Série Pragmática: IV – Pragmática Estética

Osvaldo Luiz Ribeiro

07/09/2007

 

Ah, quando sonhávamos que a Razão – criptodivina1 – constituía a marca distintiva do Homo sapiens sapiens. Breve sonho. Passou. Foi um leve delírio. Explica-se-lhe por um reflexo condicionado da teologia, que, cuidando ter olhos de Deus, teve-se-lhes arrancados por um Newton e sua Física, um Napoleão e sua Política, por um Estruturalismo e sua Filosofia. Uma espécie de contra-vingança infantil, que talvez Freud explicasse um dia. Já que um dia Deus virou Logos, chegara a hora, parecia, de o Logos tornar-se deusa (cf. por exemplo, Edgar Morin, La relación ántropo-bio-cósmica, Gazeta de Antropología, n. 11, 1995, § 1)..

 

É mesmo uma evidência bastante interessante de que sim, ainda que tateando – e na lama –, possa o Homo sapiens rearranjar sua cosmovisão e sua autocompreensão em face do real. Uma confusão onírica dos diabos instalou-se há cerca de duzentos anos, mais ou menos, mais aqui, menos ali, que se poderia resumir assim. Uns mantiveram-se agarrados ao deus-Deus. Desorbitados os olhos dele, seus oficiais meteram-se nos buracos, a fazerem-se olhos muito divinos, que em terra de cegos, quem é olho é rei. Outros, agastados com a sepultura de milênio e palmo e meio, coroaram deusa a Razão, e tornaram-se seus oficiais. Não foi de todo ruim, porque, afinal, ainda que com os delírios neoplatônicos de dois mil anos e meio palmo, olharam para baixo, e, mesmo à custa de muito falseamento, lograram, sim, aperceber-se muito legitimamente de certos aspectos perceptíveis do real. Não tanto a sua postura, mas o seu mito, eis o delírio da deusa-Razão. Finalmente, muito lentamente, ainda vai-se por aí ainda muito lentamente, alguns foram-se convencendo de que olhos-de-Deus não são boas coisas nem da Igreja nem no Laboratório, que se Deus tem olhos, e se há olhos de Deus, não são para nós. A nós, apenas olhos humanos, demasiadamente humanos.

 

Assim, parece – será? – em vias de extinção sistêmica a idéia-pretensão de que a Razão seja a característica fundamental da espécie humana. Ah, sim, ela é muito, muito importante para a espécie – como de resto a sua contra-parte biológica, a perceptibilidade, a apreensibilidade, a adaptabilidade biológica ao meio físico e ecossistêmico, o é para a vida de modo geral. Todos os domínios da vida – eubactéria, archaea e eukaria (e mesmo os vírus e os príons) desenvolvem-se a partir de instâncias heurísticas, tanto quanto desenvolvem-nas.

 

Não, a razão não é um brinquedo humano, salvo que nós aprendemos a brincar como ninguém mais. Também não é a política uma exclusividade humana. A política, contudo, não é tão universalmente biológica quanto a heurística, ainda que ela esteja encravada potencialmente também em toda a biosfera, tanto quanto potência, quanto como atualização.

 

É a estética a dimensão pragmática mais distintiva da espécie humana. A estética desabrocha desde a consciência de si, e floresce como sonho, imaginação, delírio, fantasia, projeção, poesia, metáfora. A própria linguagem, em um certo nível funcional constituindo um desdobramento da heurística e da política, transmuta-se em estética, quando desliga-se do mundo, e volta-se para dentro de si, si como o sujeito-linguagem que se expressa na e pela linguagem do sujeito.

 

Enquanto a heurística constitui o desdobramento da consciência sobre o mundo como coisa, como mundo, como  topos, como cenário, como si, enquanto a política desdobra-se sobre a comunidade humana tomada como sociosfera, como mundo da cultura e das expressões teleológicas da espécie, a estética desdobra-se para dentro do sujeito que a desdobra, ricocheteando no “mundo”, e voltando. O sujeito tomado como si mesmo está fora da consciência. A consciência é a plataforma que – inclusive – permite a emergência da consciência do sujeito como sujeito de si. Mas, para o fazer, deve o sujeito de si sair de si mesmo, e voltar, porque tal consciência de si emerge através da diferenciação entre o sujeito de si e o mundo das resistências externas. Sujeito de si e mundo são emergência inseparáveis – e tanto, que mesmo quando se pretende sozinho, olhando para seu próprio abismo interior, o sujeito de si obriga-se a, antes, sair de si, recolher o olhar, e voltar para dentro de si, através do movimento de retorno. Não há reclusão pura. Não há abertura pura. Só há abertura-reclusão e reclusão-abertura. Daí que toda experiência estética é, também e ao mesmo tempo, experiência de cultura.

