O Monoteísmo Tem Dois Deuses

Fé e Fenomenologia da Religião

(Osvaldo Luiz Ribeiro[1])

 

Preguntitas sobre Dios

Atahualpa Yupanqui

 

Un día yo pregunté:

¿Abuelo, dónde esta Dios?

Mi abuelo se puso triste,

y nada me respondió.

Perguntas sobre Deus

Atahualpa Yupanqui

1

Um dia eu perguntei:

Vovô, onde está Deus?

Meu avô ficou triste

E nada me respondeu.

 

Mi abuelo murió en los campos,
sin rezo ni confesión.
Y lo enterraron los indios
flauta de caña y tambor.

2

Meu avô morreu nos campos,

Sem reza, sem confissão.

E os índios o enterraram

Com flauta de bambu e tambor.


Al tiempo yo pregunté:
¿Padre, qué sabes de Dios?
Mi padre se puso serio
y nada me respondió.

3

Depois de um tempo, eu perguntei:

Pai, o que sabes de Deus?

Meu pai ficou sério

E nada me respondeu.

 

Mi padre murió en la mina
sin doctor ni protección.
¡Color de sangre minera
tiene el oro del patrón!

4

Meu pai morreu na mina,

Sem doutor, nem proteção.

Cor de sangue mineiro

Tem o ouro do patrão.

 

Mi hermano vive en los montes
y no conoce una flor.
Sudor, malaria y serpientes,
es la vida del leñador.

5

Meu irmão vive nos montes

E não conhece uma flor.

Suor, malária e serpentes

É a vida do lenhador.

 

Y que naide le pregunte
si sabe dénde esta Dios:
Por su casa no ha pasado
tan importante señor.

6

E que ninguém lhe pergunte

Se sabe onde está Deus.

Por sua casa não passou

Tão importante senhor

 
 Yo canto por los caminos,
y cuando estoy en prisión,
oigo las voces del pueblo
que canta mejor que yo.

7

Eu canto pelos caminhos

E quando estou na prisão.

Escuto as vozes do povo

Que canta melhor do que eu.

 

Si hat una cosa en la tierra
más importante que Dios
es que naide escupa sangre
pa’ que otro viva mejor.

8

Há um assunto na terra

Mais importante que Deus.

É que ninguém cuspa sangue,

Para que outro viva melhor.

 

¿Qué Dios vela por los pobres?
Tal vez sí, y tal vez no.
Lo seguro es que Él almuerza
en la mesa del patrón.[2]

9

Que Deus vela pelos pobres,

Talvez sim, talvez não.

Mas é certo que almoça

à mesa do patrão[3

 

 

Tivesse eu útero e ele teria sido comprimido pela mão desse poema, enquanto o lia. Falta-me, contudo, esse órgão, e o que me contorceram foram as tripas. Coragem do Ferraro concluir seu artigo com tal poesia, e correr o risco de ver essa luz brilhar mais alto.

 

Sou um biblista de gabinete. Não lido, na prática, com os miseráveis das minas, das montanhas, dos campos. Passo por muitos deles, nas ruas, os miseráveis das ruas. Passo por eles... O que não me impede de sentir dor no peito quando leio Preguntitas sobre Dios, porque eu mesmo fiz e faço perguntas assim, e quantas vezes não estive a ponto de ficar calado, como o vovô, o pai e, como quer o poeta, o irmão? Um dia decidi ficar calado, quiçá para sempre.

 

“Preguntitas sobre Dios” é um peso sobre meus ombros. Esmaga-me. Até a sétima estrofe, minha alma lê calada, porque sabe que falar alguma coisa sobre isso é muito pouco. As estrofes oito e nove, contudo, tocaram-me numa parte sensível, porque entraram num campo a que tenho me dedicado, existencialmente, até a próstata.

 

 

Fenomenologia da Religião e Fé

8

Há um assunto na terra

Mais importante que Deus.

É que ninguém cuspa sangue,

Para que outro viva melhor.

