Por um Enfraquecimento da Idéia de Deus

Carta aberta aos congressistas do II Congresso de Pesquisa Bíblica,

aos associados da ABIB, e aos demais interessados

Osvaldo Luiz Ribeiro

10/09/2006

 

O Êxodo é uma narrativa de morte. Quando Tânia Mara acabou sua conferência no II Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, disse exatamente isso, em minha intervenção: na narrativa do Êxodo, o que está dito, afinal, é que Yahweh tira um povo da escravidão do Egito, e o faz caminhar pelo deserto. Esse povo, agora, é seu povo. O que acontece depois disso podia, e pode, ser resumido numa fórmula: o deserto é lugar para Yahweh, primeiro, matar esse seu povo, e, depois, criar, dele, outro povo, para matar, com ele, a gente que, Yahweh sabe, prevê, deseja, ele, povo, encontrará em Canaã. Yahweh, aí, tem sede. Sede de sangue. Borbulhante sangue vermelho. Sangue fresco. Como se aquela gente toda fosse criada para a matança, como nós criamos, para isso, gado. Deus cria gente. Gente cria gado. Criar, em Deus, é para a vida? Criar, em nós, é para a morte? Não. É o mesmo fim. Nós, para comer. Ele, para beber. Tem sede. Sede que é projeto. Projeto de sangue. Sangue humano. Não é que Yahweh, aí, num momento de descontrole, se deixe tomar pela fúria. A fúria é um projeto. A sede, uma estratégia. O sangue, um objetivo.

 

Minha intervenção, naturalmente, foi pública. Razão pela qual um dos participantes, que no dia seguinte desculpou-se, desculpas recebidas, mas desnecessárias, dizer-me que eu gostava muito de morte, ao que, educadamente, retruquei que não, não era bem eu, mas Deus, porque a Bíblia era, afinal, um obituário, mas não de velhos, que deixassem a estação, depois de colher flores, mas de homens e mulheres de estripados a crucificados. Tanta morte que a solução final é, também ela. Seja a Cruz, seja o Juízo, Ela. A Morte torna-se a deusa-governanta da Casa, ameaçadoramente presente. Os quadros pendurados na parede são dEla. É Ela pintada neles, quaisquer que sejam. Mesmo quando a cena é, supostamente, a da Liberdade. Porque, na Casa de Yahweh, a Liberdade tem seu léxico na Morte. Na religião do Deus da Morte, a Liberdade é reinscrição transgressiva. Liberdade no Êxodo? Somente a que tem Yahweh de matar, sem que ninguém lhe possa dar um basta.

 

A Morte fez sua erasio memorie. Não se vê a si mesma como morte. E fez suas próprias reinscrições transgressivas, dizendo libertação onde se lê morte, como se lê Adonai onde se leria Yahweh, coisa estranha, porque Yahweh é um nome, e Adonai, uma palavra de comando, de modo que, então, Jeová é uma palavra-comando. É dizê-la, e as espinhas se empertigam, os cabelos, arrepiam, os dentes, trincam. Mas eu compreendo, porque por trás de nossos ombros, paira a deusa Morte, administrando a Casa. Os corpos que entram nela, são corpos que tremem de medo. E se não tremem de medo, tremerão de medo.

 

É admirável. Yahweh adora a morte: mata seu povo, o povo dos outros, sua própria esposa, a esposa dos outros, seu próprio filho, os filhos dos outros. E, ai, ainda quer festa! Tanto adora a morte Yahweh, que a fez deusa. A deusa Morte. Ela. Faz sentido que mate seu povo, porque, no texto, seu povo é escravo seu, Ele, Senhor deles, e é isso que Senhor faz com escravo que não saiba o lugar do ser-escravo. Não houve libertação na narrativa: houve troca de Senhores, e não é à toa que se enfrentaram na batalha. Pobre foi daquela gente, que chorava no chicote, e morreu no deserto. Pior do outro, que nasceu no deserto, sem vida, e tornou-se exército de morte, soldadinhos de chumbo na mão da deusa Morte.

