Sl 11,1-7

 

Ao justo cabe confiar nos fundamentos da justiça

 

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1a Em Yahweh me refugio.

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1b Como dizeis: “foge para a montanha, pássaro”?

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2a Porque eis que os criminosos pisam o arco,

rt,y<+-l[; ~C'äxi Wnæn>AK

2b colocam as suas flechas na corda,

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2c para atirar, na treva, contra os retos de coração.

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3a Se os fundamentos forem derrubados,

`l['(P'-hm; qyDIªc;÷

3b o justo, o que (ele) faz?

Avªd>q' lk;Ûyhe«B.( hw"Ühy>

4a Yahweh está no seu santo templo,

Aaïs.Kiñ ~yIm:áV'B; éhw"hy>

4b Yahweh, nos céus está o trono dele.

Wz=x/y< wyn"ïy[e

4c Os olhos dele vêem,

`~d"(a' ynEåB. Wn©x]b.yI÷  wyP'î[;p.[;

4d e as pálpebras dele provam os filhos de homem.

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5a Yahweh o justo prova,

`Av*p.n: ha'în>f") sm'_x' bheäaow> [v'r"w>â

5b mas a vida dele odeia o criminoso e que ama a violência[1].

tyrIp.g"w>â vaeä ~yxiîP;ñ ~y[iªv'r>-l[; rjEïm.y:

6a Fará chover sobre os criminosos laços, fogo e enxofre,

`~s'(AK tn"åm. tApª['l.zI x:Wrïw>

6b e vento de tempestades será a porção da taça deles.

hw"hy>â qyDIäc;-yKi(

7a Porque justo é Yahweh,

bhe_a' tAqåd"c.

7b as justiças (ele) ama,

`AmynE)p' Wzðx/y< rv'ªy"÷

7c o reto (é o que) vêem as faces dele.

 

Comentário

 

O salmo é relativamente simples, mas, dada minha problemática específica, resulta ambíguo. Analiso-o a partir de uma pergunta metodológica: quem são os Bünê ´ädäm mencionados no v. 4d? Uma vez que persigo evidências na Bíblia Hebraica de que ´ädäm constitua, ou possa constituir, dependendo do contexto, referência ou ao rei, diretamente, ou ao conjunto de governo, interessa-me definir a situação relativa desse salmo em minha cesta de indícios. Mas o salmo não coopera.

 

Trata-se de um justo, numa determinada situação de perigo. É recomendado a ele que ele “fuja para a montanha” (v. 1b), o que ele se recusa a fazer, porque, como diz, confia em Yahweh. O salmista argumenta que os criminosos fazem o que costumam fazer: armar ciladas contra os retos de coração (v. 2). Mas, então, reflete que, se os fundamentos forem subvertidos, o que pode fazer o justo? Essa pergunta, retórica, é relativamente enigmática, mas o próprio salmista vai esclarecê-la.

 

Ele diz que, desde os céus, onde está seu templo e seu trono, Yahweh olha e vê, e prova os Bünê ´ädäm (v. 4d), acrescentando, praticamente como um aposto, que Yahweh prova o justo (v. 5a). Essas duas declarações são postas em seções adjacentes uma a outra, mas acabam tendo o resultado de serem relacionadas uma a outra. Antecipando o que se dirá do criminoso adiante, e trabalhando aqui com o seu oposto necessário, “provar” aí deve significar “aprovar”, isto é, a síntese declaratória de um relatório de investigação, segundo a qual Yahweh examina os Bünê ´ädäm, e os encontra justos.

 

Não é o caso, quando se trata de criminosos. Sobre esses, Yahweh faz chover laços, fogo e enxofre, e sua taça é cheia de tempestade, porque a vida de Yahweh odeia o criminoso, que ama a violência (v. 5b-6b). Ao contrário, Yahweh ama as justiças (plural)[2], já que é justo, e é para o reto que ele olha – isto é, é ao reto que ele dá atenção, é do reto que ele cuida.

