Non Plus Ultra

– origem inexorável das tradições luterana e batista?

Osvaldo Luiz Ribeiro

27/06/2007

 

Nesse primeiro semestre de 2007, vi-me envolvido numa situação um tanto quanto constrangedora. Deixei-me levar a ela, mas, depois, arrependi-me. Fui convidado a lecionar a disciplina História dos Batistas, e declinei, argumentando que não tenho especialização na área, nem formal nem espontânea, de modo que não poderia assumir a classe. Argumentou-se que eu poderia transformar a disciplina num curso de discussão acerca dos Princípios Batistas, que, foi-me dito, eu tanto admirava. Juntadas a fome com a vontade de comer, deixei-me levar.

 

Sabendo de antemão a que turma eu lecionaria, no final do semestre passado, 2006, dirigi-me à turma, expus-lhe a proposta, minha decisão, e consultei-os. Aprovou-se a “transformação”. No início do semestre, outra vez, expus-lhes, agora como turma já oficialmente organizada. Mais uma vez, concordou-se com a “transformação”. E lá fomos nós – sob minha direção sempre crítica – abrindo os Princípios Batistas.

 

Comecei fazendo a distinção entre “doutrina” e “princípio”, o que levou mais de um mês. Houve “resistências”. Se eu me ponho no lugar existencial dos resistentes, compreendo. Do lado de cá, onde me encontro, é impossível não ver o óbvio. Resistência ideológica.

 

A princípio, cansei-me. Cheguei a pensar em – e a dizer – desistir. Fazer força, empurrando caminhão morro acima, sabendo que, quando chegar lá em cima, ele vai dar marcha à ré, e voltar para o vale, é um absurdo, ainda mais para um rogeriano convicto como eu, que não estou nem aí se um aluno vai concordar comigo, ou não, se ele vai abraçar minha “causa”, ou não. Mas eu fico uma fera, se não sou entendido. O aluno pode tomar a posição que ele entender melhor, sim, não, tanto faz, mas não tem o direito de não se esforçar para entender. O que eu digo tem de ser entendido. Se vai haver concordância com o que eu disse, essa é outra questão.

 

E o que eu disse tem a ver com o fato de que o documento Princípios Batistas é um documento híbrido. Ele tem elementos de doutrina e elementos de princípios. Ambos elementos estão costurados numa espécie de tecido orgânico, como se fosse harmônica e natural a costura.

 

Não, não é.

 

Não se pode costurar doutrina e princípio num mesmo tecido, porque doutrinas e princípios são irreconciliáveis. Só há uma forma de doutrinas e princípios conviverem – quando um engole epistemologicamente o outro, quando um põe-se – é posto – hierarquicamente acima do outro, de modo que, enquanto houver “paz”, vai-se levando, mas basta um ruído, e, pronto, o elemento hierárquico superior assume o controle, esvaziando completamente o “poder” do outro elemento. É o que ocorre, por exemplo, com o assim chamado método "histórico-gramatical" de interpretação da Bíblia. Alguns disfarçam o descaramento, outros, não, e afirmam, descaradamente, eu diria, que a Bíblia tem dois sentidos, um, o "histórico", e outro, o "espiritual". Enquanto tudo vai bem (leia-se, enquanto a doutrina permanece imaculadamente pura e intocável), os dois sentidos são um só, um é o outro, um está no outro, e vice-versa. A hora, contudo, em que um texto qualquer, opa!, resvala uma afirmação meio constrangedora, opa!, automaticamente, o "sentido histórico" tem de ser descartado, e entra em cena o extraordinário e teocrático sentido espiritual, que, sabe-se, apenas os espirituais dominam, e, eu digo, é coisa de controle político mesmo. Paz, aí, é como o chamado diálogo inter-religioso: diálogo é quando o outro me vê, ou quando eu me vejo, no outro, eu e minha "identidade". Tá bom.

 

É assim que se comporta o documento – uma colcha de retalhos: doutrinas, seguidas de princípios, seguidos de doutrinas, seguidas de princípios... E a questão é: os Princípios Batistas são doutrina ou princípio?