 

De certo modo, Milton Schwantes concordou com isso, em sua conferência de encerramento do Congresso. Falou propriamente da violência da narrativa do Êxodo, antes que da morte que a anima. Mas é que a morte ali é morte violenta, e um termo se toma pelo outro, indistintamente. A Morte é morte aí, no Êxodo. A Morte é morte adiante, em Canaã, linearmente construída: invadir, estuprar, estripar, matar, lavar-se no vermelho. Aos cananeus, a Morte. Ou matam a criança que lhes olha nos olhos, não entende a espada levantada, estende a mãozinha, pensa que é flor, mas nem espinho é, é cobre, é estanho, é bronze, é ferro, é a carne que Deus fez desfazendo a carne que Deus fez. Tenra carne carcomida pelos vermes que Deus fez, aquela que os abutres e os cães não deram conta de lamber, de roer, e de bicar, as moscas, de revirar com as patas, as formigas, de processar diligentemente, inconscientemente, elas e eles, sem saber o que fazem, porque processam biosfera. A espada, não. Esta esfola o sopro.

 

Talvez a culpa não seja tanto de Yahweh. É que ele, apressado, escreveu a Bíblia naquele tempo, quando a consciência da ONU não regia o Planeta Globalização. Amanuense, a boca que o guiava era uma boca daqueles dias, daqueles lugares, daqueles espíritos. Como hoje a Morte não impera mais entre os homens, nem entre as mulheres, como hoje não vale mais invadir, estuprar, estripar, matar e beber o sangue, talvez, digo, talvez, se Deus escrevesse a Bíblia hoje, o povo empoeirado do deserto se lavaria no Jordão, e iria de porta em porta, entregando flores. Pelo menos cuidando de sua vida, e deixando aos outros o cuidar da deles.

 

Não? É, talvez não. Talvez a história fosse a mesma. Quando a Morte se torna deusa, não é mais uma questão de gênero, porque os vermes não são, afinal, macho e fêmea? E, se como se quer, gênero é uma questão social, a Morte, seja macho, seja fêmea, não é sempre Ela, bocarra escancarada de dentes e baba, comendo, devorando, enfiando a carne na boca antes de engolido o pedaço que ainda mastiga, a própria voracidade? Sim, sim, é sim. A Morte é yin e yang.

 

É, por exemplo, o caso da deusa Morte naquele outro texto, também êxodo, foi dito no Congresso, em que a mãe traz o filhinho, tenro, no colo, nos laços dos braços do amor da deusa. Ela o traz do Egito. Ele é ainda um bebê, lindo e morno. Ela, mãe, deusa, inclina-se, dá o seio, o divino seio de deusa, amorosíssima, boníssima, fertilíssima bondade amorosa. É verdade. Isso é o que ela mesmo diz de seu passado. Foi isso que ela diz que fez, lá. Mas, quando se lê, lá, o que ela fez, já se viu o que foi: matar todos, menos dois, e daí fazer outra fornada, para que eles mesmos matem todos quanto, não-eles, lhes passem pela frente. Não podia Ela mesma, deusa, Ele mesmo, deus, pisar Canaã com o próprio pé? Não podia, Ele ou Ela, cuspir em Jerusalém e afogar os Sete Povos das Missões hebraicas? Não podia, Ela ou Ele, soprar, e fazer a massa de carne ralar-se na rocha e no chão, até os ossos, e acelerar, assim, o trabalho da Natureza? Mas não: tinham de fundar uma escola de deuses e de deusas, e fazer um povo que comesse carne, instrumento divino. A alguém que estivesse às portas da morte, talvez se justificasse abrir uma escola de matar, para que a Morte permanecesse entre os homens e as mulheres, Morte-Macho, Morte-Fêmea, que a sede dá em macho e fêmea. Mas Deus vai morrer? Está em coma? Esteve em coma? Nietzsche sabia, e nós, também, que o deus que morreu foi o deus político-social de uma Europa monárquico-cristã, mas não o Deus-idéia, que, Morin sabe, e me contou, e acredito, devorará eternamente os humanos, comendo-nos, nutrindo-se de nós, de nossa carne, do tutano dos nossos ossos, chupando-os, exatamente como, nós, do gado que engordamos em Mato-Grosso. Esse Deus está vivo, estará amanhã, e eternamente, tanto quanto eternamente se dê cuidado ao Homem e à Mulher serem humanos. Pois então? Se não vão morrer jamais, salvo se nos matam a todos, não é à toa que Noé sobrou, que mesmo a insanidade tem seu lampejo de lucidez, alto lá, mato todo mundo, morro eu mesmo, então por que, meu Deus, por que abrir a maldita escola de matar? Não é só e somente porque Deus, Macho ou Fêmea, tem sede de sangue? Mais do que isso, é voyeur de carnes espalhadas no campo de batalha? Ainda mais do que isso, joga de seu trono, num PlayStation celeste, um RPG de guerra? Meu PlayStation mata bonecos virtuais. O de Deus, de carne.

