Positivista, eu?

Osvaldo Luiz Ribeiro

07/06/2007

 

 

 

Después de tantas experiencias, podemos y debemos reconocer que la verdadera racionalidad es de naturaleza dialógica: es el diálogo entre lo lógico y lo empírico, diálogo que conlleva en su seno el diálogo entre lo racional y lo irracionalizable.

 

Esa racionalidad, que conlleva en sí misma la potencialidad de autocrítica y de autosuperación, constituye un tesoro vital para el espíritu humano. Pero para salvar y desarrollar la racionalidad, nos hace falta hacerla capaz de afrontar la complejidad, es decir, la multidimensionalidad, la incertidumbre, la contradicción, nos hace falta una segunda «nueva Alianza», esta vez entre el modo de conocimiento científico, que via observaciones, verificaciones, «falsaciones», mira hacia la objetividad, y el modo de conocimiento filosófico, propiamente reflexivo, que mira sobre todo a elucidar la relación entre el sujeto y el objeto del conocimiento.

 

(Edgar MORIN, La Relación Ántropo-bio-cósmica, Gazeta de Antropología, n. 11, 1995).

 

 

 

Não são poucas as pessoas de meu círculo de conhecimento que, às escondidas, a maioria, olho no olho, uma ou duas, chamam-me de positivista. Fazem-no em tom entre desdenhoso e ofensivo. Algumas vezes, em tom jocoso, que tomo como jocoso, mas sempre sabendo que o jocoso, em tempos freudianos, quantas vezes é apenas uma capa para o constrangimento de o dizer na lata.

 

Há uma certa culpa em mim, em meu modo de ser, para que essas pessoas não apenas pensem isso de mim, mas cheguem a comentar, entre pizzas, à mesa, ou em bate-papos descontraídos, que eu sou um delirante positivista. Estão lá, falando da vida, e, de repente, olha eu aparecendo na conversa. O Osvaldo, você viu?, que coisa, não? O cara é um positivista! Mais um pedaço? É que eu sou um sujeito quase que intratável, eu diria, de tão chato que eu sou, quando se trata de discutir questões epistemológicas. Eu aprendi com o Morente, que um filósofo deve ter duas qualidades: admiração e rigor, isto é, deve fazer-se criança curiosa e excitada, e fazer-se espírito crítico. Ao mesmo tempo. Não diria que sou um filósofo, ainda que pense, também, filosoficamente, mas aprendi a ser um menino-sempre-admirado, ao mesmo tempo que um ancião-sempre-crítico. Quase poderia repetir, com o mesmo sentido, as palavras, que repito, de Edgar Morin:

É preciso ser racional é místico (...) Sou racional e místico. Tenho esta polaridade antagônica porque não posso passar sem a racionalidade, isto é, a vontade de argumentar, ter um discurso que possua um mínimo de coerência, de verificação, enfim, de tudo que a palavra 'racionalidade', que é crítica e lógica, engloba (Edgar Morin, Meus Demônios, apud Alfredo PENA-VEGA e Paula STROH, Viver, Compreender, Amar - diálogo com Edgar Morin, em A. PENA-VEGA e E. P. DO NASCIMENTO, O Pensar Complexo - Edgar Morin e a crise da modernidade, Garamond, 1999, p. 179-198 [p. 192]).

 

Minha "racionalidade" é profana. Ela mostra-se na rua. Fora de casa. E é essa "racionalidade" que me angaria o rótulo de "positivista". Essa marca me acompanha na Exegese e na Teologia. E eu não negocio. Tudo que leio escuto, imediatamente, analiso. Pergunto-me: que tipo de epistemologia está sustentando isso que estou lendo/ouvindo? Vou saltando entre as palavras que leio/ouço, vou inquirindo-as, e pego o centro gravitacional do discurso. Quando encontro o centro gravitacional do discurso, já era: eu simplesmente o desmonto, desde dentro, até as suas margens retóricas. E não se trata, apenas, dos discursos políticos, explícitos ou dissimulados. Mesmo os discursos técnicos. Sem exceções. Dos amigos, dos adversários, dos “neutros”. De todos.

