É possível ouvir o escritor?

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Leio Nietzsche. Não sistematicamente, como se fizesse uma pesquisa de mestrado, a querer, então, elaborar uma dissertação de mestrado. Leio Nietzsche para deixar-me descobrir naquilo com o que concordo... Vou mesmo me procurar, por exemplo, em A Gaia Ciência.

 

Leio Edgar Morin. Devoro Edgar Morin. Principalmente amo O Método. Os seus seis fabulosos, extraordinários, indizíveis volumes... Oh, Deus, quanta alegria por ter encontrado o meu primeiro volume, o quatro, lá, sobre aquela banqueta da PUC, junto com A História da Agricultura, que também comprei... Bel diz que sou assim, uma espécie de ímã para a literatura que vai, doravante, me moldar... Devo concordar com ela.

 

Leio Edgar Morin com a alma em suspense: ele vai dizer o que espero para ouvir todos esses 40 anos! E ele diz!

 

Leio Stephen Jay Gould deliciosamente. Desde A Seta do Tempo, o Ciclo do Tempo, desde a maravilhosa Vida Maravilhosa, até os mais recentes dos seus volumes-coletâneas.

 

Leio outro tanto de autores. Para quê? Para “descobrir-me”. Harold Bloom disse à Época que "os grandes gênios são espelhos nos quais os leitores se miram e acabam encontrando a si próprios" (Edição 246 - 03/02/2003). Descobrir-me, sim! É isso aí. Claro, para ouvir o que quero ouvir – daí não ler mais os confessionais, nunca mais. O último que li foi o Nicodemus, mas só porque um amigo mo deu de presente, comecei a ler e ele, Nicodemus, disse que minha maior alegria profissional, o método histórico-crítico, é prejudicial à igreja. Minha ira transbordou em 27 páginas em espaço um, que lhas mandei... Não leio mais os confessionais. Até digo aos alunos para os lerem, que têm seu valor heurístico. Mas, quando digo isso aos alunos, na verdade estou mentindo para eles, porque, de outro modo, diria mesmo: “às traças com esse desperdício de celulose!”. Não é lá o lugar de ser verdadeiro nesse sentido... Lá devo ajudá-los a subir nas prateleiras das estantes, e pegar com a mão todas as poeiras acumuladas...

 

O fato, contudo, de que reconheço que busco espelho nessas leituras, não um espelho verdadeiro, mas uma espécie de espelho, um que me faça reconhecer-me, descobrir quem sou, naquilo que outros escrevem, esse fato, contudo, não significa que perco a capacidade de ouvir o que justamente esses autores escreveram. Quero, com todas as forças, ouvir o que o próprio Nietzsche disse, e diz. Não quero fazê-lo dizer o que quero que diga, porque tenho de ser honesto, minimamente honesto – tomara maximamente honesto – comigo mesmo. O que quero é ouvir o que Edgar Morin tem a dizer, dele mesmo, e descobrir-me nisso que ele mesmo diz.

 

 

Intentio Auctoris - opção e consciência das limitações

 

 

Para isso tenho que admitir a teoria da intentio auctoris. Tenho que admitir que um texto escrito é capaz de permitir a disponibilidade metodológica da intenção semântica de seu autor. Tenho que admitir que há possibilidade metodológica de comunicação entre o escritor e eu, seu leitor, que me coloco na qualidade de ouvinte. Sem ingenuidades. Não há, eu sei, como saber se de fato ouvi...

 

Reconheço que um texto é, por destino, polissêmico. É de sua condição natural suportar inúmeros, não infinitos, sentidos. A velha história que Croatto bem contou para nós sobre discurso aberto e discurso fechado. Reconheço que, quando tomo para ler um escrito qualquer, ainda que na intenção de encontrar ali o que o seu autor quis expressar, deparo-me, na verdade, com uma estrutura autônoma que, independentemente da intenção de seu escritor, assume potenciais sentidos.

