Verdade e Pesquisa em Teologia

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Há uma relação muito íntima entre verdade e pesquisa em teologia. Se falamos de verdade como de fatos estabelecidos pela compreensão humana do mundo e da vida; se falamos de pesquisa como dos meios através dos quais o homem alcança a sua compreensão acerca do mundo e da vida e, finalmente, se falamos de teologia como de certa compreensão que tem o homem do mundo e da vida, não precisaremos falar muito mais do que já o dissemos. A não ser que,  no que nos diz respeito, falamos de verdade e pesquisa em teologia acadêmica. Há, decerto, outras esferas estruturais em que se pode falar de verdade e de teologia, mas elegemos a esfera estrutural acadêmica. É nosso chão de todos os dias.

 

Pois bem, já que nosso escopo é a teologia acadêmica, devemos assinalar que falamos, conseqüentemente, de verdades religiosas. E o que primeiramente queremos dizer acerca das verdades religiosas é que tais verdades consistem, antes de qualquer coisa, no produto de uma hermenêutica, ou, simplificando os termos, no resultado de uma compreensão interpretativa dos fenômenos religiosos. Mesmo aquelas verdades religiosas aparentemente mais fundamentais e consideradas absolutas por certo número de pessoas, mesmo essas e todas as demais verdades religiosas caracterizam-se por consistirem em produtos da elaboração humana.

 

As verdades religiosas chegam até nós através de discursos teológicos. Podemos falar dos discursos teológicos como de discursos sobre Deus, discursos sobre o sagrado, discursos religiosos, mas estaremos, sempre, falando, academicamente, da mesma coisa: de discursos que apresentam verdades religiosas relativas, provisórias e condicionadas. De modo que, aquelas verdades que, para uns, representam verdades absolutas, para outros, principalmente para os acadêmicos, representam formulações hermenêuticas muito especiais, caracterizadas pela relatividade, pela provisoriedade e pela condicionalidade.

 

Ora, mas e quanto ao sagrado? Não tocamos, no sagrado, com coisas absolutas? Não nos aproximamos do próprio absoluto quando nos aproximamos do sagrado? E por que, então, falar de relatividade, provisoriedade e condicionalidade quando falamos das verdades religiosas, que são, a seu modo, verdades também sobre o sagrado? Eis, aqui, diante de nós, o insuperável paradoxo do sagrado. O paradoxo do sagrado consiste na seguinte constatação fenomenológica: o sagrado manifesta-se no mundo e na vida. À manifestação do sagrado no mundo e na vida, vamos chamá-la de hierofania. O que se revela numa hierofania é a presença de uma realidade completamente diferente da realidade das coisas ditas naturais, diferente por caracterizar-se pela absolutidade, pela força, pela inesgotabilidade, pela completude. Assim é o sagrado: absoluto, forte, inesgotável, completo. Até aqui, nenhum paradoxo. Até aqui, nada com que se necessite de restruturação interior para se compreender do que se fala. O paradoxo está quando o sagrado é apreendido por qualquer indivíduo que presencie uma dada hierofania. Como haverá esse pobre homem de expressar o absoluto, ele que é culturalmente, historicamente, religiosamente, politicamente determinado? Como esse pobre homem, representante de todos nós, traduzirá sua experiência e suas percepções do sagrado? Eis como o fará: nosso pobre e assustado homem traduzirá o sagrado, paradoxalmente, agora sim, mediante elementos disponíveis em sua cultura, em sua história, em sua religião, em sua política. Essa tradução resultará numa verdade religiosa que, como já assinalamos, será necessariamente relativa, provisória e condicionada. E, para nosso espanto, eis que o sagrado, caindo na compreensão ávida de todos nós, perde sua sacralidade absoluta, converte-se numa verdade religiosa nossa, relativa, provisória e condicionada. Quando aquele pobre homem, entre perplexo e emocionado, relatar suas percepções aos seus contemporâneos, já não estará falando do absoluto em si, mas de sua tradução, de sua interpretação, de sua hermenêutica. Mas não devemos nos preocupar com isso além da preocupação natural e sadia que todo fenômeno sugere a nosso espírito acadêmico. O sagrado é e será, sempre, absoluto. A absolutidade do sagrado está inquestionada nessa nossa aproximação da questão da verdade e da pesquisa em teologia. O que se questiona, e se tenta fundamentar, é a propensão que tem o homem de tornar tão absoluto quanto o sagrado as suas interpretações e percepções hermenêuticas acerca do sagrado. Não podemos concordar com essa equiparação: uma coisa é o sagrado em si - outra coisa, infinitamente e qualitativamente diferente é a idéia que fazemos dele.

