Série Pragmática

I – Pragmática

Osvaldo Luiz Ribeiro

25/04/2007

 

O hábito de definir grandezas, quaisquer que sejam – coisas, conceitos, seres etc. – tem-se desenvolvido alheio à questão do “jogo” sócio-antropológico envolvido. Quando se pensa no sentido de uma frase, por exemplo, pensa-se, algumas vezes, no sentido “da própria frase”, como se uma frase qualquer tivesse seu próprio sentido. Um pouco mais enriquecida, mas ainda insuficiente, é a pergunta pelo contexto gerador da frase, como se a ligação de uma frase ao seu contexto gerativo fosse suficiente para depreender-se, do conjunto, o sentido com que a frase foi plasmada.

 

A primeira abordagem que se descreveu, aquela em que se busca um sentido para a própria frase, um sentido da própria frase, é paupérrima, além de improcedente. Esse tipo de abordagem chega, no máximo, se honestamente desenvolvida, a um conjunto de possibilidades de sentido, um conjunto n, tanto maior quanto a criatividade do jogador. Nesse caso, uma frase qualquer tem a característica de um verbete de dicionário – pode tornar-se muitas coisas, mas, ali, enquanto verbete, é uma potência, uma abertura, uma peça. Nenhuma frase é portadora de sentido fechado e atualizado. Toda frase, escrita, é pura latente polissemia.

 

A segunda abordagem ainda é pobre, ainda que menos, mais complexa, mas não, ainda, o suficiente. Ela se enriquece, na medida em que reconhece que a atualização de uma frase depende do ator humano, seja ele, de um lado, o autor, enquanto pressuposto, ou o leitor, enquanto agente da leitura. Seja tirado o ator humano, e uma frase deixa de existir, seja fisicamente, posto que frases não se auto-escrevem, seja noologicamente, porque aquela frase passará a eternidade num limbo de possibilidades polissêmicas jamais atualizadas na clausura de uma leitura. Mas ela ainda é pobre, porque ainda desconhece que os atores humanos não encenam, sempre, a mesma peça, não jogam, sempre, os mesmos jogos, e que, por conta disso, para muito além da simples relação indissociável entre ator-jogador e jogo-texto, há a relação intransponível entre ator e jogo.

 

“Jogo”, aqui, significa a dimensão teleológica das atitudes operativas do sujeito em face de sua vida. A vida humana desenvolve-se em atos constitutivos, procedidos a partir de atitudes fundamentais, metamorfoseadas desde intenções, operações teleológicas, que se constituem em pragmáticas. Assim, o sentido de uma frase qualquer depende não apenas do ator que a opera, mas, ainda mais, da pragmática em que o ator opera a frase. E tanto que não há frase atualizada sem ator que a opere, tanto quanto não há, absolutamente, ator que opera para além de uma pragmática fundante. Todo ato humano dá-se, inexoravelmente, numa pragmática fundante. Toda escritura e toda leitura, portanto, como ações de atores humanos, deixam-se carregar, sem que pudessem fugir a tal destino, da respectiva pragmática em que opera o sujeito.

 

Parece serem três as pragmáticas, o que significa dizer que toda e qualquer ação humana, toda e qualquer atitude humana, toda e qualquer intenção humana pode ser classificada numa das três. Seriam – as pragmáticas: a) política, b) estética e c) heurística.

 

A pragmática política é aquela em que sujeitos operam inter-relações com outros sujeitos. Tais inter-relações são expressões das faculdades volitivas da estrutura hermenêutica constitutiva do sujeito, desdobradas em espaços sociais que, por sua vez, são manejados por estruturas político-sociais objetivamente determinadas. A pragmática política insere o sujeito que sente, pensa e age, que nutre atitudes e idéias, num jogo inter-relacional de amplo espectro. Ela insere-se, obviamente, na cultura, mas é pré-cultural. É, mesmo, biológica, no sentido que resulta da pulsão de sobrevivência – caçar, comer, lutar, defender-se, fugir. É porque os sujeitos-atores do jogo pragmático são seres constitutivamente biopsicológicos que pode a pragmática política desdobrar-se culturalmente. Decorre dessa relação entre a faculdade biopsicológica do sujeito e sua respectiva cultura circunstancial uma arte, que consiste em manipular os elementos da cultura – mitos, ritos, tabus, costumes, leis – em função de sua própria intenção. A pragmática política é, portanto, o palco cultural operativo dos programas teleológicos do sujeito, em face dos outros sujeitos.

