Nem com boa vontade

– não é apenas o latim que está morto...

Osvaldo Luiz Ribeiro

(12/04/2008)

 

 

Lendo assim, faz um efeito danado: credo ut intelligam e fides quaerens intellectum. (tentei um vermelho-barroco, mas meu FrontPage é republicano). O latim em que ambas fórmulas estão lavradas, emprestando aos romanos um aspecto jurídico, e aos cristãos medievais uma aparência ontológico-metafísica, transporta o leitor para um mundo onde ele deve, amém, amém, persignar-se, genuflexo, e aceder, pacificamente. Se forem pronunciadas com a voz apropriada, então.

 

Mas o que significam? O que querem dizer?

 

Mais do que isso – o que se querem dizer, quando são citadas? Sim, sim – século XXI, e ainda são citadas. Uma tem mil e seiscentos anos. Outra, mil e cem. Mas ainda parecem significar alguma coisa – se não, não seriam citadas. E o são. À guisa de argumentação. De fundamentação. Praticamente uma liturgia.

 

Mas não querem – em si mesmas – significar coisa alguma. Não podem. São palavras. Nenhuma palavra significa coisa alguma. Não a palavra. São as pessoas que, usando (as) palavras, fazem-lhes significar ou isso ou aquilo. Se a pessoa quer usar uma palavra no sentido em que a média das pessoas – os costumes, a política – usa-a, basta tomar essa palavra, e usá-la naquele sentido. Que quem determinou? A cultura, os costumes, a comunidade. Eu, usando-a, apenas me faço adaptar à comunidade de comunicação, e obedeço ao uso que esta faz dela. Talvez porque não tenha razões pra transgredi-lo.

 

Mas posso querer justamente o contrário. Posso ser irônico e, então, tomar uma palavra e empregá-la em sentido contrário ao do uso estabelecido – reinscrição transgressiva. Is 4,2-6 é um caso excelente de reinscrição transgressiva. Tomam-se os termos utilizados pelo grupo social sob a mira do recurso irônico, e transgride-se esse registro semântico tornado natural, porque da cultura, do tempo, do grupo. O resultado é eficiente.

 

Mas nos dois casos, as palavras não querem dizer nada – porque palavras não dizem absolutamente nada. São as pessoas, agindo em código de situação, que dão a elas os sentidos que querem dar. E elas aceitam.

 

Sendo assim, não adianta perguntar o que as duas fórmulas querem dizer – porque isso daria até a impressão de que elas são extra-humanas – e não são –, extra-históricas – e não são, extra-culturais – e não são. O recurso é, das duas uma: a) ou perguntar-se pelo que Agostinho e Anselmo pretenderam dizer, quando, respectivamente, usaram-nas, ou b) perguntar-se pelo que as citações contemporâneas devem dizer, segundo aqueles que as utilizam.

 

 

Um atalho, através dos Princípios Batistas

 

 

Deixemos o latim por um momento, e recorramos à formulação mais próxima de nós, ainda que provinciana, dada que constituída por uma tradição denominacional evangélico-protestante – os batistas. Mas não dói. É até fácil.

 

A JUERP publicou um livreto – Princípios Batistas. Aqui no Brasil ele saiu em 1986/1987 (terceira edição), mas consta ter sido escrito em 1964 “por uma comissão de 19 líderes da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos”.

 

Trata-se de um “documento” de caráter híbrido, “dividido” – em sentido ideológico (e psicológico!) – entre princípios e doutrinas – abertos, aqueles, fechadas, estas. A parte doutrinária tem dois mil anos, fortemente influenciada que foi/está por Nicéia, não diretamente, mas, seguramente, pela manutenção das fórmulas teológico-cristológicas conciliares pela Reforma. A parte constituída filosoficamente por princípios deve sua origem à particular história batista, nascidos nós na Inglaterra do século XVII, influenciada profundamente pelas idéias políticas e filosóficas liberais que redundaram na fórmula moderna dos Estados Democráticos de Direito. Oh, que maravilha - e ironia - Lutero tem o vírus de Aristóteles na veia, nós, batistas, do liberalismo político-filosófico inglês do século XVII. De que nos terá valido isso, a História o deve dizer. E a seu tempo dirá.

 

Na prática, os princípios, abertos, acabam sendo controlados pelas doutrinas, fechadas, e o documento acaba perdendo-se nas estantes, sem qualquer expressão prática no seio das igrejas locais – que desconhecem quer o livreto, quer seu conteúdo ideológico-filosófico –, sendo aí substituído pela Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. Doutrina por doutrina – é compreensível.

