Leitura como diálogo

I - ouvir

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Sábado passado tivemos a oportunidade de assistir a uma entrevista com o Nobel de Literatura de 98, José Saramago, que estava no Brasil por ocasião da celebração da literatura de Portugal na IX Bienal Internacional do Livro, no Rio Centro. Durante a entrevista, Saramago fez um breve comentário acerca de um problema grave, que eu já observara nos meus anos iniciais de magistério, mas para o qual não havia, ainda, encontrado um nome: analfabetismo funcional. O fenômeno consiste na constatação de que grande parte da população, não obstante ter sido alfabetizada, não aprendeu a ler. Não ter aprendido a ler  significa, primeiro, não ter adquirido capacidade para identificar a idéia central de um texto, suas idéias secundárias, seus argumentos secundários e, principalmente, seu argumento central. Na prática, a maioria da população brasileira não adquiriu nos anos de escola as habilidades necessárias para lidar com a página escrita. Não que isso melhore a situação brasileira, mas Saramago acrescentou tratar-se de fenômeno comum em Portugal, também, e, até, nos Estados Unidos e Europa. Felizmente, não ter aprendido a ler significa, também, que qualquer um pode aprender a ler.

 

Tenho tido a oportunidade de verificar o fenômeno do analfabetismo funcional envolvendo alunos que ingressam no curso superior sem a necessária formação de leitura nos cursos fundamental nos graus anteriores. Foi justamente essa constatação que me levou a acrescentar aulas de técnica de leitura na disciplina Metodologia da Pesquisa. Nos primeiros anos de magistério, tentava ajudar os alunos a desenvolverem capacidade de elaborar resumos, resenhas, relatórios de pesquisa e monografias, mas desde logo percebi que todo o esforço tão somente produzia trabalhos escolares com margens bem medidas, espaçamento adequado e utilização dos pontos, vírgulas e dois pontos nas referências bibliográficas adequados ao formato da instituição. Alguma coisa precisava ser feita para que, além de medidas, os alunos desenvolvessem a percepção crítica na leitura.

 

Não se trata aqui de discutir a importância ou não da leitura na experiência humana. Parto do pressuposto de que seja imprescindível ao homem, ao cidadão do mundo, em plenos umbrais do século XXI, o domínio da capacidade de leitura. Refiro-me à capacidade de o leitor identificar a idéia central e as idéias secundárias de um texto, bem como criticá-lo, a partir da identificação de seu argumento central e de seus argumentos secundários, sejam explícitos, sejam implícitos. O leitor que não adquiriu, ainda, capacidade para identificar os aspectos relevantes do texto, não sabe ler: é um analfabeto funcional e precisa envidar esforços ultrapassar essa deficiência formativa.

 

Gosto da sugestão de Adler e van Doren (A Arte de Ler) de que o livro seja um professor ausente. Isso nos permite identificar a leitura com o diálogo, com a diferença de que o “outro” com quem dialogamos na leitura não está presente: está distante seja geográfica ou cronologicamente. Ler significa conversar com o autor do livro. Podem ser levantadas críticas nesse sentido, uma vez que tem-se proposto a leitura como fenômeno de percepção da polissemia inerente aos textos autônomos, e ainda se tem denunciado a leitura como eixegese de caráter ideológico. Mas, com boa vontade, convido o leitor a aceitar, por um momento, a tese da leitura como arqueologia do sentido, isto é, como tentativa de ouvir a voz do autor por detrás do texto. Leitura, então, é diálogo com o autor e começa, necessariamente, com ouvi-lo.

 

Se for assim, podemos compreender a leitura como o processo inverso da escrita. Nesse diálogo entre autor e leitor que é a leitura, que deve ser a leitura, porque pode não ser, pode o leitor apenas deixar-se impressionar pela polissemia do texto, iludir-se, ainda, com sua própria ideologia projetada naquela mesma polissemia, agora sua, fechada, nesse diálogo, então, de um lado está o autor que, quando vai escrever, escreve apenas uma e uma só coisa, e, do outro lado o leitor, que se coloca na posição inicial de ouvir exatamente aquela coisa que lhe quer dizer o autor. Muito bem, essa uma e uma só coisa que o autor quer dizer é a idéia central do texto – foi para dizer isso que o texto foi escrito. Nesse sentido, se o leitor não ouvir exatamente isso não terá compreendido o que o autor quis dizer-lhe. Numa palavra, a sua missão é ouvir a idéia central do autor, aquilo para o que o texto existe.

