Hermenêutica e

interpretação histórico-social da Bíblia

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

No que tange à interpretação da Bíblia, deve-se considerar a Hermenêutica tanto uma técnica quanto uma arte. Enquanto técnica, a Hermenêutica se preocupa com o rigor metodológico indispensável à atividade de interpretação. Enquanto arte, seu desafio é a reconstrução das circunstâncias histórico-sociais que condicionam quer o escritor bíblico, quer, conseqüentemente, a mensagem a ele relacionada e representada no seu texto.

 

A reconstrução das circunstâncias histórico-sociais que condicionam o escritor bíblico e sua mensagem é tarefa fundamental. Depreende-se da perspectiva de que o sentido de sua mensagem está incontornavelmente preso às circunstâncias histórico-sociais em que escreveu. Seu texto é produto histórico-social, condicionado por todas as implicações que tal caracterização implica. Deve-se dar toda atenção possível à tarefa da reconstrução do momento e lugar em que se deu a produção do texto, sob pena de, perdendo-se o eixo hermenêutico relacionado à intentio auctoris[1], perder-se a compreensão da mensagem.

 

Tal reconstrução é eminentemente uma arte. Não exclusivamente uma arte – é, também, uma técnica, mas é especialmente uma atividade da alma. Sensibilidade, intuição, perspicácia são habilidades espirituais imprescindíveis. Abertura – no sentido em que Darci Dusilek a apresenta, i. é, capacidade para considerar todos os aspectos discerníveis na leitura[2], ou, nos termos dos Princípios Batistas, mente aberta[3] – abertura, pois, é disposição prévia indispensável, ao lado da admiração – a faculdade de surpreender-se e infantilizar-se, conforme Garcia Morente[4] classifica a disposição prévia de ânimo da filosofia. Em termos devocionais, atitude reverente e oração, para recorrer novamente aos Princípios Batistas[5], também se assim pudermos compreender as prescrições de Pr 2,1.2 (reverência) e 2,3 (vontade = oração)[6]. Em última análise, enquanto arte, a interpretação histórico-social das Escrituras consiste num fenômeno sublime – dir-se-ia religioso. Sim, porque, face aos pressupostos de cânon, revelação e inspiração, a arte de interpretação histórico-social da Bíblia comporta-se como um fenômeno religioso – investe-se de um olhar e um ato de fé.

 

Entretanto, é tanto arte quanto técnica. Enquanto técnica, a interpretação histórico-social da Bíblia progride sob a égide do trabalho, se assim podemos compreender Pr 2,4[7]. Também os Princípios Batistas[8], argumentam a favor de que se trata de estudar a Bíblia, i. é, buscar o seu significado através de pesquisa. E, finalmente, o mesmo Garcia Morente traduz a disposição de ânimo da filosofia como rigor[9]. Trabalho, pesquisa e rigor, portanto, estudo das Escrituras com responsabilidade e critério, posto que rigor aponta para critério.

 

No que diz respeito à interpretação histórico-social da Bíblia enquanto trabalho, alguns princípios metodológicos são indispensáveis.

 

1. O texto das Escrituras é resultado de um processo de revelação e inspiração[10], circunscrito histórico-socialmente e delimitado por um cânon tradicionalmente acatado. Cânon, revelação e inspiração são, portanto, pressupostos acatados a priori. O estudo da Bíblia não prova tais pressupostos, nem os invalida – quaisquer que sejam os princípios – e o esforço da leitura se efetua no sentido de captar a mensagem da Bíblia, não de provar aqueles pressupostos. O estudante da Bíblia ou os acata, ou não os acata. Acatando-os, trabalha a partir deles. Contudo, se constituem por um lado ato de fé, devem ser apresentados honestamente à consciência – diríamos, com Tillich, a razão autônoma[11], nos termos do conceito de logos (logos). Se Tillich não bastar – pelo contrário, se for considerado persona non grata pelo leitor, recorra-se aos Princípios Batistas, quando afirmam que “a fé e a razão aliam-se no conhecimento verdadeiro. A fé genuína procura compreensão e expressão inteligente”[12]. E – afinal, tudo é possível – se ainda assim o leitor tiver dúvidas, recorra-se a Pr 2,1-6, atentando-se para o fato de que à reverência, segue-se a vontade de compreensão, que, seguida convenientemente pelo trabalho, redunda, pela graça, no conhecimento e no entendimento, “porque o Senhor dá a sabedoria” (Pr 2,6a)[13]. Resumindo, por um lado, a interpretação histórico-social da Bíblia processa-se sob os pressupostos pertinentes ao cânon, à revelação e á inspiração; por outro lado, a interpretação histórico-social da Bíblia esforçar-se-á por definir inteligentemente tais pressupostos, compreendendo seu conceito e seus critérios implícitos. Não se trata, portanto, de palavras mágicas, mas de conceitos teológicos discerníveis, compreensíveis e sistematizáveis.

