Por que eu acredito cada vez menos em monoteísmo ético-profético

Osvaldo Luiz Ribeiro

15/07/2008

 

 

O presente ensaio deve ser tomado como uma pausa para respiração. Um pára-pra-acertar. Ele versará sobre minha posição crítica em face da teoria mais aceita, recentemente, para “explicar” o surgimento do “monoteísmo” em Israel/Judá. Quero enfrentar a teoria em três frentes. Primeiro, refletindo acerca da macro-estrutura “histórica” que separa as “origens” (?) do “monoteísmo” em “Elias”, bem como a sua efetiva emersão das águas judaicas por volta/a partir do século V. Depois, refletindo (mais uma vez), sobre o paradigma “ético-profético” que (ainda) opera (conscientemente?, inconscientemente? – sub-repticiamente) as aproximações à história do “monoteísmo” em Israel/Judá. Finalmente, postulando a incoerência epistemológica, e seu respectivo anacronismo, da discussão monoteísmo/politeísmo – respectivamente, da tomada – tácita – do “monoteísmo” como “valor”. Depois da pausa – convém voltar à prancheta.

 

 

1. Por que percebo “furos” na amarração narrativa “deuteronomista” em torno do tema da adoração exclusiva a Yahweh – ou: razões histórico-literárias para pôr minhas barbas de molho.

 

A (hipó)tese em voga afirma que os primeiros esboços do monoteísmo ocidental podem ser observados no século IX, em Israel, especificamente no contexto relacionado a Elias[1]. Já afirmei anteriormente, que aposto numa edição sacerdotal/deuteronomista “desse” Elias[2]. Diante de mim, esse “campeão” nada tem de “profético” – aparece-me como uma hipóstase sacerdotal, retroprojetado, disfarçado, por meio de retórica de cooptação da memória popular (no caso de ter havido mesmo um tal de Elias, profeta, o que me parece ser suscetível de questionamentos), de “profeta”. Um zeloso, iracundo e violento “profeta”. Seja como for, não vou me deter em “Elias”. Outro dia, trato dele. Deixe-o, por ora, como o suposto ponto de partida da empreitada monolátrica/monoteísta, somente porque é assim que o toma a tese em voga.

 

Interessa-me o que vem depois. Pois bem: primeiro ato. Esse Elias monoteísta/monolátrico está em franca “luta” contra reis polilátricos/politeístas – israelitas! –, bem como contra profetas (sacerdotes! – sacerdote versus sacerdote[s], “profeta cúltico” de “Yahweh” versus “profeta[s] cúltico[s]) de Baal e de Asherah). Luta renhida. De morte. Na outra ponta, aparece Oséias, redondos cem anos depois. Oséias, também dito profeta, protesta contra a religião popular, o culto nos altos, tudo quanto o povo faz e que não parece agradar a determinada maneira “certa” – do ponto de vista do Yahweh desse grupo “ortodoxo” – de o fazer. Temos, aí, varridos cem anos da história mais antiga de Israel por uma vassoura monoteísta/monolátrica engajada, vio(ru)lenta, bélica, mortal. Yahweh encontra-se, aí, sedento de sangue – devem morrer todos quanto se colocarem contra seu projeto de poder divino. Ainda que porque esse povo recusou o “amor” quase maternal desse “amoroso” Deus.

 

Primeira tragédia. A Assíria vem e destrói tudo. Não sobra nada. Literalmente, Israel é varrido do mapa. Diz-se que levas e levas de refugiados migram para o sul – Judá! Entre eles, os “pregadores”. Não deu lá em cima. Vamos tentar lá embaixo.