 

Um pequeno livrinho de Paul Tillich me persegue: Dinâmica da fé[4]. Em certo trecho, Tillich afirma que “’Deus’ é símbolo para Deus” (p. 37). Tillich usa duas vezes o termo “Deus”, e, em cada vez, o termo refere-se a uma grandeza diferente. Não está explícito no texto, mas o raciocínio é todo construído a partir dos pressupostos da Fenomenologia da Religião: o Sagrado manifesta-se, invade o mundo humano, que o pressente e sente, intui e institui, mas cujos procedimentos de apreensão são necessariamente mediadores hermenêuticos. O Sagrado, manifestando-se, sendo tomado enquanto se manifestando, sendo percebido, pressentido, sentido enquanto tal, é capturado pelas faculdades hermenêuticas humanas, e concebido em termos essencialmente humanos. O Sagrado tomado como manifesto, ele mesmo não é capturado, mas hipostasiado em expressões cognitivo-afetivo-volitivas, históricas, na forma de representação simbólica. O fascinante Tratado de História das Religiões[5], de Mircea Eliade, sistematiza essa intuição, afirmando que a representação simbólica do Sagrado constitui-se a partir das qualidades impressionantes do “material” em que se teria consubstanciado a hierofania (água, terra, pedra, planta, etc.). O ainda mais fascinante A Essência do Cristianismo[6], de Ludwig Feuerbach, estabeleceu as bases – a meu ver, incontornáveis – da construção do discurso sobre Deus: antropologia.

 

Feuerbach e Eliade trabalham com intuições. O primeiro intui, acertadamente, quero crer, que o discurso sobre Deus consiste inexoravelmente na projeção hipostática do próprio homem. Se trouxermos Nietzsche para a mesa redonda, acrescentaremos que essa projeção é, também, projeção de “vontade de poder”: “onde encontrei vida, encontrei vontade de poder (...) Com os vossos valores e palavras do bem e do mal, exerceis poder, ó vós que estabeleceis valores”[7]. Daí se poderia compreender, sem ingenuidades, que o discurso sobre Deus, seja do patrão, seja do mineiro, os dois são construções/projeções antropológico-hermenêuticas, político-religiosas, psicológico-culturais. É que o patrão é mais forte, e, assim, também, em tese, o seu Deus. Mineiros, camponeses e lenhadores têm, também, seu Deus, suas projeções, suas articulações cognitivo-afetivo-volitivas da representação do Sagrado. Nesse sentido, “esse” Deus-enquanto-representação certamente também está à mesa deles. Um Deus que pobres e ricos criaram e criam:

 

Ah, meus irmãos, esse Deus que eu criara, era obra humana e humana loucura, como todos os deuses! Homem era ele, e nada mais do que um pobre pedaço de homem e do meu eu; surgia em mim da minha própria cinza e brasa, em verdade, esse fantasma! Não vinha a mim do além[8].

 

Com Eliade, contudo, abre-se uma perspectiva fascinante: há alguma coisa lá fora, que vem lá de fora. O Sagrado invade o mundo dos homens, assoma abruptamente das pedras, das plantas, dos rios, das montanhas, do céu, do fogo. De todo canto e lugar pode o Sagrado sair, e, imediatamente, voltar para lá. Os homens vão caminhando e, de repente, eis lá a transmutação das aparências, a dissolução das concretudes, a irrupção do Todo Diferente. Enquanto alguém a quem a “fé” faz bem, Eliade deu-me de beber um elixir paregórico muito bom para curar a dor de cabeça que Feuerbach me deixara, e para qual a panacéia da ontologia metafísica não surtira efeito...

 

É que Feuerbach nos tira o chão. Não que, nos tirando o chão, mereça qualquer repreensão – que culpa tem Feuerbach se o chão que construímos, também achava-se que estava sustentado pelo próprio Sagrado – por Deus – mas, como se ia saber?, era antes ele que sustentava o Sagrado? O fato é de que muitos ficaram muito zangados com Feuerbach, mas eu não. Dor de cabeça tive, porque re-organizar um mundo é coisa que apenas a duras penas se consegue. E consegui. Consegui re-organizar meu mundo com a ajuda da Fenomenologia da Religião. Em termos concretos, com a leitura de Tratado de História das Religiões.

 

Depois de Eliade, a afirmação de Tillich faz todo sentido: “Deus” é símbolo para “Deus”. Se eu tomo o primeiro Deus nos termos em que Feuerbach o apresenta, e o segundo Deus nos termos em que Eliade o considera, pronto, o mundo re-organizado é o mundo que está, então, representado na nona estrofe de Preguntitas sobre Dios.

