História e Sintaxe na Leitura da Bíblia

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Surpreendi-me dia desses, quando um aluno de duas disciplinas que leciono no STBSB disse gostar mais de Interpretação Bíblica do que de Metodologia da Pesquisa. A questão é: é possível interpretação da Bíblia sem metodologia da pesquisa? Uma boa exegese prescinde duma boa leitura? Não obstante se reconhecer que a interpretação bíblica consiste num caleidoscópio de possibilidades metodológicas, pode o leitor escusar-se do domínio da capacidade de diálogo com os autores das Escrituras?

 

A página escrita exerce profunda influência no homem. Existe nela uma palavra que lhe é dirigida, mas que exige dele um esforço. O homem sente-se desafiado. Mas sente-se fascinado. A folha escrita está em suas mãos: pode não ter sido necessariamente dirigida a ele, mas guarda uma palavra que pede seja pronunciada. Enquanto essa palavra não for decifrada, fica secreta, permanece misteriosa. À semelhança de todas as escrituras milenares, a Bíblia tem sobrevivido aos séculos, desafio após desafio, fascinação após fascinação, porque o fato de que alguém, no passado, tenha decifrado aquela perícope, aquele capítulo ou aquele livro, e o fato de que esse homem, ou outro, tenha se fascinado com sua palavra, não escusam o leitor [qual? todo e qualquer] de que ele mesmo se deixe desafiar e se fascine. É este homem quem terá de decifrá-la agora, como outros o fizeram no passado. Não é tanto o conteúdo da palavra quanto à necessidade da sua decifração por este homem que mantém a Bíblia século após século.

 

Não falo aqui do desafio e da fascinação que a palavra escrita exerce no homem pelo que ela diz de significativo: reporto-me, apenas, ao desafio de ouvi-la e à fascinação de tê-la ouvido! Falo da leitura em si mesma, da leitura como diálogo mágico e possibilidade artesanal. Coisa fantástica essa de observar os signos na folha escrita, as palavras que eles formam, as frases que as palavras compõem, os períodos que se entreteceram, os parágrafos manufaturados. Falo, portanto, do suor do trabalho árduo e da alegria do pão do trabalho. Um verdadeiro desafio e uma incomparável fascinação.

 

Não se pode temer o desafio. O leitor deve estar apto a enfrentá-lo. A sociedade humana está construída sobre esse pressuposto, e comportar-se à margem dessa capacidade é inadmissível – possível, mas inadmissível. O leitor não nasce leitor, se faz. Para se fazer, é óbvio que tenha o ovo do leitor em algum lugar dentro de seu corpo ou de sua alma; mas o fato de ter o ovo não significa necessariamente que o chocará. Deve chocá-lo e trazer à luz a ave que ele guarda: ler, de certo modo, é ver-se de asas nascidas...

 

Fazer-se leitor é observar as exigências da leitura, apreender-lhe os estatutos, submeter-se às suas prescrições. Suas prescrições são sempre desafiadoras. Sua declaração é uma só: escuta-me! Ora, o primeiro movimento da escuta é justamente o silêncio. Silêncio absoluto. Um silêncio não passivo, é verdade, mas que pergunta: “o que?” e pede: “repete”. É um silêncio ativo, que deseja escutar e ouvir. Ouvir, assim, é ficar quieto para que o livro fale e interrompê-lo sempre que se lhe perder o sentido. Isso de o livro falar remete-nos ao pressuposto de que o autor do livro é quem fala (esqueçamos aqui as teorias do texto e do leitor como locus hermenêutico, não porque não signifiquem nada, mas porque não temos tempo e espaço). Se o livro fala, logo o desafio da folha escrita é ouvir o que o seu autor tem a dizer e a sua fascinação é ouvi-lo. Um diálogo com os mortos, no caso da Bíblia. Mas é um diálogo com os mortos quando estavam vivos, quando tinham alguma coisa para dizer a alguém, por uma certa razão, mediante uma certa forma [emissor, mensagem, receptor, contexto e gênero]. Ler, nesse sentido, consiste em esforçar-se por ouvir exatamente aquilo que foi a intenção do escritor: um empreendimento que caracteriza uma verdadeira arqueologia da intenção. Arqueologia, porque a intenção que o leitor busca está soterrada sob séculos de história e cultura. Aquele silêncio como exigência será acompanhado de muito trabalho: desvendamento do contexto histórico e das determinantes condicionais do autor, do destinatário e da mensagem; análise do formato em que a mensagem foi transmitida; percepção da relação genética entre a situação do destinatário e o pronunciamento do autor. De forma simples, ler consiste em procurar descobrir o mais exatamente possível: para quem se diz, porque se diz, quem diz e, conseqüentemente, o que se diz. O que se diz ficará sempre por último, como conclusão daquelas descobertas imprescindíveis anteriores. Se todo esse trabalho se diz imprescindível, nunca será demais repisar que se há de operá-lo em silêncio. As mil vozes do leitor podem pôr empecilhos à leitura. Somente depois de certificar-se de ter trabalhado suficientemente, e em silêncio, e apenas depois de ter-se convencido de não ter confundido a voz do autor com a sua própria voz é que o leitor poderá manifestar-se.

