Sl 58,2-12

 

Quando a justiça é criminosa  

 

!Wr+Bed:T. qd<c,â ~l,aeä ~n"©m.auh;(

2a É (mesmo) verdade, deuses, (que) justiça (é o que) sentenciais (vós)?

`~d"(a' ynEåB. WjªP.v.Ti÷ ~yrIïv'yme

2b (Que) retidões (é o que) julgais (vós), filhos de homem?

!Wlï['ñp.Ti tl{áA[ ébleB.-@a;

3a Antes, no coração, injustiça (é o que) laborais,

`!Ws)Le(p;T. ~k,ªydEy>÷ sm;îx] #r<a'‡B'

3b sobre a terra, a violência das mãos vossas fazeis pesar.

 

~x,r"_me ~y[iäv'r> WrzOæ

4a Perdem-se os criminosos desde o ventre,

`bz")k' yrEîb.Do !j,B,ªmi÷ W[ïT'

4b perambulam desde o útero os faladores de mentira.

vx'_n"-tm;x] tWmïd>Ki Aml'ª-tm;x]

5a O veneno deles é igual a veneno de serpente.

`An*z>a' ~jeîa.y: vrEªxe÷ !t,p,î-AmK.

5b (São) como a víbora surda, que tapa o próprio ouvido,

~yvi_x]l;m. lAqål. [m;v.yIâ-al{ rv<åa]

6a que não obedece à voz de encantadores,

`~K'(xum. ~yrIåb'x] rbEßAx

6b do enfeitiçador de feitiços, do especialista.

 

Amypi_B. AmyNEïvi-sr"h] ~yhiªl{a/

7a ´élöhîm, quebra os dentes deles, na boca deles,

`hw")hy> Ÿ#toån> ~yrIªypiK.÷ tA[ïT.l.m;

7b as mandíbulas dos leõezinhos arranca, Yahweh.

Aml'_-WkL.h;t.yI ~yIm;â-Amk. Wsåa]M'yI

8a Que eles desapareçam, como águas que escorrem.

`Wll'(mot.yI AmæK. ACxi %roðd>yI

8b Retesada a flecha dele, que se desmanchem.

%l{=h]y: sm,T,ä lWlB.v;â AmåK.

9a Como lesma derretida, que (ele) se vá,

`vm,v'( Wzx'î-lB; tv,ae÷ª lp,nEï

9b aborto de mulher, que não vê o sol.

dj'_a' ~k,äyteroySi( Wnybiäy" ~r<j,ÛB.

10a Antes que vejam as vossas panelas o graveto,

`WNr<(['f.yI !Arªx'÷-AmK. yx;î-AmK.

10b seja o verde, seja o aceso, arrebatado lhe seja.

 

   ~q"+n" hz"åx'-yKi qyDIc;â xm;äf.yI

11a Alegra-se o justo, quando vê vingança:

`[v'(r"h' ~d:äB. #x;ªr>yI÷ wym'î['P.

11b (quando) os pés dele (ele) lava no sangue do criminoso.

qyDI_C;l; yrIåP.-%a; ~d"a'â rm:åayOw>

12a Então diz o homem: agora há fruto para o justo,

`#r<a'(B' ~yjiîp.vo ~yhiªl{a/÷-vyE %a:ï

12b agora sim há ´élöhîm julgando sobre a terra.

 

 

Comentário

 

O salmo está dividido em quatro partes, cada uma delas podendo ser percebida por conta de seu conteúdo: v. 2-3, v. 4-6, v. 7-10 e v. 11-12. Na primeira parte, denuncia-se a improcedência da auto-apresentação do discurso dos “deuses” e dos “filhos de homem” (termos metafóricos) como justiça e retidão (v. 2). Segundo o salmo, muito pelo contrário, a intenção dos “governantes” é, sempre, violência (v. 3).

 

Na segunda parte, parece-me que a identidade desses “deuses” e “filhos de homem” é exposta. O recurso do desvelamento da identidade deles é retórico-poética. Eles são comparados a serpentes (na terceira parte, a leõezinhos) justamente as “feras” de quem os “pastores” devem proteger o “rebanho”. Bem sabido: “pastores”, aí, são, mais uma vez, uma metáfora, mas, dessa vez, nada mais do que a referência à metáfora com que os próprios governantes – os reis – legitimam seu poder e suas prerrogativas: o rei é o pastor, o povo é o rebanho. Esses “pastores”, contudo, não cuidam do rebanho. Antes, devoram-no. Não se pode, ainda, negligenciar que a identificação ideológica do “rei” como pastor remete à divindade, de quem o rei-pastor extrai legitimação. Por conta disso, os pastores são, na primeira parte, tratados de “deuses” (no nível do discurso teológico-ideológico). O salmo se aproveita dessa legitimação, quando afirma que os pastores “perdem-se” e “perambulam” desde o ventre, porque não seguem, na prática, o roteiro que a legitimação de si mesmos como pastores divinos do povo exigiria. Sua fala, pois, é pura mentira.

