Sobre Judas

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Contaram-me que circula entre os kardecistas uma história sobre Judas. Durante o planejamento das seções histórico-teológicas que se desdobrariam naquele pequeno pedaço de terra, a Palestina romana, durante aquele curto espaço de tempo, os anos seguintes ao zero cristão, Deus se via às voltas com um problema, por assim dizer, desculpem-me o termo inapropriado, "problema", é apenas a forma humana de contar essa história, fazer o quê? O problema consistia na necessidade de um traidor para Jesus de Nazaré, ou de Belém, como queiram.

 

Parece que a questão já estava decidida quanto a quem encarnaria Jesus, o Cristo nazareno ou belemita. Nesse aspecto, não havia problema. Mas era necessário um traidor. Aquele sofreria que nem o diabo, com cuja construção frasal quero eu dizer que nem o diabo sofrerá tanto, naquele dia, isto é, no dia dele, quanto Jesus sofreria, como sofreu, no seu. Mas no final, como o salmo que ele citará na cruz deixa qualquer um bem informado, ah, no final, que é o que conta, não é mesmo? glória!, o ouro dos reis!, a púrpura dos imperadores!, o trono dos grandes!... No caso de Judas, contudo, o traidor, necessário que fosse, imprescindível que é, não o fosse não haveria necessidade de uma tal sina, logo se vê, a evidência grita aos nossos ouvidos, e dança diante de nós, no caso dele, contudo, não. Seu fim, desde o fim da tradição até o fim dos tempos, seria (e será) ser cuspido na cara, trucidado nos postes, amaldiçoado, transformado em metonímia e metáfora para tudo e todos quanto cumprissem papel semelhante.

 

Diz-se que um espírito de luz, desses iluminadíssimos, que os kardecistas conhecem, ainda que, parece, também os monges tibetanos, pelo menos a julgar pelas coisas que andei lendo de Lobsang Terça-feira Rampa, em quem foi implantado um terceiro olho sobre a pituitária, bem, um espírito iluminado, se me recordo bem, com uma luz ainda maior que a do primeiro, apresenta-se, e se oferece, que, sabem os kardecistas, é assim que a gente encarna, tomando nos ombros, conscientemente, a sina e o fado que nos apraz, o problema é que a gente esquece disso tudo, dado o choque do encontro da alma quente com o corpo gélido, o que, penso hoje, os kardecistas tomaram de Platão, que também pensava assim da encarnação, não exatamente de tudo isso, mas do fato de as almas se esquecerem do outro lado, quando aprisionadas no cárcere de carne. Se os dois combinam, deve ser assim mesmo.

 

Naquele espaço tradicional, portanto, Judas é só aparentemente o desgraçado e miserável traidor de Jesus, sendo, na verdade, e a verdade é sempre esotérica, é sempre necessário que eu me torne um esotérico, para saber a verdade, salvo se me fizer aristotélico, e fizer-me eu mesmo caçador dela, há um ringue onde pelejam Platão e Aristóteles, enquanto a Verdade espera para ver qual a notação político-ideológica da moda, qual o verbo será conjugado, “receber” ou “encontrar”, qual a voz será articulada, “passiva” ou “ativa”, a verdade tem uma paciência de Jó, é o que dizem, não da paciência da verdade, essa é óbvia, ai de nós, não o fosse, mas da de Jó, dessa eu duvido, o fato é que Judas é, assim, um herói, Deus lhe deve muito, e a humanidade, tudo, e a lição que devemos extrair dela é que as aparências enganam, ainda que aquela música diga que não enganam não. Como a vida, que de tanto sofrimento que tem, é mesmo purificação para além, resta ver quem ouviremos, se a história, se a música...

 

Seja como for, essa história me veio à mente nessa última semana santa que passou, oportunidade que não perdeu a mídia de divulgar alguma notícia sobre o fragmento antigo de absolvição de Judas. Constam as notícias se tratar da descoberta de um manuscrito antigo, provavelmente remontando aos primeiros séculos do cristianismo incipiente dos primeiros séculos, atribuído aos gnósticos, no qual se podia ler que, de um jeito ou de outro, mas do jeito dos gnósticos, os kardecistas não inventaram aquela sua história. Lá, no manuscrito, se dizia já que o próprio Deus encomendara a traição ao malfadado Judas, não sei se lá se diz se ele podia dizer não, aí já é questão para um debate a quatro, entre Agostinho e seu clone Calvino, de um lado, e Pelágio e seu campeão, Armínio, de outro, ainda que, mais positivamente, o debate contemporâneo ainda seja entre a Trindade Nietzsche-Marx-Freud de um lado, e a Mônada Cânones de Dorth de outro, ou, ainda, se preferirem um recorte mais teológico, entre os sermões dominicais de um lado, e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, de outro.