 

 

Fé e Fenomenologia da Religião

9

Que Deus vela pelos pobres,

Talvez sim, talvez não.

Mas é certo que almoça

à mesa do patrão.

 

Na nona estrofe de Preguntitas sobre Dios, há uma elipse do termo Deus, mas, a rigor, ele é usado duas vezes. Na primeira vez é usado explicitamente nos dois primeiros versos: “Que Deus vela pelos pobres,/ Talvez sim, talvez não”; na segunda vez, nos dois últimos versos: ”Mas é certo que [Deus] almoça/ à mesa do patrão”. Uma vez que a afirmação de Tillich também se constrói com o uso de duas vezes o termo “Deus”, podemos fazer a correlação entre Tillich e Yupanqui.

 

Quando Tillich afirma que “Deus é símbolo para Deus”, está dizendo que o discurso sobre Deus (= o primeiro termo) é uma representação simbólica do referente possível (= o segundo termo). Digo “referente possível” para fazer uma ponte com o primeiro termo da nona estrofe de Preguntitas sobre Dios. Ali se diz que talvez sim, talvez não – ou seja, é possível – que Deus vele pelo pobre. Uma tal afirmação está tratando de Deus enquanto “grandeza em si” (= Sagrado, já numa ótica “religiosa”). Os dois primeiros versos da nona estrofe estão dizendo que, pelo que viveram vovô, papai e o meu irmão, até pode ser que haja, de fato, um “Deus”, e que, vai-se saber, ele cuide mesmo desses pobres, ainda que a vida deles pareça indicar que não (sangue, malária, morte). Daí o juízo “talvez sim, talvez não”. Não chega a ser uma afirmação própria de um ateu: “não!”. Cabe melhor na boca de alguém que sabe que não tem como afiançar, nem que sim, nem que não: talvez... Penso que é necessária muita fé para uma tal afirmação, mas não uma fé do tipo daquelas que decoram credos e dogmas, mas de uma fé que pressente que o sentido da vida está além dela mesma, mas quem pode alcançá-la? A miséria, a morte, a malária, o sangue, a exploração, são todos elementos que gritam tão alto, tão alto, que se pode calar sobre Deus – como o vovô, o papai, o irmão. Mas parece que se calam, não porque não crêem, mas porque sua fé é tão profunda e calada, que não cabe em palavras, e é mesmo uma fé que se permite a dúvida. Não é dogma, é pura vontade, e não tem sequer nome para nomear o inominável. Silêncio. Só silêncio. Pode ser que, apesar de tudo, haja um Deus, e ele vele... De concreto, só a malária, o sangue e a morte...

 

E o Deus do patrão, esse vai sentado à mesa do patrão, comendo da morte do mineiro, bebendo da malária do lenhador. Esse Deus é concreto. Não é o Deus da Fenomenologia de Eliade – é o Deus da Antropologia de Feuerbach. É um Deus de Nietzsche. É um Deus de Marx. É um Deus também de Eliade, no sentido de que se transubstanciou em doutrina, como o livro de Severino Croatto bem descreve[9].

 

É um Deus da doutrina e da política, um “deus” conforme descrito pelo Nietzsche de Zaratustra, e, por isso, pode-se ter certeza de o ver sentado à mesa, pois foi colocado lá pelos familiares... São os deuses concretos, os que podem ser pegos na mão, esses deuses da nossa cabeça, dos patrões e dos mineiros. Esses são os deuses que se podem expor nas aulas de teologia, nos catecismos, nos pronunciamentos homiléticos, nos palanques políticos, nos aconselhamentos pastorais. São deuses fabricados por palavras, com conceitos, plasmados pela tradição doutrinária de uma religião, e dos fragmentos ortodoxos e heterodoxos dessa religião, e, mesmo, por cada fiel e crente – há tantos desses deuses quantos fiéis haja, e se há seis bilhões de fiéis no mundo, então há seis bilhões desses deuses. Nenhum deles, contudo, é “Deus”, mas são todos – sem privilégios – símbolos para “Deus”. “’Deus’ é símbolo para Deus”...