 

Como sou intratável, não deixo quieto. Intrometo-me não no discurso, mas nos argumentos, e na lógica sistêmico-epistemológica envolvida. Se ela me parece ideologicamente domesticada, denuncio com toda força. Já virou vício isso. Não há discurso que me chegue aos ouvidos, e que passe incólume. Quase que nem as minhas conversas muito amigáveis e mesmo íntimas com minha adorabilíssima Bel. Tudo e todos eu ouço, critico e devoro. Isso sou eu.

 

Eu poderia dizer que uma razão se deva ao fato de eu ter crescido sem a presença de meu pai, logo, sem a presença da autoridade paterna. Deus, para mim, sempre foi mãe, ainda que mamãe o tivesse apresentado a mim de calças compridas e barba. Mas eu sempre soube que ele era ela. Chamava-o de pai, sempre, a vida toda, mas, no fundo, eu sabia o segredo dele. Por outro lado, a ausência do pai poderia ser explicada por uma passividade, uma falta de virilidade. Bem, eu diria que não sou lá um portento de virilidade, no que diz respeito à violência física. Nunca briguei na escola, salvo uns quase-tapas com o Arialdo, meu amigo. A única vez que ia brigando, o Afrânio estapeou o Marcelo, considerando, com isso, que pagas estavam as colas que eu lhe dava. Por outro lado, contudo, eu jamais poderia admitir qualquer laivo de platonismo, uma vez que tudo quanto diz respeito ao corpo me fala muito alto, e eu diria que minha personalidade é profundamente masculina, se me faço entender. Talvez a sexualidade me faça detestar tanto Platão e seu princípio dualista, ao mesmo tempo que admiro profundamente a cultura judaico-israelita, responsável pela corporeidade, de que está impregnado o Antigo Testamento. Logo, no fundo não sei se a ausência de meu pai é responsável por esse meu jeito.

 

Talvez o fato de eu ter sido criado preso dentro de casa. No máximo, o quintal, mas quase nunca com amigos. Isso fez de mim um sujeito fechado, a quem só Bel conhece. A epistemologia me parece muito importante, mas eu não magoaria alguém por causa disso. Por outro lado, num cenário de diálogo acadêmico, não tenho lá muita pena de dizer o que penso dever dizer, porque deveria ter aprendido, quem sabe?, a ter dó e pena, lá atrás, na infância. Não aprendi. Falo demais. E, aí, as suscetibilidades, às vezes, se sentem feridas.

 

Um exemplo claro é a Exegese. De minha parte, lamento a situação da Exegese, pelo menos daquela mais próxima de mim. Sem generalizações, e honestamente falando, circulo em meios confessionais, onde a Exegese – e concedo o termo apenas para ser politicamente correto, porque, a rigor, não há exegese ali (mas fazer o que, se chama-se aquilo de Exegese?) – apanha mais do que massa de pão, onde os textos são torcidos e retorcidos, até que assumam a forma que a Teologia x ou y deseja que assumam. Eu podia dar de ombros, sorrir um sorriso – literalmente – amarelo, como um amigo exegeta meu faz, e Bouzon, meu ex-orientador, fazia, e seguir em frente. Mas eu não. Eu sou chato. Eu denuncio mesmo: alto lá, isso aí não é Exegese nem aqui nem na China. Meia dúzia de inimigos.

 

Depois, meto-me na companhia de biblistas. Conheço cada vez um maior número de biblistas. Gosto de estar no meio deles, e de ser aceito por eles. Há excelentes biblistas, que são excelentes exegetas. Entre as feministas, por exemplo, a Ivoni Richter Reimer. Muito boa. Mas há algumas colegas que, quando vejo seu exercício, logo percebo falhas epistemológicas graves, e saberia até dizer onde, e o digo: seus projetos político-religiosos dirigem seus trabalhos exegéticos. Não dá boa coisa isso. E como eu sou chato, intratável, e minha língua não cabe na boca, acabo falando. E apanho.

 

Devem achar-me um pernóstico. E não sou. Devem achar-se uma cara besta. E não sou. Chato? Sou. Eu diria que rigorosamente metodológico, rigorosamente epistemológico. Não dou um passo sem ter avaliado se o passo é condizente com o processo. O que não significa, claro, que esteja sempre certo, ou mesmo, confesso, que eu saiba quando estou mesmo certo. Na maioria das vezes, nunca tenho certeza, e só chego a ela, quando dou de cara com a parede, e sei que tenho que voltar, e começar tudo de novo. É o que Rubem Alves (Filosofia da Ciência) quis dizer com a metáfora do labirinto, que eu levo muito a sério.