 

Terei de voltar a isso mais detalhadamente. O nó górdio desse entroncamento é o par indissociável hermenêutica/pragmática. A consciência humana, desde que é, ab ovo, abertura e reclusão (uma vez que o sujeito humano é um sistema complexo adaptativo aberto), enquanto abertura ela se sujeita, de um lado, a sofrer os estímulos e as resistências da fisicosfera (da “natureza”), e, de outro lado, a reagir sobre e contra ela. Daquele par, a face hermenêutica cuida de tratar os estímulos e, com eles, permitir à consciência a construção – representação – do mapa mental (cosmovisão e autocompreensão inextricáveis). Por sua vez, a face pragmática cuida de determinar o filtro teleológico através do qual o sujeito de si age sobre e contra o mundo. Uma vez que a hermenêutica constrói-se por meio da pragmática e a pragmática constrói-se por meio da hermenêutica, a distinção é apenas relativa e didática, porque, a rigor, as duas faces, malgrado sua especificidade funcional, encarregam-se de, ao mesmo tempo, a) permitir a consciência do sujeito de si, tanto quanto esta lhes faculta a emergência, b) receber e tratar os estímulos externos, convertendo-os, em modelos funcionais de movimentação ecossistêmica, e c) agir sobre o real, com base no mapa mental criado.

 

Assim, mesmo a estética não constitui um capricho da alma. Ela consiste na dimensão recursiva do sujeito de si sobre si, através do retorno desde fora de si, logo, hermenêutico e pragmática, para gozo e fruição de si como si. A estética é a exaltação do prazer como prazer, mais do que do belo como belo.

 

A estética é o encontro do sujeito de si com o próprio sujeito de si. Mas tal encontro não se dá do mesmo consigo mesmo, mas do sujeito de si com sua auto-representação cultural e existencial. Sujeito de si como processo encontrando-se com sujeito de si como conteúdo. Sujeito de si como foro interior da consciência com a hipóstase psicológica de si, materializada fora de si, provisoriamente, em egofanias quase-sagradas. É tanto a identificação de si, fora de si, quanto a projeção de si fora de si. Não é conhecimento de si, é gozo de si. Não é relação consigo mesmo – diálogo interior – mas contemplação de si num outro si, que é o mesmo, mas é outro, posto que mediado desde fora de si. Para que eu me contemple, tenho que sair de mim, materializar-me em gozo fora de mim, e retornar, luminoso – iluminado? – para dentro de mim. Mas, então, já sou como que outro, conquanto, ainda, o mesmo. A estética é a solidão escancarada da alma. Solidão não (só) do mundo. Solidão não (só) do outro. Solidão de si mesmo.

 

Que, contudo, não é defeito. Não é falha. É fator constitutivo, determinante – sine qua non. A consciência é ruptura – do sujeito de si com o mundo. A consciência é esse ruptura. Emerge dessa ruptura. Se a ruptura for, digamos, corrigida, a consciência dissolve-se. A inexorável condição da consciência é a solidão ineludível do sujeito de si.

 

Solidão, contudo, que se expressa em pulsão de gozo de si, da companhia de si. A estética se aproxima da suspeita do sujeito de si quanto a si mesmo. Mediada pelo mundo, pelo fora de si, a suspeita converge em busca. Na estética, o sujeito de si busca, inalcansavelmente, a si mesmo. Não pode alcançar-se. Não pode, contudo, conter a busca. Porque tudo e todos podem ser tocados – inclusive o corpo do sujeito de si. Mas esse corpo não sou eu. Ele é meu corpo. Eu grito nele, dele, por ele, para ele, contra ele e a favor dele. Mas ele não sou eu. Eu – o sujeito de si – tateia-se, e nunca se acha. O outro está disponível. O mundo está disponível. Si mesmo, como outro, está disponível. Mas o sujeito de si, como sujeito de si, nunca está disponível. E é ele quem se busca a si mesmo. É ele que faz de tudo e de todos escada estética, atrás de alcançar-se a si mesmo nas alturas do êxtase e do gozo.

