Teopoética e(m) Pragmática

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Sob o olhar romântico e humanístico, a observação das coisas (da “Natureza”) deve, necessariamente, levar em conta dois axiomas: a) independentemente do que as coisas venham a se tornar a partir de minha “observação” metodologicamente consciente, as coisas “são o que são”; b) independentemente do que são fora de minha operação epistemológica, essas coisas tornam-se “coisas para mim”, em função de minha observação-operação metodologicamente consciente.

 

Desfie-se o rosário, conta a conta, e desdobre-se o parágrafo. Primeiro, trata-se de uma assertiva corolária do Romantismo: a “razão” não é instrumento para a “compreensão” do real, servindo “apenas” para a elaboração de sistemas dinâmicos de representação razoavelmente válidos e adaptados à relação sensorial humana em face do “real”. O que não significa, contudo, nem que não haja “Natureza” (“real”, “mundo”, “Universo” etc.), nem que, existindo, como existe, não seja, aquilo que é, alguma coisa “diferente” do que o é quando em minha elaboração representativa. A “árvore” – não a representação, mas o ser-sistema “árvore” enquanto resultado da “história” do Universo (cf. Ilya Prigonine) – é alguma coisa fora de minha representação. Nela, contudo, uma árvore é aquilo que o jogo representativo faz dela. No mundo noológico, a árvore não é, ela vem a ser.

 

Além disso, também aquele olhar deriva das Ciências Humanas, que aprendeu, desde os primeiros esboços humanistas, que as coisas tornam-se funcionais-representativas, quando incorporadas aos sistemas humanos – não apenas os macros, culturais, mas também os micros, intraculturais, ou pragmáticos.

 

Um exemplo: o “texto” (em sentido genérico). Independentemente do jogo, o texto é sempre um mesmo “ser-sistema” (cf. Edgar Morin). Não importa qual seja o jogo, o texto carrega consigo suas próprias exigências, imposições, sobredeterminações, que lhe são inerentes à constituição de ser-sistema-texto. A depender, agora, do jogo, as relações do sujeito humano com tais características próprias dos textos – de todos os textos, independentemente do jogo em que o texto é jogado – não são sempre as mesmas. Nem podem nem devem ser.

 

Recorte-se, dentre suas tantas imposições, seu caráter polissêmico. Dizer que um texto, qualquer e todo, seja polissêmico, é dizer que ele constitui-se, agora que está escrito, à semelhança de um dicionário. O texto retorna à condição de verbete. Torna-se potencial - pode ser atualizado e n maneiras diferentes. Torna-se aberto - cada leitor assumirá a operação de fechamento semântico dessa abertura escriturística. Ora, a polissemia é inerente ao texto -a todos, desde Navio Negreiro, até a bula da Aspirina. O que essa polissemia significa, contudo, para o leitor, os leitores, isso depende do jogo - depende da pragmática em que esse texto é acessado.

 

Sob a ótica da análise pragmática, tome-se, por exemplo, os famosos Dez Mandamentos. Internamente à pragmática jurídica, e por imposição dela, é mister um árbitro, que assuma, por delegação sócio-política, a “função” de “juiz”. Diante da polissemia do texto, o juiz exprimirá sua subjetividade reconhecida e autorizada, e exercerá a interpretação reconhecida como “legal”. Que essa interpretação, porque do juiz, e porque do jogo jurídico, seja “oficial”, nada diz, diretamente, sobre o texto, que continua polissêmico, mas diz, sim, sobre o próprio jogo jurídico em face da arbitrariedade polissêmica dos textos – de todos os textos. É o jogo que tem que driblar a polissemia – e dribla. Como? Escolhendo um driblador. Que o é, contudo, apenas no jogo. Um Estado de Direito não pode lidar com arbitrariedades incontornáveis. É mister que uma operação, ao mesmo tempo objetiva, arbitrária e sócio-legal, contorne a abertura-potência polissêmica, promovendo, assim, uma necessária atualização-fechamento jurídica.

 

Transporte-se o mesmo texto, os Dez Mandamentos, para uma pragmática estética – a literatura, por exemplo (ou a devoção pessoal, também). Em que medida aquela arbitrariedade objetiva, tornada posição oficial no e pelo jogo jurídico, exerce “poder” aqui? Em nenhuma. No jogo estético, nesse caso, estético-literário, a polissemia do texto não precisa ser contornada, pelo contrário! Ela deve seu haurida, coisa, em tese, impossível. Fruída, então. O jogo estético traga todos os goles semântico-subjetivos possíveis de serem bebidos desde a plástica côncava do texto. O texto, ali, são mãos côncavas de águas de beber. Juízo, aqui, é esquizofrenia.