 

Segundo ato. Ezequias, rei de Judá, “herda” as tradições do norte. Os refugiados de Samaria/Israel apinham-se em Jerusalém, recebidos. É a década de 20. Acredita-se que fomentou aí um murmúrio ético-profético. Os herdeiros dos, se não os próprios, “profetas” monolátricos/monoteístas do norte “refletem” sobre a destruição de Israel – a causa lhes salta aos ouvidos: não deram crédito à pregação! Irritaram Yahweh, que lhes passou o pescoço à espada. Bem-feito! Anos transcorrem. Consta que Ezequias deixa-se “converter”. A tradição de Reis dá conta de uma reforma – destruição de Nehushtan, de/da Asherah, de “estelas cúlticas”, de “altos litúrgicos”. Uma reforma já monolátrica/anicônica, como bem o quer a Torah. O que Elias e Oséias haviam querido – o que Yahweh havia querido por eles, acontece agora!

 

Tragédia dois. Lá vem a Assíria. Cerca Jerusalém. O povo diz: vem para vingar-se de Ezequias, blasfemo e iconoclasta, que mexeu onde não devia. Dizem os representantes da monolatria: nada, vem para mostrar que e para sua glória!, que ele está do lado da reforma, que ele a quer, que é ele quem a faz! Dito e feito – Senaqueribe não destrói Jerusalém. Moral da história – Samaria, idólatra e politeísta, é destruída. Judá, monolátrica e anicônica, não. Yahweh quer a reforma.

 

E ela se dá? Mas nem por dois dias. Morre Ezequias e reina um Manassés; Manassés é um Acabe e uma Jezabel, diz a tradição. De fato. Volta Judá às suas práticas “naturais” de polilatria e poliliturgia. A reforma faz água. Acaba. Morre.

 

Mas fumega um fogo morto. No final desse mesmo século, nasce um “messias”. É Josias – o “nome” da vez, na literatura especializada. Moisés? Não. Davi? Nada! Ezequias? Improvável. Josias? Ah, sim, Josias – aí dá. Mas a draga lá vem, e vai arrastar essa terra para ainda mais longe – é só esperar.

 

Ato três. Josias. Nem se nos dá que tenha sido atribuído a ele – de qualquer forma, ao seu aparelho – a “fraude santa”, seja lá o que tenha sido aquele “rolo” encontrado. Mas Josias vai fazer o que nem Elias, nem Oséias, nem Ezequias fizeram. Outra reforma. Exército nas ruas. Faz que faz. Quebra que quebra. Interdita que interdita. É o que a “saga” “deuteronomista” diz. É o que mesmo um Israel Finkelstein aceita. Jerusalém, agora, nas mãos desse homem, desse rei, desse “sacerdote” de Yahweh, agora, sim, vai transformar-se na Cidade de Deus, mil anos antes de Agostinho. Yahweh vai ficar feliz que só.

 

Tragédia três. Que nada. É pau é pedra é o fim do caminho. Literalmente, as águas cosmogônicas levam Judá e Jerusalém para o fundo dos abismos. Mata-se o rei numa campanha maluca – é o que se diz. Pouco depois, ouvir-se-á um resmungão dum Ezequiel descrevendo um templo que deve ser tudo menos aquilo que Josias teria feito – só tem estátuas e imagens de répteis ali (Ez 8). Jerusalém é destruída, cercada, atacada. É a nova Samaria. Fogo nela. Lá se vão os reformadores – justo eles! – arrastados pelas estradas, correntes no pescoço, grilhões nos pés – até a mãe do rei. Lá vão sacerdotes e profetas cúlticos. Lá vai a nata.