 

A Morte-fêmea disfarça-se em Mãe-Fêmea ali, e abraça o filhinho, dá-lhe o seio, oferece-lhe, ó visão, a mama sagrada, que mame, que se nutra, que engorde, que sua pele torne-se crocante torresmo frito, sua carne fique doce e fresca, as veias, túrgidas, como chouriços, os ossos,  taças de tutano, o sangue, vinho entorpecente. Mas olhe-se de perto: é para matá-lo daqui não mais que dois dias, na mão dos Assírios, sua tropa de elite, campeões, ensinou-nos Solano Rossi, na arte de arrancar as línguas, cerrar os pés, as mãos, os narizes, varar o corpo, do cu à cabeça, com um pau não lixado, fazer totens de cabeças cabeludas, cabelos tingidos de vermelho, não de tinta, mas do sangue daquilo que era um corpo. Tirou do Faraó o que diz ser seu bebê, mas não acredito. Do amor que diz sentir, vai à ira num instante. Que o embale a cavalaria de bigas de Acabe! Que lhe esmaguem a cabeça as botas de ferro dos soldados de Ashur. A Morte-Fêmea também dá leite à cria, para a comer amanhã, e não como aquela que acorda às cinco, dá milho à galinha, lavagem ao porco, ração ao boi, porque o Natal está chegando, e, se vamos comer, comamos com festa, porque a Morte-Fêmea de comer não tem precisão, mas engorda para a Festa das Dilacerações do Corpo, para a Luta sobre as próprias Tripas, para as Novenas de Santa Mut.

 

A Morte não é macho. A morte não é fêmea. A morte é gosto de sangue na boca. É lambeção de beiços. É o puro prazer do grito e da degola. Desse mal, todos padecemos. Principalmente Deus. É uma patologia-espelho. A Morte é o mito da morte. Deus é o mito da vida. A bem pregada mentira da morte-vida.

 

Eu não acredito que a estratégia de reinscrever transgressivamente o Êxodo seja solução que nos livre de morrer – e de matar! Não acredito mesmo. Lá iam eles, os escravos de antes, os de agora, fazendo as contas da festa, sem saber que a festa será dos insetos do deserto, dos escorpiões, das vespas, das formigas, das moscas, dos vermes, que, depois do festim, gritarão aleluia. Não, não acredito em poesia, aqui. E não, porque o olho só esconde aquilo de que tem medo de ver. E, tendo medo de ver, fingindo não ver, disfarçando-se, disfarçando a coisa, para si e para os outros, deixa-a ali. A coisa, não nomeada, não existe, é o que nos vamos repetindo, depois do Enuma elish. Tá bom. Outra mentira. Lá está, desenhada em caracteres paleo-hebraicos, a Morte. As presas já vão se abrindo, a bocarra, ai, escancarando, ai, mordeu, já era. Morri. É tanto um jogo de Yahweh isso, que aos filhos mortos de Jó se oferecem outros, como restart. É assim que faço quando jogo GTA. Se meu char morre, re-estarto o jogo. É isso que é, um jogo.

 

Entendi, finalmente, no Congresso, a estratégia. Fazer poesia para superar essa dor. Demorei a entender. Ficava eu comparando estratégias. Quanto erro cometi. Não se trata de arqueologia. É poesia. É reinscrição transgressiva. Não é ler Deus. É desler Deus. Não é ler o Êxodo. É inventar um êxodo. Trata-se, de um certo modo, da nossa A Vida é Bela. Trata-se de estratégia de vida, não de trabalho. Trata-se de uma luta com Deus, mas contra Deus. Contra o Deus da Morte, contra a Deusa da Morte, a vida, fazendo da poesia a espada. Tentamos sobreviver assim, e acreditamos que podemos fazer os outros sobreviverem assim.