 

Por outro lado também reconheço que independentemente da polissemia do texto, de todos os textos, inclusive os de meus heróis de cabeceira, desde o Antigo Testamento, sua biblioteca milenar, até o contemporâneo Edgar Morin, independentemente dessa armadilha própria da literatura, eu mesmo constituo meu maior inimigo, no sentido de que, se quero ouvir o escritor, ouço, antes, e muito fortemente, eu mesmo. Reconheço que, além da polissemia natural dos textos, minha ideologia pessoal berra em meus ouvidos palavras de ordem, e me fazem perder nos corredores ameaçadores da selva de palavras sobre a página impressa, escrita, alinhavada...

 

Sei disso. Conheço as teorias da intentio operis e da intentio lectoris. Mas eu não quero brincar com o texto, como os verdadeiros estruturalistas da literatura, desmontando seu carrinho para revelar-lhe os eixos, as porcas, as peças; também não quero usar o texto para defender minha posição – que posição? Não é por que reconheço a realidade da polissemia textual, perigo do texto, e a realidade da(s) ideologia(s), perigo do eu-leitor, que devo, por conta disso abdicar do meu projeto de ouvir o escritor dos meus textos.

 

Claro, a tarefa se torna muito mais difícil, mais demorada, mais exigente. Eu sei disso. Inglória, até certo ponto, também, porque impõe a mim, desde o início, a carne nua da crise de verificação a que chegarei, incontornavelmente. Jamais terei plena certeza de ter ouvido, e o máximo que conseguirei é construir uma razoável, nem por isso segura, hipótese de compreensão. Poderei recorrer à comunidade de leitores, e verificar se sou o único a crer que o que eu entendi seja o mesmo que o escritor escreveu. Mas, ainda que todos da comunidade leiam como eu, que conseguimos em relação à crise de verificação? Nada! Apenas a sensação de comunhão, mas que bem pode ser comunhão no erro.

 

Talvez um dia eu canse e chegue a dar de ombros... Por enquanto, não. Ainda quero tomar meus amigos nas mãos, e deixá-los dizer a que vieram...

 

Que provo com isso? Nada. Os críticos da intentio auctoris, os detratores da crença na possibilidade de ouvir o escritor de um texto através do texto continuarão pensando como pensam. E, curioso, escreverão livros para defender sua posição, ainda que não acreditem, ha ha ha, que serão entendidos, coisa que me faz achar uma loucura isso, porque, se não há como leitor e escritor se entenderem, por que escrevem esses que assim pensam? Se no fim é tudo quanto se pode extrair de Gadamer, como se poderia dizê-lo, senão pela prova “práxica” do seu contrário – é entendendo o que Gadamer quer dizer que se concluiu que não se pode entender o que um autor tenta dizer através de um texto... Mas, me ajudem, se um autor não pode se expressar inteligentemente através de um texto, porque todos os leitores são incompetentes, todos os textos, inconvenientes, todas as leituras, devaneio e utopia, então como, pelo amor de Deus, se podem escrever livros para dizer isso? E por que cargas d’água se pode dizer que Gadamer justificaria tal assertiva? E como Gadamer conseguiu dizer isso?

 

Por que caminhos mágicos – a memória? – um médico prescreve uma receita, e de um jeito, vejam, que, se não o paciente, perdoado seja, ao menos o balconista – são raros os “farmacêuticos” [o que aumenta a força do meu argumento!] – não só consiga ler as garatujas, mas saiba rigorosamente o que está escrito?

 

E os cartórios, meu Deus! Que feitiço, que encantamento, que hipnose nos toma a todos, que não só acreditamos naqueles intermináveis papéis, naqueles quilômetros de Certidões de Inteiro Teor, e com Ônus Reais, mas chegamos a depositar nossos bens nisso? Ah!? Você compra uma casa, o que constitui um bem imóvel; paga o ITBI, que significa Imposto de Transmissão de Bem Imóvel – que sei por que li nos manuais do sistema habitacional, que coisa! Pago o ITBI, vai registrar tudo em cartório. Toda a operação, a casa, o imposto, as taxas, as certidões, tudo vira um registro escrito. Um escritor qualquer, técnico de escrituração cartorial, transforma, alquimicamente (...) a coisa toda numa inscrição, e ali põe tudo. Ali você conhece a história de tudo que aconteceu naquele pedaço de chão. Quantos proprietários? Nossa, esse pedaço de terra foi vendido sete vezes desde que iniciou a sua escrituração! Era terreno apenas. Depois, vejam lá, ergueram sobre o mato alicerce e parede, teto e varanda, e eis lá a benfeitoria. Não, não fui lá no terreno, estou sabendo disso por alguma mágica que o papel me pôs nos olhos, porque sei disso pelo que aqui vai escrito, e isso vale tanto que, seja um estruturalista legítimo, seja um ideólogo e teórico do sujeito, ambos vão dizer que não compram essa casa se a Certidão de Inteiro Teor lhes contar algum impedimento...

