Teopoética ou Literatura e Teologia?

– sobre a urgência de uma definição programática

Osvaldo Luiz Ribeiro

19/05/2007

 

 

Nos últimos dias, escrevi quatro artigos para minha página. Um, dois, sobre Teologia, e  um, dois, sobre Teopoética. Agora, vejo-me obrigado a escrever um que una as duas temáticas.

 

Eu escrever sobre Teologia é culpa minha mesmo, já que me meti nesse universo desde que, em 1987, ingressei no bacharelado, livre, no Seminário do Sul. Fiz mestrado, livre, depois, também, e, agora, faço doutorado, dessa fez oficial, na PUC. É, é verdade que faço doutorado em Teologia Bíblica, e que a área de “Teologia” e a área de “Bíblia” não dialogam muito, nem quando alunos de um curso se matriculam no outro, e eu diria  que uma coisa dessas acontecem, porque são mundos completamente diferentes. Presumo, contudo, que minha formação me credencia para falar sobre Teologia. E o faço, sempre, criticamente. Da forma mais autônoma possível, e também sempre, utilizando-me das regras epistemológicas próprias da reflexão crítica, ou seja, jamais a cabresto de algum sistema teológico heterônomo. Teologia não é Epistemologia, e, se alguém pensa teologicamente a Teologia, penso que não pensa adequadamente, porque a Teologia não fornece ferramentas para o pensamento, apenas para a racionalização de si mesma. Teologia deve ser penada epistemologicamente.

 

Quanto à Teopoética, a culpa é de minha amiga, Maria Celeste, doutoranda em Língua Portuguesa na UERJ, cuja Tese será desenvolvida na área de Teopoética, aplicada à obra de Adélia Prado. Tudo que penso saber sobre Teopoética devo a Celeste. É ela quem freqüenta os Congressos, os Simpósios, as rodas. E ela me fala, me apresenta textos. E eu reflito. Epistemologicamente.

 

O problema maior que tenho visto em torno do tema da Teopoética é a falta de uma definição programática do que ela seja – pelo menos do que ela venha a ser ali, naquele núcleo operacional em particular. É sobre isso que tenho escrito mais recentemente, utilizando-se do modelo epistemológico dos “jogos”, ou, em outra abordagem, sob a ótica da análise sob o modelo das pragmáticas.

 

E o resumo é o seguinte: ou Teopoética era estética, ou era heurística. Ou ela goza, ou investiga. Ou ela se encontra com, ou ela encontra. Ou ela se entrega, ou ela arranca. A Teopoética é estética, se o objetivo de quem a faz, o “teopoeta”, é encontrar-se com o elemento sagrado tomado como presente na plástica narrativa, na obra de arte poético-literária sob contemplação. A Teopoética ainda é estética, mesmo quando supostamente envolvida com análises sintáticas, gramaticais, semânticas, mas não explicitamente sob o regime da pragmática investigativa, heurística, o que seria a investigação pelo sentido histórico do texto, tomado na condição de fala do seu respectivo autor. Se o autor é esquecido, para dizer o mínimo, toda operação de leitura torna-se, automaticamente, de pragmática estética – não, minto, também pode tornar-se política. Voltarei a esse ponto.

 

A Teopoética pode, ainda, ser feita sob o regime da pragmática heurística. Nesse caso, Teopoética é um segmento da exegese, se exegese, então, for tomada como interpretação histórico-social ou histórico-crítica, interessada, incontornavelmente, na intenção histórico-social, sabidamente psicológica, do autor do texto. Não têm importância, aqui, os problemas dessa metodologia. Se o “teopoeta” – que nome – faz Teopoética como faz Exegese, se ele está interessado no que  autor do texto tem a dizer sobre o que ele mesmo, autor do texto, pensa sobre o tema do sagrado, então essa Teopoética é heurística. Parece que essa é a linha sugerida por Kuschel, e, até certo ponto, talvez seja a abordagem empreendida pela Drª Salma Ferraz, da Universidade Federal de Santa Catarina, uma das precursoras do uso do nome “Teopoética” na Universidade brasileira. Perguntar-se pelo que Saramago tem a dizer sobre o tema do sagrado, e ler Saramago do ponto de vista de Saramago. Sob certos limites metodológicos, isso é exegese.

 

Pois bem, Celeste apresentou-me um novo texto para ler, e li. Trata-se de um texto da Drª Maria Clara Bingemer, As Escrituras de João. O texto foi apresentado em recente encontro sobre Literatura e Teologia, na PUC-Rio, do qual lamentavelmente só fui informado depois de sua realização, no qual se chegou a criar uma associação latino-americana para tratar do tema. O texto citado foi apresentado ali. Celeste estava presente, e mo presenteou, solicitando, explicitamente, análise, sob o enfoque programático.