 

Podemos ilustrar essa manifestação e esse ocultamento do sagrado com dois textos bíblicos. Primeiramente, para ilustrar a manifestação absoluta do sagrado, acompanhemos Sl 139,7-14:

 

7 Para onde ir, longe do teu sopro?

Para onde fugir, longe da tua presença?

8 Se subo aos céus, tu lá estás;

se me deito no Xeol, aí te encontro.

9 Se tomo as asas da alvorada

para habitar nos limites do mar,

10 mesmo lá é tua mão que me conduz,

e tua mão direita me sustenta.

11 Se eu dissesse: “‘Ao menos a treva me cubra,

e a noite seja um cinto ao meu redor’” -

12 mesmo a treva não é treva para ti,

tanto a noite como o dia iluminam.

13 Sim! Pois tu formaste os meus rins,

tu me teceste no seio materno.

14 Eu te celebro por tanto prodígio,

e me maravilho com as tuas maravilhas!

 

Fica ilustrada, assim, a manifestação incontrolável e absoluta do sagrado, a sua livre manifestação em que pese mesmo as tentativas dos homens de tomarem “as asas da alvorada”.

O sagrado manifesta-se de modo incontrolável, alheio às determinações e expectativas humanas. A história das religiões, a fenomenologia das religiões, a psicologia das religiões, a sociologia das religiões e a filosofia das religiões têm, cada uma a seu modo, constatado que o fenômeno da manifestação do sagrado é universal e que o sagrado está aí, absoluto. Não cabe ao homem estabelecer limites, condicionalidades, imposições. É o sagrado quem se dá à percepção humana, quando e como quer. Mas, por outro lado, apesar de toda essa escancarada disponibilidade do sagrado, essa fecundíssima manifestação divina universal, quando o homem tenta controlá-lo, quando o homem tenta defini-lo, quando o homem tenta apreendê-lo e decodificá-lo, quando o homem desconsidera a absolutidade do sagrado e a sua relatividade humana, então o exemplo bíblico de que podemos dispor é outro. Acompanhemos Jó 23,3-9:

 

3  Oxalá soubesse como encontrá-lo,

como chegar à sua morada.

4 Exporia diante dele a minha causa,

com minha boca cheia de argumentos.

5 Gostaria de saber com que palavras iria responder-me

e ouvir o que teria para me dizer.

6 Usaria ele de violência ao pleitear comigo?

Não, bastaria que me desse atenção.

7  Ele reconheceria em seu adversário um homem reto,

e eu faria triunfar a minha causa para sempre.

8 Mas, se for ao oriente, não está ali;

ao ocidente, não o encontro.

9 Se o procuro ao norte, não o vejo,

se me volto para o sul, não o descubro.

 

Por favor, quero crer que compreendem a licença exegética a que aqui nos permitimos. O que queremos ilustrar é que o sagrado está disponível, mas não pode ser disponibilizado. E é por isso que podemos ler, no mesmo credo, ora que Yahveh está em toda parte, ora que Shadai não está onde se pode alcançá-lo. O que concluímos é que o sagrado está no mundo e na vida, mas não está no discurso, ou, dito de modo mais acadêmico, dentro do discurso religioso, não está inserido o absoluto. No discurso religioso, que é discurso humano, demasiadamente humano, o que há é relatividade, provisoriedade e condicionalidade, ainda que se refira ao sagrado.