 

O quê? Todo o sistema político internacional é uma farsa? As comunicações de guerra? Quando os japoneses trocaram milhares de comunicações para preparar o ataque a Pearl Harbor, pobres dos americanos, o que os japoneses queriam o tempo todo era plantar cerejeiras na Austrália, mas tudo não passou de um incontornável caso de, fazer o quê? polissemia e ideologia? Não foram os chefes que escreveram: Lancem essa bomba exatamente em cima do Encouraçado Arizona, lá estava escrito é: Comprem-me um poodle!

 

Está bem, chega de ironia – pelo menos de ironia cáustica. Mas não é possível que os críticos da intentio auctoris não percebam que, por mais paradoxal que lhes pareça, estão até os cabelos agarrados à incontornável necessidade de se comunicarem por escrito, também eles...

 

Na qualidade de adepto da intenção do autor, definindo-me na qualidade de um exegeta, reconheço, contudo, aquelas realidades a que me referi. Os amigos defensores das intenções da obra e do leitor deveriam, também eles, admitir seu contrário, e tentar um acordo metodológico, em lugar da criação de escolas herméticas, uma em que o que vale é desmontar, e na outra, projetar.

 

Continuarei a ler meus textos "iludido" de que posso ouvir seus escritores. Gastarei dias tentando elaborar metodologias mais refinadas, percepções mais ajustadas. Isaías não tem a mesma configuração que uma receita médica. Assim Falou Zaratustra não é a mesma coisa que uma certidão cartorial. Mas têm em comum o fato de que são registros históricos e grandezas humanas. E é essa condição de serem portais para a condição humana em que consiste a sua expressão original que faz dos textos um veículo de comunicação entre mundos. Tenho de admitir que seja possível. Caso contrário, nem a cultura o seria, e as Universidades não sei mais para que servem...

 

 

Osvaldo Luiz Ribeiro

07/03/2006

 

"Continuarei a ler meus textos iludido de que posso ouvir seus escritores".

 

Não gostei da palavra 'iludido', a não ser que ela tenha sido usada metaforicamente, pois então posso aceitar sua interpretação, tal sua amplitude de significados. Não aceito pois, metaforicamente, sempre ouvimos os escritores e, agora digo-o eu, sempre os ouvimos falando seus escritos em nossos ouvidos, quando são bons escritores, quando escrevem com a alma, quando têm a suprema humildade de serem quem efetivamente são no momento de escrever. Graças a isso, podemos, após 500 anos, reconhecer que um texto é de Camões ou de Shakespeare, de Nietsche ou de Platão, de Rosa ou de Adélia. Quem escreve bem imprime nos seus escritos as marcas de sua própria fala, não a audível no momento da escrita, mas a fala como discurso, como união de semântica, história e psicanálise. Quando ouvimos a voz de um escritor ao lê-lo, estamos fazendo uma análise de discurso através da memória lingüística que nos envolve nestes três campos do conhecimento e dos quais, como seres históricos, fazemos parte. Daí, não é ilusão, é marca lingüística insofismável do bom escritor, tal como sempre digo que ouço sua voz quando o leio. Pego seus textos e 'sei' que são seus. Daí, meu querido e amigo exegeta, discordar do 'iludido'.

Abraços, Celeste".

 

 

Você tem razão, Celeste. Como eu não escrevia para mim e para você, que acreditamos nisso, usei metaforicamente - ironicamente - a palavra. Devia tê-la posto entre aspas, como agora, depois de sua observação pertinentíssima, o fiz.

Obrigado, Osvaldo.