 

2. A interpretação histórico-social da Bíblia posiciona-se favoravelmente à intentio auctoris. O texto bíblico que tem diante de si representa o registro daquele acontecimento. A interpretação histórico-social não prescinde do evento – não o substitui pelo texto, como se a intentio operis se lhe bastasse. O que pretende, desde o início, é ouvir, é compreender desde as circunstâncias condicionantes em que o evento se deu. Nesse sentido, não é a letra que lhe interessa, mas a vida registrada na letra – o acontecimento histórico-social consignado no texto.

 

3. Por outro lado, o evento extinguiu-se – resta o texto. O texto, portanto, é a ponte entre o leitor e o evento, i. é, entre o horizonte onde se produz a leitura e o horizonte onde se produz a escrita. O autor, seu contexto, suas intenções e seus condicionamentos, seu tempo e lugar, seus destinatários, se é aí onde pretende chegar a leitura histórico-social da Bíblia, é a partir do texto, no entanto, que deve começar. Nesse sentido, o texto é preciosíssimo, incontornável, inexorável, prioritário. A teologia tradicional é secundária – o texto que suporta a teologia tradicional é primário. Não é, em primeiro lugar e necessariamente, a teologia que o leitor deve ouvir quando lê o texto, mas o evento é que deve falar – a intenção do autor, sua voz, sua mensagem. Nem sempre a teologia tradicional dispõe dessa voz. Às vezes até a silencia...

 

4. A prioridade do texto implica em alguns passos metodológicos que se aproximam, exegeticamente, das técnicas de leitura[14]. Se o leitor não tem acesso à leitura nas línguas originais, deve tornar-se exímio leitor no vernáculo. De forma bastante resumida, os passos seriam os seguintes:

 

a) compreender palavra a palavra a partir da visão do próprio texto. Trata-se de um exercício de reconstrução. O círculo hermenêutico está representado pela condição de que o sentido de cada palavra do texto prende-se ao sentido do texto como um todo, ao passo que o sentido do texto integral deriva do conjunto dos sentidos das palavras que o compõem. Trata-se de uma relação sintática e hermenêutica.

 

b) compreender os conjuntos mínimos de idéias constituídas pela frase. Trata-se da abordagem sintática. Enunciados de idéias são apresentados em formações sintáticas menores. A soma dessas unidades constitui um enunciado estrutural. Na prática, consiste num esforço metodológico de compreensão das palavras, das frases e dos parágrafos, sempre a partir do próprio texto e – jamais, a partir do horizonte semântico do leitor.

 

c) nesse processo, deve o leitor fazer um esforço por calar-se. Trata-se de um silêncio metodológico – são os seus conceitos que devem ficar quietos, não sua consciência. Esta deverá estar atenta, com rigor, ativa, fazendo as perguntas necessárias ao texto. Mas sua visão de mundo deve dar lugar ao esforço voluntário e honesto, metodológico e rigoroso por compreender a visão de mundo do texto – a saber, do horizonte em que a grandeza autor se insere e a partir da qual fala.

 

d) segue-se o esforço por identificar os blocos de idéias. Os enunciados caminham para a formação de blocos de idéias. Observe-se, por exemplo, Pr 2,1-6: pode-se identificar quatro blocos de idéias – 1-2; 3; 4; 5-6. Sintaticamente, os três primeiros blocos abrem-se com “se”, ao passo que o último bloco, com “então”. Também Ct 1,15-2,3 pode ser analisado sob os seguintes blocos: 1,15-16; 1,17; 2,1-3. De resto, todos os textos bíblicos constituem-se sob estruturas específicas, que se traduzem na forma de blocos sintático-semânticos de idéias que se interrelacionam.