 

Não é difícil verificarmos essa proposição de que dentro do discurso teológico não haja absolutos. Ora, a verdade teológica é, antes de mais nada, percepções teológicas feitas em conhecimentos teológicos, hermenêuticas culturais tornadas fatos que, ornadas pelo espectro da verdade religiosa, beiram ao dogma ou, mesmo, chegam a ele. Mas vejam que dissemos conhecimento e, se os fundamentos da metodologia da pesquisa estão certos, conhecimento é fenômeno histórico. O conhecimento, de modo geral, seja o filosófico, seja o científico, seja o teológico, já nos ensinara o Prof. Darci Dusilek, está sujeito às determinações históricas.

 

Pois bem, dada a interferência histórica, o conhecimento teológico é, primeiramente, provisório. O mesmo Prof. Dusilek já o dissera: o conhecimento histórico é provisório porque é inacabado, está, sempre e constantemente em construção. Uma ilustração razoável para essa provisoriedade do conhecimento teológico pode ser fornecida pela pesquisa de Mircea Eliade. Analisando as estruturas com que a humanidade tem se expressado com relação ao sagrado, Eliade chega a afirmar que tais estruturas são emprestadas aos fenômenos de que o sagrado se serve para manifestar-se. Daí que uma das primeiras caracterizações da divindade de muitos povos seja a celeste, porque o céu sempre foi um veículo muito fecundo para a hierofania. No entanto, as modalidades que o céu empresta ao sagrado enquanto tradução humana são muito estáveis e distantes. Daí que a humanidade logo aprendeu a perceber o sagrado através de elementos mais dinâmicos e próximos, como o raio, por exemplo. Quem dentre nós não se recorda do salmista, comparando a voz de Yahveh ao raio?

 

7 A voz de Yahveh lança chispas de fogo,

8 a voz de Yahveh sacode o deserto,

Yahveh sacode o deserto de Cades!

9 A voz de Yahveh retorce os carvalho,

descascando as florestas.

E no seu Templo tudo grita: Glória!

(Sl 29,7-9)

 

Essa queda do sagrado em estruturas cada vez mais dinâmicas e próximas da realidade dos homens consiste num fenômeno histórico. A sua influência sobre as concepções acerca do sagrado é um fato de domínio acadêmico. Portanto, as verdades religiosas, pelo menos no que diz respeito às discussões que aqui empreendemos, devem ser caracterizadas pela sua provisoriedade, por um estar a caminho. O sagrado, sim, é absoluto, completo, acabado. Mas as nossas representações hermenêuticas, sem as quais não teríamos como!, essas são sempre provisórias... e relativas.

 

Dizer que uma verdade teológica seja relativa é acentuar o fato de que as verdades teológicas, além de históricas, consistem em verdades hermenêuticas. Trata-se de uma hermenêutica que envolve o concurso de todas as faculdades do homem. Eliade dirá que se trata do concurso “da consciência total, ou seja, do homem que se descobre como tal, do homem que toma consciência de sua posição no universo” (Tratado de História das Religiões. p.66). Entretanto, essa sua posição no mundo, é uma posição inserida numa cultura específica. Daí, que sua hermenêutica será bastante complexa: na sua tradução do sagrado, estarão envolvidas forças tão díspares quanto a sua consciência, as suas determinações culturais e sua própria religião. Não estamos distantes de acabar por concluir que a teologia babilônica, por exemplo, consista numa elaboração teológica acerca do sagrado determinada tanto pela religião e pelas consciências caldaicas quanto pelas forças histórico-culturais de sua época. Nesse sentido, no que diz respeito às estruturas e modos com que sua teologia se constituiu, não há diferença alguma se comparada à teologia judaica: no caso dos judeus, dá-se o mesmo concurso da religião e das consciências, determinadas pelas pressões histórico-culturais. Isso dizemo-lo de todas as teologias, sejam orientais, sejam ocidentais, sejam cristãs, sejam não-cristãs. Sim, mesmo a teologia cristã é, ao fim e ao cabo, o resultado relativo do concurso da religião cristã, da consciência cristã e das interações histórico-culturais que a determinaram. Trata-se do mesmo caso: são todos discursos sobre o sagrado ‘baseados’ na cultura em que se dera a hierofania e em que a sua tradução original é propagada. Por isso a verdade religiosa, além de provisória, é, também, relativa, isto é, relativa à determinada cultura que a condiciona. Portanto, temos fechado o ciclo: a verdade religiosa é provisória, relativa e condicionada.