 

É só olhar e ver

 

ELIAS/OSÉIAS→ASSÍRIA/SAMARIA→EZEQUIAS→SENAQUERIBE/MANASSÉS→ JOSIAS→ BABILÔNIA/JERUSALÉM

 

Não é muito, muito curioso que a cada tentativa de reforma, suceda uma “tragédia”? E isso sistematicamente, desde o século IX/VIII, passando pelo VII, e chegando ao VI? Durante esse período, das duas uma – ou os reformadores eram da pior qualidade possível, porque nunca e jamais, em tempo algum, foram ouvidos, porque, em todo esse tempo, Israel, norte, e Judá, sul, foram sistematicamente polilátricos e icônicos, ou essa história nunca aconteceu como se diz ter acontecido. Por que, por um golpe de mágica, no final do século VI, Judá “renasce” (outro mito judaico), e renasce, agora, sim, monolátrica. Quer dizer, não da noite para o dia. Mas depois de uma extraordinariamente muito eficiente campanha institucional, programática, e monolatrização e aniconização do culto popular.

 

Faz sentido? Deve fazer, porque há muitos que seguem essa narrativa, e ainda a tratam como plausível. Quanto a mim, vou tornando-me cada vez mais crítico dela. O que é sempre mais difícil, porque tem-se, então, que caminhar na vala, porque a pista de rolamento está reservada para as “evidências”.

 

Mas eu me pergunto. E se? E se o que há de histórico na “narrativa” são apenas os nós trágicos? Lá está, no século VIII, a destruição de Israel. Lá está, na virada do VIII para o VII, o cerco “falido” de Jerusalém, lá está, logo ali, na virada do VII para o VI, a destruição de Jerusalém. Marco-estrutural trágico. É possível pensar que a monolatrização/aniconização de Judá, efetivamente levada a termo no século V, tenha sido encaixada retoricamente aí, para, digamos, fins didáticos, para convencer a população recalcitrante? Ah, que ninguém ligou muito para os reformadores, de início, fica claro nas reclamações de um Ageu. E que havia muita gente disposta a burlar o “fisco”, sabe-o um Malaquias. Mas, o fato é, que chega-se à ortodoxia que se conhece mais tarde justamente aí, nesse período.

 

Minha hipótese – a ser testada. A política de administração persa é a chave para a monoteização/aniconização de Judá. Administra-se a população conquistada por meio da religião da população conquistada. Assim foi em Babilônia, no Egito, onde quer que a Pérsia pusesse os pés. Pela mão, o traz Yahweh para Jerusalém (Is 45,1). Explicar-se-ia por que Judá torna-se monoteísta, enquanto Babilônia e Egito permanecem polilátricas pelo fato de Judá ser reconstruída aí e agora, ao passo que aquelas civilizações foram incorporadas prontas e como estavam. O que faz com que a atenção se deva dirigir para as crises internas dessa Judá.

 

Crise e conflito internos. Uma elite política contra uma população de má vontade. Deixem-se os claros-escuros para aprofundamentos. Há, no fundo, um sim e um não. Não penso que o projeto tenha sido, de cara, monolátrico. Não acredito que a “divindade” estivesse no centro da discussão, que fosse o foco, que fosse ela a raiz de toda a “criação” – no texto que está sendo redigido aí e agora, nem nome essa divindade tem! Penso que a religião, a teologia, a divindade, enfim, vão, foram, à reboque das verdadeiras intenções – a organização e a administração da coisa pública.

 

O projeto de administração centralizada foi recusado pela população. Nem deu-se bola. O enfrentamento militar (explicar-se-ia assim o desaparecimento de Zorobabel?) não resolve. É paliativo. E fere a política de eficiência persa – é custosa e suscetível de traições. Cooptação subjetiva! E aí começa a caça do gato ao rato. Tudo o que o poder central quer é submeter a população a si. Assim, movem-se as peças. É aí que a divindade entra em cena. No fundo, é da divindade que a população depende. Traz-se Yahweh para o “projeto”. Mas eles têm outros deuses lá. Fora com eles. Mas eles têm outros Yahwehs lá. Não – só há um. Mas eles têm outros altares lá. Derrubem-se. E templos. Ao chão! E profetas – silêncio neles, ou espada. E sacerdotes. Incluam-nos nos serviços de Jerusalém. E imagens! Quebrem tudo. Mas para quer? Para que sejam obrigados a vir – a ir! – a Jerusalém, ao Templo de Jerusalém. Para isso, não pode haver absolutamente nenhuma outra forma de a população recorrer ao poder da(s) divindade(s) que não esteja sob o controle do poder central. Por hora, vai-se parar aí, mas pode-se seguir a estrada e deparar-se com o fenômeno similar da interdição do Nome, e, finalmente, da tabernaculização da Sabedoria no Templo. Tudo – conflito e cooptação.

