Teologia como Tecnologia

– conhecer para dominar!

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Não sei quanto a vocês, mas a minha experiência está cheia de pequenas coincidências. Estou me referindo àqueles pequenos acontecimentos fortuitos que se vão acumulando em nossa vida, e para os quais nós só acordamos quando o último desses acontecimentos desperta a nossa atenção para um possível sentido comum à série inteira. Quando esses acontecimentos, então, se dão muito próximos uns dos outros, parece que a nossa atenção tem mais chances de apreender aquele possível sentido para a série...

 

Um desses pequenos acontecimentos me fez ter vontade de escrever esse artigo. Trata-se de uma série de leituras que vim fazendo. Lia eu Etnologia-Antropologia, de Philippe Laburthe-Tolra e Jean-Pierre Warnier (Vozes, 2003. 469 p.). O tema que me interessou é polêmico (fechem-se os arquivos!), e tomo-o aqui apenas para tratar da questão da coincidência de que falei. A certa altura, os autores escrevem:

 

A evolução humana é, inseparavelmente, bio-psico-sociotécnica (...). Em primeiro lugar, as técnicas do corpo, as da matéria, e a civilização material não são prêmios acrescidos à evolução biológica, ao aparecimento do neocórtex, da inteligência e da linguagem. Elas constituem a condição de possibilidade da evolução humana e da reprodução das sociedades (p. 58).

 

O desenvolvimento da espécie humana está, segundo os autores, relacionado a quatro fatores inter-relacionados: social, mental, técnico e biológico (p. 54). Trocando em miúdos – enquanto vive e aprende a viver, o homem vai aprendendo a manipular o meio e, com isso, vai ao mesmo tempo, transformando-se (ou, em linguagem etnológica-antropológica, o homem evolui). Isso não é um prato cheio para a polêmica criacionismo versus evolucionismo? É, sim, mas não estamos com fome agora...

 

Semanas antes havia lido, pela segunda vez, um artigo muito interessante de um outro antropólogo, J. C. Avelino da Silva, Mitos Telúricos, Dominação Celeste (Fragmentos de Cultura, v. 11, n. 1, p. 11-32, 2001). Lá pelas tantas, dizia Avelino a respeito do momento histórico em que o homem aprendeu as técnicas de manipulação da natureza:

 

Nada impediu que, pela separação, o homem encontrasse sua identidade própria que se afirma diante do outro, a natureza. Por meio da técnica, ele faz a experiência da alteridade. Ele se deu inconscientemente a pretensiosa tarefa de dominar a natureza, crendo que, fazendo isso, ele estava construindo sua própria identidade, independentemente da natureza (p. 19).

 

Grosso modo, Avelino põe em foco um momento da história humana, enquanto que Philippe Laburthe-Tolra e Jean-Pierre Warnier tinham descrito a mesma cena na forma de um filme – mas os dois textos tratam da mesma coisa: como a tecnologia, enquanto conhecimento(adquirido)-habilitação, permitiu ao homem o domínio do espaço em que se desenvolveu: tecnologia como fator de manipulação do meio.

 

O ciclo de coincidências se fechou quinta-feira, quando lia, agora, um livro sobre Fenomenologia da Religião, da italiana Angela Alves Bello: Culturas e Religiões (EDUSC, 2002. 199 p.). O trecho da coincidência é esse:

 

(...) tudo o que é produzido pelas capacidades humanas é a resposta de uma busca de sentido (...) Mas a busca de sentido não pode limitar-se a estas produções, inclusive quando são altas e refinadas; na verdade, o sentido último, o extremo significado é o religioso, por ser aquele além do qual não pode haver outro sentido mais amplo e mais profundo, porém, é um sentido que se apresenta e se oculta, que está sempre no além. O homo religiosus gostaria de entender a vida para dominá-la (p. 109).