 

É extraordinária a força com que a cultura determina o discurso teológico. Quando falamos ‘cultura’, é bom compreendermos esse termo de modo o mais amplo possível: nosso uso do termo fá-lo compreender a sociedade, as artes, a religião, a política, a filosofia, a ética, enfim, todas as esferas das relações humanas no mundo. E um fato estabelecido desde há muito pelos acadêmicos é o fato de que o pensamento e, conseqüentemente, o discurso religioso, como de resto todo discurso e todo pensamento, serem condicionados pela cultura. A verdade religiosa é uma verdade condicionada. Queremos ilustrar essa proposição com um exemplo de como a cultura judaica não somente alterou a herança hebraica, como, também, coibiu criações tão antigas quanto o culto não-sacerdotal e não-estatal. É sabido que a monarquia judaica acabou com a livre expressão de culto, estatizando-o em Jerusalém e no Templo. A famosa oração de Salomão ilustra perfeitamente bem isso que dizemos, ainda que, conforme esteja atualmente, aparente mais uma concessão do que uma coibição, do que realmente se trata. A sua oração consiste em rogar os favores de Yahveh ao povo, quando orasse no Templo. A ênfase não é tanto na oração, quanto no lugar em que deverá ser proferida, como condição para a bênção: "...quando orarem neste lugar... e o mandar jurar ante teu altar neste Templo... suplicar a Ti neste Templo... rezarem neste lugar... erguer as mãos para este Templo... orar neste Templo...”. Em si, assim, isoladamente, não há que se estranhar do fato de que o rei invoque as bênçãos do Deus nacional para o povo que se digne e humilhe a buscá-lo no “Templo que edifiquei”, no “Templo que construí”, no “Templo que construí para o teu Nome” (2 Re 8,30ss). Mas acontece que Salomão está coibindo, com isso, uma prática antiquíssima e mesmo prescrita na Lei, a de que cada judeu podia erguer seu altar em adoração a Yahveh. Eis como Êxodo prescreve aquela prática:

 

22 Yahveh disse a Moisés: “‘Assim dirás aos filhos de Israel... 24 Far-me-ás um altar de terra, e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos e os teus sacrifícios de comunhão, as tuas ovelhas e os teus bois. Em todo lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome virei a ti e te abençoarei. 25 Se me edificares um altar de pedra não o farás de pedras lavradas, porque se levantares sobre ele o cinzel, profaná-lo-ás. 26 Nem subirás o degrau do meu altar, para que não se descubra a tua nudez.

 

Ora, essa prescrição cultual não quer, justamente, recordar a memória, por exemplo, dos patriarcas, os quais, onde quer que iam, erguiam seu altar a Yahveh, fosse sobre uma colina, fosse sob um carvalho, fosse na cidade, fosse no campo, fosse no deserto? Não foi assim que fez Jacó quando despertou do sonho que tivera. Estando perplexo da presença de Yahveh e tendo tomado consciência daquele terrível lugar, que faz?

 

16 Jacó acordou de seu sonho e disse: “Na verdade Yahveh está neste lugar e eu não o sabia!” 17 Teve medo e disse: “Este lugar é terrível! Não é nada menos que uma casa de Deus e a porta do céu!” 18 Levantando-se de madrugada, tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, ergueu-a como uma estela e derramou óleo sobre o seu topo.