 

Não importa: Judas não é “traidor” efetivamente. Está, antes, a serviço de Sua Majestade. E, se faz o que faz, é por encomenda. O que o manuscrito diz sobre a forca com que enfeitou o pescoço, antes, é o que se diz, de despencar lá de cima e ver as tripas comidas por cães e corvos, isso vai por minha conta, não o sei. Pode parecer uma contradição que Judas tenha sido contratado para a tarefa e que, quando vá receber o salário, sinta culpa, porque isso nos lembraria de que soldados, quando cometem, digamos, equívocos, ou, para dizer de outro lado, quando extrapolam os deveres, alegam cumprir ordem, todo mundo logo olha para o general, porque alguém tem de assumir a culpa, claro. Quanto ao manuscrito, que não li, o Valtair leu, e escreveu um livro, não sei se procuram o bode (refiro-me ao expiatório), ou se, dado o caráter esotérico de sua língua e mensagem, apenas arranham a crosta, guardando o magma no cadinho.

 

Mas não importa. Se Yahweh-Elohim deixou duas, por assim dizer, crianças, num jardim de flores e frutos, expostos, contudo, logo soubemos, e se não soubermos isso, não sabemos nada, a uma serpente malvada, nem por um segundo se pensa na sua possível (blasfêmia!) culpa, porque não resta a menor sombra de dúvida de que a culpa, sempre ela, recai como um raio sobre, nessa ordem, a mulher, a serpente, e o homem. Fosse eu, hoje, segundo as leis brasileiras, seria possivelmente preso. Ah, não, pelo menos bolsas alimentares eu pagaria a uma ou duas comunidades... Também não importa se o Faraó teve endurecido o próprio coração, é o que se diz, perseguindo o povo, tentando que o matassem, e que o mesmo que o endurece o coração o mata afogado. Nada disso importa. O que importa, para o caso de Judas, é que não pode ser traidor... O que aconteceu com ele, depois de destilado o líquido entorpecente, que se dane.

 

Disse logo aí acima, nas últimas linhas, que Judas não pode ser traidor. E essa é a questão. Judas tornar-se um problema para uma teologia em pleno desenvolvimento. Não importa se são gnósticos, porque qualquer cristão, fazendo contas, chegará à mesma conclusão, e, se não chegar, é porque errou as contas: tenho alguma coisa entre indiferença e abominação (não decidi ainda) diante das teses deterministas, inclusive e principalmente as teológicas, mas sou obrigado a concordar que, se a aritmética é a ontológico-teológico-conciliar, é isso mesmo, e o mais que se diga é, ao fim e ao cabo, recalcitração.

 

Se houver alguma coisa de histórico na história de Jesus de Nazaré e Judas, não acredito que a intuição gnóstica, disponível no manuscrito deles, já estivesse presente. Inimaginável, ainda. Que Jesus de Nazaré seja histórico, que tenha existido, não tenho dúvidas. Não há sequer um único versículo em todo o Novo Testamento que se dê ao trabalho de argumentar a favor da existência dele. Digamos que assim como o Antigo Testamento pressupõe Deus, sem jamais precisar argumentar nesse sentido, o Novo Testamento desdobra-se a partir de uma presença – Jesus, se de Nazaré, se de Belém, aí são outros quinhentos. Os textos dos assim havidos como Antigo e Novo Testamentos não são tratados de teologia, mas diálogos polêmicos e/ou apologéticos, nascidos da agenda do discurso do outro, cujo discurso o meu deve enfrentar, para cooptar ou calar. Não há ninguém tentando calar ateus no Antigo Testamento (a compreensão que se tem de textos como o Sl 53 é equivocada – não se trata de ontologia [Deus existe?], mas de teodicéia [Deus faz justiça?]), ou adversários céticos da existência de um tal de Jesus de Nazaré, no Novo. Há até quem não saiba que o Espírito Santo exista, como se vê pela história que nos contam sobre o encontro entre Paulo e os discípulos de João, o batizador. Quanto à existência de Jesus, contudo, não resta dúvida.

