Posições marcadas

– Escrituras, engajamento e pesquisa

 

Osvaldo Luiz Ribeiro

08/06/2007

 

Justino assumiu a alegoria como método de interpretação da corrente cristã a que estava ligado, corrente essa que, sob esse registro epistemológico-metodológico, tornar-se-ia majoritária e oficial, a partir de Nicéia, com a institucionalização estatal da Igreja. A alegoria alcançará alturas extraordinárias, será mantida dissimuladamente nas igrejas protestantes e, mais recentemente, nas evangélicas, sendo coerentemente contestada apenas nos ambientes de epistemologia tanto iluminista quanto romântica, e de metodologias exegéticas histórico-críticas. O Cristianismo foi e é alegórico. O método alegórico, no Cristianismo, chega a ser mais antigo que os dogmas mais fundamentais da doutrina cristã, formulados, naturalmente, com o concurso dele.

 

A alegoria, pois, gerou a doutrinas cristãs. O problema da alegoria, contudo, é que o método não possui controle interno. Nem poderia, já que a alegoria é um método de apropriação de termos, frases e textos, fazendo-os dizer novos sentidos, novos discursos, novas verdades. A palavra antiga perde seu sentido antigo, e ganha um novo – alegórico. O novo sentido está na intenção do agente que opera a alegoria, ele existe antes da leitura, em repertório, cabendo ao leitor apenas o exercício de abrir o texto por meio do sentido de que já dispõe. Resulta dizer, portanto, que toda alegoria opera no diapasão da intentio lectoris (cf. Umberto Eco, Interpretação e Superinterpretação). Um leitor, uma alegoria, dois leitores, duas alegorias, três, três, quatro, quatro.

 

Uma vez que o método não tem controle interno, se houver alguma preocupação com a uniformidade das interpretações de determinado cânon, a alegoria se torna um problema. De fato, foi o que aconteceu, depois que Justino, para poder sustentar a posse cristã dos livros “canônicos” veterotestamentários, assumiu oficialmente a alegoria (cf. Justino, Diálogo com Trifão). A alegoria abre uma cartola sem fundo, de onde se podem tirar quantos e quais coelhos a mágica deseje. Pode-se desejar impedir desenfreada polissemia, mas, como não alegorizar? Não alegorizar os textos judaicos reforçaria, por exemplo, os argumentos de Marcião, que, lendo literalmente os textos antigos, considerava-os indignos do Deus cristão, revelado por Jesus. Com base nessa leitura literal, que recusava a alegorização dos textos, Marcião reduziu o “cânon” a Lucas e alguns textos de Paulo. Para Justino e sua tradição, a alegoria tinha que ser mantida. Como, quanto a isso, diz Zuck: “Justino afirmava que o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos, mas essa pertinência, dizia ele, era percebida por meio da alegorização” (Zuck, A Interpretação Bíblica, p. 39).

 

Por outro lado, entendia-se que a pluralidade de interpretações – de alegorizações – era intolerável. Alegoria, sim, mas pluralidade de leituras alegóricas, não. Problema difícil de resolver, se a solução se dever desdobrar no campo epistemológico. Aliás, nesse campo, ela é provavelmente impossível. Ireneu apresentará a solução – política – para o impasse: a tradição. Há apenas uma interpretação correta, ainda que alegórica – a “regra de fé”. Não é o caso de nos admirarmos da solução descabida, e descabida, porque, epistemologicamente, não há como estabelecer uma interpretação correta, se a metodologia é a alegoria. Se em pleno século XXI, a epistemologia não é levada radicalmente a sério, a julgar pela literatura teológica internacional, o que esperar da teologia oficial da patrística? Ainda mais quando, à época, a epistemologia platônica pressupunha uma verdade verdadeira, normativa, de posse, obviamente, sempre, da tradição. Se a fome quer e há vontade de comer, faz-se. Isso logo ali, entre o segundo e terceiro séculos. Com efeito, essa será a diretriz cristã durante toda a sua história formal, e ainda o é. A verdade é a verdade político-normativa da tradição, seja isso dito abertamente, seja dissimuladamente, nesse caso, por exemplo, na forma de interpretação “histórico-gramatical”.