 

Isso que aí acontece, entre o final do século VI e o V, projeta-se retoricamente sobre aquelas tragédias, “explicando-as”. Mas nunca estiveram lá. Lá, todos eles, profetas, reis, povo, todos, eram como esse povo aqui, polilátrico e icônico. Não acredito (mais) num Elias deuteronomista. É mito. Num Oséias da mesma família. Fraude. Um Ezequias... cuidado aqui. Mas vou-me tornando cada vez mais cético. Josias? Monstros apostam nele – ainda. Eu, não mais. Em todo caso...

 

É somente na Judá sacerdotal que vejo nascer o que se tornou nossa vida e mito – monoteísmo ético-profético, que de profético tem nada, e de ético, menos ainda.

 

 

2. Por que acho que é tão difícil para nós admitirmos que o monoteísmo não é obra de profetas, muito menos modelo de ética – ou: a fraude santa de Josias é ninharia em face da fraude sacrossanta de Josué.

 

É natural que tenhamos em altíssima conta o monoteísmo. Tudo em nós grita a favor dele. Deus grita a favor dele. Deus grita – em nós – a favor dele. Deus é a prova incontestável dele! O resto caminha ao largo desse prin(pre)cípio.

 

É, contudo, menos fácil demonstrar a absoluta dissociação entre monoteísmo e profecia do que a sua absoluta falta de ética original. Julgo, naturalmente, a partir da nossa ética – que é, afinal, a que deve valer para nós. Não posso olhar para a história das reformas monoteístas de Judá e admitir que isso seja bom. Nada do que ali se processou pode ser tratado como ético – e, se depois de vitorioso, séculos a fora, o monoteísmo diz-se campeão da ética, é apenas por meio de dois crimes: hipocrisia e falta de memória, posto que, primeiro, esquece-se de como nasceu, e, depois, de como vive/u.

 

Deus do céu! É uma “descoberta” dura. Ter que olhar para os próprios intestinos e ver a fossa que ali está instalada! Mas é um jeito muito nosso esse. Até ontem – e muitos desavisados, ainda hoje – não tinham na narrativa do Êxodo um modelo de libertação, quando, ali, o que se tem é a morte de um povo inteiro, para, dele, tirar outro que assassine outro tanto? Ah, mas quem liga? O importante não são nossos projetos? Pois então... O monoteísmo é a mesma coisa. Damos de ombro e seguimos em frente, porque há multidões de ateus e politeístas a conquistar – e, de qualquer forma, posições a manter!

 

Quanto a mim, prefiro meter o dedo na ferida, e gritar a dor que tem que ser gritada, porque, enquanto não esvaziarmos essa fossa séptica de sua imundície sub-reptícia, ela desprenderá seu fedor. Mas a fossa está dentro de nós! É nosso maior tesouro! Não é – mais – uma Instituição. Não é (mais) uma tradição. Somos nós.

 

É preciso olhar nos olhos de Deus e dizer a ele que não aceitamos que ele se tenha tornado o que se tornou – e também para nós – ao preço que se pagou. É pôr Deus no banco dos réus. No Brasil vai ser difícil, porque não criamos nem ainda um tribunal para as torturas de ontem de noite, quanto mais para Deus! Mas esse Deus que está aí precisa ser julgado, condenado e sentenciado. E que ninguém se engane – não há outro Deus nessa página que não aquele que Feuerbach denunciou. E, atrás dele, seus sacerdotes. Pois é cada um de nós sentar-se no pó e na cinza e dizer ao Ancião de Dias que acabaram os dias em que ele se manterá no poder, depois de o ter tomado à força, roubado, expropriado, furtado. Deus deve prestar contas a seus filhos. Como nos ensina Oséias, em relação à Mãe, chegou a hora da vingança! Chegou a hora do julgamento do Pai.