 

A esse postulado deve corresponder a reflexão do v. 3. Segundo esse caminho, lá o salmista teria antecipado, de forma reflexiva, o resultado de sua argumentação. Os “fundamentos” são esses: Yahweh ama a justiça, e odeia os criminosos. Yahweh castiga os criminosos, mas cuida dos retos. Se esses fundamentos falham, que caberia ao justo fazer, se os criminosos o têm constantemente sob mira?

 

O salmista, considerando-se no conjunto dos “retos”, apenas confia, e sabe que apenas tem como caminho confiar.

 

Isso parece claro. O que não resulta clara é a identidade desses Bünê ´ädäm. É necessário contornar o salmo, e entrar nele por outras entradas, para tentar argumentar a favor da possibilidade de que seja uma referência ao “governo” da cidade – ´ädäm é o rei, e os Bünê ´ädäm são seus oficiais.

 

Uma primeira entrada lateral seria tratar não só essa referência, mas o próprio salmo, como um “caso” semelhante ao do Sl 53. Lá, igualmente, fala-se que Yahweh, desde o céu, debruça-se sobre os Bünê ´ädäm. Que lá eles sejam criminosos, diferente do que aqui se diz deles, é irrelevante. Relevante é, antes, o fato de que lá, indiscutivelmente, Bünê ´ädäm é uma referência ao “rei” (de Jerusalém [talvez até Ezequias]) e aos seus oficiais.

 

Uma outra entrada, derivada dessa, é o topos traditivo de Yahweh olhar, desde os céus, para eles, os Bünê ´ädäm. Talvez haja um anacronismo teológico-traditivo, quando se toma essa expressão como uma referência ao topos teológico dos olhos de Yahweh postos sobre “os homens”. É de se perguntar se essa teologia faz sentido no período pré-sacerdotal, isto é, pré-exílico, ignorante que era de qualquer teologia individualista.

 

Um outro caminho é possível. A ideologia da coroa faz do rei o pastor do povo. A legitimação tem seu preço: cabe ao rei o cuidado da população. Esta submete-se ao rei, tolera a ideologia, desde que o rei cumpra a sua parte. Dentro desse cenário histórico-traditivo plausível, que se depreende do Sl 53 e de Ez 34, por exemplo, faz sentido que Yahweh “prove” justamente essa instância social – o rei e seus oficiais. Não se trata de investigação moral ou teológica, mas funcional. Cabe ao rei a justiça – não, minto, as “justiças”, as pequenas coisas diárias, relacionadas à manutenção da vida do povo. De quando em quando, Yahweh faz vistoria nas instalações a serviço do seu próprio trono. O trono do rei é uma espécie de posto avançado operacional das justiças de Yahweh, que as executa através do pastor, o rei. Que, portanto, deve ser justo, e amar as justiças.

 

Através dessas duas portas laterais, a) a comparação do Sl 11 com o Sl 53, por exemplo, e b) a crítica do anacronismo da teologia sacerdotal-moral do indivíduo (que aliás leva a equívoco as interpretações do Sl 53 como possível de referir-se, inclusive, a “ateísmo” moderno), é plausível considerar que os Bünê ´ädäm a que o salmo se refere sejam os funcionários do rei. Nesse caso, o justo, aí, é o próprio rei. Recomenda-se a ele refugiar-se no palácio – “na montanha”. Mas o rei recusa. Ele considera-se aprovado por Yahweh. Não vê em si nenhuma razão para temer. E, se os fundamentos estiverem em vigor, Yahweh vai defendê-lo de qualquer armadilha.

        


Osvaldo Luiz Ribeiro

06/12/2006


[1] Literalmente, “mas o criminoso e o que ama a violência odeia a vida dele”. O verbo “odiar” está conjugado” na 3.p.s. feminino. É, portanto, “a vida dele”, sujeito, que odeia o criminoso e o que ama a violência, predicado.

[2] Cf. o plural “salvações” no Sl 53,7, que me parece ter o mesmo efeito pragmático. Não se trata do “valor” em si, mas das suas operações diárias, que se espera do poder constituído.