 

No cantinho da página, escrevi, tomando consciência naquele momento da rede de coincidências que descrevi acima: “teologia com tecnologia – conhecer para dominar”. Naquele momento, a rede de coincidências em torno do tema tecnologia e domínio da natureza tomou um sentido novo diante do tema teologia e domínio. Num rasgo de intuição, meu inconsciente cuspiu pelos olhos – teologia é tecnologia, tecnologia para dominar.

 

Desde quinta-feira, então, estou pensando em escrever esse artigo para O Jornal Batista, para refletir um pouco sobre essa intuição – que é antiga sob outras roupagens (cf., por exemplo, o que Carlo Ginzburg diz em seu ensaio magnífico Mito: distância e mentira sobre o uso político do mito e da religião [Olhos de Madeira. Cia. das Letras, 2001. p. 42-84]) –, mas que assumiu uma conotação precisa na forma de uma pergunta: enquanto tecnologia, a teologia quer dominar quem?

 

Dei duas respostas para essa pergunta que eu mesmo me fiz – e não estou seguro de se são de fato duas respostas, ou se uma está implícita na outra. A primeira resposta que dei à pergunta “a teologia quer dominar quem” foi: a teologia quer dominar Deus, para controlá-lo.

 

Bem, o que significa dizer que a teologia quer dominar Deus? Na minha forma de refletir em torno daquela pergunta inicial, dizer que a teologia quer dominar Deus é dizer que o teólogo usa a teologia como tecnologia para manipular Deus. Claro que não domina Deus! Mas não se trata de se o teólogo domina ou não domina – se trata de como essa compreensão da teologia como tecnologia de conhecimento – logo de manipulação de Deus – se converte em sensação de conforto e segurança para o teólogo. Ora, Deus é a força maior da vida – o criador da própria vida. Por outro lado, essa vida está cheia de confusão. Ainda que o homem a domine – ainda que a Antropologia e a Etnologia possam descrever a evolução desse homem no planeta na forma de uma inter-relação também tecnológica de manipulação do meio – esse mesmo meio foge invariavelmente ao controle do homem. É um paradoxo – uma contradição: o homem é e não é, pode e não pode. Ainda é aquela criatura perdida sob a imensidão negra do céu noturno. E lhe pesa isso...

 

Ora, mas se conhecer a natureza e aprender as técnicas de manipulação dela permitem ao homem abandonar as savanas da África e espalhar-se poderoso (?) por toda a superfície do planeta – se por outro lado ainda assim sente-se pequeno e fraco, temeroso e assustado –, por que não “conhecer” Deus, de tal forma a dominá-lo? Por que não fazer teologia? Sim, teo-logia, teo igual a Deus, e logia igual a estudo. Pronto, teologia é o estudo de Deus. Nome, endereço, CEP, CPF; raça, cor, sexo e estado civil; escolaridade e profissão. Ficha na mão, um arquivo cheio delas a seu dispor, o teólogo sabe exatamente quem é esse Deus – e sabe também como ele age!. É como o biólogo: bio-logia, bio (=vida) e logia (=estudo). Pronto, biologia é o estudo da vida. Com a biologia nós não podemos fazer, digamos, remédios? Pois, então, com a teologia o teólogo não pode fazer remédios também? Por exemplo, diante da morte, o teólogo não pode dar remédios para a viúva chorosa ou para os filhos enlutados? Diante do pecado, o teólogo não pode receitar pílulas espirituais e ler bulas que descrevem tim-tim por tim-tim a posologia e o modo de usar? Diante da dor, o teólogo não pode dar todas as explicações que devem acalmar todas as almas – e se almas há que não se acalmam, não saberá o teólogo (que sempre sabe tudo, as coisas certas para todas as coisas, está tudo lá nos arquivos) dar as explicações dessa ansiedade e desse desassossego? Claro que com isso faço uma caricatura do teólogo, à medida que vou aqui lembrando dos amigos – mui amigos – de . E espero que os teólogos não nos aborreçamos com essas caricaturas, que têm sua força de expressão e suas aplicações, quando entendidas... Afinal, isso é apenas um artigo de jornal, e não o tribunal com que se hão de haver os anjos!

