O PAPEL INSTRUMENTAL DA BÍBLIA NA IGREJA

Uma Introdução Crítica

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

INTRODUÇÃO

 

Queridos

 

Gostaria de conversar um pouco com os irmãos acerca do papel instrumental das Escrituras na igreja:

 

1)        Qual o modelo instrumental que temos da Bíblia? 

2)        De que forma pressupomos seja esse instrumental utilizado pela igreja? 

3)        Que estrutura devemos criar para que a igreja se utilize desse instrumental?

 

São três questões e, devo confessar, estão diretamente relacionadas à discussão sobre literatura na EBD. Gosto de analisar as questões sob uma ótica mais abrangente, teórico-crítica. Se a presente discussão possuir algum mérito a posteriori, talvez devamos aplicar seu princípio à realidade da igreja local.

 

Mas acho que devo analisar a questão como a coloco acima, como de resto todos deveriam, porque devemos partir para a implantação de sistemas educacionais, estruturas didáticas e todas as demais infra-estruturas necessárias ao ensino na igreja depois de analisada criticamente a questão do papel instrumental da Bíblia.

 

Também acho que precisamos enfrentar alguns discursos que, enquanto discursos, não têm substância semântica própria, e servem, as mais das vezes, para sustentar posições de outra forma insustentáveis.

 

No caso da Bíblia, acredito que a Reforma protestante realizou uma tarefa tremendamente significativa. O povo do livro deve ter acesso ao livro. Não sei se na cabeça dos reformadores estava o projeto de colocar a Bíblia nas mãos de cada pessoa. Não fosse Gutemberg, quem sabe o processo da difusão do texto bíblico e da distribuição das Escrituras com tamanha expressão tivesse logrado êxito?

 

Mas, seja como for, o ardor bíblico da Reforma e a tecnologia da imprensa permitiram a confortável situação de podermos colocar um exemplar das Escrituras em todos os lares do mundo (salvo naqueles países que, não pela falta de Bíblias, mas por questões político-religiosas, o texto seja proibido).

 

Por conta dessa difusão da Bíblia, a Reforma pode declarar-se fiel a sola Scriptura e apresentar a Bíblia como sua única regra de fé e prática. Essa expressão significaria nada crer que bíblico não fosse e nada fazer que não se pudesse fundamentar nas Escrituras: regra de fé e prática, crer e fazer.

 

Mas há um problema. Ter colocado uma Bíblia em cada lar, em possibilitar a cada crente e mesmo todos os homens carregarem sua Bíblia, lerem suas Escrituras, significa necessariamente ter dado a Bíblia a todos esses homens? A que realidade nos referimos quando usamos a palavra Bíblia?

 

 

1.         QUAL O MODELO INSTRUMENTAL QUE TEMOS DA BÍBLIA?

 

 

Bíblia pode traduzir uma referência ao volume. Enquanto volume, é um livro para ser lido. Seu sentido está na leitura, depende de que seja lida, para que seu sentido seja extraído [abro mão, com reservas, da discussão com Croatto sobre eisegese que, digo de passagem, é uma denúncia forte da fragilidade de nossas pretensões exegéticas]. Ao lado do volume da Bíblia, do livro está o homem que, a partir do postulado do livre exame das Escrituras, deve lê-la e compreendê-la.

 

Esse homem é um homem autônomo e essa Bíblia é um livro aberto.

 

Mas Bíblia já pode ser traduzido como termo referente a uma interpretação e a um conceito já determinados, já fechados, já estabelecidos. Quando coloco a Bíblia na mão do homem, dou, com a Bíblia, a sua mensagem. A Bíblia é tanto o livro quanto a sua mensagem. Compreenda-se: sua mensagem como essa mensagem que digo que ela contém. Ao lado da Bíblia, entrego ao homem a Tradição sobre sua interpretação correta, que é seu conteúdo verdadeiro.

 

Reporte-se o leitor a meu comentário anterior (História da Interpretação Bíblica, de 03/04/2001) e verá que esse conceito de Bíblia está pressuposto na fundação da História da Interpretação Bíblica na Igreja.

 

A Alegoria foi dotada como método de interpretação; a Tradição foi adotada como referencial de verificação, como sinônimo de mensagem das Escrituras; a Autoridade impôs a Tradição sobre a Igreja. Nesse contexto, as Escrituras eram, a um tempo, um livro (ressalvado o formato), uma mensagem e uma imposição normativas.

 

Por isso não é apenas necessário dizer que a pergunta: qual o modelo instrumental que temos da Bíblia? seja importante. Na verdade, não deveríamos dar um passo sequer sem respondermos para nós mesmos e, depois, institucionalmente, para a Igreja, o que queremos dizer quando falamos de Bíblia.