 

De minha parte, não acredito no projeto. Respeito-o, desde que Haroldo me apresentou a ele. E, quem o aprende com o Haroldo, aprende, por osmose, o respeito. Confundo, às vezes, meu próprio exercício de gabinete, com esse projeto de esperança. Se nosso sangue pode invadir a Bíblia toda, se a dor, cada página, se a Morte, tudo, por que não a nossa poesia, a nossa resistência, a nossa força-fraca? Mais que Don Quixote, mas do que Brancaleone, pregadores. Razão pela qual somente a muito custo consegui furtar meus olhos da serpente-poesia com que Tânia Mara me hipnotizava com sua sinuosidade de corpos-poéticos e poesia-de-corpos, igualzinho, agora lembro, quando eu caçava rãs no que um dia foi o rio de Mesquita, Rio Cachoeira, hoje, Canal Dona Eugênia. Entrávamos lá, moleques, com uma lanterna. Era tacar o facho de luz na cara da rã, e ela fica lá, tonta, paralisada, sem poder dizer que não, não quero, e, aí, já está amarrada com barbante, e dependurada pela cintura, numa penca de quase-carne-na-panela. A poesia é assim, uma luz, mas que paralisa, porque não pede que seja retrucada, posto que se faz em outro registro, falseada, posto que não é diálogo, analisada, posto que não é palavra, é arte, não é fala, é canto, não é proposição, é encanto. Contra o encanto, o feitiço e a persuasão dA República, a poesia dos poetas. Não surpreendo que Platão os mande escorraçar, a chutes, para fora de Atenas.

 

Fiz força, e, para o bem, ou para o mal, fechei os olhos para a luz que me cegava, para poder pensar, como quando ouço os sermões pastorais, semelhante luz, semelhante encanto, mas para os quais já comprei óculos escuros suficiente. Mas não para a fala hipnótica da bela Tânia, que encanta-nos o corpo com a (própria) figura-corpo e as palavras, pobres de nós, fazendo-as dançar a capoeira enfeitiçada. Sim, sim, compreendi. Compreendi e entendi, conforme a distinção da hermenêutica do final do século XIX, que Claude mencionou superada, não tenho certeza se de todo. Compreendi com o coração. Entendi com os olhos. Os olhos dentro do coração, o coração dentro dos olhos, mas coração, coração, olhos, olhos.

 

Por que não acredito na estratégia? Porque ela ainda se agarra na idéia de deus de um jeito que nos põe para fora de nós mesmos. E, nesse sentido, êxodo por êxodo, talvez valha mais o dO Alquimista, que, no fundo, no fundo, é o da Sabedoria: comer o pão de casa, beber o vinho de casa, é em casa que está a vida. Talvez a sabedoria tenha logo descoberto, não sei, e temo que não tanto quanto poderia, que deus nem sempre é bom companheiro.

 

Mas jamais será companhia descartável. O que me faz considerar o projeto poético da libertação como interessante estratégia. O que me parece, ainda, ineficiente, é a manutenção da centralidade do apelo à motivação em Deus. Cuidava querer outro jeito. Haverá? Não sei. Podia saber agora, já que perguntei ao mestre Gottwald, se era possível uma utopia intra-mundo, uma utopia sem a alma de Deus. Ele não me respondeu. Mas a pergunta nasceu de sua própria advertência: meu livro não é sagrado. E por que a advertência? Não é porque ele sabe que o sagrado é chave perfeita para abrir a metáfora de Dr. Jekill e Mr. Hide? Gottwald assustou-se de que seu livro tornasse-se chave de fechar, antes que de abrir. E eu queria saber se é possível que Deus um dia se torne chave de abrir, de fato, sem que, imediatamente, mande que se fechem todas as portas, as saídas, e as janelas, as tentativas de fuga, para, então, ai, devorar os incautos. Ele não me respondeu. Não sei se viu, e temeu. Se não viu. Se não entendeu. Mas eu vi, e temi, e gritei. Nossa vida ou será humana, ou será sempre vida-morte. Ou Deus se torna humano, sem tornar a ser divino, ou nós, incontornavelmente, nos havemos de tornar divinos, somente para sentir o cheiro do sangue, a viscosidade do sangue, o gosto do sangue, a saúde do sangue.