 

A questão é se há teólogos que desqueiram (desquerer = deixar de querer) conhecer Deus. Haverá teólogos que imaginam ser não apenas uma impossibilidade o conhecimento de Deus – mas até um perigo? Talvez haja mais um ou dois – conheço pelo menos um. Para os tais, teologia é silêncio puro e necessário. Assustados sob o nigérrimo céu noturno, calados, esperam... Uma fé (sim, fé!) feita de pedaços de silêncio e espera, ininterrupta espera, cotidiana espera de acordar todas as manhãs, esperando, esperando...

 

[Disse “perigo” aí em cima. Alguém percebeu? Sim, “perigo”. A julgar pelo que nós homens fizemos e fazemos ao meio, à natureza, ao planeta – aliás, o que nós homens fizemos e fazemos a nós mesmos com esse negócio de dominar a natureza – parece que há razão de sobra para termos medo dessa vontade teológica de dominar Deus. Ora, não foi justamente porque conhecia e conhece Deus – está tudo lá escrito, informação por informação, desde o DNA até o grupo sangüíneo, nos arquivos – que a Igreja (sem distinções, por favor) fez e aconteceu, pintou e bordou, lavou literalmente com sangue a cruz do Cristo que diz pregar? Ai, ai, infernos, se sois pior do que isso, pobres das almas que engolis! Sim, sim, há “perigos” terríveis rondando as cercanias dos acampamentos dos teólogos-arquivistas, cujo Deus mora numa gaveta, e recosta a cabeça em fichas emboloradas – mas infalíveis!].

 

Esse é o ponto em que entramos na segunda resposta que dei à pergunta (lembra-se?) por quem a teologia quer dominar. E a resposta é muito triste: a teologia quer dominar os homens e as mulheres. Quando disse acima que a “Igreja (...) lavou literalmente com sangue a cruz do Cristo que diz pregar”, eu estava fazendo referência à memória crudelíssima de nossa história – minha e sua, se somos filhos da Igreja. Por mais terrível que seja – e por isso mesmo – ela precisa ser lembrada todos os dias. Devia ser feito um memorial na ONU de modo que representasse a dor e o remorso profundos com que nossas almas cristãs se debatem quando recordamos as páginas de nossa história igualmente cristã – páginas literais no caso das que José Saramago tão plasticamente pintou também a sangue em O Evangelho Segundo Jesus Cristo (refiro-me àquelas cinco icônicas páginas, da 381 à 385, em que o personagem Jesus descreve ao personagem Pai as mortes que se haveriam de acumular umas sobre as outras, com o que Saramago critica, naturalmente, a nossa história justamente naquilo que ela tem de incontornavelmente criticável [Cia. das Letras, 1991. p. 445]) – sim, um memorial à dor da dominação da teologia cristã sobre as almas e as carnes, as babas e os sangues, para nunca mais, repitamos: nunca mais, amém! cristão algum, em tempo algum, em lugar algum, em nome de qualquer teologia dos infernos, perdão, ferir, matar, fazer chorar – a quem quer que seja.

 

Não! Jesus não nos quis deixar – e não deixou! – teologia com que dominássemos o mundo. Não! “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). E isso é dado como mandamento! Surdos, não ouvimos direito – dissera: “como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (Jo 13,14). “Como eu vos amei” deveria ter levado a Igreja a morrer pelo mundo, e não, ao contrário, matar o mundo. Por que morreria pelo mundo?? Por amor! E por que matou o mundo??? Por teologia!! Maldita teologia essa que fez!

 

A teologia pode tornar-se o inverso, o contrário do amor. O amor que Cristo mandou com que amássemos uns aos outros é imitação de seu sacrifício – logo, deve ser concreto, real, prático, efetivo. Mas não, preferimos fazer teologia, conhecer Deus, controlar, dominar – matar! Teologia como tecnologia – conhecer para dominar.