 

Devemos denunciar que o modelo institucional ATA (Alegoria, Tradição, Autoridade) estabelece um conceito de Bíblia que o vincula a uma interpretação tradicional construída dentro da possibilidade hermenêutica de várias interpretações estruturalmente equivalentes, segundo a metodologia que pressupõe, e que apenas se mantém não com recurso ao texto da Bíblia, mas à autoridade da Igreja. É a força que mantém a verdade. É o poder.

 

É esse nosso conceito de Bíblia?

 

A resposta pode estar escondida em nossos processos educacionais. E devemos incluir particularmente a EBD nesses processos educacionais.

 

Os irmãos concordariam com a afirmação de que a ênfase educacional que temos, face ao instrumental bíblico, é sempre o de apresentação do conteúdo e que não temos feito esforço sistemático e político para ensinar o povo a ler a Bíblia?

 

A discussão que temos levado é se a literatura da EBD é adequada ou não para a igreja local. Essa discussão é necessariamente secundária. Não no sentido de que seja menor, mas no sentido de que ela vem depois. E depois de quê? Depois da discussão de se o crente deve 1) APRENDER O QUE A BÍBLIA DIZ ou, antes 2) APRENDER A DESCOBRIR O QUE A BÍBLIA DIZ.

 

A primeira filosofia pressupõe um conceito fechado de Bíblia: Bíblia é tanto o livro quanto um conteúdo já dado e certo. Ao estudante crente, cabe aprender o que a Bíblia diz. Para isso, as revistas são fundamentais, porque trazem exatamente o seu conteúdo.

 

A segunda filosofia pressupõe um conceito aberto de Bíblia: A Bíblia é um livro que deve ser lido. O estudante deve ler a Bíblia. Deve, portanto, aprender não o que a Bíblia diz, mas aprender como descobrir o que a Bíblia diz. É ele quem a lê.

 

Claro que num ambiente em que a filosofia seja APRENDER A DESCOBRIR O QUE A BÍBLIA DIZ, as revistas podem ser úteis. Podem ser tratadas como referencial de comparação. Não como critério de verificação. O problema, então, não são as revistas, mas a filosofia. A visão instrumental que temos da Bíblia.

 

E cada um de nós deve responder a si mesmo essa pergunta: qual o modelo conceitual de instrumental bíblico que adotei?. Institucionalmente, o ministério de educação religiosa na igreja deveria se questionar sobre sua filosofia instrumental da Bíblia: o que é ensinar, na EBD? É ensinar o que a Bíblia diz (quem decide o que a Bíblia diz?) ou ensinar a aprender o que a Bíblia diz?

 

A educação religiosa na igreja deve inculcar doutrinas ou aparelhar o corpo de Cristo para interpretação bíblica? A educação religiosa deve ensinar o que a Bíblia diz, ou dar condições, informações e meios ao povo de Deus para que o povo de Deus leia a Bíblia com inteligência?

 

Que modelo instrumental temos da Bíblia?

 

 

2.         DE QUE FORMA PRESSUPOMOS SEJA ESSE INSTRUMENTAL UTILIZADO PELA IGREJA?

 

 

Continuando irmãos

 

Que Bíblia colocamos nas mãos dos homens desde a Reforma? Uma Bíblia cujo conteúdo já é dado paralelamente ao livro, ou uma Bíblia cujo conteúdo o crente pressuposto como autônomo deve ler e extrair?

 

Quando respondermos para nós mesmos e para nossa EBD essa pergunta, teremos de nos deparar com a segunda questão que levantei na primeira parte: de que forma pressupomos seja esse instrumental utilizado na igreja?. Essa pergunta tem a ver com a cara da EBD. E poderíamos reformulá-la assim: que tipo de EBD teremos: 1) inculcadora ou 2) instrumentalizadora?

 

O primeiro tipo de EBD pressupõe o conceito fechado de Bíblia. Ora, se a Bíblia é para mim tanto o livro como a sua correta interpretação já dada e certa na Tradição, resta ao crente receber já sistematizado esse conteúdo que a define como Escrituras. O crente deve receber os conteúdos já estabelecidos.

 

Não importam as sutilezas didáticas ou as pantomimas que façamos, estamos transferindo conteúdo. As revistas podem ser escritas por pessoas diferentes, não importa. O que importa é que os conteúdos estarão sempre pressupostos a priori.