 

Não está aberta aqui ocasião para determinarmos quais as causas histórico-culturais dessa inversão de valores e dessa coibição da liberdade religiosa. Mas basta que ilustremos nossa proposição de que a verdade religiosa consiste numa verdade condicionada e estaremos satisfeitos, por enquanto. Ora, a verdade religiosa, no caso de Salomão, é a de que, doravante, Yahveh estará disponível ‘neste lugar’, ‘neste Templo’, ‘neste Templo que construí’. Parece-nos bastante óbvio tratar-se de uma radical mudança na verdade religiosa, explicitamente condicionada pela história, pela cultura e pela política contemporâneas.

 

(...)

 

Muito bem. Acabamos de nos deparar com um paradoxo: o sagrado dá-se à percepção humana como absoluto, mas ao homem não se permite apreendê-lo senão por formulações hermenêuticas provisórias, relativas e histórico-culturalmente condicionadas. Isso quer dizer que a cada hierofania corresponde uma tradução própria daquele momento. Cada discurso teológico corresponde a uma dada interpretação da percepção humana do sagrado. E nisso consiste o acervo incalculável dos mitos e crenças da humanidade. Cada mito, cada crença, cada dogma, cada verdade religiosa é, a seu tempo e modo, uma tentativa de traduzir-se aquela hierofania. E aqui enfatizamos a primeira parte de nossa aula inaugural: as verdades religiosas em teologia são verdades hermenêuticas provisórias, relativas e condicionadas que representam interpretações acerca do sagrado e dos fenômenos religiosos. Pois o que queremos dizer, agora, como segunda parte dessa aula, é que a pesquisa é a porta de acesso à leitura dessas verdades religiosas. Será a pesquisa que nos proporcionará contato com outros indivíduos que traduzem diferentemente de nós a sua percepção do sagrado, justamente porque o percebem diferentemente de nós, porque participam de condicionamentos diferentes dos nossos. Será a pesquisa que nos colocará em contato com culturas diferentes das nossas e que, por isso mesmo, enfrentam de modo diverso a inefabilidade do sagrado. Será a pesquisa que enriquecerá a nossa verdade religiosa. Que será sempre verdade provisória, relativa e condicionada, mas será, pela pesquisa, mais rica, porque mais completa, mais humana, mais fraterna.

 

Um ponto fundamental a favor da pesquisa com método de aproximação às verdades religiosas é o de que a pesquisa nos permitirá alcançar a gênese do discurso religioso, de modo que possamos verificar quais as forças culturais que propiciaram, ou determinaram aquela tradução e não outra. Além disso, permitirá que possamos discernir quando estamos em contato direto com uma tradução original, ou com tradução de traduções. Sim, porque a cultura é um fenômeno muito instável. Os homens reinterpretam constantemente suas heranças, mesmo as religiosas, e uma hierofania, apreendida num discurso, presta-se a sucessivas retraduções. É importante que possamos e saibamos discernir quando estamos em contato direto com verdades teológicas de primeira mão e quando estamos lidando com traduções de segunda, terceira ou ‘n’ mãos. É o caso, por exemplo, da pesquisa de Joaquim Jeremias, e outros, acerca do Jesus histórico. Não vem aqui ao caso a viabilidade de tal empreendimento, mas o que se pretende com isso é determinar-se o que de fato foi proferido por Jesus, o que é elaboração dos discípulos, o que é elaboração da igreja primitiva e o que é elaboração dos pais. Parece-nos importante essa questão.