 

E esse é o problema. Não aprendemos a fazer isso. Sequer conseguimos ler isso. Nos revolta o estômago. Nos apavora a cabeça. Nossas faces ficam quentes. Mil olhos nos vigiam! E como faremos isso? Simples, muito, muito simples – passando pelo século XIX, e aprendendo que nunca foi outra coisa que não nossas própria palavras, nossas próprios pensamentos, mesmo quando críamos estar diante do Ser de Parmênides. Não há que temer, se estamos prontos... E, se não estamos, Deus meu, como nos metemos a brincar com fogo?

 

Ora, que o monoteísmo nasce anti-ético a própria Bíblia não tem escrúpulos em contar – isso era glorioso! Matar infiéis é a honra do fiel, canta o Sl 149, nosso contemporâneo. Nasce anti-ético quando quebra, derruba, destrói, proíbe, interdita, obriga, exige, impõe. Nada disso, nenhum desses verbos, cabe me nossa consciência, hoje. Dar de ombros, posto que foram coisas de mil, dois mil anos, dois mil e quinhentos, e mesmo nosso velho jeito. Mas esse crime monoteísta não prescreve nunca!

 

O monoteísmo nasce anti-ético porque nem evangélico é – não quer aos outros o que quer para si. O que quer, desde o início, é reproduzir-se no outro, nos outros. Pela força, se necessário – ah, e quanto é necessário usar a força, a física, a psicológica, a emocional, toda força, qualquer força, porque o monoteísmo é um fóssil civilizatório ainda operante. O Jimmy vai botar a mão nessa cumbuca na PUC. Vai lidar com teologia política. Ah, se for até o fundo! Meu Deus, não há nudez maior a nos assombrar do que essa! Um raio X de nossas próstatas e úteros, ah, vai revelar um espírito maligno anti-ético de fundo, cínico de superfície, hipócrita, por profissão. Porque nosso corpo não concorda com nossa doutrina, mas não levamos isso até o fim.

 

Penso que a profecia foi “estuprada”. Cooptação sacerdotal da memória profética. É esse o papel que cabe à profecia – a crítica, dum Amós, de algum dos Isaías do século VIII, de um Miquéias (o restante tem muito pouco de “profético”). Então separemos as coisas. “Profecia” é um termo amplo. Cabem, dentro dele, na Bíblia Hebraica, pelo menos três grupos muito bem delimitados e delineados. O primeiro, o “clássico”. No fundo, ativistas políticos. Hoje, seriam representantes do Ministério Público. A religião, neles, é cultural e secundária. São, antes, pregadores da justiça. Depois, de Yahweh. De Yahweh, apenas por conta da justiça. Duvido que um dia tenham achado ruim de um israelita ao pé de um carvalho, seja a oferendar a Yahweh ou a Asherah. Não se achará uma linha nesse sentido em Amós, nem em Miquéias, nem em Isaias.

 

O segundo grupo, são os profetas cúlticos. No fundo, são funcionários do rei. Sabemos o que isso significa. Para mim, trata-se de uma inteligência da monarquia. O jogo da monarquia com o sagrado é perigoso. O vento que venta lá, venta cá. Pode-se usar o poder da divindade a seu favor, mas pode ser que seja usado contra você, também. Daí que o sistema bilateral é fundamental – um oráculo (profecia) e uma liturgia (sacerdote). O rei divide, para controlar. Assim, o profeta cúltico tem a metade do poder, o sacerdote, a outra metade, e o rei, o poder inteiro, nesse jogo de gato e rato, de um olho no padre e outro na missa. A desgraça foi quando Josué assume o poder. Acaba a profecia. Agora, esse sacerdote – sumo, sumíssimo sacerdote – tem todo o poder. Pobre de quem cair em suas mãos! As mulheres que o digam, se lembram... O sangue que ainda sangram hoje é uma ferida que esse senhor abriu nelas. Um rubi na coroa ética do monoteísmo.