 

Por meio de um processo de tamisação, é possível, contudo, deixar escoarem as fórmulas doutrinárias, e manter na peneira apenas aquelas declarações que – podem – ser interpretadas como expressão de princípios. Cito uma delas: “a fé e a razão aliam-se no conhecimento verdadeiro. A fé genuína procura compreensão e expressão inteligente” (Princípios Batistas, V.8).

 

Literalmente, aquelas fórmulas latinas parecem poder expressar a mesma idéia – creio para compreender e fé buscando compreensão. Mas já vimos que as palavras não significam coisa alguma. Sem a mente humana, que as fecha ou as abre, elas são apenas verbetes semânticos num dicionário de possibilidades, virtualidades. Falar – e ler – corresponde a uma atualização dessas possibilidades que, contudo, existem apenas como potência de atualizações possíveis.

 

Tendo isso em mente, pode-se “abrir” o princípio a partir de duas “leituras”. A primeira corresponderia àquela leitura atualizada por uma consciência comprometida com a epistemologia pré-moderna, medieval, escolástica, “cristã”, segundo a qual a fé é conhecimento. Conhecimento obtido de forma metafísica, sobrenatural, revelada. Conhecimento oferecido gratuitamente pela Providência. Conhecimento. Ao lado dela, da fé, que, aí, é sinônimo de conhecimento, a razão. A razão seria, também, conhecimento. Conhecimento arrancado à força da Natureza – opa! – da Criação, por meio da pesquisa “científica”.

 

Uma vez que – para essa consciência – a fé é conhecimento (revelado!), o sistema teológico constituído pelos conteúdos nobres e graves da fé, seguros e certos, malgrado os rodeios retóricos de um Barth, para quem a teologia não é revelação, mas a Palavra sim, e, então, não se sabe mais como a revelação chega às igrejas, já que as igrejas lidam é com teologia, mesmo quando dizem lidar com a Palavra, seguro e certo, o sistema doutrinário constitui um sistema de conhecimento. A diferença desse sistema de conhecimento é que ele advém desde fora – e por meio do seu próprio revelador.

 

Segundo um tal raciocínio – ainda em moda na esmagadora maioria das consciências teológicas formais e formadas (que lamentável!), para não falar da absoluta totalidade das igrejas (aí é até compreensível) – existem dois sistemas de conhecimento: a fé, revelado, e a razão, descoberto. Para muitos cristãos mais fundamentalistas, quer dizer, menos divididos pelas pressões filosóficas e liberais que atormentam a cristandade desde as invasões árabes do século X – os árabes trouxeram Aristóteles, e, desde então, mesmo castrado por um Aquino, fez das suas –, “conhecimento” mesmo só a fé. Para a maioria dos cristãos do Ocidente, contudo, a ciência foi paulatinamente sendo aceita, e uma acordo de cavalheiros teve de ser assinado.

 

E o acordo é esse: há dois sistemas válidos de conhecimento. O que Deus contou – a fé – e o que os homens descobriram – a razão. Se o princípio batista que venho analisando for aberto por meio dessa rotina epistemológica, resulta dizer que a fé revelada e a razão instrumentalizada devem dar as mãos.

 

Vai-se mais longe – somente seria fé verdadeira, aquela que procurasse compreender-se. Mas o que significa, nesse roteiro, “compreender-se”? Ora, uma coisa bastante óbvia. Vê-se que o roteiro segue os interesses e os conteúdos da “fé”, que, assumindo-se como conhecimento, logo como cosmovisão, apropria-se do conceito de razão e o instrumentaliza. A fé não apenas fala de si como conhecimento, mas da razão como uma expressão humana apropriada para a compreensão – a pesquisa! – da verdade. Uma vez que a verdade é a própria fé, a razão pode – deve! – somar-se à fé, para, juntas, fé e razão elaborarem o discurso verdadeiro, o conhecimento verdadeiro.

 

Não se saiu um minuto nem um centímetro – aí – da Idade Média. Uma fé buscando compreender-se - bem sabido, através de si mesma. Não se vai muito longe aí, como, de fato, historicamente, não se foi. Foi preciso arrancar o mundo das mãos desse raciocínio, ou ainda estaríamos lá, como muitos ainda estão. Não canso de repetir - a Revolução Francesa, na condição de símbolo e marco histórico, é o acontecimento histórico mais importante depois de Nicéia. Todo o resto é perfumaria. Quinze séculos aturamos Nicéia - e ainda se tem saudade daquilo.