 

Até os século XVI, o sistema foi pouco questionado, e, quando o era, não se tratava de confrontos sistêmicos. A Reforma não constituiu, absolutamente, ruptura com o modelo. O discurso reformador, até certo ponto, sim, isto é, naquele lugar onde ele era alimentado pelo aristotelismo renascentista-humanista. Mas o compromisso de Lutero com a – isto é, com as doutrinas tradicionais-normativas –, contaminada que estava ela pela alegoria, manteve, na prática, a alegoria. Enquanto Tomás de Aquino domesticou Aristóteles formalmente, tornando-o um vassalo a serviço da fé platônica, a Reforma, depois de usá-lo, em tese, teve de domesticá-lo na prática, impondo, incontinenti, credos e confissões “protestantes”, que, na prática, e no conjunto, nada mais são do que a repetição, in totto, do trabalho inaugural de Justino (alegoria) e Ireneu (tradição). É verdade que a alegoria luterana, e, de resto, protestante, reduziu-se à cristologia nicênica, ou, mais ampliadamente, à teologia trinitariana dos primeiros concílios, rompendo, é verdade, com o famoso sentido quádruplo das Escrituras. Mas, a rigor, no que diz respeito à alegoria, não importa. A verdade precede a leitura, porque ela está, já, de posse do leitor.

 

Após a Reforma, contudo, apesar das igrejas divididas, inclusive a católica, permanecerem fiéis à política de alegorização dos textos bíblicos, tributários de uma interpretação tradicional, já normativa, a consciência histórica desenvolveu-se, amadureceu nas Luzes, e emancipou-se, irremediavelmente, no Romantismo. Já não era mais possível, para a consciência emancipada de um sujeito histórico, tentar compreender o passado por meio da alegoria. A crítica bíblica tornou-se ferramenta heurística fundamental, sendo, inclusive, tornada oficial, recentemente, no documento católico A Interpretação da Bíblia na Igreja.

 

Até portanto, muito recentemente, as Escrituras eram lidas, apenas, por meio da alegorização. Ainda o são. Com a advento da modernidade crítica, contudo, a consciência histórica impôs metodologias epistemologicamente pertinentes à investigação crítica da Bíblia. Estabelece-se, muitas vezes, o impasse epistemológico-metodológico. A solução é, em tese, simples: a fé-enquanto-doutrina é da competência interna da comunidade do credo, que, se pretende continuar a usar a alegoria, paciência. Por outro lado, a competência para a leitura histórica da Bíblia pertence àquelas disciplinas epistemologicamente relacionadas às investigações histórico-críticas, em sentido amplo. A competência da comunidade do credo é política. A competência exegética é heurística. São dois modelos de pragmática, cujos jogos são completamente diferentes. No primeiro caso, trata-se da relação político-religiosa, inter-pessoal, mediada pelo poder. No segundo caso, trata-se do paradigma indiciário. O problema é a tremenda confusão contemporânea, gerada pela politização do uso das Escrituras, o que seria naturalíssimo até muito recentemente, mas não mais, agora, instalada a cultura moderna, e estabelecidas as competências teórico-metodológicas próprias das Ciências Humanas.

 

O conflito epistemológico é grave, e é lamentável que a discussão não seja enfrentada sob o prisma epistemológico. De um lado, colocam-se aqueles cujos engajamentos político-religiosos os levam a manejar as Escrituras como mito fundante de posições, também elas, ainda político-religiosamente determinativas. Para uma tal posição engajada, qualquer ação humana, na “igreja”, ou fora dela, deve ser animada pela Espírito, através da Bíblia. Por mais mítico, místico e mágico que seja, não parte da emancipação de sujeitos, mas de sua instrumentalização, tecnicamente falando, com vistas, em tese, à sua emancipação. Por trás dessas posições estão movimentos auto-entitulados libertadores, de direita e de esquerda, político-religiosos ou político-filosóficos, conscientes do poder do mito fundante de catalisar as forças latentes da massa, em benefício de projetos pré-definidos.

 

De outro lado, colocam-se aqueles que vêem na Bíblia, epistemologicamente falando, um mundo a ser revelado e desenterrado, tecnicamente falando. Para uma tal posição, a Bíblia deve ser tratada como um sítio arqueológico, escavada, revolvida, até suas pedras mais fundamentais. História, em todos os sentidos – exegese histórico-crítica e histórico-social. Para tal grupo, a história da interpretação da Bíblia, as doutrinas daí derivadas, bem como a história dos efeitos da leitura das Escrituras não fornecem orientação normativa para a exegese.

 

Logo se vê, que são dois jogos absolutamente diferentes. A frente engajada joga um jogo pragmaticamente político. Não é entender a Bíblia que se quer, ali, porque não é esse o objetivo do jogo, mas, antes, alcançar objetivos político-religiosos através da Bíblia. Pode-se chamar tal jogo de pragmática política, e deve-se considerá-lo social e epistemologicamente legítimo em si mesmo.

 

O outro jogo, pode-se chamá-lo de pragmática heurística, e a regra é: descobrir o passado, compreendê-lo, com todas as ressalvas perspectivísticas que o leitor pode eximir-se de fazer, que já vão antecipadamente pressupostas e assumidas aqui.