 

Em outro jogo, contudo, o heurístico, e, especifique-se, o histórico, a polissemia do texto volta, como no jogo político-jurídico, a constituir obstáculo. A superação arbitrária que o jogo jurídico impõe à polissemia do texto, contudo, não pode ser aplicada à heurística, que deve acercar-se de seu objeto “objetivamente”, e reconstruir o que foi, não o que poderia ter sido, nem o que se deseja tivesse ocorrido. É como um caçador – heurística venatória – que, analisando as pistas observadas em um prado, não pode tratar como indício de lebre o indício que, de fato, é de cobra. Engana-se, ele, e, das duas, uma: ou foge da lebre, cuidando ser cobra, e passa fome, ou mete a mão na víbora, cuidando ser lebre. Para o caçador, para o investigador, para o médico, para o historiador, para o arqueólogo, para o exegeta, as pistas devem ser interpretadas a partir não da ótica subjetiva, e apesar dela, do sujeito, mas da posição histórico-objetiva dos atores do “evento”. Acertar, é que são elas. Saber que se acertou, em algumas profissões, é impossível, senão por meios comunitários.

 

Vê-se, pois, que um texto não deixa de ser polissêmico. Nunca. O que ocorre é que essa polissemia não é nem boa nem ruim – em si. Ela pode tornar-se céu ou inferno, dependendo do espaço pragmático em que o texto – e sua constituinte polissemia – é acessado, usado, articulado, jogado. Pelo que, depreende-se, não há uma “hermenêutica” jurídica, outra, literária, outra, histórica. O que há é uma única operação consciente sujeito-texto, que deve adaptar-se às conveniências internas e pragmáticas do jogo pragmático. Sob risco de perder a lucidez epistemológica.

 

Pelo que surge a questão: o que é a Teopoética? Trata-se de o leitor encontrar-se com as formas do divino num texto? Trata-se de o leitor encontrar as formas concebidas do divido com que o autor do texto trabalhou no texto? Trata-se de um exercício de pragmática estética? Trata-se de gozo literário? Uma experiência quase-devocional (se não já)? Ou não – trata-se, antes, de arqueologia psicológico-teleológico-arqueológica, isto é, descobrir, como um caçador, um detetive, o que José pensava acerca do divino, pelo que do que José pensava acerca do divino se pode saber pelo que José escreveu nesse texto de José?

 

Por esse meio de aproximação à questão do estatuto da Teopoética, pode-se perceber que se deve, antes de qualquer outra coisa, determinar qual é o jogo teopoético. Sem essa determinação prévia, o praticante da teopoética pode comportar-se esquizofrenicamente, ora como “esteta”, ora como “historiador”, ora como “juiz”. Comportamento estético, comportamento heurístico e comportamento político são plenamente humanos, e convenientes – quando devidamente demarcados no correspondente jogo. Um esteta de toga, um historiador de mãos postas, ou um juiz de lupa, contudo, são caricaturas grotescas de incoerências pragmáticas.

 

Não se pode definir Teopoética, senão definindo-se uma Pragmática Teopoética. Se a Teopoética é pragmática estética, deve-se, desde já, e sem sursis, deixar o autor fora da sala. Aqui, qualquer tentativa de discernimento da intenção psicológico-teleológica do autor, é improcedência – e imprudência (e impertinência!) – metodológica(s). O gozo estético é gozo da obra, não do mundo particular subjetivo de quem a forjou um dia. 

 

Se a Teopoética é, contudo, exercício de pragmática heurística, tornou-se uma pequena sala, peculiar e própria, que seja, de um imenso galpão, onde há várias outras salas, onde, também, em cada uma delas, realizam-se investigações histórico-críticas, como a História da Arte, por exemplo.

 

Insista-se: não se pode definir Teopoética como coisa que se faz. Deve-se definir Teopoética como pragmática em que se opera uma atividade humana consciente, metodologicamente lúcida de sua própria teleologia epistemológica.

 

Seria heuristicamente oportuno remontar o comentário a um caso interessante de “Teopoética”. Num livro muito bom, Os Demônios de Loudun, Aldous Huxley pára, a certa altura, e discorre sobre o desejo humano de autotranscendência (3,II). Huxley, aí, mistura “termos” do Cristianismo, com interpretações desses termos, segundo a “Filosofia Perene” (de caráter evidentemente oriental). Huxley, fala, por exemplo, d”a Verdade Fundamental de que o Outro é você”, onde o “Outro” representa um termo para a indicação-ocultamento da “divindade”, ao mesmo tempo em que fala que “a união com uma única pessoa da Trindade, com exclusão das outras duas, não é revelação”. Pois bem: que pragmática é essa? Que Teopoética seria essa? Uma pragmática heurística está inviabilizada, porque Nicéia, por exemplo, e os Concílios posteriores, não endossariam a afirmação de que haja identidade entre o crente/fiel e a Trindade. Tal recorte reflete (um)a epistemologia teológica oriental, que é a que, efetivamente, organiza a posição sintático-semântica dos termos do texto. Eis, portanto, o quadro:

