Verdade, Verdades e Leitura(s) da Bíblia

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Porque insisto incontornavelmente na leitura da Bíblia a partir do pressuposto metodológico da recuperação da “intenção” do(s) autores e/ou da(s) autoras de cada um dos seus textos, fui recentemente, ontem mesmo, classificado como “reducionista”. Quem assim mo classificou é um pregador...

 

Na verdade não consigo (mais) ler a Bíblia senão através de um esforço metodologicamente consciente de arqueologia semântica. Essa situação me impõe a utilização do método histórico-crítico, que uso sob uma perspectiva histórico-social. Diria que meu “sistema” de leitura é metodologicamente encabeçado por uma consciência hermenêutica de fundo – o ser humano é, antes de “ser” Homo sapiens, Homo hermeneuticus (“saber” é, na verdade, “construir”, e “construir”, interpretando, dando sentido, criando cosmovisão e autocompreensão). Sob essa consciência hermenêutica de fundo, instala-se uma consciência fenomenológico-religiosa, que se desdobra mesmo e até sobre os textos bíblicos, a partir da pressuposição de que, se “Deus é símbolo para Deus”, como disse Tillich, e com o que concordo, então o “Deus” (e os “deuses”) da Bíblia são todos do primeiro tipo. Finalmente, como camada de base, como chão de fábrica, e metodologicamente “dirigido” pelas consciências hermenêutica e fenomenológico-religiosa, opero com o instrumental da crítica histórica.

 

Em resumo, diria que me sirvo do método histórico-crítico por conta de uma consciência fenomenológico-religiosa, que se desdobra a partir de uma consciência hermenêutica. Para mim, hermenêutica não é alguma coisa que se faz, mas a própria expressão humana, instrumento bio-psicológico da consciência – operador da consciência, criador da cosmovisão e da autocompreensão humana.

 

 

Verdade e Leitura(s) da Bíblia

 

 

De que estou atrás, quando “leio” a Bíblia à luz desses pressupostos e dessa metodologia? Numa palavra: estou atrás do que teria “dito/querido dizer” o autor ou a autora, singulares ou plurais, dos textos que leio. Deixando de lado a complexidade do conceito de “texto” – para mim, deve ser feita uma diferenciação metodológica entre “texto” e “narrativa”, essa sendo o “conteúdo registrado”, aquele, a conjunto desse conteúdo, somado à intenção que o pervade, instalados, ambos, no contexto histórico-social original – deve-se assumir que, nesse caso, trata-se de “uma” verdade. Histórica. Humaníssima. A questão metafísica passa a quilômetros de distância – e será, sim, chamada às falas, isto é, caso o conteúdo registrado, a narrativa, venha a se servir dela. Mas aí já é a metafísica, também, grão de e da história...

 

Ler a Bíblia sob esses pressupostos, primeiro, não significa dizer que não haja outros. Há outros pressupostos, tanto quanto outros meios/métodos: “Diga-me o que queres fazer com a Bíblia e adivinharei o método que usarás!” O que eu quero da Bíblia é recuperar, no sentido arqueológico, histórico, próximo-psicológico, a “intenção” presente no ato de produzir e instrumentalizar conteúdos histórico-culturais, isto é, no “evento” que se traduz no conjunto formado pela crise entre autor/a(s) x ouvinte(s), mediada pelo “texto”. Quero saber por que determinado texto foi escrito – o que se queria fazer com ele, isto é, o que se queria que se fizesse, e tanto, que se chega a escrever esse “texto”. Vejo nos textos bíblicos não “narrativas”, mas vestígios de gente, e não só bocas, mas, acima de tudo, mãos, porque os textos bíblicos, em tese, não querem “dizer”, mas fazer com que se faça.

 

Se tomo tais textos como instrumentos histórico-sociais, não há outro caminho metodológico para lidar com eles que não o método histórico-crítico. A crítica histórica é, incontornavelmente, a única metodologia capaz de assegurar um mínimo de objetividade – não falo de “neutralidade” – na relação autor – texto – ouvinte/destinatário. Que houve e haverá releituras, claro! Que houve e há tradição formada sobre as camadas de letras, claro! Mas – e daí? Se o que me interessa não são as releituras, nem as tradições incrustadas nos textos mercê da história dos seus efeitos, mas aquele momento genético-semântico, aquele gesto de criatividade político-religiosa, aquele ato de intervenção social – e todos quantos tenham contribuído para a forma final do texto, cada uma e todas as “redações”, todas elas, mas, acima de tudo, cada uma – então não me resta outra alternativa que não a crítica histórica.