 

Destacam-se no campo da pragmática política o conceito de “vontade de poder”. O que não significa que a pragmática política seja, necessariamente, a expressão do poder sobre o outro. O pacifismo radical é jogo jogado na pragmática política, tanto quanto as guerras tribais africanas, ou as guerrilhas urbanas das favelas cariocas. Não é a força exercida sobre o outro que caracteriza a pragmática política, mas a simples direção de um pensamento, uma atitude, um ato de um em face do outro. A frase evangélica “fazer ao outro o que se quer para si” é fruto de uma pragmática política – viver e deixar viver, não, mais do que isso, pró-agir em face do bem-estar do outro, como penhora de meu próprio bem-estar.

 

A pragmática política não está restrita à “política”. Todo exercício político é de pragmática política, mas nem toda pragmática política é, necessariamente, “política”. A relação entre pais e filhos, a relação entre amigos, entre amantes, entre profissionais, entre religiosos, entre transeuntes – todas elas, e cada uma, são operadas em jogo de pragmática política. Naturalmente que as peças a serem movidas, as casas em que as peças podem ocupar em cada lance, as peças privilegiadas, de longos movimentos poderosos, as mínimas, as regras, portanto, gerais e específicas, da atualização cultural dessa pragmática são, naturalmente, por isso mesmo, culturais. Aqui, a mulher pode constituir-se propriedade do marido, ali, não. Cá e lá, temos casos de pragmática política, que não se define pelo jeito como as coisas são, mas pelo fato de que as coisas são sempre em relações interpessoais, e, sempre, mediadas pelo “poder”. Exercer o poder sobre, restringir o poder sobre, submeter-se a, sublevar-se contra – são todos intencionais humanos, recortes atualizados de pragmática política.

 

Minha opinião pessoal é que o Estado de Direito, em que pese sua montanha de defeitos – a insuficiência ética da democracia, as extrapolações do poder constituído, o beneficiamento das titulações de cargos públicos, a corrupção endêmica, a concentração de riqueza, o desinteresse pelo pobre e fraco, a bajulação do poder e da riqueza –, ainda me parece, à luz do conjunto dos valores e das condições operativas práticas desses valores, o melhor modelo dentre aqueles que se afiguram no Planeta. O modelo familiar ocidental, e refiro-me àquele em que homem e mulher representam dignidades pessoais co-equivalentes, sem distinção de qualquer espécie que não aquelas própria e legitimamente psicobiológicas, afigura-se-me o mais adequado, quando pensado na condição de pragmática política, uma vez que concebe, culturalmente, um jogo em que dois seres-humanos plenos de dignidade pessoal exercem sua autonomia e sua sexualidade em cumplicidade equânime. O que se poderia chamar de “a religião do Ocidente”, o Cristianismo, contudo, não poderia defendê-lo como o melhor modelo, porque, lamentavelmente, construiu-se pela pragmática do sobredeterminar-se, de modo que todo cristão carrega em si o roteiro de um jogo em que todos os seus movimentos, não obstante as noologias discursivas do amor, são desdobrados em atos teleológicos em direção ao “império” de Jesus Cristo, à “marcha” sobre o mundo, à “conquista” do Planeta. Concedo, há exceções. Louváveis. E são o que são – exceções louváveis. O rasgo fundamental do Cristianismo, contudo, tem sido a proliferação de sua noologia e a multiplicação de seus esporos sobre o mundo. É uma pragmática estruturalmente similar a todos os movimentos totalitários da História, dos quais o Cristianismo não é necessariamente nem pai nem filho, mas modelo comparativo.