 

Então está bem. Esses meus colegas de trabalho, de lazer, de vocação, têm razões para me chamar de chato. Está bem, eles e elas podem achar que eu não alivio nunca. Mas, cá entre nós, podem me chamar de positivista? Eles sabem do que estão falando, quando me chamam de positivista? Primeira pergunta: até podem, se gostam do efeito da palavra, quando a usam, se lhes parece inteligente dizê-lo. Segunda pergunta: acho que não, caso contrário, não usariam a palavra, aplicando-a a mim, ainda que lhes soasse inteligente usá-la. Talvez lhes falte algo melhor para dizer, e usam essa palavra de cem anos.

 

Quero ajudá-los. Primeiro, dizendo que não, não sou positivista. Em que sentido? Vamos ver. Primeiro, e mais importante, jamais gostei do estruturalismo, e isso mesmo quando estava na moda entre os biblistas. Haroldo sabe o que eu dizia para ele sobre trabalhos estruturalistas, por exemplo, de Croatto. Para mim, o estruturalismo era – e é – um completo absurdo, e mesmo um estorvo. Para mim, não há estruturas determinantes inconscientes, agindo sobre a cultura. Não acredito em determinismo, com ou sem s. De nenhum tipo. Não acredito no conceito de sociedade como sujeito inconsciente. Creio, sim, no conceito de sociedade como emergência sistêmica, recursiva, retroativa. Creio no discurso complexo aplicado à sociedade, rigorosamente nos termos em que Edgar Morin o expressa em O Método, em qualquer de seus seis volumes, que devoro como à pele da Bel. Claro que Morin se tornou íntimo de meu mundo faz dois anos, e antes disso, eu não tinha os termos apropriados para o dizer, apenas a antipatia diante de qualquer tentativa de suprimir o conceito de sujeito ativo, agente, consciente.

 

Estruturalismo não passa de calvinismo securalizado, e eu gosto tanto de Calvino, quanto de estruturalismo, ainda que ache que, se é pra ser um teólogo confessional, o escore está a favor do pastor de Genebra, mais uma razão para eu querer cada vez mais distância da confessionalidade engajada. A simples menção, de Nietzsche, em O Anticristo, ao cristão típico como besta de carga, por mais pesada que seja, faz-me dar todo crédito a ele, no sentido de que a Teologia tem uma tendência a anular a autonomia da gente – pelo menos é o que ela quer. A heteronomia teológica cristã – quantos aos demais religiosos, cada um dê conta de sua tradição, pois que falo da minha –, o calvinismo teológico, impiedoso até a crueldade, o estruturalismo, tudo isso me causa tontura, e, confesso, não tenho mais condição de sequer pensar nisso com serenidade.

 

Ora, o positivismo pretendia, originalmente, tratar a sociedade dos homens, como se pode tratar a sociedade das estrelas. Apreender-lhes as leis eternas, imutáveis, rígidas, matemáticas, previsíveis, para, controlando-as, como à montaria de Leibniz, manipulá-las. Ah, saber como apertar um botão, e fazer a sociedade virar para a direita, ou para a esquerda. Ah, um apito, e lá vão os homens pra cá, outro, e pra lá, mais dois, e eles dão três pulinhos. Por que os pulinhos? Porque é divertido, meu filho gosta.

 

Quanto a mim, prefiro ouvir Aldous Huxley, que, em Os Demônios de Loudun, afirma que a manipulação das massas, ainda que, eventualmente, para o bem, é indecente, imoral, injustificável. Não é por outra razão que tornei-me uma espécie de rogeriano, não tendo conseguido impor verdades alegadamente verdadeiras, nem mesmo as divinas, a meus próprios filhos, preferindo que eles as descobrissem, no risco, no meu rosto, nos meus pés, e no amor incondicional que dispenso à mãe deles, meu amor. Lá, na carteira do Seminário de Nova Iguaçu, na aula da Eva, conheci Carl Roger, eu, um menino de, o quê?, vinte, vinte e um anos, e apaixonei-me pela não diretividade, pela liberdade, tornei-me rogeriano.