 

Finalmente, um terceiro grupo profético, extático. Não parece terem escrito nada, nem são muito relatados nos textos bíblicos. Não deviam assumir papel importante na relações de poder. Essas, reservavam-se aos conflitos entre o primeiro grupo de profetas e o poder (rei + sacerdote + profetas cúlticos). Se há profetas metidos no monoteísmo, aceitariam de bom grado que se tratem desses últimos, os cúlticos. Jamais, eu diria, aqueles, os críticos.

 

Mas é deles que falamos, quando tratamos de considerar o monoteísmo um monumento ético-profético. No fundo, perpassa em nossas consciências a dicotomia weberiana entre “profetas” (esquerda) e “sacerdotes” (direita). Profetas são bons. Monoteísmo, também. Assim, tem que ter sido eles – os profetas éticos e críticos – os inventores do mono teísmo, porque, nós, que somos bons (??), somos monoteístas, de modo que o monoteísmo só pode ter saído de alguma coisa essencialmente boa. É nosso mito. Pode ser. Vou duvidando.

 

Wellhausen também tinha pavor do século VI e V. Também achava que a época de ouro de Israel/Judá tinha sido o século VIII – de quem?, sim, deles, dos “profetas”. Mas Israel caducou, faliu, e virou o judaísmo tardio. Wellhausen é Hegel ao contrário. Mas é igual a nós. Que terror, descobrir, em pleno meio-dia, pernas arreganhadas no século VI, força, no V, força, respira, que é isso?, que pernas são essas?, não vês?, dum sacerdote! Um sacerdote? Sim, não vês que está sobre o altar? E que faz, assim, nessa pose ginecológica? Ora – não vê que ele está a parir o monoteísmo?

 

 

3. Por que me bate uma impaciência patológica em face do anacronismo teológico que nos domina – ou: game over.

 

Ah, meus queridos, minhas queridas... Nem mal tocamos essa ferida, e não há sequer tempo de cuidar dela. Ela já está podre. Não tem cura. É como a picada de uma aranha-marrom, gangrenada – é cortar  e jogar fora. Não resolvemos essa questão no século XIX – mande-se a conta para Karl Barth, mas há que se cotizar aí, posto que o inferno não se faz com um diabo só. Lá, podíamos ter resolvido as coisas. E o que fizemos? Tapamos os ouvidos. Ontem ainda soube, de ouvir dizer, e bem dito, que o século XIX está morto, porque errado... O que, afinal, aprendemos nesses cem anos? Nada.

 

Digo-o de uma vez. Tolices de crianças, e crianças de jardim de infância, a discussão em torno da dicotomia monoteísmo – politeísmo. Ambos, mito. Nada sabemos nem podemos saber sobre nada que não seja apenas humano – e, por meio da extensão dos sentidos, super-olhos, super-mãos, super-bocas, super-ouvidos, super-narizes – da Natureza. Ou deus ou os deuses são a Natureza, e, então, podemos encontrá-los, e, até, controlá-los, ou não são a Natureza, e, portanto, somos cegos para ele(s) e ela(s) – salvo para as racionalizações político-ideológicas, anacrônicas e comprometidas de uma teologia de estilo barthiano. Não nos cabe, mais, discutir teísmo, ateísmo, monoteísmo, politeísmo, essas coisas. São temas inúteis. Perderam a validade. Só nos resta a discussão do conteúdo desses mitos, se e somente se tomados como mitos. Na ignorância deles como mito, num fideísmo medieval voluntarista, vá lá – mas o que aí se fala é inaudível fora daí.