 

A pragmática política não pode ser descartada. Não está na mão dos atores decidirem-se por nunca mais jogarem o jogo político. Ingenuidade ou demagogia, a tentativa. O que pode ser feito é o esvaziamento da vontade de poder sobre o outro. O que pode acontecer é a aplicação da ética relacional a todas as ações humanas – o que, efetivamente, só pode ser operado pelo próprio sujeito. O Estado de Direito pode estabelecer mecanismos de punição para aquele ator que infrinja as regras sócio-democráticas estabelecidas. Mas não pode controlar a intenção fundante dos cidadãos. Um país necessita, conseqüentemente, de um eficiente sistema de educação de longo, tanto quanto um sistema policial, cuja função precípua seria, em princípio, a proteção dos cidadãos que, abrindo mão de sua própria vontade de poder sobre o outro, decidem, autonomamente, a viver em relação civilizada, de direitos e deveres, de responsabilidades e privilégios, mutuamente compartilhados, divididos e assumidos por todos os membros da sociedade.

 

Outra é a pragmática estética. Ela poderia ser descrita como o palco operativo da relação do sujeito consigo mesmo. Enquanto a pragmática política consiste no tabuleiro – e no próprio jogo – das relações inter-pessoais, sociais, culturais, a pragmática estética é a relação do sujeito com sua própria subjetividade. Para o que é necessário um “espelho” – uma obra de arte, um texto, uma flor, uma árvore, uma idéia, uma coisa qualquer. Bem observado – não se trata da análise objetiva da coisa – da obra de arte, do texto, da flor, da árvore, da idéia. Isso seria, e é, jogo de outro jogo. Trata-se, no caso da pragmática estética, e para tratar-se, realmente, de pragmática estética, apenas e tão-somente da fruição da coisa enquanto espelho do sujeito. Nessa pragmática, o sujeito projeta-se a si mesmo na “coisa”, e retorna a si mesmo, por meio da experiência estética, o que traduz-se numa experiência de autoconhecimento, ou de autovelamento.

 

A pragmática estética é um jogo muito humano. Deriva das faculdades de imaginação e sonho, de fantasia e de mito, próprias do desenvolvimento histórico-biológico da espécie humana. Quando Edgar Morin escreve que “o fim da poesia é o de nos colocar em estado poético” (Amor, Poesia, Sabedoria, p. 43), descreve na forma de estado aquilo que se pode descrever como pragmática ou jogo. Mas é mais profundo, porque a pragmática estética, o jogo estético, só é possível porque há um estado estético – ou poético. Quando eu me voltei para o outro, eu pude ou coisificá-lo ou humanizá-lo, porque a pragmática política não é ética, mas apenas o palco das operações entre sujeitos. Quando eu me voltei para mim mesmo, troquei de palco, e opero, agora, desde as minhas mais profundas faculdades estético-poéticas. Nos dois casos, é tanto a faculdade biopsicológica quem opera as possibilidades do respectivo jogo, quanto o jogo cultural, transcorrendo, co-determina as atualizações práxicas daquelas faculdades. A operação pragmática humana é recursiva, é complexa.

 

A instrumentalização estética de um texto não é a instrumentalização do sentido do texto. Labora-se em equívoco, aqui, quando se cogita da possibilidade de haver um sentido do próprio texto. O sentido está, sempre, de posse do agente operador do texto, seja o leitor, dadas as pragmáticas política ou estética, seja, em última análise, e em tese, metodologicamente falando, o autor, dada a pragmática heurística. O texto mesmo, dito “em-si”, aparece apenas como ser-no-mundo, ele mesmo mundo de possibilidades, que, contudo, nascimortas, demandam, desesperadas, as operações pragmáticas de sujeitos históricos concretos e reais – sine qua non...

 

São casos de pragmática estética a literatura, num recorte conscientemente estético, desde onde, por exemplo, se retiraria a História da Arte, a devoção religiosa, mas não a “teologia profissional”, a audição musical como fruição, mas não a de mercado, o turismo de entretenimento. Em tais jogos, a intenção – e é a intenção do jogador a derradeira testemunha da pragmática, ainda que ela não esteja dissociada rigorosamente do contexto pragmático em si – do sujeito é, definindo-se por meio de sinônimos, gozar, fruir, desfrutar, deliciar-se com. De certa forma, o consumismo não deixa de ser uma forma, talvez patológica, mas, ainda assim, uma forma de pragmática estética. Se são mecanismos não-estéticos que operam as compulsões do sujeito consumista, essa é outra questão, mas revelar-se a si, satisfazer-se a si, por meio de consumo, e isso para além das necessidades da conveniência cultural, talvez represente, afinal, uma doença estético-cultural.