 

O trabalho não é tão difícil. É questão de ter acesso às informações necessárias para o levantamento do contexto, das razões intrínsecas e do formato do texto. No mais, é prática. Silenciar-se é que é o verdadeiro desafio. Em silenciar-se convenientemente reside a arte do leitor exímio, como em deixar que a flecha por si só se lance do arco e acerte o alvo consiste a verdadeira arte do arqueiro zen.

 

No entanto, mesmo que os procedimentos arqueológicos sejam convenientemente superados, não estará necessariamente superada a decifração do texto. O texto é um Labirinto, e perder-se nele é fácil: entre aí o leitor com o fio de Ariadne. Esse fio condutor é a sintaxe. O leitor precisará mover-se com segurança nesse Labirinto e ser-lhe-á cobrada sabedoria para escolher diante dos entroncamentos e bifurcações persuasivos: as palavras são assim, podem nos fazer perdermo-nos em múltiplos desvios polissêmicos. Um canto de sereia se ouve aqui e ali, os olhos do leitor desviam-se do porto que buscavam e eis lançado ao mar e perdido na multiplicidade de sentidos cabíveis aquele leitor encantado. Como não se perder? Como não ser engodado? Um rigoroso controle sintático deve ser empreendido, palavra a palavra. Nada será mais útil agora do que aquilo que aprendemos desde o ensino fundamental a respeito de sujeitos, predicados e verbos. Quem fala? De quem fala? O que fala? Como fala? Essas relações não estão vagando na forma de um universo diáfano sobre a página, mas estão esculpidas nas relações sintáticas das palavras. O escritor recorreu à sintaxe para codificar o pensamento intencional na folha escrita: o leitor deve, igualmente, recorrer àquela mesma sintaxe para decodificar a mensagem. Como fio de Ariadne é a sintaxe quem deverá conduzir o leitor. Como corda segura, a sintaxe deverá amarrá-lo ao mastro para que não se precipite ao mar, persuadido pelo canto inebriante da polissemia.

 

Existe uma estrutura sintática que guarda a intenção original do autor e uma história de fundo que o fundamenta. A leitura, portanto, não é um exercício de liberdade, mas um ato de espontânea submissão à estrutura rigorosa de que se reveste, no texto, a intenção original do autor.

 

O leitor precisa, então, ser exímio decodificador da sintaxe. A relação entre as palavras do texto, entre as suas frases e os seus períodos, esse mundo de relações amarradas umas às outras, eis onde deve o leitor procurar a mensagem. As palavras estão ali, construindo um mundo de relações intencionalmente unívocas. Intencionalmente, apenas, porque, na realidade, aquele mesmo texto suportará, ao nascer, outras relações possíveis, não intencionais em relação ao autor, mas referentes à reserva de sentido de todas as palavras e de todos os textos.

 

É por isso que se o leitor quiser alcançar a intenção original do autor, deverá converter-se em exímio decodificador sintático e exímio arqueólogo da intenção. Deverá ser exímio decodificador sintático, porque o escritor utilizou-se de um código para registrar seu pensamento: não resta ao leitor outra tarefa, se quer ouvi-lo, que fazê-lo falar, mesmo de além do túmulo, aquilo que dissera em vida.  Exímio arqueólogo da intenção, também, porque o texto, reconhecemos, a tem soterrado com camadas estratigráficas sucessivas; há outros mundos de sentidos no texto, outros labirintos semânticos mais desafiadores que o sintático, e perder-se da intenção do autor é coisa fácil.

 

Qualquer um de nós pode ter uma queda por  Interpretação Bíblica. Qualquer um de nós pode ter suas opiniões desanimadoras a respeito de Metodologia da Pesquisa. Mas talvez aquele apreço seja fruto de ideologia religiosa, enquanto que aquele desapreço pode estar mais relacionado a alguma provável inabilidade didática do professor. Seja como for, é impossível que haja Interpretação Bíblia que respeite a intenção do autor sem metodologia da pesquisa. Não digo que seja impossível interpretar a Bíblia sem metodologia da pesquisa: é possível e é até comum. Mas, e é isso que vim dizer aqui, se queremos ouvir exatamente o que o autor de qualquer livro da Bíblia quis dizer, e disse, lá, onde e quando vivia, então não temos outra saída: sintaxe e história.

 

Numa palavra: leitura histórico-gramatical da Bíblia está diretamente relacionada à arqueologia da intenção original do escritor e à análise sintática do seu texto. Outras leituras são possíveis e não se poderá dizer que sejam mais ou menos válidas. Só não se vá apresentá-las como leituras histórico-gramaticais da Bíblia. Essa nomenclatura deve ser reservada para a busca à intenção dos mortos, não à dos vivos, uma vez que, queremos crer, os autores bíblicos já dormem seu sono de glória.... a nós, vivos, cabe-nos somente o nosso próprio silêncio, para que eles falem.