto é pós-exílico, e não entrevejo a possibilidade de uma datação avançada para a cosmogonia, só me resta imaginar tratar-se de uma referência a Zorobabel, como, a seu tempo, a nota v de A Bíblia de Jerusalém sugere para o termo “filho de homem” (Ben-´ädäm) no Sl 80,18.

 

Confrontado um tanto incisivamente num evento acadêmico em que comuniquei o insight, resolvi antecipar a discussão desse elemento de minha Tese de Doutorado, quando destinaria a ela um esforço mais ao final da pesquisa. Nesse sentido, devo agradecer à veemência com que minha intuição foi refutada. Desde então, traduzi textos onde percebia a possibilidade de haver, no nível da língua original, razões para a argumentação retórica do insight. Nesses textos, portanto, o rei e o aparelho de governo de Israel ou Judá fossem referidos mediante o uso de fórmulas nas quais constasse a palavra ´ädäm.

 

Traduzi os Sl 8, 58 e 80. Num momento de descontração, saltando páginas no Google, pesquisando os comentários àqueles salmos, deparei-me com uma breve exposição do Sl 58 numa página indicada como relacionada à New American Bible (http://www.nccbuscc.org/nab/bible/psalms/psalm58.htm). Aquela exposição considera que o termo “deuses” no v. 2 é uma referência aos deuses mesmo, ou melhor, a seres divinos subordinados ao Deus de Israel, que os teria incumbido do governo das nações estrangeiras. O comentário, então, remete o leitor ao Sl 82. E cá estou eu.

 

Não me parece correta a leitura que o comentário do site propõe. Não me parece razoável que o salmista esteja preocupado com as questões de justiça e injustiça na vida das nações. Parece-me mais correto situar a denúncia do salmista no campo da justiça e da injustiça praticadas a favor ou contra sua própria gente, e, nesse caso, esses “deuses”, ou são “deuses” que governam (“julgam”) o povo israelita, ou são metáforas. Em meu próprio comentário, defendo a idéia de que “deuses”, nesse caso, e em outros, que precisam ser esclarecidos, é uma referência complexa à legitimação ideológico-retórica que os “governantes” aplicam-se a si, naquela cultura. O governo, logo o direito, é uma prerrogativa legitimada pela teologia.

 

O Sl 82 é um caso que merece atenção, porque, ou, de fato, trata-se, aí, e no Sl 58, de poesia construída sob a mitologia do governo das “nações” pelos “deuses”, ou, nada disso, trata-se do ingresso do poeta no discurso ideológico do governo para, dentro dele, e de dentro dele, criticá-lo. Minha aposta é esta.

 

O salmo está dividido em quatro partes. A primeira, e mais longa, introduz a cena onde todo o salmo se desenrola. É a corte “divina”. Para mim, a “corte de justiça”, isto é, a instância oficial do direito, o equipamento pragmático dos recursos civis, tomado a partir de sua própria legitimação teológico-ideológico: a “corte de justiça” é a “assembléia divina” (melhor do que “assembléia de ´ël”). No Sl 58,2, também os componentes da “corte de justiça” são tratados como “deuses”, e o termo é exatamente o mesmo, ainda que no plural. Assim, aqui, trata-se da “assembléia de ´ël”, enquanto, lá, eles são os próprios ´ëlìm. Lá, ainda, há a correlação entre ´ëlìm, de um lado, e “filhos de homem” (Bünê ´ädäm), de outro. Só é possível tratar toda a questão da justiça ali posta como devendo ser relacionada aos “deuses” depois de desconsiderar a indicação poético-sintática da relação desses dois termos. Se ´ëlìm são os “deuses” (mesmo), então o que se faz com o termo Bünê ´ädäm? O mais natural parece ser tomar um termo pelo outro, e considerar que este se refira aos próprios “governantes”, ou seus representantes legais, ao passo que aquele, agora, referir-se-ia à legitimação retórico-ideológica da prerrogativa do direito exercido por esses representantes-governantes. Ou seja, os Bünê ´ädäm podem julgar, porque são aí e para isso aí postos pela “divindade”.