 

Para a Fenomenologia da Religião, não se tem como saltar do Deus-símbolo para o Deus-referente. O Deus referente já é, em si, uma intuição. Enquanto intuição não verbal, não cognitiva, não afetiva, não volitiva, mas intuição inexoravelmente hermenêutica, que emerge das profundezas do ser humano, dos quartos escuros da inconsciência, enquanto hierofania, a realidade por trás da realidade é intuída enquanto Sagrado – mas é tudo quanto se pode falar dessa realidade por trás da realidade. O mais que se falar dela se torna símbolo, e deve ser tomado como tal. Se não for tomado como símbolo, corre o risco de colocar-se no lugar do Sagrado: Tillich comparou isso com idolatria[10], mas acho que a questão da idolatria é uma outra questão que deve ser enfrentada a partir de tudo quanto se reflete aqui. De concreto, digamos, com Tillich, que se coloca um fetiche, um fantoche, no lugar do Sagrado: o deus sentado à mesa do patrão tem fios presos ao corpo, e ligados à mão do patrão (o mesmo que se pode dizer do deus sentado à mesa dos mineiros...). Tratar o Sagrado como Deus já é apreendê-lo numa forma e numa fôrma – é já um começo de risco...

 

 

Conclusão

 

 

Não só à mesa do patrão está Deus, o Deus-enquanto-representação, mas igualmente nos discursos de Nicéia, da Teologia da Libertação, dos Cânones de Dort, dos dois Vaticanos, do Pacto de Lausanne, porque o deus de todos os discursos é um deus humano. Esses deuses são representações político-antropológicas, histórico-sociais, psicológico-religiosas. São o concurso e o discurso da vontade de poder de cada ser humano, para o bem e para o mal. Mas não passam disso – de representações. E, enquanto representações, podem ser apontados, vistos, tocados, vestidos, revelados, assumidos, ensinados, controlados, manipulados.

 

Talvez sim, talvez não, por trás dessa fome humana de representação do Sagrado esteja o “Sagrado” (= o Divino). (Quase) todos os homens e mulheres do mundo, que se contam aos bilhões, testemunham um encontro com “esse” Sagrado. As representações são múltiplas, incontáveis, chegam também elas à casa dos bilhões, proporcionalmente. Seja o que for, como for, quanto for, o Sagrado é assumido como tendo se manifestado naquela(s) hierofania(s), aquele momento mágico como o (quase) toque dos dedos de Isabeau e Etienne Navarre na aurora...

 

Ultrapassar as representações, e lançar-se no talvez-sim-talvez-não – eis a alternativa fenomenológica para a teologia dogmática. Estamos prontos para isso? Talvez sim, talvez não...

 

Isabeau e Navarre abraçam-se no final... É mesmo aqui uma lembrança de puro desejo...



[1] Bacharel, Mestre e Doutorando em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (2002-2004, sob a orientação do Dr. Haroldo Reimer), e Doutorando em Teologia pela PUC-Rio (2004-2007, sob a orientação do Dr. Emanuel Bouzon). Biblista histórico-social, professor de exegese e hermenêutica do Primeiro Testamento.

[2] Extraído de http://www.cancioneros.com/ctr.exe?AA=20&FR=1, em 19/05/2004.

[3] Tradução extraída de FERRARO, Benedito. Questões contemporâneas para a teologia na perspectiva de gênero, p. 138s. Em: SOTER (org.). Gênero e Teologia – interpelações e perspectivas. São Paulo: Paulinas: Loyola, Belo Horizonte: SOTER, 2003. 312 p.

[4] Dinâmica da Fé. 4 ed. São Leopoldo: Sinodal, s/d. 86 p.

[5] Tratado de História das Religiões. Lisboa: Cosmo, 1990. 552 p.

[6] A Essência do Cristianismo. São Paulo: Papirus, 1988. 396 p.

[7] NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra. 6 ed. São Paulo: Bertrand Brasil, 1989. p. 127 e 128).

[8] Idem, p. 48.

[9] CROATTO, José Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa. São Paulo: Paulinas, 2001. p. 397ss.

[10] “Uma fé que toma seus símbolos literalmente é idolatria” (op. cit. p. 37).