 

Por outro lado, essa idéia central só existe porque o autor possui seus pressupostos. Isso quer dizer, que além de um o que vou dizer, o autor pensa, também, sobre por que vou dizer, qual a razão de afirmar o que afirma, em que se baseia para afirmá-lo. De modo que o leitor não pode se contentar em saber o que o autor diz, mas, principalmente, o por que ele o diz. Esse por que é o argumento central do texto, o fundamento em que se baseia o autor para sustentar o que quer dizer – numa palavra: é o fundamento da idéia central.

 

Uma terceira coisa em que o autor terá pensado, necessariamente, ao escrever, além de o que e por que dizer, é como dizer: qual a estrutura de que se utilizará para apresentar sua idéia central; quais as idéias secundárias, mas necessárias, de que se servirá para lhe dar sustentação redacional e um aspecto comunicativo. O leitor deverá, também, identificar quais são essas idéias secundárias que ali estão como comissão de frente da idéia central. Esse como constitui o universo conjunto das idéias secundárias e de seus respectivos argumentos.

 

A figura que introduz esse artigo procura ilustrar essa rede de sustentações do ponto de vista do autor: a idéia central é sustentada pela série de blocos de idéias em que o texto está constituído desde a mente do autor – como uma reunião de Atlas, carregam sobre os ombros os pedaços que, unidos, compõem o que o autor quer dizer. Alicerçando tudo, abaixo da linha do solo, está o argumento central. Ele pode ser tanto explícito quanto explícito, tanto ser um quanto mais de um.

 

Nesse sentido, há uma inversão na ordem dos elementos do texto se observados do ponto de vista do autor e do leitor. O autor, primeiramente, por que possui os seus pressupostos, um dos quais (ou mais de um) servir-lhe-á de argumento central, decide o que vai dizer e, finalmente, constrói como o dirá. Do outro lado, o leitor, de pronto, dá de cara com o como: as idéias secundárias, distribuídas em parágrafos, capítulos, partes, e todos os argumentos que lhes fundamentam e correspondem; depois, intui o que o autor disse, analisando o conjunto das afirmações secundárias à luz da estrutura que compõem e as relações que desenvolvem a partir de sua localização dentro da estrutura do texto; finalmente, tendo identificado o que o autor disse, deverá identificar por que disse, qual o argumento fundamental que sustenta o que foi dito.

 

Disse que o como, constituído pelo conjunto das idéias e dos argumentos secundários de que se utiliza o autor, é a comissão de frente no ato da leitura. O que realmente interessa é o que o autor disse, mas o leitor será, primeiramente, recebido pelo como. Deverá ter adquirido a habilidade de identificar a série de idéias secundárias e seus respectivos argumentos, reuni-los em blocos distintos, relacioná-los e, daí, extrair o que o autor quis dizer. Isso é ouvir. Depois deverá identificar o argumento central, a carta de baralho que, se retirada, derruba todo o castelo, o princípio ideológico que fundamenta a idéia central. Isso é criticar.

 

Se o leitor não tem habilidades para identificar as idéias secundárias de um texto; se não tem habilidade para reuni-las em blocos; se não tem habilidade para relacionar esses blocos uns com os outros a partir da estrutura que o autor empregou, a fim de determinar o papel sintático de cada idéia; se não possui habilidade para discernir a idéia central construída ou sustentada pela série de blocos de idéias e se, finalmente, não possui habilidade para perceber o argumento central do texto, implícito ou explícito seja ele, não está preparado para a leitura – no dizer de Saramago, constitui mais um elemento do conjunto contemporâneo do analfabetismo funcional.

 

Não é o fim do mundo. Essa deficiência funcional pode ser corrigida. Quanto mais cedo, melhor, mas a idade avançada não é empecilho intransponível. Um bom livro de técnica de leitura, muito treinamento, na verdade, muita leitura, muita disciplina, e eis um leitor pronto para dialogar com as mais ilustres mentes do mundo.

 

O brinde comemorativo será saborear A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Todos os Nomes, Memorial do Convento enquanto O Ano da Morte de Ricardo Reis aguarda na fila. Essa celebração confirma que a leitura, além de alçar o homem ao mundo, também comove, alegra, entristece e enaltece. É tanto luta quanto jogo.