 

Pergunto-me se a tentativa de Jesus, qual não sei, um, parece, de chamar Deus de Pai, não é uma tentativa desse tipo: um esvaziamento de Deus. É uma tentativa. Mas, atenção: apenas se for para arrancar de Deus todos os outros títulos. Deus-Pai, mas, não mais, nunca mais, Deus-Senhor. Deus não pode, absolutamente mais, ser Senhor de nós. Por quê? Porque nunca é Deus que é Senhor, mas a nossa própria Idéia de Deus, que, tornando-se Senhora de nós, faz guerra em nós, por nós, conosco, contra nós, dentro de nós, à nossa volta, porque sua missão é fazer guerra, seu licor é sangue. Nesse caso, Reino de Deus teria de ser anátema. Que reino que nada! Casa, sim. Casa de Deus. Mas sem reinscrições transgressivas aplicadas a essa reinscrição transgressiva. A casa que era do homem-mulher vira a Casa de Deus, que é Senhor, e Idéia, e Poder, e a casa primeira torna-se vazia de sua autodeterminação. Casa de Deus aqui não pode mais ser a Igreja, nem Israel, nem nada, mas só a casa da gente, onde a gente nasce para a morte, ou vai morrendo de vida, enquanto contamos as voltas do sol, os goles de água, os bocados de pão, os coitos do corpo. E, já sabemos, eu, pelo menos desde os intermináveis textos que o Haroldo nos punha a ler, que dizer que Deus é Pai é metáfora que também tem de ser (re)trabalhada, porque Pai pode ser também Senhor, Patriarca e Macho. Mas não é desse Pai que falo. Se é necessário esvaziar a Idéia de Deus, é imprescindível reconstruir a de Pai.

 

Deus-Rei é a sombra da Morte-Macho e da Morte-Fêmea. Nunca Morte-Macho-Fêmea, que é outra maneira de sair da realidade para a fantasia, como saída. A Morte sempre ou é Macho, ou é Fêmea, porque a Morte é, sempre um Poder-Macho ou um Poder-Fêmea, porque, ainda, esse poder é de carne e osso, escondido atrás da imagem, da doutrina, da Bíblia, do carisma, bocarra escancarada de dentes.

 

Tornamo-nos democratas, mas de mentira. Porque, se o fôssemos, Deus já teria deixado de ser Senhor faz tempo. Na Inglaterra da monarquia de enfeite, os olhos da rainha são deístas. Faz até sentido. Mas não para nós, brasileiros de uma democracia em construção. É necessário que Deus deixe de ser Rei, se não cremos na coroa, de ser Senhor, se não cremos na escravidão. Em que cremos? Isso deve ser Deus. O problema é que a idéia de Deus é a Idéia das Idéias, buraco-negro, poço sem fundo. Tudo quanto pensarmos dele, se voltará contra nós, porque a Idéia vive em nós e de nós, mesmo quando a julgamos a nosso serviço. Eu diria que a Idéia de Deus, conforme nutrida na História, é a razão dos males da História. Não falo da Idéia do Deus Cristão, necessariamente apenas, também ela, mas da Idéia de Deus. Idéia forte. Fortíssima. Blitzkrieg, pai da pregação, mãe da poesia homilética. Nascida, é eterna, agora. Deve tornar-se fraca, pois. Deve ser enfraquecida. Deve tornar-se inválida. Precisamos de um Deus inválido. Não um deus que cure coxos e cegos. Um deus que se torne coxo e cego.

 

Oh, eu sei, já me dói o medo do Universo! Escutei chinelas andando na sala de Haroldo às duas e meia da manhã, e já olhei pro céu. Entendo bastante de medo. Ah, sim, já eu mesmo, acredite, aqui, agora, tremo de medo pelo amanhã. Porque um Deus inválido é isso mesmo, imprestável. E de onde me virá o socorro? Não tenho a mínima idéia. Com certeza aprenderemos a nos virar, eu e Ele. Mas o que eu sei, é que a Idéia-Forte Deus é assassina. Imortal, não pode morrer. Tem que ser imobilizada.