 

Uma leitura dessa como venho de fazer exige duas atitudes. A primeira, reconhecer que os textos, mesmos os poéticos, estão carregados de ideologia política. Não se trata, em absoluto, e em nenhuma hipótese, de arte ou literatura. Ali, vê-se aberta a ferida da vida, em toda a sua profundidade. Além disso, não se deve tomar o israelita “médio”, ou seja, o componente popular, como um “idiota” alienado, que não “sabe” que jogo é jogado. Pelo contrário, a Bíblia Hebraica está cheia de contra-textos, digamos assim, em que instâncias sociais que se julgam ofendidas pelo poder manifestam-se contra o poder. Os jogos podem ter mudado, mas os jogadores sempre souberam jogar.

 

Penso, portanto, que o Sl 82 é narrado dentro da ideologia da “corte”. Nesse aspecto, não é sequer ironia. É mais do que isso. É um “recado”, que se traduz na afirmação de que, está bem, aceitam-se as regras do jogo, e que, vá lá, os representantes-governantes até possam apresentar-se como “deuses”. Se são apenas “representantes-governantes”, ou são, antes, “seres divinos”, tanto faz – desde que a justiça seja feita. Mais adiante, essa será a conclusão do salmista: se os “deuses” tivessem feito justiça, permaneceriam “deuses”. Mas como são o que são, e fazem o que fazem, morrerão como os príncipes que são. É justamente aí, nesse ponto, que o salmista denuncia o conhecimento que tem da “brincadeira”, do mito, ao qual a sociedade de então até se submete, porque aquilo em que ela está interessada não é o jogo em si, mas o que ela, sociedade, o que ele povo, pode obter de garantias.

 

“Deus”, então (a rigor, élöhîm) é posto a invadir a reunião da “assembléia divina” (v. 1a). No Sl 53,3, diz-se que desde os céus, élöhîm se debruça sobre os Bünê ´ädäm, para, eis o ponto fundamental, “inspecionar”. Quer ver se eles estão fazendo o que devem fazer. Conclui que não, e que, antes de cuidarem do povo, porque os Bünê ´ädäm são, afinal, os “pastores”, estão é devorando o povo. Aqui, no verso de entrada, élöhîm invade a reunião, que, afinal, ele legitima, e, ele mesmo, denuncia o descompromisso dos “juízes” com o seu “dever”. Os “juízes” estão prejudicando os pobres, e, uma vez que beneficiam os “criminosos”, são estes que deixam o “tribunal” com a cabeça erguida, deixando subentendida a humilhação com que os pobres deixam aquele lugar. Mas élöhîm vai ali justamente para ratificar suas ordens: os “deuses” são “deuses” para promover o direito do pobre. É isso que devem fazer.

 

O v. 5a apenas faz repetir a conclusão a que élöhîm chega quando inspeciona o trabalho dos “filhos do homem”, no Sl 53. De lá para cá, nada mudou: “(Eles) não sabem nem têm entendimento”. E, como “criação” para esse povo, para essa cultura, é o estabelecimento de estruturas físicas e políticas de garantia da vida, uma vez que o pilar jurídico dessa garantia, a quem cabe a manutenção dos direitos violados, a recondução dos deserdados aos deus direitos, deteriora-se, corrompe-se, é natural que se tome essa situação como uma ameaça teológica: “vacilam todos os fundamentos da terra” (v. 5b).

 

A situação é muito grave. “Deus” não invadira a assembléia apenas para exigir respeito e obediência dos representantes-governantes. A “divindade” faz saber aos “deuses”, isto é, aos “representantes-governantes” que se legitimam pela ideologia da fundamentação de seus cargos, que, sim, a saber, dentro da retórica-ideológica em vigor, ou, dito de outro modo, dentro do discurso mítico-político dentro do qual o jogo do direito é jogado, sim, a própria “divindade” os declarara “deuses”, adotando-os a todos, na condição de filhos do Altíssimo. Aqui penso haver relação, no nível retórico-ideológico, com o Sl 2,7:

 

hT'a;_ ynIïB.