 

Em termos epistemológicos, teísmo constitui projeção da monarquia. O caso inglês é interessante, porque revela que uma cultura que torna “decorativa” a figura de sua rainha, também pode tornar “decorativa” a figura de Deus, pintando-o, a partir daí, com a palheta deísta. A diferença entre teísmo e deísmo? Essa – o rei inglês não manda mais nada.

 

O que chama a minha atenção para a República e a Democracia. São construções incompatíveis com o teísmo e o monoteísmo. Pra que vale a idéia de um deus soberano num Estado Democrático de Direito – numa cultura democrática? Para nada, senão que para o controle sub-reptício de consciências e a instrumentalização de rotinas sacerdotais medievais.

 

Nossa situação cultural e epistemológica parecem-me impor-nos o seguinte. Epistemologicamente, tenho que assumir-me cético. E, se tenho pruridos místicos – e tenho-os! –, sou forçado a dar voz a eles por meio de mitos conscientes. “Deus” – hoje – só pode ser coerentemente pensado como e na forma de mito, sem jamais deixar de ser assim tomado. A Democracia – como valor – impede-me de vontade poder sobredeterminante. Creio – devo crer – da trindade axiológica republicana: igualdade, liberdade, fraternidade. Assim, meu deus-mito não pode ser, jamais, um deus-mito de todos. É meu. Só meu. Nem de minha família pode ser. Bel tem o dela/a dela. Israel e Jordão, os deles, as deles, conforme o queiram. Se meu deus-mito começar a sentir vontade de ser de mais alguém, prendo-o numa garrafa e jogo no lixo. Deverá ser para mim como um amigo imaginário, e, ao fim e ao cabo, terá as mesmas funções que antes parece ter tido – só que, agora, estarei consciente do “jogo”, cujas cartas eu mesmo as darei. Se há uma coisa que não há nesse cassino são crupiês.

 

Em que pé estamos? Eu chamaria de politeísmo noológico. Politeísmo, porque, afinal, cada um tem seu próprio Deus – mais ou menos como os “pais”, da tradição bíblica. Mas noológico, porque sempre saberei que a idéia está na minha cabeça, e nunca sentirei vontade de projetá-la como expressão ontológica ou metafórica duma realidade de outro modo inacessível. Não há realidade fora desse mito – ao mesmo não que possamos saber.

 

 

Conclusão

 

Estamos no olho do furacão. Fomos/somos filhos da tradição, que nos trouxe até aqui. Somados todos os seus elementos, posso concluir, provisoriamente. A) o monoteísmo bíblico não constitui um valor ético-profético, mas uma grandeza violenta, coercitiva e sacerdotal. B) o monoteísmo não é necessariamente bom, mas, por outro lado, carrega em si um “mal” genético – a monoteização de tudo e de todos. É um vírus. Mas pode ser controlado. C) o contexto democrático e pós-XIX em que vivemos impede-nos – tem de nos impedir! – de tratar a questão do monoteísmo como se pudéssemos resolvê-la nos termos não-emancipados da Idade Média. Só nos resta, agora, o mito. É pois, no mito, enquanto mito, e consciente do mito, que refletiremos sobre a nossa relação com nossas(s) divindade(s) – cada qual, querendo, precisando, desejando, crie a sua, nutra a sua, viva da e com a sua. E lhe baste.

 

Não. Não é possível um “culto” assim. Game over.É preciso reinventarmos também o jeito de lidar com nosso amigo imaginário. Não é à toa que é necessário fazer-se criança aqui.



[1] Cf. Elias e o Monoteísmo. Ver, quanto a isso, também, Haroldo.
[2] Cf. meu ensaio “A Lembrança das Minhas Faltas”.

 

 

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

 

 

 

– página atualizada em 09/08/2008 15:06:18