 

Os textos bíblicos de que eu mais gosto são os críticos – e os há às mãos cheias! Os teólogos, poucos, raros de contar nu’a mão, os críticos. Lamento todas as vezes que começo a ler um propalado teólogo crítico, e, não se folheiam nem duas páginas, lá está Nicéia, altíssima, e o dogma. Fecho imediatamente o livro. Os autores que leio têm que ser, igualmente, todos, sem exceção, críticos. E se são críticos disfarçados, detesto-os. Leio Edgar Morin como quem lê as estrelas. Hierofania em dose cavalar. Leio Nietzsche, para sentir a carne cravada pela palavra dura, necessária, poética. Karl-Otto Apel, para tentar, com ele, acabar com o blá-blá-blá relativista, pseudo-inteligente. Prigogine, para delirar de sorrisos, ao ver a História incrustada até no Universo. Quintana, para ver o inusitado óbvio ser dito, de um jeito que ninguém mais o diria. Stephen Jay Gould, para catar conchas na praia, enquanto viajo. Os românticos, para manter-me lúcido, e vacinado contra a razão instrumentalizante, racionalizante, ideológica.

 

Ninguém, em sã consciência, diria que um sujeito assim, como eu assim, é positivista. Ou é maldade de quem o diz, ou é ignorância, seja a respeito de mim, mais provável, ou do que é o positivismo, o que não seria muito bom para a reputação de meus caros amigos caluniadores. Beira o patológico, eu chego a cogitar.

 

Há, ainda, outro elemento do positivismo que não me cabe muito bem. Trata-se de um elemento secundário do sistema positivista, mas talvez seja o elemento central, por meio do qual sou transformado num espirro do Comte. Trata-se da questão da objetividade.

 

Bem, como estamos aqui em confidências cripto-acadêmicas, não vou medir muito minhas palavras. Chamam-me de positivista tanto porque sou cioso de meu trabalho exegético, quanto questiono muitos trabalhos que se apresentam como exegéticos. E aí, apelando retoricamente para Schleiermacher, Dilthey, até Nietzsche, vejam só, e Heidegger, tomando Gadamer à direita, acusam-me de ainda acreditar que haja objetividade no mundo. E eu digo – sim, há sim. Aí desesperam. E eu penso, comigo: iuris esperniandi. Enquanto esperneiam, podiam ler Edgar Morin, no site da UNESCO: "trata-se de uma construção que é certamente sempre incerta, porque o sujeito encontra-se inserido na realidade que pretende conhecer. Não existe o ponto de vista absoluto de observação nem o meta-sistema de observação. Existe a objetividade, embora a objetividade absoluta, assim como a verdade absoluta, constituam enganos" (Educar na Era Planetária. O pensamento complexo como Método de aprendizagem no erro e na incerteza humana, p. 37). Meu pedaço de menino diria: "toma!". O velho que eu sou, ralha comigo, e sugere aos meus amigos que reflitam mais detidamente na questão da objetividade. Eu sou um quarto de vozes, que tento controlar. Nem sempre é fácil.

 

Na prática, a Exegese, que é meu campo de labor, eu diria, lúdico labor, não é levada a sério por quem me toma por positivista, somente porque eu acredito em objetividade exegética. Eles até escrevem sobre isso, e acreditam, que coisa!, que serão entendidos. Eu me pergunto: como?, se a objetividade não existe. Eles acreditam em papéis, sim. Compram casas, e guardam escrituras em gavetas com chave, e, se perguntam se a casa é deles, mostram o papel. Mas como?, se o papel fala por si só. E se, de repente, em vez de o papel dizer que a casa é sua, ele disser que a safra de espinafre quebrou em um terço? Eles vão ao médico, aviam receitas. A letra que vai lá é ilegível. Mas eles acreditam na mágica. Levam o papel mágico para a farmácia. Um sujeito absolutamente desconhecido lhes pega o papel, ele olha para as garatujas impressionistas, olha para eles, vai lá dentro, volta com uma caixa colorida, de comprimidos, eles pegam, pagam e tomam. Impressionante. Por que meios mágicos não apenas o balconista entende o médico, o que, por si só já seria um fenômeno à altura de Quevedo, mas eles acreditam que o que o balconista entendeu é exatamente o que o médico receitou, isso eu não sei. Com certeza não se trata de objetividade, porque isso não existe.. Eles compram equipamentos eletrônicos de última geração. Já são meio velhos, como eu. Fossem adolescentes, não precisariam de manual de instruções, já que meus filhos, quando tinham sete anos, um, e dez, o outro, já jogavam jogos de computador em japonês, como se jogassem damas. Mas eles são velhos. Têm de recorrer ao manual. E não é que, recorrendo ao manual, até aprendem a ligar o negócio? Desconfie-se que seja alguma magia, porque não pode ser que eles tenham realmente entendido o texto, já se sabe a razão.