 

Seria mesmo um escândalo, numa época em que se crê que em cada côvado cúbico do ar haja setecentos e oitenta e nove diabos, se fosse posta em dúvida a existência de alguém que, todo mundo está dizendo, existiu. É claro que hoje também se vive em dias de se crer nesses mesmos tantos diabos por, agora, centímetros cúbicos, ao mesmo tempo em que há os Saramagos e os psicólogos, mas, seja como for, são os jornais e os livros que nos dão conta das duas espécies de fé-enquanto-ensino, diante do que se poderia extrair a tese de que, vivêssemos nós mesmos naqueles tempos, poderíamos ouvir testemunhos de incredulidade a respeito de Jesus, e não incredulidade de sua eficácia salvífica, ou sua condição ontológica, mas de sua existência como judeu. E o fato é justamente esse: do que se diz no Novo Testamento, os enfretamentos todos que são aqueles textos, não se pode, justamente, depreender que houvesse testemunhos dessa natureza. Jesus de Nazaré, de Belém sei lá, na qualidade de homem judeu, existiu – é o que posso depreender do conjunto do Novo Testamento, assim como posso depreender que Senaqueribe existiu, pelo que posso ler dele em Reis e no seu próprio cilindro, divertindo-me que, enquanto Amós pinta os reis do Norte como déspotas que se sentam em tronos de marfim, e os Reis se calam sobre seus homônimos do sul, no quesito despotismo de marfim, Senaqueribe me conte que levou o trono de marfim de Ezequias, boníssimo, espiritualíssimo rei de Judá, é o que dizem...

 

Da existência de Jesus para a sua condição de messias dos judeus já é um salto complicadíssimo. Tanto assim que essa qualificação, que Dt 18, 21-22 credita ao povo, não ao profeta, na qualidade de hermeneuta da história, foi matéria controvertida em Israel, rachando aquela comunidade ao meio, como Marduk rasga ao meio Tiamat, fazendo das duas partes o mundo, o de cima, o de baixo.

 

Interessante observar: a tradição messiânica está lá. Digamos que ela seja histórica. Está bem, é multifacetada, multicolorida, mas está lá. Também está lá o personagem: Jesus. Está bem, hermeneuticamente multifacetado, multicolorido, mas está lá. Digamos que a esperança messiânica, principalmente na fornalha romana da Judéia, e a existência de Jesus, o judeu, são núcleos duros, que mesmo a tese da enjambrada relatividade ontológica das coisas não consegue dissolver legitimamente: não há relatividade ontológica das coisas. O que há é uma relatividade subjetiva das coisas. Nietzsche usava, pelo menos em A Gaia Ciência , o termo perspectivismo, apontando, corretamente, para os sujeitos. Talvez o termo relativismo tenha sido emprestado (a meu ver em sentido equivocadamente expresso) da física do início do século XX, tornando imprestável quer a História positivista que a antecede, quer a que a pretenda substituir, sob aquele signo.

 

Se, por um lado, lá estão os dois núcleos duros, as contas quem as fazem são os judeus, e seus professores são, uns calvinistas, outros, marxistas (acham que são de escolas diferentes, haha! [Helio, os royalties do haha! são seus]). Uns judeus olham Jesus e dizem sim. Outros, também olham, mas dizem não. Aí começa a briga interminável. O que vai se tornar cristianismo (que nunca existiu, o que existem até hoje são os cristianismos). Nasce sob o signo da discórdia hermenêutica, da inoperância da civilidade. Tudo bem, era cedo demais (será?). Mas hoje já é tarde, e cadê? Uns de um lado, com pau, e outros do outro, com pedras, encenam a Teogonia do Enuma elish, Tiamat rasgando-se a si mesma, desde o ventre, a partir de sua idéia mais querida, no meio das chamas. Como Edgar Morin já me ensinou que as idéias nos possuem como somente os demônios são capazes, estou pronto para dizer que a idéia messiânica é, ali, Marduk, rasgando Tiamat, fundando um judaísmo de dois mil anos, e um cristianismo com a mesma idade.

 

O mundo construído (e penso aqui no mesmo Bärä´ com que os sacerdotes construíram sua Teogonia em Gênesis, como o seu uso no Sl 102 me permite) pelo sim messiânico diante do judeu Jesus não vai ter qualquer dificuldade com Judas. Judas é traidor, sim senhor. O messias é tudo, menos Deus, que judeus são judeus até hoje, e em que pese a tentativa de fazer de João um Evangelho grego, ele está todo em Sabedoria e Eclesiástico, é só ir lá e ler. Na qualidade de messias judaico, reconhecido por uns judeus como tal, faz sentido a figura de um traidor. Não me refiro aqui à sua historicidade, que São Jorge tem espada e dragão, e não é histórico, e Judas nem isso tem, só a corda, mas até ela, como suas tripas, arrebentou. Refiro-me à idéia da traição. Faz sentido. Os Salmos todos (perdão, sou reconhecidamente hiperbólico) denunciam a presença dos traidores, os Salmos de Davi são uma ode a eles. Maldito o homem que confia no homem, aprendemos da memória judaica de milênios, e, se Deus vai agir ali, agora, entre eles, não será livre dessa maldição – o cenário humano é um tabuleiro, cujas peças movem-na Deus, de um lado, e o satan (logo, Satanás, entre o Antigo e o Novo Testamento, entre satan e Satanás, há os apócrifos, não nos esqueçamos, e, se esquecermos, nos perdemos), do outro, e Judas moveu-se no âmbito das casas da traição.