 

Um segundo ponto fundamental que nos parece valorizar a pesquisa como método de aproximação às verdades religiosas é a de que a pesquisa nos permite discernir as adaptações, as supressões e os acréscimos que as traduções originais do sagrado sofreram durante o desenvolvimento histórico de determinada tradução. No que diz respeito ao cristinanismo, por exemplo, parece que não nos importamos muito com essa questão, mesmo quando nos damos conta de que verdades teológicas caras a nós foram decididas institucionalmente em ocasiões e circunstâncias no mínimo esquisitas. Aliás, fossem essas ocasiões e essas circunstâncias particulares a qualquer outra tradição, nos causariam espécie... mas essa é outra questão, ainda que fundamentalíssima. Uma questão que vem ao caso, aqui, consiste na leitura que faz Normam K. Gottwald da criação do Estado de Israel. Uma das conseqüências de sua pesquisa é a constatação de que a verdade religiosa do Êxodo foi radicalmente modificada em pelo menos três momentos: em Canaã, na Monarquia e no Exílio. Segundo Gottwald, são modificações de sentido tão radicalmente profundas que fica a questão de como devemos, nós, realmente encará-lo, hoje. Sugiro que se leia “As Tribos de Yahveh”.

 

Consideramos, assim, fundamental a pesquisa no que diz respeito à aproximação às verdades religiosas. Na prática, temos a nossa disposição os livros que nos permitem aproximarmo-nos das tantas tradições que se propõem a apreender o sagrado num discurso. Podemos valermo-nos deles, sempre muito criticamente, a fim de enriquecermos nossa teologia, ainda que seja por via da compreensão que teremos dos processos que caracterizam toda formulação teológica, ainda que mais não seja pela apropriação de elementos úteis ao aprofundamento da questão do sagrado.

 

Não há como empreender-se pesquisa sem, pelo menos, três elementos indispensáveis: abertura, coragem e rigor. De abertura aprendemos com o Prof. Dusilek. Há que se empreender pesquisa com a disposição prévia de considerar como fato fundamental a provisoriedade de nossas verdades teológicas. O que está sendo proposto não é algo como um passeio ao zôo: que vejamos uns bichos esquisitos, uma aves de outros continentes, umas criaturas do frio e outras do deserto, para, depois, voltarmos para casa com um rolo de filmes pronto. Isso pode ser feito e se pode até chamar isso de pesquisa. Mas não se trata da pesquisa de que se fala aqui. A pesquisa de que aqui se fala propõe a disposição prévia de enriquecimento de nossas verdades religiosas pelo contato sadio com os processos estruturais que as configuraram, bem como com a riqueza disponível no mundo a partir das incontáveis traduções do sagrado. A questão será sempre a verdade, em tese. Temos verdades religiosas provisórias, relativas e condicionadas, não postulamos que haja ou não outras de outra forma, mas postulamos contato com as outras verdades religiosas para o crescimento, para a fraternidade e para a paz. Um ambiente acadêmico não pode prescindir disso.

 

Mas para que haja abertura nos termos em que o Prof. Dusilek a define, há de haver coragem da parte do pesquisador, do estudante de teologia, em nosso caso. A pesquisa que propomos como método de aproximação às verdades religiosas difere de um passeio ao zôo, mas pode ser comparada a um safari. Tratar-se-á de um ambiente desconhecido, muitas vezes inóspito, povoado de feras e monstros selvagens, vorazes uns, peçonhentos outros - pelo menos essa é a visão que se tem do desconhecido. Não era assim que pensavam alguns europeus a respeito do além-Atlântico? Que o horizonte escondia serpentes gigantes e dragões terríveis?! Em todos os casos, seja nossa expectativa a de encontrarmos monstros ou, apenas, animais exóticos, havemos de nos munir de coragem. Mesmo porque vamos para um novo continente em busca de enriquecimento, quereremos trazer coisas de lá, mesmo deixar coisas velhas para trazermos coisas novas, e isso de deixar coisas e trazer coisas, ainda mais em se tratando de verdades teológicas, é coisa que está a exigir muita, muita coragem.