 

Tentemos, agora, outra forma de ler o princípio, o mesmo princípio, mas, agora, segundo outra epistemologia, não mais a da consciência “cristã” medieval e escolástica, mas a epistemologia emancipada das Ciências Humanas – de resto, aquela que povoa as salas de aula, desde o primário, até o pós-doutorado. E antes. E além.

 

Segundo uma consciência científico-humanisticamente esclarecida, a não é conhecimento. A fé – enquanto expressão de crença em proposições doutrinárias, ou seja, aquela relação entre a consciência do fiel e as doutrinas de sua religião, fideísmo, e, quando "sadio", voluntarista – constitui uma atitude passiva de adesão a um credo. Segundo os roteiros epistemológicos pós-românticos – que norteiam a civilização moderna – nenhuma proposição metafísica (sobre o “mundo” sobrenatural) pode ser considerada – e não é – conhecimento. Segundo os pressupostos dessa nova existência civilizatória, desse novo marco epistemológico, não se conhece absolutamente nada  que esteja fora do alcance da máquina biológica humana, constados aí os sentidos e as suas interpretações noológico-computacionais.

 

Segundo o primeiro modelo, há Deus porque eu creio que há ("a fé é o firme fundamento... a prova..." - logo, deve haver mesmo milhões de Deuses, já que se crêem nele, ao mesmo tempo que nenhum, porque também se crê nisso. Salvo se, aí, não se trata de epistemologia, mas de política: a minha fé, mas não a dos outros. Ah, bem, entendi, então...). Segundo o modelo atual, se há Deus, não posso saber. Posso crer. Mas crer não é saber. A não é anacrônica hoje. O que é anacrônico é dizer-se essa fé constituir conhecimento. Pois não é. Não – pelo menos – segundo o roteiro epistemológico das Ciências Humanas, da Ciência Natural, da epistemologia pós-medieval. Epistemologia essa que, inclusive, nos ajudou a sair de lá. Aleluia.

 

Pois bem – segundo esse roteiro moderno, como abrir aquela proposição – “a fé e a razão aliam-se no conhecimento verdadeiro. A fé genuína procura compreensão e expressão inteligente”?

 

Muito simples. A razão deve esclarecer a fé, fé que, se é verdadeira, quer, sobretudo, conhecer. E, conhecer implica em conhecer-se. Logo, a fé deverá perguntar à razão quem é ela, a fé, o que é ela, a fé, como ela, a fé, nasce, como se estrutura, como se organiza, como se reproduz, como se atualiza. Assim como faz parte do conhecimento contemporâneo – sem isso não há verdadeiro conhecimento – perguntar-se pelo conhecimento do conhecimento, também deverá fazer parte da fé contemporânea, perguntar-se pelo conhecimento da fé, e conhecimento epistemologicamente fundamentado, psicologicamente, antropologicamente, sociologicamente, politicamente, filosoficamente: o que é que acontece comigo quando tenho fé? Não há como fugir da conseqüência – o conteúdo da fé esboroa-se, dissolve-se, dilui-se. É por isso que se recusa tanto a tarefa. Porque dói.

 

 

Velhas como o latim

 

 

Ora, as fórmulas de Agostinho e de Anselmo foram pronunciadas por Agostinho e Anselmo. Diziam o que eles queriam dizer – como crentes, teólogos, homens agarrados à sua fé enquanto conhecimento. É eles quem falam, através delas. É uma fé velha essa, ainda mais do que o latim. Era a fé de Judas – ainda que fundamenta em apócrifos! Por ela deve-se combater. Onde ela pousa, tudo permanece noologicamente igual. Pousou em Agostinho, o grande Abutre, que lá em cima construiu o grande ninho e pôs os ovos. Um a um, chocaram. Aquino. Sim, Aquino, porque, vejam, a é a mesma antes e depois dele, antes e depois de Aristóteles, castratto entre castratti (na longa noite da teologia, cuja sombra ainda cobre a Terra, alguns castraram-se a si mesmos, outros, a outros). Lutero. Calvino. Wesley. Barth. Bultmann. Tillich. Rahner. É longa, ininterrupta, a fila da fé como conhecimento – e mesmo quando se diz afirmar, como fez um deles – Tillich – que a fé não é conhecimento. Mas é como se fosse, porque, afinal, é para o Cristo dessa fé que se quer ganhar o mundo. Para todos eles – ainda que seus caminhos filosóficos, suas pegadas retóricas, suas negociações discursivas, tenham sido tão diferentes – a , a sua fé, a fé cristã, o dogma, o querigma, constituem conhecimento, e profundo, tão profundo que tem que haver lugar para ela hoje.