 

Não é boa essa teologia.

 

Quero, contudo, terminar esse artigo num tom diferente desse peso que essas palavras nos colocam sobre os ombros (sobre os ombros? sobre a alma!). E tenho de fazer isso, porque gosto de teologia! Sim, sim – gosto de teologia, e gosto muito! Mas gosto da teologia-brinquedo, da teologia-diversão, da teologia-prazer, da teologia-de-criança. Da dos homens maduros e sisudos, teologia de arquivo de inquisições e de caça às bruxas, dessa eu não gosto. Nem eu nem suas vítimas, de ontem e de hoje – tomara não as haja as de amanhã...

 

Da teologia que eu gosto, dessa se deve dizer que aspira ares mais frescos e à fraternidade entre os homens. É curiosíssima ela. Tudo quer fuçar e em tudo, mexer. Sabe aquela criança curiosa que levanta pedras no quintal só para ver o que tem embaixo – e se tem alguma coisa é uma alegria? Pois então! Essa teologia é assim, sem grandes ambições de atravessar o in-atravessável Universo, para transpor os seus limites, e trazer Deus pela mão, para com ele nas mãos dar remédios e ordens. Claro que quero remédios! E quem não os quer? Por que, em pleno século XXI, o Brasil vai se tornando um país evangélico – seja lá que grandezas sócio-religiosas esse termo queira, por falta de outro melhor, englobar? Não é para tomar remédios das mãos de farmacêuticos de microfone? Pois então! Também quero meus remédios! Espero-os, contudo, de Deus, de olhos baixos, sempre. Até ouço os teólogos de microfone – e de livros – me dizerem que de olhos baixos não vou tomar bons remédios – nem mesmo genéricos! que são tão bons quanto os de marca, é o que dizem – mas eu não ligo mais. Há teólogos demais dando remédios demais – a maioria placebos de água e farinha de trigo. Na longa fila dos remédios distribuídos em longas sessões, a massa doente nem vê passar a vida – e como veria, se não a construiu? O que não existe não pode passar pela janela...

 

A teologia de que eu gosto quer sim conhecer. No fundo no fundo fomos criados como pontos de interrogação ambulantes, e se nos tornamos pontos de exclamação ambulantes é porque deixamos de ser crianças ou fomos capturados pelos teólogos-arquivistas e/ou pelos farmacêuticos de microfone, cujas fichas dão pra tudo e chegam ao bilhão e duzentos, e cujas pílulas, é o que se diz, são uns certos anões de um certo pólo – norte ou sul, não sei – quem produzem. Mas a teologia de que eu gosto quer conhecer de novo – sempre de novo. Ela quer fazer catequese todos os dias, tudo outra vez, não a mesma série, não o mesmo chá da mesma folha e do mesmo bule e da mesma xícara e do mesmo açúcar – quer um chá novo, todos os dias, e isso se for inverno, porque se for verão, então ela quer suco gelado de goiaba, de preferência natural e um copo bem cheio... A teologia de que eu gosto não gosta de arquivos, porque os arquivos ficam cheios de mofo, e mofo faz mal à saúde, e os remédios que ela dá para essa patologia também não remediam, além de que tomar chá num arquivo cheio de mofo não deve ser uma coisa muito agradável.

 

Sabem de uma coisa – está na hora de ler a Bíblia. Abri-la em Gn 1,1. Orar. Abrir os olhos. Ler. Fazer teologia. Que teologia faremos? Tecnologia? Ou amarelinha? Xi! Tô mesmo ficando velho. Desculpem, crianças – amarelinha, não, RPG.

 

Oh sim, sim, uma teologia-RPG é, afinal, também tecnologia – que seja, então, e que seja para domínio, então – mas que seja essa teologia-brinquedo tecnologia para dominar nossa própria inclinação para o domínio. Se há uma cidadela a ser tomada – é a de nosso próprio coração.