 

E, acima de tudo, tanto quanto a pesquisa demanda abertura e coragem, ei-la a gritar por rigor. Não vale uma pesquisa encomendada, não vale uma viagem à África para tirar fotos de animais com o fim de promover uma campanha do tipo “os nossos bichos são mais bonitos”. Não está em jogo, aqui, quais bichos são ou não mais bonitos. Em se tratando de verdades teológicas, as nossas nos são agradáveis, as deles o são a eles. Trata-se, na pesquisa, de descobrirmos por que outros meios outros homens traduzem a sua percepção do sagrado e, com ela, as suas formas de vida religiosa e de expressão da sua religiosidade interior. O rigor, aqui, consiste em sermos verazes, sinceros, honestos. O rigor, aqui, consiste em abrirmos bem os olhos, a não agirmos como, na opinião do ex-ministro Ricúpero, se age nas esferas do poder, “mostrando o que é bom, escondendo o que é ruim”. Interessa-nos, igualmente, aquele que nos aponte tanto nossas virtudes quanto nossos defeitos. E, talvez, nessa viagem a que comparamos a pesquisa, interesse-nos mais aqueles que apontem nosso erros, afinal, já nos dissera o Prof. Dusilek: “Pessoa alguma pode prestar-nos maior serviço do que aquela que nos mostra o que é errôneo em nossa forma de pensar ou de agir” (A Arte da Investigação Criadora. p. 23).

 

(...)

 

Para terminar, queremos apontar três posturas que se confrontam à postura daquele que empreende a pesquisa acerca das verdades teológicas munido da suficiente dose de abertura, coragem e rigor.

 

1º  Abandonar a pesquisa teológica, acomodando-se a uma tradução específica do sagrado. No que diz respeito à vida acadêmica, que é do que estamos falando desde o início, sem considerarmos os possíveis comportamentos conseqüentes de uma tal postura, trata-se da forma mais branda de estagnação no que diz respeito às verdades teológicas. No entanto, traz sobre si a característica de coibir as manifestações do sagrado. Vejamos porque: ora, a pesquisa é o campo das atividades acadêmicas em que é possível observar-se toda a gama variadíssima de manifestações do sagrado. Acabamos de ver que, no que diz respeito a um indivíduo e à sua cultura, as formas com que a percepção do sagrado são viáveis são ditadas pela própria cultura. Uma tradução específica do sagrado é uma forma cultural de vivência religiosa. Ora, se abandonamos a busca pelas demais formas possíveis de manifestação do sagrado, restringindo-nos a admitir tão-somente aquela forma com que nos acostumamos por conta de nossa personalidade e cultura, coibimos, a priori, todas as demais possibilidades, isso quando não as taxamos de demoníacas... Nesse caso, a pesquisa transforma-se num campo que se pode comparar ao campo das hierofanias. Se me permitem dizer, dentro dos limites devidos a uma tal ousadia, diria que a pesquisa é um solo profundo para hierofanias, principalmente quando na pesquisa está não apenas a mente do pesquisador, mas sua alma, coração e vida! Abandonar a pesquisa, portanto, redunda na restrição às manifestações do sagrado.

 

2º Restringir o campo da pesquisa teológica ao universo particular da tradição do pesquisador.  Fazer isso, ou seja, efetuar pesquisa apenas no âmbito da tradição a que se está vinculado, em vista do que temos dito, seria como, numa viagem, fazer uma escala de cinco minutos no aeroporto Santos Dumont e, de volta ao lar, contar aos patrícios como é lindo o Rio... Essa, na verdade, é uma atitude que tem por característica fundamental a cisão do seu objeto de interesse. Ora, acabamos de ver que a nossa tradução do sagrado não o esgota, nem no que diz respeito às incontáveis traduções possíveis, muito menos no que diz respeito ao próprio sagrado. Se estabeleço como escopo de pesquisa a minha tradução do sagrado, não deve inferir do resultado dessa minha pesquisa que apresente alguma coisa acerca do sagrado. Absolutamente. Ao fim e ao cabo, terei um discurso dito pesquisa a respeito da minha idéia de Deus, ainda que essa idéia seja de minha cultura ou minha religião. É, em última análise, uma eleição prévia dos valores da cultura e dos valores pessoais. Tal pesquisa poderá ser útil para determinar os pontos em que se caiu em erro de formulação por esta ou aquela razão, no caso de tratar-se de uma pesquisa honesta e sincera, bem intencionada. Mas que haverá de acrescentar acerca do sagrado? Coisa alguma que já não esteja lá, na própria cultura. Se queremos algo mais acerca do sagrado, temos necessariamente de sair de nossa cultura e buscá-lo lá, onde outros povos o encontraram, justamente porque sua cultura determinou assim. Afinal, como sair desse vício? Portanto, a opção, ainda que honesta, pela tradição pessoal do pesquisador com escopo para pesquisa acerca do sagrado é uma cisão a priori do objeto de interesse, atitude que redundará em pouquíssima ou nenhuma riqueza acerca da formulação do sagrado. Tal enriquecimento demanda acumular tesouros, tesouros disponíveis, nesse caso, em outras minas...