 

Li o texto, então, com o objetivo de discernir o que, a julgar por ele, seria “Teopoética”. É verdade que o termo não é usado no texto, e Celeste ainda me diz que não foi usado, igualmente, no encontro, onde se manejou a expressão Literatura e Teologia. Mas a presença da Drª Salma Ferraz no encontro denuncia que se está tratando da mesma questão, na mesma linha, ainda que sob outra perspectiva.

 

O texto de Maria Clara assume uma posição muito curiosa, compreensível, contudo, quanto ao enfoque próprio do núcleo programático “Literatura e Teologia” – comparação de alguma literatura, no caso, Guimarães Rosa, com “a teologia cristã”. Observe-se: não se trata de comparar Grande Sertão Veredas com Êxodo, ou com “a Bíblia”. Absolutamente. Trata-se de comparar a considerada obra prima de Guimarães Rosa com “a teologia cristã”, no texto, sempre qualificada: “católica”.

 

Trata-se de uma operação muito diferente do que, até então, eu havia considerado. Até aqui, se houvesse uma ênfase “literária”, a Teopoética escorregaria para a pragmática estética, onde toda a beleza é bela, e todo discurso, legítimo. Se, ao contrário, a Teopoética escorregasse para a investigação, tenderia a converte-se em exegese, própria da pragmática heurística. Agora, contudo, eis que surge uma “Literatura e Teologia”, que confronta dois mundos diversos: “teologia cristã, católica” não é “texto” – é proposição traditivo-normativa, institucional, dogmática. Diga-se o mesmo de uma “teologia cristã protestante” ou “evangélica” – todas são tradicionais e propositivas. No caso católico, para se comparar Guimarães Rosa com a “Teologia” [católica], o profissional terá de manejar, de um lado, um livro e, do outro, um conjunto heterônomo de tradições seculares, milenares, jamais consubstanciadas em “um” texto, conquanto que em centenas deles. No máximo, para ligá-la à noção de “texto”, uma biblioteca, que se vai desdobrando, concílio a concílio, encíclica a encíclica, súmula a súmula, mas que não está consignada numa literatura sobre a qual se pudessem operar as ferramentas da Exegese.

 

É curiosa a proposta, ainda que “compreensível”. Primeiro, porque essa “Teologia cristã, católica” – e mesmo todas as demais, protestantes, evangélicas, ortodoxas – não é “exegética”, é tradicional. Ela não resiste a uma exegese histórico-crítica, e somente mantém-se de pé por força, no catolicismo, do vínculo normativo com a Tradição, confessado, e, no mundo evangélico-protestante, pelo tradicionalismo inconfessado.

 

A “Teologia”, quando dita cristã, isto é, assumida politicamente como “Tradição”, resulta de um ato jurídico-normativo, seja com base na autoridade interpretativa do clero – de determinada instância do clero –, seja pelo pronunciamento oficial da Igreja, através dos organismos para tanto assumidos e reconhecidos como potentes. Não se trata, então, nem de estética, nem de heurística, mas de política, em sentido pragmático. Dito de outro modo, a Teologia, enquanto “teologia cristã”, ou seja, enquanto proposição normativa, não é jogo poético, não é jogo histórico, é jogo jurídico, político, porque essa Teologia é Política. Não é Poética. Não é História. Não é Literatura. Não é Exegese. É Norma. É proposição traditivo-normativa. Não é crime o fato de ser  que é. Mas é o que é.

 

Nesse sentido, o Vaticano II a põe em alerta, porque, quando afirma que ela, a Teologia, e sua plataforma operacional, a Tradição, devem adequar-se às Escrituras – afirmação essa que repete, quinhentos anos depois, o que, supostamente, pretendera Lutero – faz com que ela, a Teologia, torne-se, necessariamente, exegética, e, nos termos propostos por Hans Küng, católico, necessariamente histórico-crítica, conforme, aliás preconiza A Interpretação da Bíblia na Igreja, que Sua Santidade, João Paulo II, homologou. Sob o sussurro do Vaticano II, essa “Teologia cristã” deveria ser totalmente revisitada, e analisada sua condição de “fundamentadamente exegética”. Ora, dificilmente um exegeta, e mesmo católico, se exegeta, antes que “teólogo”, admitiria a possibilidade de “sobrevivência” dela, depois de uma investigação histórico-crítica. Quando Erasmo, católico, advertia Lutero, agora católico, depois, não mais, da estupidez do livre-exame, já aí se antecipava a impossibilidade da manutenção de “uma” Teologia Cristã (de qualquer tipo), onde a Biblia seja lida, sem norma. Ou há Norma, ou não há esse tipo de Teologia dita cristã.