 

a) se eu faço uma Teopoética enquanto pragmática heurística, devo, necessariamente, concluir que Huxley comporta-se como Frankstein, e cria seu próprio “monstro”. Por quê? Porque deverei perceber que Huxley toma o peão do xadrez, a peça da dama, o dado do gamão, e joga o jogo que lhe é mister jogar. Os termos são de diferentes sistemas filosófico-teológicos, e eles os saca, indistintamente, segundo os movimentos de sua própria operação discursiva.

 

b) se eu faço uma Teopoética enquanto pragmática estética, tenho muito a aprender do jogo lingüístico-filosófico, teológico-cultural, psicológico-teleológico de Huxley, e seu texto é, de fato, um primor. Uma vez que o gozo estético não é a junção metodológica de um elemento-termo A ao seu correspondente e enzimático-protéico sentido B, mas tão somente a expressão do meu mundo psicológico-cultural pelo termo A, logo, poderia expressar-me nos termos do texto, independentemente do que Huxley tenha querido dizer, fazer ou dizer-fazer.

 

c) a Teopoética de Huxley não é heurística, logo, ou é estética, ou política. Observe-se: “a Verdade (eu sou o Outro) e o Dever (autotranscendência) fundamental podem ser formulados, de forma mais ou menos adequada, no vocabulário de todas as religiões mais importantes”. Huxley define seu projeto de mutação semântica dos termos teológicos das religiões, processando-os em função do sentido da “Verdade” e do “Dever”, conceitos de sua orientação teleológica. Que está fazendo Huxley? Operando esteticamente? Ou politicamente? A solução só pode ser pragmática. Se a intenção de Huxley é gozo próprio, é fruição das cores de seu próprio mundo-experiência – estética. Se Huxley quer, por mecanismos de raciocínio e articulação argumentativa, operar o convencimento, dialogal ou violento, de terceiras consciências – política. Isso estetas e políticos têm em comum: tomam a sua arbitrariedade por “verdade”, sendo, contudo, “verdades”, a estética e a política, estatutacionalmente irreconciliáveis no campo pragmático: uma, é de gozo, outra, de mercado, uma, de alcova, outra, da praça, uma é o Municipal, outra, o Congresso.

 

Resulta que uma aproximação dita “teopoética” do texto de Huxley é o quê? Depende. Se Teopoética é definida em si mesma, independentemente da consciência de que ela só pode ser o que o jogo jogado determina que seja, essa Teopoética pode aparecer como uma esquizofrenia acadêmica ou devocional, e em centenas de congressos não se há de perceber o que parece – a mim – óbvio: sem se desenhar o quadro de referência pragmática do jogo, não se pode dizer o que se faz ali, porque, não havendo consciência metodológica do cenário de operação epistemológica, dificilmente todos os atores estarão jogando o mesmo jogo, e, não o estando, que regras operam cada um? que comunicação ocorre ali? que critérios estabelecem as condições de inteligibilidade da fala dos atores? Não admira que em muitos congressos fale-se muito, mas se comunique tão pouco. Ou, o que me parece pior, pensa-se ter-se comunicado alguma coisa, mas, no fim, sai-se com a sensação de uma visita ao MASP, quando MASP é MASP, e congressos são congressos.

 

Agora, se a Teopoética é definida como cenário pragmático, estão dadas as bases para a determinação teleológica da disciplina, para a sua metodologia, para a sua epistemologia aplicada, para seus critérios de verificação, para sua aplicabilidade operacional, para seu estatuto filosófico.

 

Se a Teopoética deseja ascender ao posto de “disciplina”, deve fazê-lo conscientemente pelo caminho da determinação metodológica de sua pragmática. Se o fizer, poderá, ela, e poderemos, nós, saber do que falamos, quando falamos de Teopoética. Do que resultam questões que o conjunto dos teóricos interessados na fundação da disciplina deve responder:

 

a) Teopoética é fruição-devoção ou é investigação-pesquisa?

 

b) se a Teopoética definir-se pela pragmática heurística, consistirá, contudo, num campo próprio de pesquisa, ou num recorte interno no campo de pesquisas já estabelecidas em outras disciplinas das Humanidades?

 

b) se Teopoética definir-se pelo quadro da pragmática heurística, o que faz da Teopoética uma disciplina, por exemplo, diferente da História da Teologia, ou, alternativamente, da História da Arte?

 

c) qual é o elemento específico da pragmática teopoética, se heurística, que a faz merecedora, por exemplo, de constar do índice de disciplinas universitárias?