 

E só há um jeito, eu entrevejo, olhando para dentro de mim mesmo. Levar a sério a estratégia do Novo Testamento, mas abortá-la no meio do caminho. Encarnação! Sim. Humanidade! Sim. Mas, na cruz, tapar-lhe a boca, antes que o Sl 22 seja evocado, e, pelo poder encantatório da palavra, o futuro seja determinado. Quando a Ressurreição chegar, e Ele tentar subir, que aqueles homens de branco sejam enxotados a pontapés, para que os apóstolos, ignorantes?, não: sábios, que o iam retendo ali, não o deixem, pelo amor de Deus, subir, para ocupar o Trono, que o Trono é, ele, a raiz das desgraças, é a Casa Grande, o cetro, o chicote, eis nosso sangue cristão, que derramaram de nós, e o deles, que derramamos deles, e também entre nós, o nosso. Espremidos pelos pés do que se senta lá, pisando-nos, somos como uvas, para beber da fermentação dos nossos gritos. Por tudo quanto é sagrado, quando ele for subir, não o deixem subir.

 

Isso, logo se vê, é poesia. Tornemos isso em proposição, para que se tenha a possibilidade de, na roda, avaliar, e, discernindo-se, decidir. Não é mais possível que os projetos humanos se deixem motivar por absolutos, vício da absolutização dos olhos da própria cara. Absolutos intra-cristãos se devoram com orgasmos bélicos. A Idéia-Forte-Deus-Absoluto é um louva-deus fêmea, que devora aquele que a fecunda, começando pela cabeça! E o faz lentamente, deliciando-se. Absolutos não-cristãos raspam as peles com escovas de aço, no ritmo dos urros que saem da coisa-de-carne-exposta que geme sob a minha mão, que gente aquilo não é mais. Absolutos cristãos versus absolutos não-cristãos, meu Deus, que desgraça. Absolutos. Absolutos. Ao Inferno com todos os absolutos. E se me disserem que a própria proposta é um absoluto, advirto que a coerência de um sistema não está em si mesmo, mas no sistema do qual ele emerge, como emergência. Dizer que devemos abandonar os absolutos, mesmo o divino, até o divino, principalmente o divino, é dizer que eu e você devemos nos esvaziar de todo desejo de poder contra o outro. É quando eu esvaziar-me, que se esvaziarão as Idéias. É tornando-me poderoso, que empodero o Reino Noológico, desde onde os deuses divertem-se à nossa custa, como o Yahweh do salmo dois, mas só porque há um sujeito humano cá embaixo, alimentando as brasas desse escárnio, o gás dessa irrisão.

 

Segundo Edgar Morin, que me disse, e eu acredito, as Idéias são recursivas em relação aos corpos humanos que as alimentam, de forma que o sistema inteiro é recursivo. Não é que um determine o outro: eles se co-determinam. É necessário, então, para que eu me torne humano, humanizar a Idéia de Deus, enfraquecendo-a. Mas, para enfraquecê-la, preciso eu mesmo enfraquecer-me. Só que, para isso, preciso enfraquecer a Idéia, para o que... Recursividade, complexidade recursiva. Um pelo outro. Um no outro. Enquanto Deus for Senhor, serei Senhor. Enquanto eu for escravo dele, ele será meu escravo. O Senhor Deus, ordenado por mim, senhor dele, Ele, escravo meu, mandar-me-á matar, e matarei, porque sou escravo dEle, meu Senhor, que me manda matar. É necessário romper o óleo que lubrifica a engrenagem, porque, a engrenagem, uma vez posta a girar, girará eternamente, enquanto a palavra fizer sentido.