 

Para quem deseja admirar as estruturas de sustentação do sentido do texto, eis aí os métodos estruturalistas, porta-vozes da morte do “autor”. Sirvo-me de elementos do estruturalismo, da semiótica, para compreender a narrativa da melhor maneira possível, para, dela, saltar para o “texto” – mas o que me interessa não é a narrativa, mas o “texto”: não é “Noé”, é por que Noé...

 

Para quem deseja fundamentar tradições, boas que sejam, eis aí os métodos baseados na intentio lectoris. Para quem não se sente bem usando crítica histórica na Bíblia, tudo bem, eis aí o método histórico-gramatical, que mercê, ou apesar de, todas as forças que faça, e malgrado o termo “histórico” que carrega, culminará sempre no mesmo porto de onde partiram as naus histórico-gramaticais, porque é uma proposição doutrinária “fundamental”, singular ou plural, que sopra nas velas...

 

Não digo que aquilo seja ruim, e que isso, pior ainda. Absolutamente. Se é o que se quer, é o que se usa. No meu caso, não quero nem uma coisa, nem outra, mas a simplicidade complexa de entender o “texto” rigorosamente no contexto em que foi gerado. Reducionismo? Acho que não: foco.

 

 

Verdade e Verdades versus Leitura(s) da Bíblia

 

 

Fui chamado de “reducionista” justamente por isso, porque minha aproximação à Bíblia é metodologicamente fechada. Será justa a classificação?

 

Reconheço – minha leitura da Bíblia não é homilética. Não me fiz pregador, mas exegeta. Não me motiva a pregação, mas a interpretação. Para quê? Sempre me perguntam isso, e eu sempre respondo: prazer. Gosto disso, é isso que faço.

 

Diria que a leitura exegética, técnica, crítica, da Bíblia prescinde das preocupações pastorais. Não sei se as preocupações pastorais, a partir de seu próprio discurso fundante, prescindiriam, como na prática prescindem, da leitura exegética e crítica da Bíblia. Diria que um exegeta não precisa ser pastor, mas que um pastor deve ser, por força da profissão, exegeta. Não?

 

Ah, sim, as preocupações pastorais vão além do sentido que um versículo de Levítico pode ter querido sustentar há 2.600 anos. Tenho lá minhas dúvidas a respeito da tese, mas, vamos lá, digamos que sim. É lícito, então, fazer o texto dizer coisa que o autor não disse? Digamos, ser “criativo”? Metafórico? Alegórico? Talvez se afirme que sim, e restaria, então, explicitar o “método”, e perguntar, então, onde está, afinal, a “verdade” dessa pregação...

 

Explico. Se a preocupação “pastoral” é, por ora, própria da de um cura d’almas, então poderia dizer que, quando a pregação se apropria “criativamente” de um texto, acriticamente, está transfigurando esse texto. E a transfiguração vai receber a forma de uma “verdade” pastoral que está, a rigor, presente na filosofia de aconselhamento, na índole ministerial do pastor. O texto foi a reboque, o texto fez-se de suporte para uma “verdade” que não está na intenção histórica da peça, está, sim, contida na polissemia da narrativa, mas reside, de fato, na intenção do pregador. É essa intenção do pregador, sua verdade homilética e pastoral, que se faz projetar da estrutura polissêmica do texto, às vezes de forma harmônica, às vezes chegando a constranger os espíritos mais sutis. Ei-lo, pois, pregador de sua(s) verdade(s)! Se o assume publicamente, que mal há nisso? No fundo, no fundo, não se trata, sempre, disso? A questão é: assume-se?

 

Explico ainda: se a preocupação pastoral é, agora, “doutrinária”, e, submetido o pregador a essa preocupação de fundo, a sua pregação serve-se de um e de outro textos, junta-os, bate-os na coqueteleira semântica do verbo e da oratória, e faz derivar deles a doutrina mais jovem, mais conciliar, digam-me, de que verdade se trata? Da do texto, digo, da do autor desse texto? Não, naturalmente, mas da do Concílio. É a “verdade” doutrinária – ironicamente, também histórica, mas ideologicamente assumida como metafísica – que preside o texto, o faz curvar-se, para o bem ou para o mal, quem sabe? Seria errado submeter um texto de 2.600 anos de idade a um sentido arbitrado para ele quase 1.000 anos depois? Se sim, ótimo, felizes sejam aqueles que assim usam a Bíblia, e festejadas sejam todas as criatividades, inclusive as heréticas, posto que todas, afinal, o que são, senão isso?