 

3º Tomar a verdade teológica como sendo verdade absoluta. O que equivale a confundir o discurso sobre Deus com o próprio Deus. Para essa postura, a única verdade teológica válida é a sua. Aliás, a única verdade teológica é a sua. Mais ainda, a única verdade é a sua, porque é a verdade, ou a verdade teológica, ou a verdade teológica válida de Deus. Tudo o mais é diabólico e demoníaco. A causa de tal postura é a ignorância a respeito das estruturas que regem o conhecimento acerca de Deus, e que julgamos ter apresentado acima em linhas gerais. Mas já verificamos, há muito, com Tillich, que o discurso sobre Deus é uma tentativa de expressarmos o sagrado mediante símbolos. E, conforme disse Tillich, “uma fé que entende seus símbolos literalmente é idolatria” (Dinâmica da Fé. p. 37). De modo que, uma postura tão absoluta, peca justamente por colocar-se de pé diante do absoluto.

 

(...)

 

As verdades teológicas são provisórias, relativas e condicionadas pela história e pela cultura. Não há, portanto, absolutos no discurso teológico, seja ele qual for. Apesar de o sagrado estar manifestando-se a cada momento mediante o que chamamos de ‘hierofanias’, o homem não tem como formular um discurso acerca do sagrado senão mediante formulações hermenêuticas próprias de seu ambiente cultural e de sua existência condicionada. Daí que cada tradução do sagrado consiste numa percepção diferente e incompleta da realidade total do sagrado. A pesquisa consiste numa porta de acesso ao acervo de traduções do sagrado. Pode-se, com ela, descobrir-se a gênese do discurso, determinando quais as forças que o determinaram, oferecendo-se, assim, a chave para a sua compreensão. Pode-se, com ela, ainda, aperceber-se das supressões, dos acréscimos e das adaptações que as verdades religiosas sofrem com o passar do tempo. Isso é útil para uma compreensão de nosso momento e de nossos conhecimentos teológicos. Mas é preciso, para empreender-se uma pesquisa séria, munir-se de abertura, coragem e rigor.

 

Pode-se abandonar a pesquisa teológica - mas, com isso, coíbe-se a possibilidade de manifestação do sagrado. Pode-se restringir-se a pesquisa teológica à tradição a que se está vinculado - mas, com isso, efetua-se uma cisão proposital no sagrado, apreendendo-se tão somente aqueles aspectos de que já dispomos. Pode-se absolutizar determinada tradução como sendo a única verdadeira - mas isso soa como idolatria aos olhos de Tillich, porque coloca o símbolo no lugar do simbolizado. E quando o simbolizado é Deus, qualquer coisa que se lhe coloque no lugar, mesmo a mais bela das doutrinas, achamos que Tillich tem razão: é idolatria.

 

Que cada um saiba escolher e, escolhendo, enriqueça e, enriquecendo, enriqueça a muitos. Um ambiente acadêmico possibilita-nos um contato saudável com a verdade e com a pesquisa em teologia. A verdade depende da pesquisa... a pesquisa depende da verdade...

 

Belford Roxo, 24 de fevereiro de 1996