 

Quando o Êxodo se torna poesia, mas ainda é o Êxodo do Senhor da Libertação, a Idéia ri-se de nós, desbragadamente, porque o Senhor da Libertação está entre Dr. Jekill e Mr. Hide. Alegoria por alegoria, Yahweh ri-se de nós, tentando a nossa libertação. Ele se contorce de dor na barriga, de tanto rir de nós, tentando a nossa libertação. Como o Yahweh-Adonai do Salmo 2, ora Yahweh, ora Adonai, mas, no salmo, Yahweh é Adonai, rindo-debochando dos povos que querem libertação. Não adianta rasgar a Bíblia aqui. Nem lá, no Êxodo. E, nesse caso, a admoestação doutrinal-conciliar que a Isabel ouviu, e todos nós, acerta no que disse, mas não na razão que dá, e a advertência do Jacil, de que o desgraçadamente constrangedor em nós, vamos também arrancar de lá?, e como?, acerta, me parece, no centro do problema. Essa Palavra de Deus, boa, é, na verdade, eu lá, e essa palavra de Deus, má, é, também, eu lá, e eu sou isso, um tronco bom-mau, com galhos de todos os tipos. Não adianta rasgar a Bíblia má, e ficar com a boa, porque o mau ficou dentro de mim, e revestiu-se do Senhorio Divino, e eu mesmo tornarei a escrever todas as páginas que arranquei, e com sangue, seja o meu, seja o teu. É imperioso enfraquecer-me na bondade e na maldade.

 

Nesse caso, não adianta dizer que há um cristianismo do amor, que não matou, mas morreu. É não entender, absolutamente, que seja num caso, seja no outro, a Idéia é a mesma assassina, astutíssima, que só soube reconhecer na serpente a astúcia, porque ela é sua íntima. Matar ou morrer pela idéia é o mesmo, porque, matando por ela, ela aumenta seu poder, por ela morrendo, ela se fortalece. É sangue que ela quer, e se eu vou oferecer o meu, ou espremer o de outro, tanto se lhe dá.

 

É incontornável, pois, eu adivinho, um enfraquecimento. E auto-imposto. Não proposto por Deus, porque é justamente ele que tenho que enfraquecer, enfraquecendo-me. Ele e eu precisamos de uma tarde no jardim. Voltarmos lá, nós dois, e termos uma conversa franca. Se me criou para ser Ele meu Senhor, que acabe tudo aqui, agora, que não quero. Sei no que vai dar. E Ele também. Se me criou, que seja para conversar, e mais nada. Eu despirei todas as minhas roupas, Ele as dele, e andaremos nus no jardim. Começar de novo. Nada de cultos, só festa, se a gente quiser música. Nada de sacrifícios, só banquete, se a gente tiver fome. Nada de peregrinações, só viagens, se a gente tiver saudade. Nada de Leis, mas acordos, convenções, togas que a gente teça. Ou desteça, quando ficarem poídas – e ficam. E como ficam!

 

Karl-Otto Apel, Edgar Morin, Gianni Vattimo, são uns que têm proposto uma saída semelhante. Nossa resistência é acreditar que a saída deles nos é possível dentro do Senhorio de Jesus, de Deus, da Trindade, do quanto valha. Não acredito ser possível a conciliação dos projetos. Um, o projeto de quem está cansado. E eu estou. Outro, o projeto de quem está cansado, mas ainda acredita que somos o que somos, porque não nos entregamos ao Senhorio de Deus, o de Nicéia, dizem uns, o da Libertação, outros, o da Nicéia-e-Libertação, uns mais criativos ainda, quando, eu acredito, é justamente o inverso, e tanto faz de que Deus se trate. O problema não é de adjunto adnominal, o problema é morfológico: Deus, substantivo parmenídico. É preciso que as águas de Heráclito desgastem essa pedra.

 

O simplesmente apressado e o malvado, os dois passarão por essas linhas, se chegaram até elas, e considerarão ateísta a saída. Não, não é. O ateísmo mostrou a quanto pode chegar a contra-parte do teísmo. E, se cansei do teísmo quiriarcal, tanto mais do ateísmo quiriarcal. Porque o problema não é o teísmo ou o ateísmo, contra-partes da mesma pergunta, riscos do mesmo silêncio. O problema é o quiriarcal da alma humana, macho e fêmea. É por isso que, teísmo ou não, deísmo ou não, panteísmo ou não, se o estofo é quiriarcal, tanto faz, que o digam os povos das colônias, e que interessa se eram espanhóis, franceses ou ingleses, se todos abriam ao vento as velas de suas caravelas, os canhões das suas caravelas?