 

Perder-se, em gozo, contudo, é apagar a luz. Aí, a ruptura radical da existência humana, da consciência humana, da hermenêutica/pragmática humana, é momentaneamente superada, por sublimação. O sujeito de si não dispõe da capacidade de produzir, ele mesmo, tal estado de sublimação da ruptura, que, a rigor, jamais acontece. Trata-se, aí, de uma experiência psicológica profunda, que, contudo, permanece sob controle da consciência. Há sempre um eu observando o sujeito de si, ainda quando ele se encontra em arroubos extáticos de gozo estético. A saudade é a marca da consciência estética. E a busca, a sua sina.

 

Uma vez que o sujeito de si projeta-se hermeneuticamente sobre o real, mais do que como um véu, como uma alma, o real encontra-se carregado do sujeito de si. A carga dá-se, naturalmente, no âmbito noológico das representações funcionais/instrumentais, que o sujeito de si elabora, para nelas e com elas viver e mover-se no e como que no real. A fortiori, então, quanto mais o sujeito de si investe sobre o real, mais encontra-se plasmado ali, já que a interface de aprofundamento até as estranhas do real é, sempre, o mito-representação, a hipótese de trabalho, a noosfera, carregada, invariavelmente, da alma humana.

 

É por isso, então, que a estética constitui-se de uma pragmática muito peculiar do ser humano, porque a capacidade de representação noológica da consciência é uma peculiaridade – até onde se cogita – humana. Não significa que o sujeito de si não possa investir sobre o real sensível num recorte teleologicamente heurístico-pragmática, como se toda experiência do sujeito de si com o real fosse, afinal, encontro de si consigo mesmo. Absolutamente. A construção de aceleradores de partículas, a prospecção de petróleo em águas profundas, o envio de sondas espaciais a planetas, satélites e cometas, a previsão de eclipses solares e lunares, bem como de alinhamentos planetários, a previsão do clima, cada vez mais aperfeiçoada, o controle das energias elétrica, eólica, solar, térmica, estática, nuclear, fóssil, o transplante de órgãos, a Internet e os celulares, quantas coisas mais poderiam ser escritas?, demonstram de forma inequívoca – para quem deseja ver, já que há pragmáticos que se recusam a tanto – que a espécie humana superou em todos os sentidos todas as demais espécies vivas e quase-vivas (os vírus?), e, contudo, naquilo que todas têm em comum: a necessidade e a capacidade de mapearem heuristicamente (funcionalmente, instrumentalmente) seu ecossistema físico.

 

Essa capacidade responde pela emergência da pragmática heurística, e não interdita – pelo contrário – nem inviabiliza – muito menos – a experiência estético-pragmática. Todos os veículos de investigação heurísticas podem, conforme o caso, funcionarem como veículos de pragmática estética. E política. Porque não é o que se faz, o ato bruto, o movimento das mãos, dos olhos, dos pés, dos músculos, o passo, a palavra, que determina a pragmática. É a intenção – a alma – do gesto. ´E a forma como o sujeito de si sai de si, intencionalmente, sobre o real. É essa razão teleológica o elemento fundamental e determinante da pragmática.

 

Por meio dessa intuição-proposição, dada a sua eventual validade heurística (pretendida), tudo que se faz pode ser feito ou esteticamente, ou heuristicamente, ou politicamente. E não se trata de estudar a coisa, mas de a fazer. Porque estudar a coisa já é o recorte específico da pragmática heurística. Por exemplo. O sexo. É estética: êxtase? É política: encontro? É heurística: aprendizado? Pode-se responder: sexo é tudo isso. E deve-se, nesse caso, responder: sim e não.

 