 

Eu, de minha parte, não quero nem a verdade da pregação, nem a verdade da doutrina: quando leio a Bíblia, quero a verdade do texto da Bíblia, aquela, gerada por um ato voluntarioso, histórico-social, determinado, circunstanciado, preciso. Aquela, e não outra, ainda que outras haja, e tantas quantas as vontades de que haja. Aquela, e não outra, ainda que justamente aquele, por força de sua essência histórica, jamais venha a mostrar inconfundivelmente a sua cara. Quisesse eu uma cara inconfundível, gostasse eu de outra coisa... Quem sabe, tornasse-me eu pregador profissional?

 

Vê-se, pois, que não se trata de “reducionismo”. Trata-se de perspectiva, de foco, de objetividade. O que quero, sei o que é; sei onde está; sei o que é necessário para enfrentar o risco de pretender chegar lá; sei que nunca será possível saber se foi possível se chegar lá, mas isso são ossos do ofício, e não se trata de ofício de pregador...

 

Interessante é pensar que, se essa metodologia não serve para a pregação, então a Bíblia deve mesmo ser manipulada a torto e a direito, porque a pregação vale mais do que a Bíblia... Se deliro aqui – e essas linhas gotejam de ironia – a pregação deveria, então, repensar seus pressupostos...

 

 

Verdades e Leitura(s) da Bíblia

 

 

O discurso que acabo de desenvolver expõe a crise da metafísica que a minha experiência assume. Ela não é nova. Nasceu com Kant, até onde sei, pirilampiou entre iluministas e românticos, foi cuidada por Nietzsche, amadurecida por Heidegger, e eis aí essa névoa de pós-modernismo entre sufocante, para uns, e libertadora, para outros... Particularmente não me apetece a sanha iluminista, ao passo que me encanta o romantismo – daí meu coração, por ora, fenomenológico-religioso: sagrado, sim, doutrina, como?

 

A pergunta pela “verdade” da Bíblia é uma pergunta metafísica. Subsiste? Subsistirá? A pregação deverá mantê-la viva, porque, afinal, em dias capitalistas, a demanda determina a oferta? É natural, mas se a exegese não tem postos de venda nos púlpitos, talvez lhe apeteça pensar na possibilidade de, afinal, pensar uma leitura bíblica histórica, não (mais) metafísica. A preocupação pastoral saberá adaptar-se – adaptou-se à metafísica, à doutrina, como que às ovelhas; saberá fazer o mesmo quanto ao “abismo”, ao “silêncio”...

 

Curioso é perceber que ali do lado, em Roma, um documento oficial da Igreja, assinado por Sua Santidade, aprontado pela “nata” da exegese do Pontifício Instituto Bíblico, acompanhado pela Pontifícia Comissão Bíblica, sim, ali, na basílica maior do mundo, se esteja a dizer duas coisas: primeiro, que a Bíblia deve ser lida através do método histórico-crítico (coitado do Nicodemus!), e, segundo, que a teologia deve ser conseqüente com a exegese histórico-crítica (para alegria do Hans Küng). Quanto é um mais um? Depende, claro, de quem faz a conta. Se o documento foi escrito para ser usado, um mais um é dois, e não dou 50 anos para que uma “nova era” exegético-teológica, logo, bíblica, se inaugure – quem sabe, afinal, o “livre-exame”!

 

Talvez tudo não passe de fogo de palha, ou utopia de biblistas, distração de sistemáticos, jogos, política. Mas a direção para a qual aponta o dedo de Pedro é para a direção das “verdades” bíblicas, posto que o método histórico-crítico não é capaz de lidar com “a verdade” bíblica, nem conhece algo como tal. Daí que, se é séria a decisão, uma parte significativa do Cristianismo deverá aprender a ler a Bíblia de outra forma, como livro, afinal.

 

Como serão os púlpitos, então? Reducionistas? Duvido. Não serão, decerto, tal qual são. Uma nova homilética deverá surgir, eu penso, e uma nova homilética não por simples mudança de forma, mas até, e principalmente, de conteúdo.

 

Tomara que esteja eu vivendo fora de meu tempo, e que esse dia chegue quando e se vier a chegar. Enquanto não chega, deixa-me ler a Bíblia, em paz, e com o prazer que ela me dá, que, melhor do que ela, só o colo da Bel...