 

Tudo bem, que seja o Êxodo. Podia ser tanta coisa. Que seja buscado em todo texto, em todo canto, em tudo. Croatto chamaria isso de eisegese, e tocaríamos o bonde, já que a coisa tem nome. Tratar-se-ia, então, de uma utopia articulada, de um padrão eisegético. Uma certa prisão da liberdade, mas aceitemos o paradoxo. Que seja o Êxodo. Mas que não haja um Deus a guiar a tropa. Que não haja um General a ordenar o shofar. Nem que disfarçados em amor, em mamas, que a fêmea, por fêmea, também pode matar. Estamos já acostumados com o cheiro do sangue. Que usemos o faro para fugir dele, fugindo dele em nós.

 

Meu amigo Nietzsche talvez retrucasse. Osvaldo, meu caro, a moral dos escravos te contamina. Eu gosto de meu amigo Nietzsche, incomensuravelmente mais do que de todas as catequeses. Mas eu discordo dele nesse ponto. Ele considera que a vontade de poder é o espelho da Natureza em nós. É verdadeiro. Ele considera que a Natureza não tem dó do fraco. É verdadeiro. A Natureza é cruel, não, crudelíssima. Deveria haver um Greenpeace na porta do céu, a exigir que a Natureza pare de se devorar ainda em vida, como fazem os animais entre si, justificadamente, vá lá. Nós, pelo menos, os matamos antes de os comer. O guepardo, já vi no Discovery, caça os filhotes, os doentes, sempre. Na guerra, já se fez isso. Deus até mandou assim. Mas, entre nós, mais civilizados, isso não se faz, ainda que ainda se faça, Kosovo que o diga, a África já cansou de tentar. Nietzsche está certo. A Natureza é assim. Nós, como somos parte dela, podemos ser assim. Temos estômago para isso. Ateus e teístas, católicos e protestantes, cristãos e não cristãos, homens e mulheres, temos estômago para isso. A questão é: queremos isso? A Natureza não pode escolher. Nós, sim. Que escolheremos? Que escolho eu? Eu, meu amigo Nietzsche, escolho não. Não quero poder contra. Quero poder, sim, de vida, de sobrevivência com gozo e abundância, sim. Mas não quero poder contra ninguém. Nunca mais. É o que me faz não melhor do que a Natureza. É o que me faz ser humano. É o que me faz Ser Humano. Posso escolher pisar a cabeça do pobre no pó da terra, ou posso escolher não pisar. Posso escolher não pisar a cabeça do pobre no pó da terra, ou posso escolher levantá-lo do chão. Posso escolher. O pobre com a cabeça no chão, não. Ali, ele é a própria Natureza, pondo a cabeça sob o pé do Forte, até que estoure. O Ser Humano pode escolher, quando pode escolher. Quando não pode escolher, retornou ao nível da “barbárie” natural, onde as formigas devoram vivo o besouro, comendo-lhe um olho, que ainda pisca, uma perna, que se debate, uma tripa, que escorre. Para que eu seja Humano, é necessário que promova a condição de todos escolherem, de todos poderem escolher. E só quando for fraco, fizer-me fraco, todos poderão escolher, porque todos poderão dizer igualmente sim ou não para a Força. A Humanidade ainda não existe. Um parto acontece. Aqui. Agora. E teremos de escolher.

 

Escolho escolher. E escolher sem a coação da Idéia de Deus. Não escolho por causa dele. Escolho por causa de mim. Se voltar a fazer isso, se me determinar por Ele, volta o ciclo, recursivamente. Não é uma questão de apagar do léxico a Idéia de Deus, mas de libertar-me da sua Força, libertando-me da minha. Faço-o, deixando-a na praia, para que o Mar a leve. Faço-o, comparecendo diante de Deus. Tenho nos braços a minha Força, e deposito-a aos pés dele. Ele, aos meus, a própria. Fracos, os dois. Sentamo-nos na varanda da casa que construiremos juntos. Lá, adiante, o Horizonte. Eu pergunto: e agora? Ele me olha nos olhos e treme. Pela primeira vez ele não pode me dizer nada. Vejo uma lágrima querer sair. Ele a segura. Eu compreendo e calo. É difícil para Deus deixar de ser Deus. Mas ele aprende. Porque eu tenho que aprender.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 08/09/2007 23:33:22