 

Doutrinas são sistemas fechados, normativos, autoritários, intransigentes. Exigem racionalização, ou seja, exigem que os sujeitos sob sua abrangência se coloquem obrigatoriamente, necessariamente, incontornavelmente, inapelavelmente, dentro do próprio sistema. Por isso, doutrinas não podem ser – nem são – questionadas por dentro. Para o serem, o sujeito deveria sair do sistema. Como ele não pode sair – e não sai – ele não critica o sistema. O sistema não quer ser criticado. O sistema impõe ao sujeito manter-se internamente situado ao sistema. O sujeito não critica o sistema, porque o sistema não permite que o sujeito o critique. Logo, resta ao sujeito, que pensa pensar, elaborar apologias do sistema, o que implica em construir racionalizações legitimadoras, na defensiva, e no ataque, escondendo tudo quanto seria inconveniente, e harmonizando tudo quanto poder ser harmonizado, deixando de lado o que eventualmente não possa ser harmonizado.

 

Doutrinas não permitem a reflexão crítica. De modo que um sujeito entregue a doutrinas está impedido de agir conscientemente, criticamente, livremente.

 

Princípios são sistemas abertos. Necessariamente. Impõe, desde a entrada, que o sujeito mantenha o sistema aberto, e que, constantemente, o sujeito entre e saia do sistema, assumindo-o e criticando-o, porque reconhece que o coeficiente de adequabilidade de um sistema não constitui um elemento do próprio sistema (teorema de Gödel). O sujeito utiliza-se de princípios, porque não há operação noológica que não se utilize de “idéias”. Idéias são ferramentas operacionais da consciência, que as engendra, e que se engendra por meio delas – sim, complexamente, recursivamente. De forma que um sistema de princípio afirma, sim, mas questiona-se, sempre, o tempo todo, quando e depois que afirma.

 

Princípios exigem que o sujeito reflita criticamente – a favor do sistema, sim, mas, também, contra o sistema. O indivíduo não pode parar de refletir. Nunca.

 

Recorro a uma descrição do sistema de princípios. Trata-se do parágrafo de conclusão do artigo de Thiago Krause, Os Limites da Dúvida, disonível no site Dubito ergo sum. Transcrevo o parágrafo:  

Enfim, pode ser melhor pensar o ceticismo não como uma posição ou um conjunto de princípios, mas como uma ferramenta intelectual ou uma predisposição psicológica, baseada na crítica constante e na auto-reflexão. Não deve ser uma desconfiança irrefletida, mas um exercício sempre em curso de consciência intelectual. Esse tipo de ceticismo não é fácil; ele nos deixa intranqüilos, pois exige uma luta perpétua contra a tendência de parar de questionar, isto é, de pensar. Talvez seja a própria capacidade de refletir sobre estas questões o principal indicador da dignidade humana, pela qual devemos suspender a suspensão de julgamento e lutar por ela.

 

Um sistema de princípios impõe uma consciência cética, mas cujo ceticismo se construa no diapasão vibrado por Thiago Krause, que afirma tê-lo formulado de Petr Lom – The Limits of Doubt: The Moral and Political Implications of Skepticism.

 

Pois bem, o documento Princípios Batistas possui parágrafos que são doutrinas – impõem fé cega – e parágrafos que são princípios – impõem reflexão crítica, demandam reflexão crítica. Dois exemplos são o capítulo sobre o governo da igreja, e o capítulo sobre autocrítica. No capítulo sobre o governo da igreja, afirma-se que a democracia só é válida quando e se orientada pelo “Espírito Santo” – doutrina. Imediatamente, porém, afirma que nem a maioria, nem a minoria, nem a unanimidade refletem necessariamente a vontade de Deus. Ceticismo. Não afirma que reflete. Não afirma que não reflete. Afirma que não reflete necessariamente. Pode ser que sim, pode ser que não, mas não há como saber se reflete. Trata-se, nesse caso, de um princípio cético, que ou engole aquela doutrina, ou é engolido por ela. Se a doutrina o engole, é como se nunca tivesse sido dito, e qualquer um, poucos ou muitos, ou todos, poderão, sim, afirmar que isso ou aquilo veio “de Deus”. Se, por outro lado, o princípio cético é tomado a sério, engole a doutrina, de modo que não importa o que haja de Deus ou não na decisão, o que importa é que se trate de uma decisão conscientemente humana, assumida, sempre, como tal – no risco, na dúvida, mas no respeito a ela enquanto tal.