 

A devoção religiosa, por exemplo, não se traduz pela submissão a um credo normativo, ainda que, acima da experiência devocional, o credo normativo, de recorte político-pragmático, paire absoluto. Mas ali, na e durante a devoção, o fiel ou crente relaciona-se consigo mesmo, em face de sua relação mística com sua noção de sagrado, mediação compreensível para aquele que o próprio fiel ou crente toma pelo próprio sagrado. É estética a pragmática, porque o sujeito projeta-se a si mesmo em direção ao sagrado concebido, utilizando-se da mediação ritual – o texto, a imagem, o rosário, o jejum e mais tantas coisas. Não se está, nesse momento, interessado no que terá dito Isaías, ou se São Jorge existiu, ou em que sentido ele e Ogum são a mesma pessoa. Tão pouco está-se, aí, interessado no que determinado Concílio teria dito a respeito dessa passagem, ou na adequada definição do uso litúrgico da imagem. O que o devoto quer fazer – e faz – é abrir-se em direção a si mesmo, e derramar-se em gozo estético, ou choro estético, diante de seu deus. E mais: ainda que Feuerbach esteja rigorosamente correto, em termos heurístico-pragmáticos, quanto ao estatuto epistemológico-noológico desse deus como projeção antropológica – qualquer que seja ele (o que torna imoral qualquer instrumentalização político-pragmática da teologia, inclusive a eclesiástica) – o devoto não deve, necessariamente, a Feuerbach qualquer satisfação de sua práxis mística. Sua pragmática é estética. Enquanto e se permanece (apenas) estética, não há que se medir sua procedência, senão enquanto ato do teatro estético.

 

Um desdobramento parcial da questão pragmática apresenta-se na pergunta pela possibilidade de conjunção pragmática. Uma ação humana pode ser, ao mesmo tempo, estética e política, por exemplo? Num certo sentido, sim. Igualmente, num certo sentido, não. Dificilmente haverá atos humanos puros, pragmaticamente falando. Contudo, talvez se deva assumir que sempre haverá uma preponderância pragmática, o que terminará por definir aquela ação segundo essa pragmática sobredeterminante. Um exemplo: o ato erótico de amor conjugal. Pode-se destituí-lo de poesia? Não. Pelo menos não de deve destituí-lo de poesia. Poesia, contudo, não é, necessariamente, jogo estético. A letra do Hino Nacional é poesia. É, contudo, recorte de pragmática estética, o Hino Nacional? Não. Seja enquanto mitoplasma nacional, seja como performance pública, são experiências políticas, e tem-se, portanto, um caso de uso político da estética. Assim, o casal arde em poesia. Mas não é necessariamente estética a pragmática. Se for, é sublimação do próprio gozo, já que a pragmática estética é a projeção de si mesmo numa mediação externa. É possível, sim, que uma patologia qualquer leve a estetização da relação de amor. Mas justamente pela estetização da experiência de amor é que ela deixou de ser experiência de amor. Por mais desconcertante que possa parecer à primeira vista, o ato de amor é ato político, recorta-se do plano das pragmáticas políticas, quais sejam, aquelas que abrem as cortinas para as relações interpessoais. Ora, e que relação interpessoal há que seja mais íntima, mais profunda, mais sublime, que a relação sexual entre dois sujeitos plenos de dignidade pessoal, concebida e reconhecida, em pleno ato de amor? Desconheço outra que se lhe compare. Porque não são apenas animais, ainda que sejam, em sentido biológico, não se trata, apenas, do coito em si, mas de toda a poesia que envolve a carne de ambos, e essa porção humana da fantasia, do sonho, do mito, transporta a operação erótica para campos inimagináveis. Contudo, o papel do parceiro não é sua própria satisfação – caso em que se transforma o ato de amor em ato narcisista. Quando se concebe o ato de amor como ato de tomada de amor e de entrega de amor, de um para o outro, quando se reconhece que o erótico deve ser, ao mesmo tempo, querer e querer dar, e é isso que efetivamente se faz e fez a dois, o ato de amor é ato eminentemente político, belissimamente político, laureado de poesia.

