Sl 124,1b-8

 

Israel deve recordar a libertação de Yahweh

 

Wnl'_ hy"h"åv, hw"hy>â yleäWl

1b Se Yahweh lá não nos tivesse valido,

`lae(r"f.yI an"÷-rm;ayO*

1c que o diga, agora, Israel,

Wnl'_ hy"h"åv, hw"hy>â yleäWl

2a se Yahweh lá não nos tivesse valido,

`~d"(a' Wnyleä[' ~WqßB.

2b no levantar-se contra nós ´ädäm,

WnW[+l'B. ~yYIåx; yz:a]â

3a então vivos nos teriam engolido,

`WnB'( ~P'äa; tArßx]B;

3b no incendiar-se da sua ira contra nós.

WnWp+j'v. ~yIM:åh; yz:a]â

4a Então as águas nos teriam arrastado,

   `Wnve(p.n:-l[; rb:ï[' hl'x.n:÷ª

4b a torrente teria passado sobre nossa vida.

`~ynI)AdyZE)h; ~yIM;ªh;÷ Wnve_p.n:-l[; rb:å[' yz:a]â

5 Então teriam passado sobre a nossa vida as águas revoltas.

`~h,(yNEvil. @r<j,÷ª Wnn"ït'n> aL{ïv, hw"+hy> %WrïB'

6 Bendito Yahweh que não nos deu por presa para os dentes deles:

~yviîq.Ayò xP;çmi éhj'l.m.nI rAPðciK. Wnveªp.n:

7a a nossa vida, como um pássaro, escapou da armadilha do passarinheiro,

`Wnj.l'(m.nI Wnx.n:ïa]w: rB'ªv.nI xP;îh;

7b a armadilha se quebrou, e nós escapamos.

hw"+hy> ~veäB. WnrEz>[,â

8a A nossa ajuda está no nome de Yahweh.

`#r<a'(w" ~yIm:ïv' hfeª[o÷

8b que fez céus e terra.

 

Comentário

 

Caso me abstenha de analisar o salmo em função do contexto literário – o “Saltério dos Degraus”, que pressupõe seja a série dos Sl 120 a 134 fossem entoados durantes as peregrinações coletivas a Jerusalém, e, ao invés disso, tomar o salmo a partir de sua própria configuração interna, procedimento esse mais metodologicamente indicado, o uso do termo ´ädäm ganha uma configuração que o articula politicamente.

 

´ädäm, aí, consiste numa grandeza “coletiva”, responsável por colocar “Israel” em situação de perigo de vida( 2b). É Israel quem deve dizer que Yahweh valeu-lhe nesse perigo (1c). Não se trata, aqui, portanto, de uma oração “pessoal”.

 

O uso da metáfora mítico-cosmogônica das águas revoltam inundando, tragando, arrastando “a nossa vida”, indica que o contexto é de “tragédia nacional”. Seja a “comunidade”, seja a “cidade”, seja a “nação”, o que quer que “nossa vida” signifique, a ameaça é à sua sobrevivência enquanto grandeza sócio-política.

 

A descrição, também metafórica, dessa ameaça, na forma de armadilha de passarinheiro, lembra a forma como os anais de Senaqueribe recordam-se do cerco a Jerusalém, em 701: “e quanto a Ezequias, o judeu, eu o prendi como um pássaro numa gaiola”. Não é necessário ligar os dois episódios, mas o fato de que, nos dois casos, a metáfora seja cabida é heurística. Somados os fatos de que, primeiro, se trata de ´ädäm pondo em perigo Israel, segundo, esse perigo é descrito, mítico-poeticamente, como risco de “descriação”, e, terceiro, a metáfora da armadilha do caçador de pássaros seja utilizada em contextos de cerco militar permite a leitura de ´ädäm como referência a um contingente militar estrangeiro, um exército.

 

Se ´ädäm constitui mesmo uma referência a um exército estrangeiro, poderia ser comparado à expressão Bünê nëkär (filhos do estrangeiro), de Sl 144,7. Nesse caso, por trás de ambos os termos estaria a figura do “rei” estrangeiro, comandante-em-chefe das forças militares ameaçadoras.

 

É provável que o uso litúrgico situado do Saltério dos Degraus tenha acessado a plástica poética do cântico em sentido mais pessoal, promovendo tranqüilidade aos romeiros, mais do que recordando a libertação de guerras passadas. Mas esse é um caso mais pertinente à história da recepção do salmo.