Sim, sexo é tudo isso. Sexo é estética. Sexo é política. Sexo é heurística. Mas enquanto potência. Sexo pode ser estético. Sexo pode ser político. Sexo pode ser heurístico. Quando faz-se sexo, contudo, ali, concretamente, enquanto o sexo é feito, ou ele é estético, ou é político, ou é heurístico, pragmatica_esteticamente falando. Se o sexo é feito como experiência de êxtase fisiológico, quando o que se busca é o gozo pessoal – para o que se precisa, nesse caso, do ou da parceira (e cada vez em mais múltiplas possibilidades correlativas), quando o que se deseja é a satisfação de necessidades biológico-fisiológicas, químico-hormonais, psicológico-noológicas, quando essa é a intenção, o sexo encena-se no palco da pragmática estética. O parceiro ou a parceira é, aí, apenas instrumento fora do sujeito de si para o gozo estético de si e por si. Não se trata, aí, do encontro de duas pessoas, de dois sujeitos, mas do encontro entre um sujeito de si e um corpo, que, a despeito de ser corpo de outro sujeito de si, aí é tomado na condição de – apenas – corpo: carne, a suculenta carne do corpo. E a evidência – chego a dizer, “prova”? – de que uma tal pragmática é possível traduz-se no fato de que a prostituição, o pagamento pelo corpo alheio como veículo de experiência estético-lúdica, é milenar, modelo perfeito de ilustração do uso estético da política. Não é verdade que apenas a subcondição humana – econômica e cultural – propicie a prostituição. Por outro lado, tais circunstâncias civilizatórias foram, desde muito, muito cedo, percebidas como um veículo facultador e promotor da estetização política do sexo. Eis a dinâmica: a) a pulsão erótico-estética transborda em desejo pelos poros do sujeito de si (dimensão estética da satisfação bioquímica hipostasiada psiconoologicamente na forma de prazer); b) a infra-estrutura histórico-social enquadra o corpo de outros sujeitos de si, no jogo da sobrevivência, no esquema de disponibilidade comercial (teleologicamente não-subjetivo – o que se vende é o corpo [e a que preço?]); c) a pulsão estético-lúdica do prazer erótico serve-se da política, a disponibilizada do corpo alheio, para sua satisfação. A isso chama-se, aqui, uso estético da política. E há usos políticos da estética. Na religião, por exemplo.

 

O sexo pode, por outro lado, constituir-se numa pragmática heurística. Não me refiro, aqui, ao sexo tomado como objeto de estudo abstrativo-intelectual: ler livros de fisiologia sexual, por exemplo. Falo de aprender a fazer, fazendo, enquanto faz. As duas modalidades são expressões heurísticas, cada qual num recorte peculiar. Obviamente, ambas são necessárias. O Relatório Delors, da UNESCO, fala da necessidade de aprender a aprender e de aprender a fazer. Quando o sexo, eventualmente, portanto, enquanto acontece, é utilizado para o aprimoramento da própria performance (seja da consciência dos movimentos do próprio corpo, seja das reações do outro corpo como resposta àqueles), ele acontece heurístico-pragmatica_esteticamente. Quando os dois parceiros – quaisquer que sejam – concentram-se em aprender de si e do outro, enquanto se conhecem intimamente, se a intenção específica, se o objetivo imediato, é esse, o conhecimento do funcionamento do próprio corpo e do corpo do outro, então esse ato é, para além de um encontro de amor (política) ou de gozo pessoal (estética), um encontro de abertura ao real, de atenção às resistências concretas, físicas, biológicas, do ecossistema imediato, de si, do parceiro, do próprio corpo, do corpo da/o parceira/o – numa palavra, um encontro de aprendizado. Sexo é, por isso, também possivelmente heurístico, como tudo quanto o homem faz e venha a fazer.

 

E, finalmente, sexo é, também, uma experiência política. Quando? Quando se trata de abertura de um sujeito de si até outro sujeito de si, através dos corpos de cada um dos sujeitos. Um senhor de escravos, que subjuga a negra, e lhe impõe, à força, coito, pode parecer um exemplo de sexo como política. Mas eu penso que não. O exemplo terrível – mas histórico – do estupro (física ou psicologicamente) violento da escrava pelo senhor é mais um caso, como o da prostituição, de sexo como estética, alcançado por meio da política: ou a pobreza, que prostitui, ou a escravidão, que submete.

 

A pragmática política do sexo, não. Para constituir-se como política, deve o sexo pressupor-se como encontro de dois sujeitos de si, adultos (sim, o conceito é cultural e relativo. Eventualmente, por força do processo civilizatório, tornar-se-á culturalmente planetário, chegando a constituir um valor universal. Ainda assim, cultural e relativo), autônomos (conceito bio-antropológico e político-ideológico) e concordes. Está em jogo, aí, e agora, a satisfação erótica de ambos, em cooperação com a satisfação erótica do outro. É jogo. O prazer do outro é meu jogo. O meu prazer, o jogo dela. O meu prazer, é meu jogo. O dela, o jogo dela. A consciência do jogo, e a intenção de servir o outro e servir-se do outro, constitui a dinâmica do sexo como pragmática política. Quando meu admirável Nietzsche resmunga contra o casamento por amor, é contra essa dinâmica sexual que ele se insurge – saberia disso? Porque só pode haver essa liberdade e essa fragilidade, onde há relação entre iguais. O casamento, na história, apenas faz pouco tempo, quase dias, em que se descobriu relação entre iguais e livres. Até ontem, até agora há dois minutos, a mulher era – como Nietzsche reconhece – mercadoria. Aí ela não era sequer mulher. Era uns braços, mãos e pés, e uma vagina. Corpo e espaço vazio. Para que desse corpo e espaço vazio emerja a mulher que ele carrega, e que ele é, é necessário o reconhecimento político dessa mulher.