 

Bem, vão dizer que eu estou usando exemplos falsos. Está bem. Vamos a casos mais próximos deles. Alguns são psicólogos. Como aprenderam? De livros. Como sabem de Freud – se sabem? De livros. E como? Seus pacientes é que o digam. Vai ver não sabem é nada. Outros são sociológicos. Falam de Marx, de Weber, de Durkheim, de Pareto, de Aron. Como é possível? É o quê? Cada um diz o que quiser dizer, ou, no fundo, eles tentam expressar o pensamento dos senhores sociológicos fundadores das escolas que levam seus respectivos nomes, sendo, contudo, defuntos, todos eles? Outros, ainda, são filósofos, e, aí, já nem sei mais, porque é um tal de ressuscitar Platão, e dar com ele nos alunos, e Aristóteles, e lá vai, e Parmênides, e mais uma, e Kant, ai, e Marx, dá-lhe, e Wittgenstein, socorro. Mais uma vez: como? Desconfio que leram, interpretaram, e, agora, sabem o que vão dizer aos alunos. Sabem? Como?

 

Podemos ir mais longe. Podemos falar de História. Todos eles parecem saber de História. Fazem até leitura de conjuntura. Psicografia? Ou leitura de livros? Não se esforce o leitor, que eu resolvo o problema: leitura de livros. O tempo todo, leitura de papéis escritos. E eles acreditam em tudo que lêem. Já disse: até escrevem livros e artigos e ensaios e quanto mais vier à mão para escreverem. Até boletins de igreja - mas aí já deve ser para o Espírito Santo usar como pista de dança extática. Na cátedra, se seus alunos discordam, dão até notas baixas, e chove quatro e dois e seis, porque eles sabem. Eu, não, eu sou positivista. Eu sou uma besta. Mas eles, não, eles sabem. Eu, não, eu sou um idiota, metido à besta. Mas eles, não. Eles sabem.

 

Nenhum deles, nunca, sentou numa carteira, em uma aula minha, e me ouviu. Nunca. Alguns foram colegas meus, em classes de mestrado e doutorado. Discutíamos. Eu, chato. Eu sempre dizia: mas, e isso assim assim? Pronto. Deveriam acompanhar uma exegese minha. Mas não vão gastar tempo com isso, porque, no fundo, não querem saber se eu faço direito o que faço, ou não. Querem apenas me embrulhar num rótulo de despeito, e deixar-me num canto. Talvez alguns de seus admiradores até os levem a sério, e me tenham por positivista. Ei, você conhece o professor Osvaldo? O quê?, aquele positivista, há! há! há! Bobões. Eu mereço, porque, quando dizem alguma coisa, eu questiono mesmo, e vou continuar a questionar, sempre e todas as vezes que eu perceber que o que está sendo dito não bate com a plataforma a partir da qual se pretendia dizer o que foi dito. Incoerência metodológico-epistemológica na academia é imperdoável. O pecador tem perdão mil vezes. A incoerência, nenhuma. Se lá não aprendermos direito, onde aprenderemos?

 

Não sou positivista, porque não acredito que a Exegese seja “Ciência Natural”, ou “Ciência Exata”. Mas não aceito, absolutamente, o relativismo imposto à Exegese por quem quase nunca o é, se o é alguma vez, exegeta. A Exegese é jogo cultural, heurístico, indiciário. Não é política, nem estética – é heurística. Eu, exegeta, sou caçador, mas não posso trazer o coelho caçado. Posso, sim, e faço, apontar a trilha dele, olha, aqui passou um coelho, vê? Não. Aqui, olha. Ah, agora vi. Mas será se é mesmo um coelho? O que você acha? A pista tem toda a cara de ser de coelho. Deve ser. Se eu fosse caçador de verdade, e isso não fosse uma metáfora, ainda que válida, epistemologicamente válida, metodologicamente válida, eu traria o coelho. Mas sou apenas um exegeta. Acredito, sim, que caço – e bem. Mas quem deve decidir se cacei mesmo, e bem, são os leitores, os ouvintes. E esses meus colegas caluniadores nunca me leram, e se leram, pelo amor de Deus. Nunca me ouviram, e, se me ouviram, pobres coitados.