 

Os irmãos devem me permitir uma análise particular, aqui. Acredito que a adoção desses dois modelos (a Bíblia enquanto o conjunto livro + conteúdo + inculcação e a EBD enquanto espaço pedagógico inculcador) correspondem rigorosamente ao modelo fundamental da ATA (Alegoria, Tradição, Autoridade) enquanto alicerce da História da Interpretação Bíblica na Igreja, em que pese Zuck jurar de pé junto que esse modelo foi abandonado pela Reforma.

 

Será?

 

Difícil contra-argumentar com relação ao fato de que a Tradição e a Autoridade presidem política e hermeneuticamente a filosofia de educação vinculada àqueles modelos. A questão seria demonstrar que a metodologia de interpretação pressuposta seja alegórica na sua estrutura, de modo que teríamos o modelo ATA originário da História da Interpretação Bíblica caracterizando aqueles modelos de Bíblia e EBD.

 

Essa briga, enfrentam-na dois especialistas: um, neotestamentário, C. H. Dood (Segundo as Escrituras. Paulinas). Outro, veterotestamentário, G. Fohrer (Estruturas Teológicas Fundamentais do Antigo Testamento. Paulinas). Os interessados, que desejam uma fundamentação crítica, sintam-se à vontade.

 

Nesse modelo de EBD inculcadora, que se relaciona com o modelo de Bíblia enquanto o conjunto livro + conteúdo + inculcação, o papel da literatura é ratificar interpretações. É o aspecto mnemônico dessa filosofia recordar o desde sempre já sabido e certo. O esforço do aluno, e a adequabilidade da literatura, seriam exigidos em face da necessidade de descrever cada vez mais profundamente os conteúdos já dados e certos.

 

O segundo modelo de EBD seria o modelo instrumentalizador, e corresponderia ao modelo aberto das Escrituras: a Bíblia é um livro que deve ser lido e compreendido pelo crente. A missão educacional dessa EBD se converteria na necessidade de capacitação técnico-teórica indispensável para o crente ler e compreender as Escrituras.

 

Essa EBD, porque seu modelo instrumental de Bíblia assim o exige, não está interessada em transmitir conteúdo. Sua missão é permitir ao aluno que ele mesmo interaja com as Escrituras e, ele mesmo, as compreenda.

 

Que requisitos são necessários para um leitor das Escrituras? Que conhecimentos esse leitor deve possuir? De que instrumentos deve dispor para ler as Escrituras? São preocupações dessa EBD instrumentalizadora.

 

Não vai ensinar doutrina. Não é uma EDD. É uma EBD. Não é uma Escola Doutrinária Dominical. É uma Escola Bíblica Dominical. O amor às Escrituras não pode converter-se em amor às doutrinas. A EBD transformada em EDD (na prática) transforma o amor às Escrituras no apego passivo a doutrinas de forma heterônima.

 

A EBD, então, precisa capacitar o crente, segundo esse modelo, para ler as Escrituras. Mas que são as Escrituras? Como interpretá-las? Passam essas a ser as questões educacionais da EBD. Não é mais uma questão do que a Bíblia diz (EDD), mas de como saber o que ela diz (EBD).

 

Como é nossa EBD. É uma EBD, ou é uma EDD? Os alunos, ensinâmo-los a ler as Escrituras, ou resumimos para eles seu conteúdo? São eles quem interpretam, porque sabem e conhecem como fazê-lo, ou recorremos às revistas como que para fundamentar interpretações sobre as quais não agirão?

 

Que modelo conceitual de Bíblia é o nosso?

 

E que EBD é a nossa?

 

 

3.         QUE ESTRUTURA DEVEMOS CRIAR PARA QUE A IGREJA SE UTILIZE DESSE INSTRUMENTAL?

 

 

Concluindo, irmãos.

 

Minha terceira pergunta foi: que estrutura devemos criar para que a igreja se utilize desse instrumental?. Com isso, vê-se que, no fundo, queria eu perguntar de que forma deve a EBD concretizar seu modelo instrumental da Bíblia, dependendo, sempre, a própria EBD de concretizar-se a partir de um modelo: inculcadora? Instrumentalizadora?

 

Particularmente, acredito numa EBD instrumentalizadora. Não será, exclusivamente instrumentalizadora, porque o fim da missão educacional da Igreja não é ensinar o povo a ler a Bíblia, mas prover espaço para que a Bíblia seja compartilhada.

 

Nesse sentido, a filosofia instrumental da EBD é um pressuposto metodológico. Um programa de educação religiosa que levasse a sério o modelo instrumental da Bíblia enquanto livro aberto, e da EBD enquanto espaço instrumentalizador, deveria preocupar-se, antes de mais nada, com a capacitação dos crentes para a leitura e leitura da Bíblia.