 

Nesse caso, uma Teologia, politicamente gerada, a saber, um conjunto de proposições normativas sobre o sagrado, tradicionais, operadas por autoridade heterônoma, e imposta às consciências, não pode operar no regime heurístico. É político o regime em que opera. Ela pode, até, promover experiências estéticas, politicamente controladas, mas, sob nenhuma circunstância, operações heurísticas. Apologias e racionalizações supostamente bíblico-teológicas não são operações heurísticas. Continuam sendo políticas.

 

Não significa que seja ilegítima. A Teologia, ainda que universitária, é, ainda, confessadamente confessional, e o Sistema Federal de Ensino o reconhece. Quando as faculdades de teologia kardecistas e umbandistas chegarem a oferecer pós-graduação – Mestrado e Doutorado – sabe-se que a Teologia que ali será ensinada terá a feição daqueles respectivos credos, como as “cristãs” têm as feições dos seus tantos. Não se trata, portanto, de uma antipatia necessária à Teologia traditivo-normativa, mas do fato de que a Teologia traditivo-normativa consiste não em literatura, mas em proposição institucional, sustentada pela autoridade política.

 

E essa é a questão. A Teopoética tinha surgido como operação literária, e, de um jeito ou de outro, alguma coisa sempre entre expressão estética ou investigação histórico-crítica. Caso ocorresse um desvio da Teopoética, digamos, para o campo da Literatura Comparada, ainda restaria o trabalho de serem lidos, criticamente, dois textos, a que se seguiria, portanto, a “comparação”. A rigor, a leitura crítica de cada texto já seria, cada uma, “Teopoética”, pressupondo, naturalmente, que se tratasse de leituras dirigidas em torno do tema do “sagrado”. O que ocorre, contudo, com um programa de Literatura e Teologia que maneje “Teologia” como sendo proposição traditivo-normativa, independentemente de, como, contudo, pode ser eventualmente o caso, manifestar-se com prerrogativas ontológicas, é que, conseqüentemente, impõe-se a comparação entre duas dimensões operacionais incomunicáveis – norma dogmática, de um lado, e literatura, de outro. A Norma torna-se agenda operacional.

 

Insisto – é legítima. A questão é: Literatura e Teologia deve ser isso? Mais ainda: pode-se usar o termo Teologia como uma espécie de metonímia supostamente óbvia e válida para “Teologia cristã”, seja católica, seja protestante, seja evangélica, seja ortodoxa? Não se trata, nesse caso, de um velamento da crise da Teologia, que, a rigor, não sabe, hoje, o que vem a ser, se operação própria das Ciências Humanas, e, nesse caso, uma rival confusa das Ciências da Religião, ou se racionalização normativa de proposições traditivo-normativas de fé?

 

Ora, apenas o simples fato – histórico, crítico e incontornável – de que há faculdades reconhecidas pelo MEC, faculdades de Teologia, todas, mas de diferentes “credos”, uma católica, aqui, outra batista, ali, outra luterana, lá, outra metodista, acolá, uma kardecista, mais além, uma umbandista, logo ali, todas, legalmente, estatutariamente, legitimamente, “teológicas”, deveria servir para o que termo “Teologia” não pudesse, no ambiente universitário ao menos, servir de guarda-chuva para confissão.

 

Penso ser necessário recolocar a questão programática da Teopoética, advertindo que ela tem a obrigação de tomar consciência, expressando-o, de seu regime pragmático. No momento, ela debate-se entre pressões e pulsões concorrentes – estética, heurística, política. O manejo de uma Teopoética sob um desses três regimes, faz dela alguma coisa absolutamente diferente de uma outra Teopoética sob o regime de qualquer uma das duas outras pragmáticas, exatamente da mesma forma como pesquisa, fruição estética e catequese ou apologia são coisas diferentes.

 

É imprescindível, portanto, que a Teopoética saiba e diga saber o que é e a que veio. E que seu estatuto programático seja pragmaticamente definido. Quando se vier a empreender exercícios de Teopoética, aplicados, por exemplo, sobre O Anticristo, deve-se discernir entre perguntar, metodologicamente, a Nietzsche o que é, afinal, que ele pensa sobre a questão do sagrado, experimentar, subjetivamente, o belo, e contemplar o próprio gozo estético, mediado pela obra, ou, alternativamente, iluminar, como com o sol, ou escurecer, como com a noite, determinada obra literária, através de um olhar traditivo-normativamente dirigido desde uma Teologia propositiva, normativa e sistêmica, portadora, ela mesma, dos critérios validativos do sagrado. Escusar-se de o fazer deve acarretar o entrechoque de discursos aparentemente todos manejados sob o regime da “Teopoética” ou da “Literatura e Teologia”, mas mutuamente incompatíveis. Todos válidos, uma vez que as pragmáticas são igualmente operacionais, mas incomunicáveis entre si, já que a definição dos jogos pragmáticos é, fundamentalmente, teleológica.