 

Esse Jesus, messias, feito de Nazaré, pintado de Belém, isso de Nazaré e de Belém são detalhes, importa que ele seja humano, encaixa-se perfeitamente na cena da traição. Não o outro.

 

Outro? Sim, o Jesus tornando-se divino, e, finalmente, o Jesus-Deus. Qualquer gesto hermenêutico mais ontológico, como o de João, transporta a questão da traição não mais para o homem Jesus de Nazaré, mas para o palácio celeste de Deus, onde habitam Deus e seu super-anjo (arianismo), ou Deus-Pai e Deus-Filho (Nicéia). Não é a traição em si, o escândalo. César teve o seu. Tiradentes teve o nosso. Aqueles judeus messiânicos, aderidos a Jesus, o deles. É a idéia, não, a idéia não, uma idéia de Deus que, trazida à luz, iluminando a cena da traição, deve resignificá-la. Somente onde uma noção determinista de Deus vai tomando conta das consciências, somente aí a traição é escândalo, e deve ser, e é, e foi, ultrapassada.

 

Há reverberações dessa pressão teológico-ontológica já desde os esboços canônicos do cristianismo emergente. A cena do pão molhado ao prato, o beijo, o Cristo sabe – veja: ali já é o Cristo. É a Hermenêutica, única forma de falar dos núcleos duros da História, se, além de descrever que houve núcleos duros, pretendemos dar-lhes o sentido, que a interminável sucessão irreversível dos acontecimentos universais, dentre eles, os humanos, não têm, naquilo que são em si mesmo, sentido, além daquele com que são apreendidos, e aí depende de como o sejam. É necessário que se distingam, sem isolar, fatos, núcleos duros, acontecimentos irreversíveis da história do Universo (Ilya Prigogine) e da História Universal, esses fatos, da interpretação desses fatos, e que, dada a distinção epistemológica e metodológica, hermenêutica eu diria, os dois sejam mantidos sobre a mesa, sem positivismos, sem banalidades relativistas espúrias, como denuncia Carlo Ginzburg em Relações de Força.

 

Mas foi somente com essas primeiras reverberações, quando os pais começam a contar para os filhos, os bispos, para os fiéis, os fiéis, para os infiéis, quando o assunto toma as ruas, as casas de vinho, as casas de mulheres, o mundo, e quando todos os mencionados em segundo lugar começam a perguntar, mas e Deus não sabia? Sim, sabia. E então? Não é que sabia, é mais do que isso: foi ele a mandar, e pronto, que Deus é assim, manda e pronto. Ah...

 

O manuscrito gnóstico encontrado e lido, lido e divulgado, a mídia tendo do que falar, que o povo vive é de novidade, Jesus é novidade hoje, vende até revista de divulgação científica! enquadra-se nessa dinâmica da mudança do olhar desde o Jesus judeu para o Cristo (quase) divino. A traição deve ser resignificada. É o que Jesus já sabia, quando quer, não quer, ir para a cruz, porque já sabe, e Pedro, ignorante, não sabe, e pretende pegar de espada e fazer e acontecer, coitado, quando, além de saber que é necessário morrer, sabe ainda mais, que o Pedro Dom Quixote vai tornar-se um filhote de Judas dali a pouco, mais um pouco e seriam necessárias duas cordas, tenho pra mim que Freud classificaria as duas categorias na mesma escala de distúrbios de consciência. Logo se vê, pelo menos eu, mas tem mais gente, que essa história é contada depois de pronta, e o Jesus que fala ali não é mais o Jesus judeu, mas a comunidade de fé – logo, comunidade de interpretação (aqui acho que recorro a Karl-Otto Apel, não na vinculação entre comunidade de fé e comunidade de interpretação, mas no recurso ao segundo termo). São muitas perguntas que a catequese tem de responder, e os núcleos duros não têm nada a falar, nascem sem língua, como os céus do Sl 19, e no entanto, também como aqueles céus daquele salmo, falam, não que eles mesmos falem, mas que nós os fazemos falar com nossa língua que, dado ser língua, é hermenêutica.