 

O exemplo da contracrítica vai ainda mais longe. Fala da necessidade de os métodos e os próprios princípios serem criticados. Fala da necessidade de o povo perguntar e criticar. Fala da necessidade de as instituições abandonarem o tradicionalismo – não, necessariamente, a tradição, necessária. Ora, a própria teologia da igreja é pura tradição, tornada tradicionalismo. Mais uma vez, ou a doutrina engole o princípio crítico, e, domesticando-o, usa-o para morder os outros, ou o princípio engole a doutrina – até ela, e reconhece que ela, a doutrina, é, afinal, in totto, tradição.

 

Trata-se, portanto, de um documento híbrido. Como lê-lo? Não é epistemologicamente possível lê-lo como, ao mesmo tempo, doutrinas e princípios. Ou são doutrinas, ou são princípios, porque um engole, necessariamente, o outro. Logo, quem os vai ler é que os lerá como princípio ou como doutrina. E, uma vez que os princípios estão ali, e são, mesmo amestrados, ameaçadores, há quem prefira sequer lidar com eles. E, contudo, eles estão disponíveis no site oficial dos batistas da Convenção Batista Brasileira. O que muito me alegra.

 

Como é possível que os Princípios Batistas contenham elementos tão críticos em sua constituição? Bem, saltando o fato de que sejam elaboração literariamente recente, afinal foram redigidos por pastores do sul dos Estados Unidos – uma convenção particularmente fundamentalista (o que torna a questão ainda mais "quente": o que faz a crítica num documento geograficamente fundamentalista? – , em 1964, seu teor pode ser remontado até as origens batistas, na Inglaterra do século XVII. Ali – e essa é a questão, a meu ver – em conflito com a Igreja oficial, utilizando-se de elementos críticos para a sua própria defesa, os batistas, a seu tempo, modo e lugar, construíram-se criticamente .O mesmo fenômeno aconteceu com Lutero, e os dois fenômenos podem ser – nesse sentido – comparados analogicamente.

 

Lutero era católico, como os “batistas” eram cristãos ingleses, da igreja da Inglaterra. Lutero insurge-se contra o que considera desmandos da Igreja-Mãe (ainda “universal, excetuando-se a Igreja Oriental, a essa altura já “separada”, sob o Patriarcado). Os “batistas” insurgem-se contra os desmandos da Igreja-Mãe, a já Igreja da Inglaterra, por sua vez marcada pela Reforma e pelo Humanismo, mas oficialmente articulada pelo Estado. Em sua peleja contra a Igreja-Mãe, Lutero arma-se da crítica aristotélica, presente no humanismo renascentista, através de cujos “princípios” pretende apelar para sua própria condição de “teólogo reformador”. Os “batistas” ingleses armam-se dessa crítica, também, mas, agora, mais refinada político-filosoficamente pelos filósofos ingleses. Em ambos os casos, a crítica, disponível na cultura, crítica enquanto sistema de pensamento norteado por princípios e valores emancipadores, libertários, humanistas, serve aos interesses de movimentos “de baixo”, politicamente fracos, circunstancialmente acuados, cuja legitimação ideológico-demagógica precisa ser, necessariamente, a deslegitimação do discurso do “forte”, como parece ter sido o “caso” do Romantismo alemão contra o imperialismo iluminista francês, mais tarde.

 

Do aristotelismo renascentista, Lutero arma-se com o princípio do livre-exame das Escrituras, do princípio do sacerdócio universal do crente, do princípio da leitura das Escrituras nos originais. São “armas”, com as quais se pretende vencer o poder do inimigo. De igual modo, os batistas armam-se com a democracia, com o princípio da separação entre a Igreja e o Estado, o princípio da inalienável liberdade de consciência. É importante – nevrálgico – observar (aqui acerto o alvo, ou erro em cheio, em toda a questão) que nenhum desses princípios – absolutamente nenhum – é “cristão”, no sentido de estar disponível na estrutura político-teológica tradicional-normativa cristã. Que se possa, eventualmente, retroagi-los a determinadas formulações literais do Novo Testamento é uma questão muito mais mitológico-racionalizadora, do que, propriamente, explicação sociológica. Livre-exame, sacerdócio universal (logo, sacerdócio nenhum), democracia, liberdade de consciência, separação entre Igreja e Estado, são formulações-construções – todas – humanistas, resultado de décadas de fermentação, séculos, vai, aristotélica, na cultura européia, viva as invasões árabes!