 

Credo ut intelligam. E eis-nos com os burros n’água, de cara contra a parede – para recuperar uma metáfora do conhecimento como um labirinto. Fiquemos com a leitura engajada dessa fórmula – a fé. Creio – como batista, e, como batista, buscarei compreensão. Uma compreensão, evidentemente, batista. Creio – como presbiteriano, e, como presbiteriano, buscarei compreensão – uma compreensão, evidentemente, presbiteriana.

 

Risível, não? Agostinho e Anselmo julgavam falar pela “cristandade” – não enxergavam mais nada além dos próprios olhos, nem nada, nem ninguém. Mas a cristandade nunca existiu. Sempre houve cristandades. Hoje, oficialmente. Mas ainda nos portamos como se na Idade Média – cada igreja fala como se fosse a única, e se fosse a única a estar falando, e a única por meio de quem Deus fala. Risível. E não nos damos conta! Quanto nos importa a opinião do mundo! Sequer a dos “irmãos”. Esconde-se o ridículo sob o rótulo de “identidade” – identidade que, contudo, esbraveja, vitupera, anatematiza – e tem certeza.

 

Se entre os cristãos já soa ridícula a leitura medieval, já que não há sequer uma fé, quanto mais um conhecimento cristão (conjuntos interseção não resolvem o problema, senhores! Até Nietzsche sabia – há cem anos! – que a transformação dos cristianismos em doutrinas fora a maior tragédia – talvez a segunda, a maior talvez tenha sido a dissensão irremediável com os judeus – da História do Cristianismo), o que pensar dos dias atuais, em que a Teologia é, agora, disciplina do Sistema Federal de Ensino. Como falar da fé como conhecimento – e fingir que isso é sério – quando aqui vai um Deus, ali três orixás, um preto-velho e dois caboclos, ali um não-Deus, e mais acolá, dois milhões deles? Isso para não falar daqueles que, olham a longa fila dos teólogos teístas/deístas/panteístas e, olhando-a, perguntam-se de que cargas d'água estão falando esses doidos. Ateísmo é também teologia!

 

Ah, mas há um conhecimento nisso – o de saber do que se trata: e desde Feuerbach se sabe do que se trata. Não se quer é levar esse conhecimento a sério. Os Deuses e Deusas, todos, todas – absolutamente todos, inclusive o nosso – são invenções humanas. Se existem para além dessa invenção – isso não se pode saber. Pode-se crer. Pode-se até se emocionar com essa crença – e como as crenças tornam-se somaticamente relevantes! Mas saber – não. E quem afirma que sabe, sabe-o apenas segundo as rotinas retóricas da epistemologia pré-moderna. Mente para si mesmo, se vive no século XXI. No século XXI, sabemos que não sabemos, e, se cremos, sabemos que cremos. Ah, e como há teólogos - se há cientistas da religião! - drogados do ópio de Marx, que talvez se ria, ele e Freud, divertindo-se de nós.

 

É absolutamente revoltante, repugnante – falo das sensações do meu corpo – que ainda recorramos àquelas fórmulas, como se elas pudessem dizer algo para nós hoje. Não, não podem. Elas devem habitar – apenas – livros de História da Teologia. Mas nunca mais deveriam ser repetidas em aulas e livros de Metodologia Teológica. É um crime de lesa modernidade. Dizê-lo, e mandar os filhos para a escola, é uma contradição irreconciliável.

 

(...)

 

Há um elemento de crença na razão, na ciência. De loucura – até. A razão sabe que sabe de um modo que não se traduz mais pelo que se considerava ser saber até há duzentos anos. O que a razão sabe, hoje, sabe-o romanticamente, isto é, humanamente, demasiadamente humanamente. Não há – para essa consciência, forma de saber que não humana – para um ser humano. Mesmo a mística – é humana. Mesmo as “clarividências” – humanas. As fés – humanas. Tudo – humano. Até um deus – humano. Se for humano.

 

Não se trata, pois, de dizer da razão o que a fé dizia de si – “a razão é conhecimento verdadeiro”. Nunca saberemos, com certeza. A razão, é, contudo, conhecimento possível. O mais – delírio. Mas até para o delírio é preciso ser sério.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

 

 

 

– página atualizada em 12/04/2008 20:01:02