 

No meio do caminho, a Bíblia. E a questão é: como é que os grupos político-religiosos, inseridos em pragmáticas políticas legítimas, tratam a Bíblia. Em última análise, como ferramenta, para alcançarem, através dela, um alvo, um fim, uma meta. Não há, necessariamente, uma preocupação com o sentido histórico do texto bíblico, e, naqueles ambientes menos epistemologicamente comprometidos, seja por um engajamento político-religioso superlativo, seja, no pior dos casos, por ignorância da questão, os textos, polissêmicos, são desdobrados em motivos mítico-inspirativos para a animação das massas.

 

A justificativa que se ouve com freqüência em tais ambientes, é que a objetividade foi dissolvida, e são citados Heidegger, Gadamer e Ricouer como fundamento da "hermenêutica", com o que, aí, se quer denominar o processo de a vida entrar nos textos e sair, dela, com respostas para suas questões existenciais. Curioso que uma proposta tão "relativizante", tão ciosa do poder do leitor, fundamente-se por meio de argumentos teórico-metodológicos que lembram a máxima de Leibniz, quando este dizia que a Natureza é uma potra selvagem, que precisa ser domada. Quanto ao programa de Ricouer, o leitor, caso deseje, pode ler minha resenha crítica. Quanto à manipulação de Heidegger e Gadamer, para a defesa da desobjetivação da hermenêutica, como Vattimo o faz, chegando a tornar a Hermenêutica uma “fala”, um conjunto de proposições, e não mais uma postura epistemológica, eu sugiro a leitura de Karl-Otto Apel, A Transformação da Filosofia, e, de resto, claro, O Método, de Edgar Morin.

 

Devem ser separadas as duas questões: a da leitura bíblica e do engajamento político-religioso. Uma prática é heurística, outra, política. E se não se consegue diferenciar qual seja uma e outra, e qual a diferença epistemológica entre ambas, não se pode caminhar com inteligência antropológica em torno desse tema.

 

No campo da leitura da Bíblia, em termos epistemológicos, se o objetivo é heurístico, segue-se a obrigatoriedade da aplicação das ferramentas histórico-críticas, e melhor ainda, sob abordagens histórico-sociais. Qualquer outra aproximação que não histórico-crítica à Bíblia não se legitima epistemologicamente, se a pragmática é investigativa, indiciária, histórica, heurística. Segundo esse pressuposto,  grande parte das leituras bíblicas político-religiosamente engajadas colocam-se ao lado das de Justino, tanto em tese, quanto na prática, porque tais leituras dissociam-se epistemológica e metodologicamente da busca pelo sentido histórico desses textos. Nada impede, contudo, que haja leitura histórico-crítica, técnica, com vistas a trabalhos político-religiosamente engajados. O que deve estar claro, para que haja coerência epistemológica, e não ocorra, como ocorre, o que Jimmy Sudário classificou de “babel dos biblistas” no Congresso de Interpretação Bíblica, em 2004, é o jogo em que a Bíblia é lida, e, se o jogo não é heurístico, mas político, as metodologias devem reconhecer-se como instrumentais e politicamente manipuladas, tanto elas quanto as leituras que produzem.

 

Não se trata de pôr tais metodologias e seus respectivos resultados engajados em confronto com os métodos heurísticos histórico-críticos, porque não se comparam jogos de diferentes pragmáticas. Trata-se, no caso da pragmática política, de se questionar a procedência de um tal projeto, animado ideologicamente por mentalidades que, quando não correm o risco de se tomarem a si mesmas por messiânicas, arriscam-se a assumir o comportamento ideológico dos intelectuais orgânicos. A questão ética é a apresentação de perspectivas pessoais, comunitárias, histórico-condicionadas, político-partidárias, confessionais, como sendo animadas pelo Espírito, pela Verdade, pelo Senhor dos Pobres etc. No fundo, trata-se do risco da manipulação do sagrado, ainda que, supostamente para o bem. É correr o risco de jogar com a mesma arma contra quem, eventualmente, tais projetos engajados se articulam, na defesa de suas perspectivas político-religiosas.

 

Na prática, na dificuldade do diálogo inicial para a osmose do valor messiânico fundador, o mito engendra os movimentos, o Espírito os anima, e o messianismo político-religioso ressuscita. É curioso ver grupos rivais, político-religiosamente adversários, digladiando-se através da articulação ideológica de textos bíblicos. Quando passar o tempo, muitos sentirão um rubor na face, pelo que se fez. Alguns ainda vão justificar o feito. Não, claro, epistemologicamente.

 

Se o mito é a única forma de promover libertação das massas, ficamos em péssima situação, porque, manipulando miticamente a massa, pretendemos, com isso, libertar essa mesma massa da manipulação mítica da “direita”. Risível. Claro, se paramos para pensar nisso, não nos metemos com isso, e corre-se o risco de paralisia intelectualista. É verdade. É o risco. E a solução é o quê? Não pensar e meter os pés pelas mãos?