 

Talvez seja a estética a pragmática mais propriamente humana, porque sexo e violência, juntos, são próprios dos répteis, assim como a afetividade é própria dos mamíferos, e, como homens e mulheres compartilham dos répteis e dos mamíferos sua história ancestral e sua constituição histórico-genética, sexo, violência e carinho são performances humanas de segundo tipo. A fantasia, a imaginação, o gozo estético, essas são faculdades propriamente humanas. Que, contudo, podem desumanizar o homem, prendendo-o a si mesmo como a um núcleo magnético inescapável. A abertura ao outro demanda um teatro de pragmática política. E, se pragmática política, sem estética, é pura biologia, pragmática estética, sem política, pode tornar-se puro egoísmo.

 

As relações humanas, portanto, com o outro, e consigo mesmo, desenvolvem-se em plataformas apropriadas, que se desdobram, respectivamente, em pragmáticas política e estética. Resta a relação do homem com o mundo – as coisas e os acontecimentos. São objetos cognitivos diferentes – coisas e acontecimentos. Mas correspondem a fenômenos externos ao sujeito, independentes do próprio sujeito. Quando se está interessado, objetivamente, nessas coisas, e nesses acontecimentos, abre-se, e deveria ser automaticamente, a plataforma da pragmática heurística.

 

Em seu sentido fundamental, naquilo que ela tem de relação entre um sujeito e o mundo exterior, a pragmática heurística nasce no reino biológico. Insetos precisam saber exatamente não apenas onde encontrar alimentos, mas dominar, inclusive, técnicas de encaminhamento de parceiros até os alimentos encontrados. Experimente ir ao quintal, se não ao seu, a um acessível. Procure um formigueiro cujas formigas caçadoras, durante o dia, saem à procura de caça. Mate uma mosca e coloque ao alcance de uma caçadora qualquer, a uns metros do formigueiro. Quando ela começar a carregar, ponha uma pedra em cima, o suficiente apenas para que a formiga não consiga carregar mais. Eis o que ela fará, e eis o que acontecerá – inapelavelmente: a formiga tentará liberar a caça do peso. Depois de um tempo, se você fez o trabalho direito, ela cansará, e retornará ao formigueiro. Mas espere. Aguarde uns segundos, talvez um minutos ou dois, no máximo, e eis que você verá sair do formigueiro uma correiçãozinha, modesta, de uma dezena ou duas de formigas. Elas vão diretinho até a sua caça, aquela mesma que você pôs lá, e vão tratar de carregá-la, nem que seja picando-a toda. Mas, a essa altura, não seja cruel. Tire a pedra e deixa a Natureza fazer seu serviço.

 

Com todas as ressalvas que se devem fazer, um caçador faz a mesma coisa. A arte venatória não é propriamente humana, ainda que os humanos a tenhamos desenvolvido muito, e, em termos comparativos, e tenhamos-nos tornado os melhores caçadores do planeta. A arte venatória é jogo heurístico. A medicina é jogo heurístico, jogo de estudar sintomas e diagnosticar patologias, através de seus indícios, e tanto assim que Carlo Ginzburg classifica a medicina entre as operações de pesquisa indiciária (Mitos, Emblemas e Sinais), logo, de pragmática heurística. Há uma diferença entre a caça e a medicina. O caçador sempre trará na mão o coelho morto, e poderá dizer que as pistas que seguia eram mesmo do coelho, e pronto. Um médico, de tipo indiciário, não necessariamente. A relação de prova entre o sintoma (indício) e a doença (causa) não é tão claramente demonstrável. Mesmo a cura não é, em princípio, necessariamente decorrente do tratamento. De modo que é mais fácil demonstrar a relação causa–indício nas operações de caça do que nos consultórios médicos. Tanto assim que um médico não será condenado pelo fato de não curar um doente, e, sim, por erro médico. Curar o doente é sua missão, não obrigação. Claro, um caçador não será condenado por perder a caça. Mas aposto que se repetir isso não muitas vezes, morre de fome.