 

Num segundo momento e espaço, estaria preocupada em promover oportunidades para esses crentes que lêem eles mesmos as Escrituras compartilharem suas leituras, numa relação de dependência fraterna e troca humana.

 

Primeiro, vamos falar da capacitação. Trata-se duma etapa educacional de instrumentalização hermenêutica. Todos os crentes e alunos da EBD deveriam passar por essas classes de instrumentalização. Depois, iriam para as classes de troca.

 

Nas classes de instrumentalização, começariam aprendendo a ler. E digo aprendendo a ler em dois sentidos. As igrejas possuem dois tipos de analfabetos. Os analfabetos técnicos e os analfabetos funcionais.

 

Os analfabetos técnicos são aquelas pessoas que mal escrevem o próprio nome. Uma EDD as tolera. Não precisa que saibam ler, apenas que saibam ouvir. Ouvem os conteúdos, lhes basta. Uma EBD não tolera o analfabetismo. Uma EBD alfabetiza. E classes de alfabetização serão classes da EBD. Primeiro requisito indispensável para o crente: saber ler Não sabe? A EBD ensina. Primeira instrumentalização.

 

Mas o número de analfabetos técnicos é pequeno. Enorme é o número de analfabetos funcionais. Quem são? Todas as pessoas que não conseguem interagir com o texto. Não dominam técnicas de leitura. Não sabem ler a realidade a partir de texto. Não conseguem identificar a idéia central de um texto, seus argumentos, sua estrutura. Não sabem ler, num sentido amplo. Livros são-lhes estorvos, massas de letras confusas e difíceis.

 

A EBD deve ter classes de técnicas de leitura. Se os crentes são alfabetizados, mas não sabem ouvir ativamente e criticamente um texto escrito, estamos brincando de EBD. A Bíblia é ta biblia (os livros), é texto, são palavras, frases, gramática, sintaxe, estrutura. Se o crente não sabe lidar com textos, como vamos deixá-lo a sós com a Bíblia? Não. Vamos ensiná-lo a ler textos. E se alguém duvidar de que temos de ensinar o povo a ler não preciso dizer mais nada e a EBD é uma falácia!

 

As boas novas é que se pode aprender a ler. Não há um clero de leitores. Todos podem aprender. Mas têm que aprender. Não se nasce sabendo ler. Tem que aprender. E a EBD ensinará a ler textos. Nem que para isso tenha que primeiro formar seus próprios professores. Temos tempo. Estamos aí há quinhentos anos...

 

Mas a EBD é instrumentalizadora no sentido de ensinar a ler a Bíblia. E, com isso, surge a necessidade de o ensino avançar para as necessidades instrumentais da leitura bíblica.

 

São elas:

 

Introdução Bíblica: a EBD deve ter classes para introduzir os alunos à Bíblia. Seu conceito, sua origem, sua história, sua preservação, sua transmissão, sua tradução, sua constituição, sua caracterização. Gente, se o crente não tem esses conhecimentos técnicos, com O QUÊ está lidando?

 

Interpretação Bíblica: sua história, suas técnicas, suas escolas. O crente não mais dependerá de terceiros. Ele aprenderá a interpretar a Bíblia. Depois vai compartilhar sua leitura nas classes adiantadas.

 

Disciplinas auxiliares: história, geografia, sociologia. Essas classes teriam o objetivo de introduzir o crente aos problemas concernentes aos temas bíblicos.

 

Finalmente, a EBD proporcionaria classes para que os crentes, já cumpridos os pré-requisitos instrumentalizadores, possam compartilhar seu aprendizado, interagindo com textos produzidos como roteiro. Nesse momento, as revistas conforme as concebemos hoje seriam interessante subsídio. Estariam, aí sim, um degrau abaixo das Escrituras, como proposta para crítica e a análise da turma.

 

A Denominação teria de produzir textos instrumentalizadores. Mais escritores seriam necessários, de forma que os Seminários precisariam corrigir postulados formativos, uma vez que deverão formar instrumentalizadores, antes que inculcadores.

 

As editoras terão um mercado enorme, não explorado, porque, salvo melhor juízo, e louváveis exceções, nossos modelos não pressupõem instrumentalização na EBD.

 

A EBD deverá preparar-se para a maior explosão de sua história. Já vi de perto, de muito perto, o que esse modelo é capaz de fazer. Mas é preciso que a liderança da igreja e da denominação se conscientizem e decidam politicamente. Seja na igreja local, seja na Denominação está nas nossas mãos fazê-lo.

 

Eu proponho.

 

Alguém apóia?