 

No fundo, o animus político-religioso do jogo político-religioso é visionário, apaixonado, quixotesco, messiânico, enquanto engendrado pelo mito e por meio da articulação do carisma. As massas passam de mão em mão, e a História espera para ver em que mãos ela terminará. Temo esse círculo vicioso, as utopias animadas pela mística, pela magia, pelo mágico. Temo. Precisa haver outro caminho, menos perigoso, menos carregado de manipulação ideológica, de alienação subjetiva, de bricolagem mitológica. É preciso abrir-se caminho, pela educação emancipadora, para o despertar da consciência dos sujeitos, a introdução de tecnologias em pequena escala, e em pequenas comunidades, ajudando-as, a partir de sua própria gesta, alcançarem a autonomia.

 

No campo dos engajamentos, portanto, o ponto nevrálgico é a ética antropológica e noológica – corpos e mentes sendo manejados, supostamente, em seu próprio benefício. Deve-se enfrentar, honestamente, sinceramente, desprendidamente, a pergunta pela procedência ética de um tal projeto.

 

No campo heurístico, o da pesquisa bíblica, é preciso levar a sério a questão do sentido histórico de textos, esquivando-se de contorná-la por razões político-ideológicas. As metodologias histórico-críticas estão insuficientemente elaboradas, porque a via, equivocadamente chamada de “hermenêutica” – no fundo, ideológica, porque, não resolvida, quanto à questão epistemológica, arvora-se muito rapidamente demais em cosmovisão, pressa típica da superficialidade reflexiva – simplesmente interrompeu o processo de aprofundamento, quando ele era mais necessário, uma vez que um bem apontado reducionismo literário engessava a sua aplicação. Com razão, critica-se o fosso em que o método se enfiou, transformando-se em receita de bolo, como se a leitura de textos históricos pudesse ser resolvida por um positivismo de processo.

 

Lamentavelmente, contudo, a perspicácia da solução apresentada ao mesmo tempo da crítica, a abordagem histórico-social, logo enveredou pelos caminhos dos compromissos político-religiosos da pragmática político-engajada. Essa interrupção do diálogo heurístico-metodológico precisa ser superada, e não o será por meio de negociações político-ideológicas, no sentido de se construir um saco de gatos metodológico. Já tivemos oportunidade de ver os prejuízos da moda estruturalista, espécie de calvinismo secularizado e cínico. Já havia ele ruído na Europa, e o estávamos aqui, instrumentalizando em benefício de projetos político-religiosos engajados. 

 

O caminho traçado para a pesquisa bíblica, epistemologicamente procedente, deve orientar-se pela perspectiva histórico-crítica, sob abordagens histórico-sociais, dentro da perspectiva das Ciências Humanas, sem melindres cripto-políticos, e a partir do ponto em que o processo de reflexão quanto ao método foi interrompido por urgências político-religiosas, importantes, no campo da pragmática política, realmente urgentes, em se tratando, por exemplo, da questão dos países do Terceiro Mundo, mas que não têm nada a dizer, em termos epistemológicos, no que diz respeito à uma investigação indiciária das Escrituras. Pode haver, e há, coisas mais urgentes, político-religiosamente falando, do que a pesquisa acadêmica da Bíblia. Mas os problemas relacionados a tais urgências não são competentes para estabelecer modelos de pesquisa heurística da Bíblia. Se não a lêem indiciariamente, lêem-na politicamente. E leitura política é, apenas, instrumentalização ideológica.

 

Precisamos de amadurecimento antropológico, e aprender a discernir as pragmáticas em que estamos existencialmente envolvidos, reconhecendo que cada pragmática dispõe de suas próprias competências e pontos críticos.

 

Depois de mil e setecentos, mil e oitocentos anos, conseguimos deixar no chão da História a normatização alegórica das Escrituras, ganhamos maturidade histórica, emancipação epistemológica, capacidade heurística. Não seria nada digno de nossa vocação histórica pôr isso a perder, em troca de utopias eventualmente legítimas, mas epistemologicamente não resolvidas, e muito menos pertinentes à pesquisa.

 

Para o bem, ou para o mal, trata-se de uma questão que só pode ser resolvida com transparência, honestidade, sinceridade, objetividade e comunitariamente. A questão é epistemológica, não política. Nada menos do que um tal desprendimento de espírito o tempo nos cobra. Exijamos isso de nós mesmos, e de cada um de nós.

 

Terei enxergado bem a questão? E, tendo-a enxergado, a terei exposto convenientemente? É sempre o risco.