 

Eu, exegeta, sou historiador. Nesse caso, não se trata sequer de metáfora. Ou o exegeta é historiador, ou não é exegeta. Pode fazer qualquer coisa com o texto: alegoria, política, psicanálise dos personagens, apropriação ideológica – menos exegese. Até o manual oficial da Igreja Católica Apostólica Romana, A Leitura da Bíblia na Igreja, sabe e afirma que a leitura histórica da Bíblia é a única que pode garantir, metodologicamente, a compreensão dos textos canônicos do ponto de vista histórico-cultural. O manual é até condescendente. Sugere a aplicação de vários métodos, inclusive aqueles próprios da América Latina, além dos feministas, estruturalistas etc. Mas afirma, categoricamente, que é o método histórico-crítico aquele que deve nortear a base de aproximação aos textos sagrados. Quando Lutero falou, há meio milênio, em livre-exame das Escrituras, não chegou a tanto. Hans Küng, em Teologia a Caminho, chega a dizer que a única Teologia que deveria estar nas universidades é aquela rigorosamente histórico-crítica, tributária da exegese histórico-crítica. Outro dia ele escreveu que o método histórico-crítico é (um)a razão de ele ainda ser cristão – apesar de eu achar que aí ele exagerou um bocado. Pelo menos eu não chegaria a tanto. E não porque o método não sirva para o Novo Testamento, que absurdo. Pelo contrário. Ele não serve é de trampolim para a fé. Uma fé que queira ser exegética, só pode ser romântica. E um Jesus romântico, simplesmente, não o há. Quiçá muitos deles, um em cada texto da biblioteca sacra. Mas essa polissemia histórico-social, melhor, essa sinfonia polêmico-apologética, não serve bem ao tipo de fé de que Hans Küng pretende falar em Por que Ainda Ser Cristão Hoje.

 

Não significa que a História e a Exegese sejam Ciências Naturais, operações de laboratório, mil experiências e pronto, sai um Ezequias do tubo de ensaio. Mas isso não significa, absolutamente, que História e Exegese sejam operações irracionais, devaneios. Quanto a isso, alio-me ao esforço retórico de Carlo Ginzburg, em Relações de Força, ele também aborrecido com o tratamento que dispensam à sua profissão, ora tratando-a como relatividade subjetiva, ora como ideologia. Pensem o que quiserem pensar meus amigos e inimigos, eu protesto minha absoluta tentativa de objetividade, imparcialidade e respeitabilidade no trato histórico-exegético, mesmo sabendo que o resultado, sempre, estará contaminado pela incerteza, pela plausibilidade, pelo caráter hipotético. Mas, desde que não se possa impugnar, metodologicamente, meu trabalho, ele deve ser respeitado. Considerar-me positivista, sem avaliar, com respeito, meu trabalho, é despeito e covardia.

 

Minha profissão – chamarei a Exegese de minha profissão, sim, porque, mal ou bem, estou vivendo disso, e o cheiro que vai à pele da Bel é dos sabonetes cheirosos que a minha Exegese tem podido comprar pra ela – tem uma característica: ela sofre de crise de verificação. Esse problema é comum das Ciências Humanas – arena de todos esses meus caluniadores! Nunca sabemos, rigorosamente, se estamos certos. Karl-Otto Apel está trabalhando nisso. Li A Transformação da Filosofia I e II, e o tema das pesquisas de Apel é justamente essa crise de verificação das Ciências Humanas. No século XX, a briga entre elas e as “ciências duras”, digamos assim, deu-se no sentido de os teóricos da epistemologia, na sua maioria, terem exercido um tremendo esforço para trazer para “baixo” o nariz dos “cientistas”. Veja-se a obra de Thomas Kuhn, ou a sua simplificação didática, Filosofia da Ciência, de Rubem Alves. Naturalmente que os próprios teóricos das “ciências duras” cooperaram, como se pode depreender do Teorema de Gödel, e das reflexões de Ilya Prigogine. Mas o fato é que, com isso, apenas se conseguiu afirmar que o chão das “ciências duras” era, no frigir dos ovos, tão mole quanto o nosso, os profissionais das “ciências moles”.