 

Se estou certo, assim nascem luteranos e batistas, rachando a cabeça da mãe com o porrete da crítica. E, como sempre ocorre nesses casos, o porrete fica na mão do filho, que, quando sai de casa, monta sua própria casa, porrete na mão. Uma vez que as novas “igrejas” são montadas, vão-se configurando por meio do “espelho”, de modo que nenhuma delas deixará de ser uma pequena “igreja católica”, cada qual um pequeno fragmento da Grande Rocha. Os princípios críticos serão usados, daí em diante, como discurso demagógico, contra as velhas “mães”, mas, internamente, o modo de arrumar a sala, de organizar a cozinha, de lavar o banheiro, e espanar os móveis – será o mesmo com que a velha mãe de anos cuidava de sua velha casa. Internamente, a critica não serve, porque ela desestabiliza a administração das coisas sagradas. Sim, hipocrisia.

 

Seja como for, a crítica não pode ser usada, nem entre batistas, nem entre luteranos, que, a rigor, edificam as velhas catedrais universais. Mas ela está lá. Quando se vai à origem luterana, à Reforma, lá está Aristóteles. Quando se vai à origem dos batistas, lá estão os princípios político-filosóficos dos ingleses do século XVII – e que século! Vale a pena ler A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII, de Christopher Hill.

 

Luteranos e batistas são criaturas híbridas, filhos de dois mundos. Por um lado, são filhos da tradição – de fato, são todos nicênicos, não são? Basta ouvir o nome “Jesus”, e os credos de Nicéia, Calcedônia e Capadócia fazem-se ecoar, retumbantemente, magicamente, hipnoticamente. Por outro lado, são, ao mesmo tempo, filhos de Aristóteles, da Renascença, do Liberalismo Político-Filosófico Inglês. Certo é que, no que concerne a ambos, Nicéia armou-se de Aristóteles e do Liberalismo (político-filosófico) para manter-se no poder. Não importa. O que interessa é que, fazendo-o, marcou seu discurso com o viés da crítica, de modo que a crítica pode renascer a qualquer momento – e de modo que até os documentos o assumem.

 

Quando as tradições luterana e batista recordam-se da crítica que os engendrou, não significa que se convertem a ela. Non plus ultra. A crítica, e os princípios cético-culturais que a engendram são mantidos domesticados, como Tomás de Aquino fez com Aristóteles. E lá se vão quinhentos, quatrocentos anos.

 

De qualquer modo, porque os dois elementos fazem parte do monstro híbrido que somos, é tanto verdade que não se pode tomar um pelo outro – abrir mão da tradição em função da crítica – nem, por outro lado, sufocar a crítica pela tradição. Uma coerência que se me impõe é ler criticamente a tradição, e assumi-la criticamente. Parece-me que a coerência não é um secularismo a-religioso, mas uma religiosidade crítica, humanista, que reposicione toda a tradição, criticamente.

 

Que não se chegue a dizer que perdemos quinhentos anos é uma advertência que eu ouviria de bom grado – ainda que pense que, sim, perdemos quinhentos anos. De bom grado, eu diria, contudo, que nem por isso esses quinhentos anos precisam ser repetidos. Está na hora de tirar de lá a advertência – non plus ultra – e, sob todos os riscos, mas na coerência crítica da consciência crítica, assumir nosso destino, construindo-o a partir de nossa história: levar a crítica às suas conseqüências históricas.

 

Isso resta a ser feito.

 

Se meus alunos – alguns, é claro – fecharam-se na tradição, é legítimo e justo. Mas não é justo que não compreendam o que isso significa, e eu diria que, entre outras coisas, significa não considerar a força crítica de nossa origem, e recalcá-la, em favor das mesmas forças contra as quais insurgiram-se, os antepassados, que nos deram à luz.

 

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Osvaldo
 
Gostei de ler o seu texto.
Ele revela algo impressionante e admirável: a capacidade de perceber como os mecanismos hermenêutico-interpretativos funcionam "por dentro". A coerência do pesquisador que quer manter a pertença à tradição eclesial está em manter, sempre, o seu potencial crítico, porque eclesia semper reformanda (Lutero), não havendo que repetir os mesmos erros da maior parte do trajeto.

Um abraço

Haroldo

(e-mail de 28/06, de Haroldo Reimer, doutor em teologia e pastor luterano, meu amigo e querido eterno professor)