 

Com o que – na hipótese de meus leitores brindarem-me com a consideração do risco da verdade – resulta ingenuidade considerar-se que a estética é boa, e a política, ruim. Nada é bom. Nada é ruim. Tudo por der bom. Tudo por ser ruim. Façamos a coisa, e, então, poderemos dizer se ela é/foi boa ou ruim. Uma estética que não subsume o outro a si e eventualmente boa. Uma estética – a de um serial killer, por exemplo – que subsume a si o ser de outro sujeito de si, é fatalmente má (sob a ótica política). Não é apenas verdade que as pragmáticas não têm “moral” ou “ética” em si mesmas, mas dependem da atualização política da ética atualizada para evidenciarem-se, politicamente, boas ou más. A relação é frágil, difícil, e não pode ser tratada senão com todos os elementos sobre a mesa. Além disso, também não é verdade que possa haver uma “ética” estética, ou uma “ética” heurística. Pode haver, sim, uma estética da ética, e uma heurística da ética. Mas a “ética”, enquanto juízo e critério, é, sempre, política.

 

No que diz respeito à estética propriamente dita, penso estar em vias de afirmar que a experiência religiosa fundamental é dessa categoria. Não me distancio de Mircea Eliade, quando ele afirma, numa espécie de resumo (magistral eu diria) de sua obra histórico-fenomenológica, que a experiência do sagrado é uma estrutura da consciência, e não um estágio na história da consciência (Origens, p. 10). Eu apenas especificaria que se trata de uma dimensão muito particular da consciência – a pragmática estética, ou seja, a dimensão da consciência que se projeta para fora de si, para, desde aí, retornar sobre si, teleologicamente, para, somente, olhar-se e fruir-se de si mesma. Não há conteúdos originais aí. Apenas estrutura e processo potenciais. Os conteúdos, históricos, tornam-se tradicionais, e contaminam constitutivamente as experiências posteriores, tanto desse sujeito, quanto de seus descendentes, quanto dos povos e das civilizações que deles descendem.

 

É difícil imaginar as experiências estéticas primárias – historicamente originais. Talvez só se possam concebê-las concomitantemente à própria cultura, e a disponibilização de conteúdos de ostentação hermenêutico-pragmática. Um bebê humano não pode fazer arte. Uma criança, nos primórdios de sua iniciação cultural, já pode.

 

Por isso penso que a religião seja uma experiência de sentido, cujos conteúdos nada mais possuam que a criatividade psicológica de sujeitos de si ecologicamente situados, e também por meio desse ecossistema, já que toda experiência humana é facultada pela consciência situada – mente e meio, a mente em um meio.

 

Seria melhor dizer “experiência do sagrado” como experiência estética do que “religião” – e com isso corrijo a afirmação anterior, mantendo-a, contudo, para, por meio dela, afunilar o olhar do leitor até a presente distinção. A experiência “religiosa” original foi uma experiência do sagrado, tornada religiosa, pela e na cultura, quando socializada e desenvolvida. Toda experiência religiosa é uma experiência do sagrado, mas nem toda experiência do sagrado é uma experiência religiosa. A experiência do sagrado, como estrutura funcional da consciência, entende-se pelo fato de que o sujeito de si, como sistema complexo adaptativo aberto, é centro de seu mundo. O encontro estético do sujeito de si consigo mesmo (mediado pelo ato recursivo da consciência de sair de si, e retornar até si, ricocheteando no mundo sensível, ou por meio da abstração noológica cultural, sublimação do meio como a quintessência do próprio meio, e, assim, carregando-se da mediação externa [não há encontro do sujeito de si consigo mesmo senão por meio da projeção estética de si no “mundo”]), repito, o encontro estético do sujeito de si consigo mesmo como centro do mundo é o protótipo da hipóstase do Sagrado como centro do mundo. Marx não estava de todo certo (ainda que, em certo sentido, sim) em criticar Feuerbach por seu “idealismo”. A projeção não é um defeito da consciência, forçado por subcondições humanas, político-economicamente deploráveis, alienantes. Sim, religião pode converter-se em ópio (mas também em espada!), mas a projeção do sujeito de si responde à estrutura estética da consciência humana. O “idealismo” de Feuerbach tem um fundamento – sabia-o ele? – biológico.