 

O que não é tão verdade assim. Se alguém comparar Geologia com Geografia, não sabe o que está fazendo. Geologia é uma “ciência dura”. Geografia, não. Quem comparar Psicologia com Psiquiatria, não sabe o que está fazendo. Psicologia é uma “ciência mole”. Psiquiatria, não. O que há de comum entre todas elas é que, todas, são operadas por sujeitos históricos. Mas a semelhança acaba aí. E o esforço da “ciência mole” em acabar com o ar de superioridade das “ciências duras” conseguiu o quê? No fundo, ficamos como cães que, passando o Fusca velho, correm atrás, e latem para as rodas gastas. Está bem, o Fusca pára, e daí? Ganem, metem o rabo entre as pernas, e enfiam-se no beco de onde saíram.

 

O que ganhamos, nós, profissionais das “ciências moles”, com a ação emoliente aplicada ao cancro duro das ciências positivas? Ganhamos, porque, em tese, eles perdem? E ganhamos o quê? O mesmo direito à empáfia? Por ora, não ganhamos nada, porque não conseguimos enxergar sequer o que estamos dizendo, quando mais o que fizemos. O trabalho de Karl-Otto Apel, nesse sentido, merece toda torcida possível, porque ele está justamente tentando resolver epistemológica e metodologicamente o problema da crise de verdade, ou melhor, da crise de verificação da verdade, própria das Ciências Humanas. Não chegou ao fim de sua empreitada, mas sugere o caminho da noção de comunidades de interpretação, o que sugere uma multiplicidade de eixos fundantes, e uma intrincada rede de eixos co-axiais, pertinentes às câmaras próprias e internamente válidas, mas dependentes de validação externa, como exige o Teorema de Gödel, por exemplo. Mas Apel vai mais longe, e suspeita, intuitivamente, de que tem de haver uma câmara macro-estrutural, transcendental, sem a qual não haveria, por exemplo, inteligibilidade intra e inter-sistêmica. E há. Alguma coisa do logos aristotélico deve nos ter escapado, quando a sanha relativista causou frisson e histeria entre os mais afoitos – e como há afoitos, não?

 

 Acredito, sim, no princípio da inteligibilidade sócio-antropo-eco-noológica, sem a qual seríamos, todos, tartamudos, símios imbecis, moucos. E acredito ser do conhecimento até do reino mineral (plagio a expressão do Mino) que isso não somos. Alguma coisa entre razoáveis e loucos, entre lúdicos e construtores. Mas, não, idiotas. Biologicamente, noologicamente, antropologicamente, sociologicamente – somos seres que caminham sobre o real, ainda que sobre a representação criativa dele. Mas uma coisa é certa, a porta é uma criação humana, mas não vá ninguém querer sair da sala, senão por ela.

 

Talvez eu possa dizer, também, que não sou positivista, pelo fato de, meus alunos, todos, sabem, e meus escritos, todos,  confessam, eu nunca afirmar que esteja indiscutivelmente certo, e, sempre, trabalhar com a possibilidade honesta de estar errado. Li Os Sete Saberes Necessários a Educação do Futuro, e me converti a cada um deles. Li os seis volumes de O Método, e os seis me correm nas veias. O fato, porém, de eu poder estar errado não significa que esteja. E, se estiver, cabe à comunidade de interpretação dizer onde. Não com confetes roxos, a sepultar-me como sujeito pensante, na retórica baixa da falta de nobreza, no sarcasmo baixo do despeito. Se estou errado, isso deve ser indicado precisamente: é aqui, Osvaldo, que você labora em erro. Isso, ninguém nunca me fez. E não porque eventualmente eu não esteja errado aqui ou ali, mas porque não se dignaram a prestar atenção ao que eu estou dizendo. Se sequer me ouvem, como sabem de mim?

 

Por tudo isso, amigos meus, inimigos meus, não sou positivista. Não será, ainda, esse rótulo a me vestir. E, bom, agora, deixem-me cuidar da vida, que ela se esvai como menstruação, se o tempo não é fecundo.  

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 08/09/2007 14:54:50