SOBRE RIBEIROS RASOS

(poesia para mim e de mim)

a quem interessar possa...

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

"Ser profundo e parecer profundo. - Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro. Porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo. Tem tanto medo! Gosta tão pouco de se meter na água!"

Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 173.

 

 

 

As pessoas não escolhem os seus nomes. Não escolhi o meu. Minha mãe teve suas razões para escolher “Osvaldo” e “Luiz”. O “Ribeiro” veio de meu avô materno, Silvestre Ribeiro. Sinto, agora, saudades de meu avô. Brincamos muito pouco, para um avô e um neto, e mesmo só agora percebi a relação poética entre os dois nomes dele, silvestre e ribeiro, e brincarei com isso também...

 

Meu avô era, então, um ribeiro silvestre. Todos os ribeiros devem permanecer assim, silvestres. Não há ribeiros urbanos, só silvestres. Quando se erguem cidades em torno dos ribeiros, são canalizados, ou morrem, poluídos. Se sobrevivem, é porque não são ribeiros, são rios de grande porte, como os que cortam cidades do mundo...

 

Porque meu avô era um ribeiro silvestre, nasci um ribeiro também. Plantou-se uma floresta em torno do ribeiro, e nasceu “Osvaldo”. Achou-se que a floresta cortada pelo ribeiro merecia um pouco de luz, e pôs-se luz nela. Estava pronto Osvaldo Luiz Ribeiro.

 

Ribeiros são rasos. Ou são rasos, ou não são ribeiros. Se não forem rasos, forem fundos, serão outra coisa. Mas ribeiros nasceram para ser ribeiros, rasos, ribeiros rasos. Sou um Ribeiro. Sou um ribeiro. Raso por natureza...

 

Isso é bom. Ribeiros rasos permitem seja visto o seu leito. Basta olhar para eles, e os olhos atravessam as águas rasas que correm – ribeiros são águas rasas, correndo. No fundo, no leito, vêem-se areia, pedras, plantas, peixes. No fundo dos ribeiros tanto há vida abundante, quanto se pode vê-la. E a vida que se vê no fundo raso dos ribeiros rasos é exatamente aquilo que se vê. Não há fundos sob o fundo, não há profundidades inacessíveis. Olhou-se, então se viu o que há para ser visto.

 

Em torno dos ribeiros rasos sempre há árvores, como as do Sl 1. As águas que correm vão despejando vida dentro de si e fora de si, e a vida colorida que nada dentro do ribeiro expande-se, e torna-se vida verde e frondosa às margens. À sombra das árvores, insinuam-se plantas, arbustos, flores: é o verde descendo das copas, são as cores saindo das águas. Ribeiros são arco-íris de vida, vida verde, vida colorida.

 

Dos ribeiros sempre se pode esperar água limpa e boa. É por isso que a corça do Sl 42 grita pelas águas correntes, é por isso que ela quer encontrar o ribeiro das águas claras, porque sabe que dessas águas pode beber, porque são limpas. São limpas não porque sejam do ribeiro, que ribeiro mesmo não tem águas, mas são limpas porque vêm da fonte lá em cima, e descem desde lá de cima, e passam pelo ribeiro. No dia em que a fonte lá de cima secar, se secar, que secar não vai nunca, então o ribeiro seca, e, secando, morre, porque ribeiro é ribeiro de água, e se não tem água, não tem ribeiro, e tem água se tem fonte, e fonte lá de cima. Por isso a corça quer beber águas de ribeiros, por causa da fonte das águas...

 

Por isso gosto de ser ribeiro, e raso. Não gosto de ser águas profundas. Tenho medo das águas profundas. Um dia estive à beira de um grande buraco fundo, enorme mesmo, cheio de água, até a boca. Se caísse lá, morreria. Não tinha fundo. Se tinha, não se via. Se tinha, podia estar ali, a três metros, ou lá, a cem. As águas fundas daquele buraco meteram-me medo, porque não eram transparentes, não eram como as vidraças das varandas das casas das florestas com luz e ribeiros, através das quais se podem ver pássaros e flores, mas eram opacas, refratárias à luz, quase oleosas, quase pastosas, hipnóticas, medonhas... Tenho medo de águas profundas.

 

Pode ser que haja mesmo monstros no fundo das águas profundas. E mesmo que não haja, aposta-se que há, como aquelas águas profundas do lago Ness e seu lendário monstro, que, lendário ou não, monstro é, pelo menos no imaginário de quem vê ou se lembra do lago e do monstro, porque águas profundas levam ao imaginário dos olhos imagens de monstros, de trasgos, de espectros, de lagartos, de coisas assim.

 

Águas profundas têm seu lugar, seu papel, sua função. Felizes também são as águas profundas, porque nasceram profundas, se é que nasceram profundas, porque há buracos cavados e enchidos de água que se dizem profundos, mas não nasceram assim, e são duas vezes mais terríveis do que as águas nascidas profundas por um gesto de Deus.

 

Ah, sim, filmes de terror pedem águas profundas, profundos lagos, ameaçadoras lagoas, insondáveis profundidades sem luz, vociferando trevas e trovões. Ribeiros não se prestam a filmes de terror, e apenas cenas bucólicas e pueris, de fadas e gnomos, de meninos e meninas, de peixes e de flores, de risos infantis e de cães ladrando à margem, de família e de amor, caem-lhes bem. Naturalmente que gostamos todos de filmes de terror e de filmes de amor, não é essa a questão – a questão é: ribeiros são ribeiros, e rasos, graças a Deus.

 

Viramos o milênio, e o século XXI será o século das águas – ou não será século. Água de beber, límpida e potável, pura e boa, gostosa e fresca. Que o século XXI encha a terra de ribeiros rasos, cheios da pura água da fonte que vem lá de cima, cheios de peixes coloridos, de carás, de namorados, de lambaris, e plenos de toda água da fonte.

 

Que as águas profundas sejam profundas, e que as águas rasas sejam rasas. Profundas ou rasas, são água, se água são, e não lodo... O que faz dos ribeiros ribeiros, e o que faz das depressões depressões é o quanto de água represam ou deixam correr. Correndo, os ribeiros vão cuidando de sua própria vida, e deixando as dos outros em paz... e mais felizes.

 

Obrigado, vô, pelo ribeiro que desenhaste nesta floresta, e obrigado, mãe, pela luz que pingaste nela. Uma floresta sem ribeiro não é floresta, e se o ribeiro é raso, tanto melhor...

 

(...)

Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...

(Mario Quintana)

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 07/09/2007 01:14:53