 

Tudo teria sido mais simples, mas é que logo os homens fizeram muitas perguntas. Bastava que se contasse uma primeira vez a história, e cada um fosse cuidar da vida. Mas nós somos seres interessados, e fazemos perguntas. Quando as fazemos, não são mais os núcleos duros, os acontecimentos irreversíveis da história do Universo (por que morreu, Prigogine?), que nos respondem as perguntas que fazemos, mas são nossos interlocutores, e isso a partir da defesa do mundo que construíram, mundo, como o nosso, hermenêutico, mas com a diferença de que são deles, e aprouve à Natureza (opa! ato falho romântico), aprouve a Deus criar-nos seres que se agarram ao que criam e descriam, porque comemos e matamos, criando, e criamos matando e comento, e nos agarramos à nossas construções, que vamos buscar dentro delas, já dentro delas, estão vendo? já  saímos do mundo, estamos agora apenas no nosso mundo, é mister vivermos no nosso mundo (como não?) conscientes de que nosso mundo é representação (Schopenhauer), vontade de poder (Nietzsche), o ser como ele se mostra (Heidegger), mas, acima de tudo, emergência do sistema-mundo (Edgar Morin), e, na qualidade de seres que se agarram, para devorar, e devorando, viver, vamos às últimas conseqüências das nossas idéias, vendidos a elas, também nós, por trinta moedas, as nossas trinta moedas.

 

Os gnósticos já estão dentro de um mundo que lhes construíram os primeiros judeus, depois, primeiros cristãos, logo, gregos e do mundo todo. Vivem nesse mundo teológico, melhor que o físico, nesse ponto têm, todos parecem ter, por pai Platão, como Paulo. De fato, os cristãos e os gnósticos, depois que deixaram de ser uma coisa só, naquele período multiforme, saem todos do mesmo útero filosófico daquele tempo, que insiste em querer, como aquele verme do último King Kong, fantástico, primeiro a cabeça, depois o resto, engolir-nos, anacronismo de um mundo, no tempo, a comer o outro, de outro tempo, mais ou menos como nós, brasileiros, que hoje temos por figura de sábia liderança política a idéia de um presidente, mas que ainda pensamos Deus como rei, como se ele o fosse, antes que os reis se construíssem construindo um Deus à sua imagem...

 

Deixo os gnósticos encarregados de seu mundo. Se me bater às mãos o seu manuscrito, terei algum prazer em o ler. Resguardar-me-ei, contudo, da tentação de, assumindo-o, “descobrir” quem foi Judas. Essa tentação já me rondou, acho mesmo, acho, não, tenho certeza, de que, um dia, capturou-me, à medida que era introduzido pelos meus catequistas na literatura canônica cristã. Deixaram-me ir estudar, e acabou-se o encanto. Prefiro achar que nesses textos, nos dos dois tipos, canônicos e não canônicos, flutuem, sustentados pela subjetividade hermenêutica da intencionalidade noológica, cada um a seu tempo e modo, seu próprio discurso, sua própria cosmovisão, sua própria autocompreensão. Tudo isso é muito inspirador, e penso mesmo que haja, neles, referências concretas a núcleos duros, logo, históricos na descrição, que históricos todos o são, na condição de discurso. De minha parte, contudo, tentarei manter-me lúcido, se isso for lucidez, e não apressar-me em tomar o que se diz das coisas pelas coisas mesmas, e não pelo fato de ser um manuscrito gnóstico, porque, para um cristão, o que é gnóstico é, logo, interditado. Mas pelo fato de ser discurso, como o meu o é, e cabe ao leitor, se houver, tomá-lo na condição em que ele, isso, sim, consciente, se apresenta: discurso hermenêutico sobre fatos irreversíveis da vida.

 

Vejo, então, sentados em torno de uma longa mesa, a interminável fila dos teólogos: aqui, kardecistas, ali, gnósticos, lá, cristãos. O que têm em comum é que habitam o mesmo planeta, e, contudo, vivem em mundos diferentes. Esses mundos diferentes, contudo, têm em comum os discursos que trocam, os núcleos duros, físicos ou noológicos. No caso de Judas, não é mais o próprio Judas que está em jogo, sua traição, sua história. O que está em jogo é o deus daqueles teólogos. Fazem as contas, e ela não fecha. A cena que Judas vai representar precisa ser reinterpretada. São muitos, muitos, ah, demais, os diretores...