 

e) deve-se perguntar pela relação entre os blocos de idéias. Tais blocos constituem, cada um segundo sua função sintática, as seguintes peças do texto: idéia central; idéias secundárias; argumento central; argumentos secundários. É dever do leitor identificar rigorosamente tais peças. Sem isso, é impossível, por exemplo, resumir o texto, posto que o resumo pressupõe a apresentação de tais peças.

 

f) deve-se perguntar, sempre, qual a relação entre as palavras, a frase, os parágrafos, os blocos unitários de idéias e o texto como um todo com o evento por detrás do texto. Não é o texto em si, mas o evento, em última análise, que está sendo perscrutado. É um homem que fala. Que fala ele? Por quê? Para quê? Para quem? Quando? Onde? Como? Quem representa? Que pensa de Deus, do homem, do mundo, da vida? São essas perguntas as perguntas que, a seu tempo, devem dirigir a compreensão do texto. O texto é meio – não fim. Se por um lado é verdade que “toda Escritura é divinamente inspirada” (2 Tm 3,16a), e que com toda Escritura se queira referir ao texto, por outro lado é também verdade que “nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (2 Pd 1,20b-21). De modo que a Escritura é o registro, o texto escrito pelos homens inspirados pelo Espírito Santo, homens que falaram da parte de Deus. É, pois, além do texto, e em direção àqueles homens inspirados que devem os olhos do leitor ser dirigidos.

 


[1] Intenção do autor, em oposição a intenção do texto e intenção do leitor. Se se define como histórico-social, a interpretação quer recorrer à intenção do autor – ainda que consciente das críticas fundamentadas das demais teorias literárias. Contudo, autor é, para a interpretação histórico-social, uma grandeza maior do que o homem que produziu o texto objeto da leitura – autor consiste na grandeza histórico-social constituída pela circunstância histórica geral e específica, o escritor do texto, os destinatários e todas as demais interferências hermenêuticas influentes na mensagem. A pergunta metodológica, portanto, não é apenas o quê? o texto diz, mas, principalmente, por quê? o diz. Para uma analise da teoria literária, ver U. Eco, Interpretação e Superinterpretação. Trad. Martins Fontes. São Paulo: Martins Fontes, 1993. 175 p. Para uma aproximação à interpretação histórico-social, ver N. K. Gottwald, Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. Trad. Anacleto Alvarez. São Paulo: Paulinas, 1988. p. 20-45.

[2] DUSILEK, D. A Arte da Investigação Criadora – introdução à Metodologia da Pesquisa. 9ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1989. p. 33-34.

[3] CONVENÇÃO BATISTA FLUMINENSE. Princípios Batistas. In: Impacto – Realidade Batista. Niterói: CBF, 2001. p. 11.

[4] MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia – lições preliminares. Trad. Guilhermo de la Cruz Coronado. 8ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1980. p. 35-36.

[5] Loc cit, p. 11.

[6] RIBEIRO, O. L. Os Princípios Batistas e o Estudo da Bíblia. O Batista Iguaçuano, Nova Iguaçu, 06.2001, p. 4.

[7] Ver O. L. Ribeiro, loc. cit.

[8] Loc. cit.

[9] Loc. cit.

[10] Segundo a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira (DDCBB), “a Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana. É o registro da revelação que Deus fez de si mesmo aos homens” (CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA. Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. 2ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1991. p. 5.

[11] “A autonomia humana não se coloca contra a palavra ou a vontade de Deus” (TILLICH, P. Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX. Trad. Jaci C. Maraschin. São Paulo: ASTE, 1986. p. 48.

[12] Op. cit. p. 20.

[13] Ver O. L. Ribeiro, loc. cit.

[14] Uma ferramenta introdutória para a arte da leitura consiste o livro de M. J. Adler e C. van Doren, A Arte de Ler. Trad. José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: AGIR, 1974. 393 p.