 

Por outro lado, Marx está certo ao afirmar que a religião, assumindo como verdade um mito – a projeção é estrutural, mas o conteúdo, é cultural, é mito –, serve a políticas de controle e manipulação, e isso independentemente de uma intenção opressiva. A religião, quando converte-se em nível de realidade, aliena. Mesmo uma teologia que se reconhece moderna, ainda funciona no diapasão perfeito desse acerto da crítica de Marx – é alienação: desconhece que é mito o mito que é.

 

Centro de seu mundo, sistema aberto num ecossistema recursivo, o sujeito de si vive do sistema, que vive dele, vive no sistema, que vive nele, a experiência estética encontra o sujeito de si como sentido desse mundo – e goza-se como sentido desse mundo. Por isso o belo põe-se como centro do mundo, numa fulguração epifânica – porque, num momento, o belo é a projeção da consciência de si para fora se si, aí ricocheteando para voltar-se sobre si mesma. O sujeito de si torna-se o objeto estético, o objeto estético torna-se o sujeito de si, para superar, por um milésimo de segundo, a solidão inescapável da consciência humana. O Feitiço de Áquila.

 

Finalmente, uma observação sobre “objetos de arte”. Sobre “ate”, de modo geral. Não é incomum que eu receba confrontações quanto ao fato de aplicar analise do discurso a poesias da Bíblia Hebraica, a fim de lhes denunciar a má intenção política. A crítica que recebo é: mas professor, isso é poesia. E eu respondo. Sim, como o Hino Nacional Brasileiro e La Marseillaise.

 

Poesia é estética enquanto estado de alma. Mas é política, quando instrumento de ideologia. Um Hino Nacional é antes política do que estética, é antes ideologia, do que arte. Diria: uso político da estética, uso ideológico da arte. Com o que nada mais faço do que concordar com o que Nietzsche já disse sobre o fundamento mítico do Estado.

 

O objeto de arte é objeto estético quando assumido por uma experiência estética humana. O objeto em si não é estético. Nada há nele, que seja estético. É a experiência humana, a intencionalidade humana, a pragmática humana, que o torna estético, e o recebe como tal – a dizer: como “tela” para a projeção do sujeito de si em encontro intermediado consigo mesmo. A consciência intermedia o encontro do sujeito de si com sua projeção. Intermedia por meio do objeto estético – que se torna estético apenas nessa e por meio dessa experiência hermenêutico-pragmática.

 

O objeto de arte é objeto político, quando assumido numa pragmática política. Como os murais do palácio de Senaqueribe – belíssimos. Como o Templo de Ramsés II e seus colossos de pedra esculpida. Como a Estátua da Liberdade. Como a Capela Sistina. Aí, os fieis, os súditos, os cidadãos podem experimentais excitações estéticas, desde que, todas, muito conformes a mensagem muito clara que tais “obras” anunciam. Sim, é verdade: se o contexto político se dissolve, a “obra” política pode converter-se em “arte”. Ramsés II não possui mais súditos entre nós, e os colossos fornecem excelentes fotografias para cidadãos do mundo em férias.

 

O objeto de arte pode tornar-se objeto heurístico, quando assumido em pragmática heurística. Um modo de o dizer bastante comovente é o caso de El Greco e Ticiano. El Greco “converteu-se” ao catolicismo para poder pintar em perspectiva. Foi estudar pintura com Ticiano, grande mestre renascentista. El Greco, um dia, quis saber quando estaria pronto. E a resposta e o que nos interessa aqui: quando observar um erro meu, El Greco, e quando achar que poderia ter feito melhor. Ah, sim, enfim chegou o dia de El Greco deixar o atelier de seu mestre. Porque também fazer arte se aprende.

 

Notas

 

1. " J - No final do século XVIII, durante a Revolução Francesa, a razão foi aclamada como deusa. P - Sem duvida" (Martin HEIDEGGER, De uma conversa sobre a linguagem entre um japonês e um pensador, em Martin HEIDEGGER, A Caminho da Linguagem. Petrópolis: Vozes, Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2003. p. 84.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

página atualizada em 09/09/2007 16:49:50