 

Um detetive de polícia trabalha em outra plataforma de pragmática heurística. Ele vê a cena do crime, deduz o que tenha acontecido, lê as provas à luz da hipótese, revê a hipótese à luz das pistas, opera epistemologicamente, colhe dados, faz perguntas, mona o quebra-cabeças, e elabora uma hipótese que, coerente internamente, pretende ser reflexo do evento-crime. A coerência interna da hipótese, e sua adequabilidade às evidências externas, todas, recolhidas durante a investigação, afirmam a sua procedência. Mas a garante? Provam? Não. E tanto não que não é o detetive quem julga. Cabe a ele montar o processo, entregar a justiça, a quem cabe julgar – e em outra pragmática: a política! Uma vez que a sociedade precisa de um veredicto, de uma sentença, de um julgamento começado e terminado, objetivamente, não pode entregar-se à crise de verificação do trabalho do policial, que pode estar certo, pode estar errado, mas como, objetivamente, honestamente, inequivocamente, saber? Transporta-se o processo da pragmática heurística para a pragmática política, e resolve-se, socialmente, a questão. E por isso, ainda que trabalhe honestamente, retamente, eticamente, moralmente, eficientemente, eficazmente, ainda assim a Justiça poderá falhar, porque não há procedimento investigativo que garanta a inequivocabilidade da prática forense, policial ou jurídica. Faz-se o melhor que se pode. Mas correm-se riscos.

 

Que dizer de um historiador e de um arqueólogo? A mesma coisa – e ainda mais. Tanto quanto um detetive, historiadores e arqueólogos devem trabalhar com reconstituição de acontecimentos históricos. E isso objetivamente. Se a intenção não é a objetividade, não se trata de detetive, de historiador, de arqueólogo. Os riscos da profissão não são passíveis de serem transportados para a teleologia profissional. Se um médico pode operar um rim para curar um doente, e acabar levando-o à morte por complicações previsíveis, mas não previstas, ou mesmo por complicações imprevisíveis, ditas riscos de profissão, não resulta daí que a medicina seja a arte de abrir ventres à revelia. Não é isso que se ensina nas faculdades de medicina, tão pouco é isso que um pai, caçador, ensina ao menino, não é isso que as escolas de investigação forense ensinam, pelo contrário, e não deve ser isso que os formadores de historiadores e arqueólogos devem ensinar. Que todos eles podem errar, falhar, e que alguns sequer saberão, em certo sentido, se acertaram, isso nada tem a ver com a pragmática heurística em si, mas com os desdobramentos profissionais do espectro heurístico.

 

Deve-se aqui, muito urgentemente, recorrer a duas obras muito importantes. A coleção O Método, de Edgar Morin, e os dois volumes de A Transformação da Filosofia, de Karl-Otto Apel. Edgar Morin trata de recolocar o conhecimento do conhecimento, enquanto Karl-Otto Apel pergunta-se exatamente pelos critérios de validação do conhecimento, fundamentalmente aqueles derivados das Humanidades, ou Ciências Humanas, de rasgo romântico. A pragmática heurística humanista – História, Arqueologia, Exegese – carece urgentemente da discussão heurística dos critérios de validação do conhecimento humanista. O positivismo e o relativismo absolutos são improcedentes. É necessário pensar um modo – ou o modo – de se saber quando se sabe no campo das Ciências Humanas, porque também aqui não há equivalência entre saberes, porque há saberes que são saberes, e saberes que se travestem de.

 

A pragmática heurística, portanto, diz respeito a relação do sujeito com o mundo. Aqui vale lembrar de Ilya Prigogine (As Leis do Caos e O Fim das Certezas), que devolve ao Universo seu estatuto histórico, de modo que se pode falar de uma História do Universo, constitutiva dele próprio, absolutamente independente da consciência humana, ela mesma fruto ocasional, fortuito, imprevisível – mas fantástico! – dessa mesma história, que a própria Física cuidou dissolver nas equações clássicas, tratando a noção de tempo (e História é Tempo) como “ilusão” psicológica humana, um delírio da espécie. A Física foi, desde o início, direcionada pela Teologia cristã, antes de se livrar dela, como um cão de suas pulgas. Mas o não-tempo clássico corresponde ao não-tempo de Parmênides, e, de resto, de Agostinho – se a Física era a fotografia da Verdade que Deus pôs no mundo, se Deus é atemporal, o Universo só pode ser atemporal – contra todas as evidências.