 

A terceira e maior parte é a imprecação mágico-profética. O salmo encarna maldições, a meu ver, ancorado na teologia do poder encantatório da palavra proferida, de cujo “modelo” a tradição de Balaão é exemplo. Ali, o salmo se volta contra os “leõezinhos”, e toda a série de imprecações mágico-proféticas são dirigidas contra eles.

 

Na quarta e última parte, as coisas são colocadas no lugar em que, segundo a ótica do salmo, elas devem estar. Segundo o que se diz aí, é apenas quando a “justiça” é feita que se pode dizer, de fato, que há justiça na terra.

 

Num fôlego, o contexto poderia ser tomado como o seguinte. Trata-se do exercício do direito. A instância que detém a prerrogativa do direito legitima-se a si mesma e à respectiva prerrogativa mediante dois recursos: a sua auto-apresentação como divinamente determinados para tal exercício, e sua condição de zeladores do bem do povo. A primeira ideologia retórica está denunciada no vocativo “deuses”, do v. 2a. A segunda, na fórmula “filhos de homem”, que se refere aos “pastores”, isto é, aos “reis”, cuja retórica os descreve assim (cf. Ez 34).

 

Não há consenso entre a leitura que os “pastores” fazem do exercício do direito que eles dirigem, e a leitura que disso faz o salmo. O salmo critica tanto a prática do direito que é realizado, quanto a sua legitimação. Denuncia, primeiro, dizendo que não há compromisso real dos “deuses” e “filhos de homem” com a justiça, porque eles estão extraviados, perdidos, desde o ventre. Segundo, porque, no fundo, suas ações são dirigidas por intenções perversas.

 

Nesse ponto, o salmo apela às imprecações mágico-proféticas contra eles, descortinando uma ira guardada durante muito tempo, ou revelando uma prática retórica cultural, que, no entanto, teria a intenção de revelar aquele descontentamento popular.

 

No final, o salmo apresenta seu prognóstico. Se o direito não for realmente exercido, se o criminoso não for realmente punido, não há “fruto” nenhum para o justo. Mas o justo quer é a vingança, que ali se entende por “direito”. É apenas quando essa vingança acontece, e o justo banha os pés no sangue do criminoso, que, de fato, se pode falar em “justiça”. Caso contrário, já fora dito: é mentira.

 

Chama a atenção a absoluta inversão da ordem sintática no verso de abertura do salmo. O vocativo, irônico, “deuses”[1], faz-se seguir pela anteposição do predicado, “verdade”, para pôr aí toda a ênfase. A situação é a seguinte: esses “deuses” falam, e, quando falam, dizem falar a justiça. O salmo, a partir do discurso dos próprios “deuses”, manifesta-se criticamente: é verdade que o que vocês dizem, “deuses”, é mesmo justiça?

 

Chama atenção, ainda, que a expressão de suspeita, “é verdade?”, seja constituída pela fórmula hebraica do “amém”, que deveria, certamente, seguir-se a toda proclamação pública de autoridade. O conteúdo da fala desses “deuses” não logra encontrar, nesse ouvinte, nem passividade, nem submissão: além de não dizer “amém”, questiona a sua procedência ideológica.

 

No v. 2b, a expressão Bünê ´ädäm incorpora-se ao vocativo ´ëlim[2]: “deuses” e “filhos de homem” são expressões intercambiáveis, aqui, e referem-se a instâncias que não apenas assumem a prerrogativa de “falar” a justiça, mas de “julgar” retamente. Não se trata da epistemologia do direito, mas da legitimação pragmática da instância que exerce esse direito. O salmo, até aqui, a contesta. E o que é interessante: contesta-a, contudo, diante dela, se os vocativos instalam a fala contestatória “diante” da instância contestada.

 

A denúncia começa a tomar forma no v. 4b, quando o aposto “faladores de mentira” alinha-se, definindo-a a posteriori, à contestação inaugural: “justiça (é o que) falais (vós)? Dessa forma, esse aposto é a resposta retórica àquela pergunta retórica: não, não é “justiça” que eles falam – é “mentira” que eles falam.

 

Que os “deuses”, os “filhos de homem”, constituem um grupo social relacionado ao “rei” parece ainda mais claro quando suas ações são comparadas às das serpentes, principalmente no quesito “veneno”, e aos leõezinhos. Se essas referências forem acessadas pela metáfora ideológica do discurso demagógico da coroa, onde e quando o rei é identificado com o “pastor”, tanto elas se iluminam, quanto iluminam a própria referência metafórica. O pastor deve proteger as ovelhas das serpentes e dos leõezinhos. O salmo serve-se do oposto, isto é, do ataque das serpentes e dos leõezinhos, para denunciar que, em lugar de cuidar do rebanho, os “pastores” os estão devorando. Trata-se da mesma denúncia presente no Sl 53, onde se afirma que os “filhos de homem” devoram o “meu povo”, quanto em Ez 34, onde se diz exatamente isso – que devendo cuidar do rebanho, os pastores estão devorando as ovelhas.



[1] Contornei a incerteza da vocalização do texto hebraico, ´ëlem, recorrendo à vocalização da palavra “deuses” em Ex 15,11: ´ëlìm. A BHS deveria proceder à alteração vocálica no próprio texto.

[2] Corrigindo a vocalização com Ex 15,11.