Filho meu és tu.

^yTi(d>liy> ~AYðh; ynI©a]÷

Eu (sou quem) hoje te tem gerado.

 

Trata-se do tema da “filiação” divina, prerrogativa e condição do “rei”, e que me leva a fazer gravitar em torno deste toda a cena em que o tema do direito se estabelece construído sobre referências discursivas que se remetem ao “divino”.

 

Nos v. 6 e 7 do salmo, portanto, ´élöhîm reconhece que o estatuto de “divino” emprestado aos membros da “assembléia de ´ël” decorre de um ato próprio seu. Ele reconhece que foi, sim, ele quem disse que eles eram “deuses” e “filhos do Altíssimo”. Mas ele se recorda disso não como uma diminuição da culpa deles, subvertedores do direito dos pobres, mas, ao contrário, justamente para fazê-los saber que são “divinos” apenas se e enquanto promovem do direito. Quando deixam de cumprir sua missão, quando falham, voltam a ser o que são: ´ädäm e Särîm, literalmente, “homem” e “príncipes”, mas que eu me sinto autorizado a traduzir – “rei” e “príncipes”.

 

E esse é o ponto que particularmente me interessa aqui: traduzir ´ädäm como “rei”. O argumento deve ser, além do mais, sintático. O salmo inteiro está repleto de “paralelismos”. Indico-os.

 

·         assembléia de ´ël (1a) + deuses (1b)

·         “julgar” (= defender o direito) (3a) + “fazer justiça” (3b)

·         “deuses” (6a) + “filhos do Altíssimo” (6b)

·         ´ädäm (= rei) (7a) + “cada um dos príncipes” (7b)

 

Mencionei apenas os paralelismo ditos sinonímicos, por meio de cujo recurso de linguagem o compositor do texto faz com que duas expressões, na letra, diferentes, encarnem a mesma idéia. O salmo, contudo, ainda se utiliza de outras estratégias da família do paralelismo, como, por exemplo, uma cena inteira é decomposta em pedaços inter-relacionados, mencionando-se num verso um pedaço e, no seguinte, outro, sendo necessária a composição da cena inteira, através dos dois versos. O v. 2, e não é o único caso, compõe-se assim: “até quando promovereis injustiça, e as faces dos criminosos levantareis?”. Ou seja, na cena, lá estão os “deuses”, os “pobres” e os “criminosos”. Os deuses julgam, e, como fazem injustiça, os criminosos vencem a disputa jurídica. Vencedores, saem de cabeça erguida. O que não é dito, mas que compõe a cena, é que os pobres são levados ao prejuízo, pelos deuses, e, assim humilhados, saem de cabeça baixa, espoliados dos seus direitos.

 

Num salmo tão artisticamente montado, em que cada verso é pensado sintaticamente, o v. 7 não pode ser exceção: “todavia, como homem morrereis, e, como qualquer um dos príncipes, sucumbireis”. Ou seja:

 

todavia,

como

´ädäm

morrereis

e,

como

qualquer um dos príncipes

sucumbireis

 

Os indícios (no sentido metodológico com que Carlo Ginzburg emprega esse termo) apontam para a necessária identificação de ´ädäm e “príncipes”. Não se trata de uma referência aos “simples” mortais, mas à redução do “político” à sua condição de estrutura cultural apenas. O que se diz é que, em tese, até se aceita a “divinização” do “rei” – a rigor, de toda a corte de justiça, de todo o aparelho que executa as suas ordens. Mas isso apenas na condição de que essas ordens concorram para a cuidado do povo. Como não é o caso, “rei” e corte são teologicamente esvaziados. Tornam-se o que são: apenas rei e príncipes.

 

Destituídos da legitimação divina, não valem mais o que valiam. Sequer lhes cabe, então, o julgamento. Razão pela qual o salmo termina como termina. É o próprio ´élöhîm quem se deve levantar e promover a justiça – porque, se depender dos “deuses”, é melhor esperar sentado.