 

Agora, contudo, há, lá fora, um real e uma história, independentemente de quem esteja cá dentro. Ainda que esse real não possa ser imediatamente concebido, senão hermeneuticamente, a dedução de que é o sujeito, portanto, quem estabelece o real é um equívoco, para o que bastava observar que as portas estão todas nos mesmos lugares, e que, se alguém desejar sair da sala, pode até saltar pela janela, que isso de ela permitir fuga de espaços fechados tem a janela de comum com a porta, mas que está ali a porta melhor adaptada para isso. Se alguém pretender sair dali por outro meio que não a utilização de buracos na parede, que lhe comportem o tamanho, não será pela defesa da não-objetividade do real que logrará seu intento. Algo como aquele caso em que um eminente filósofo, seria Paul Ricoeur?, para defender a tese de que textos falam por si mesmos, independentemente da intenção de autores e leitores, escreve, para defender isso, um livro!...

 

Onde quer que um sujeito se pergunte: o que é isso?, e independentemente de sua própria vontade de que aquilo seja alguma coisa que lhe agrade, e independentemente se aquilo é uma coisa pendurada numa árvore, uma palavra numa frase, uma frase num texto, um texto numa biblioteca, uma mancha na pela, uma pegada na lama, um pouco de pele debaixo da unha, será sempre a pragmática heurística que deverá, necessariamente, se abrir. Pode ser que seja aberta a pragmática política. O historiador quer dizer que um pedaço da Europa é mesmo da Igreja. O arqueólogo quer mesmo dizer que aquelas pedras ali fazem parte dos estábulos de Salomão, porque ele quer, a todo custo, provar que aquele versículo bíblico é verdadeiramente histórico. O exegeta quer fazer aquela passagem de Gênesis referir-se a Jesus Cristo. A heurística cedeu à política. Imperam a demagogia, a apologética,  a ideologia. Isso, contudo, nada tem a ver, necessariamente, com a incapacidade de historiadores, arqueólogos, exegetas e detetives têm, em tese, de se comportarem heuristicamente comprometidos, ainda que a heurística esteja, sempre, carregada não apenas dos procedimentos, mas, inclusive, dos pressuposto de uma cultura, de um povo, de um sujeito. É, ainda assim, o critério teleológico, facilmente discernível na operações práxicas dos jogos, que se pode rigorosamente classificar cada uma das heurísticas. Seus defeitos, suas insuficiências, seus exageros, são ocasionais. Seu objetivo é fundante.

   

A vida humana desenvolvem-se em palcos. Um, o mundo real, físico, constituído pela concretude planetária e decorrente da História do Universo. Outro o plano cultural-antropológico, noológico. Aqui, as operações humanas são realizadas em três palcos internos, que, ainda que cooperem, às vezes, um com o outro, tem sempre a sobredeterminação de um deles. Tais palcos – chamem-se eles de jogos ou de pragmática – são o político, o estético, o heurístico.

 

A lucidez, a honestidade, a ética, consiste, nesse caso, em, primeiro, reconhecerem-se os jogos, geralmente, e o jogo que se joga, aqui e agora, particularmente. Adequar-se a ação humana ao respectivo jogo, ações e juízos estéticos, no jogo estético, ações e juízos políticos, no jogo político, e ações e juízos heurísticos, no jogo heurístico.

 

A espécie humana ainda precisa nascer. A civilidade ainda precisa emergir. Ainda somos bebês, mal-formados, e quantas vezes com má-formações. Se o Estado de Direito apresenta-se como palco político-social para o desenvolvimento do Ocidente, é imperioso que cada sujeito-cidadão movimente-se nesse estado segundo as regras internas de cada plataforma operacional. É humano ser política, ser estético, ser heurístico. Mas é sumamente humano ser politicamente político, esteticamente estético, heuristicamente heurístico.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

página atualizada em 26/08/2007 16:13:53