Do Silêncio à Solidão

Osvaldo Luiz Ribeiro

(17/11/2006)

 

Essa talvez seja a minha última pergunta. Não, naturalmente, a última que (me) farei, mas a última que chegarei a responder. Não que não responda a outras. Tantas perguntas – tantas dúvidas, haverá entre elas ao menos umas poucas para as quais eu encontre respostas, logo eu, um caçador de respostas, um fazedor de perguntas, um cultivador de dúvidas.

 

Eu temo é que a resposta a ela quebre, em fim, o encanto.

 

Mas serei eu mesmo a quebrá-lo, porque todo o encanto jaz natimorto, e, se não somos nós mesmos a quebrá-los, outsiders o farão. E, enquanto os quebram, pisam nossas tulipas e nossos crisântemos, despetaladas ficam todas as rosas do nosso jardim, e as papoulas minguam, murcham e morrem. Pra quê?, pergunto – pra que esperar que eles nos venham ferir, se nós mesmos podemos antecipar a dor incontornável?

 

Como é possível, o que significa, por que – sou capaz, na Teologia, de levar a crítica à metafísica até as suas últimas conseqüências, dissipando o conceito ontológico de “Deus” em desdobramentos noológicos histórico-culturais, a pondo de chegar a ler a Bíblia, na prática, metodologicamente, como conjunto de expressões humanas histórico-culturais, e, ainda assim, paradoxalmente, mais do que ainda me dedicar a ela de forma apenas comparável aos MMORPG on-line e aos abraços mornos da Bel – ainda viver sob um véu finíssimo, debaixo do qual não apenas Deus está, mas falo com ele?

 

Quando abro a Bíblia, e a abro, em tese, todos os dias, sei o que estou abrindo. Quando digo “sei”, digo que o faço metodologicamente consciente. O que farei, a seguir, depois de abrir a Bíblia, é remontar a narrativa que tenho diante de mim à sua primitiva e original condição de fala. Não leio narrativas – escuto vozes. Metodologicamente, curvando-me a todas as exigências teórico-operacionais que esse pressuposto exegético (me) impõe. Ouvindo vozes – ouvindo o evento desde onde elas emergem, são vozes humanas essas que ouço. Quando digo humanas, não tergiverso, não escamoteio, não negocio, não minto (para mim), não (me) engano: são humanas mesmo essas vozes, e apenas humanas. Políticas, na sua maioria – sou tentado a dizer: na sua totalidade, mas guardo um recato, ainda. Talvez amanhã, não mais. Hoje, ainda.

 

Ouvindo vozes, não sou um místico, um mágico, um médium. Sou um exegeta, de históricas sandálias e críticas luvas. Um exegeta histórico-social, com um cacoete histórico-crítico. Não são vozes de espíritos, de anjos, de deuses. Está bem, reconheço, são de mortos. Mas, que fique registrado, eu os ressuscito antes. Até aqui, o que eu faço, qualquer exegeta o poderia fazer, independentemente de sua fé religiosa, até independentemente de sua fé. Não é enquanto “religioso”, na condição de “ocidental-cristão-protestante-evangélico” que leio a Bíblia. Na verdade, é na condição de biblista, exegeta, que realizo minha postura pessoal de “ocidental-cristão-protestante-evangélico”. Mas o que quero dizer, é que minhas convicções teológicas – se as tenho – não podem, não devem, não querem, interferir em meu trabalho exegético. Se fazem – é sempre o risco, fazem-no, quando cochilo, à minha revelia. E peço sua colaboração, leitora minha e leitor meu, que me denunciem essa tragédia, quando a testemunharem. Eu mesmo, então, tratarei de corrigir convenientemente minha própria negligência metodológica. Com rigor.

 

Já aí, isto é, já quando faço uma concha com a mão, e a encosto ao ouvido, para apurar a audição, para ouvir atentamente e melhor as vozes que quero ouvir, “brinco” de estar ao lado Dele. Essa é justamente a loucura – e a pergunta. Não tenho a mínima intenção de considerar que aquelas vozes que estou tentando ouvir sejam, em qualquer sentido, direto ou indireto, produzidas pela boca Dele. Não, não, não. Não é ele quem as pronuncia, nem é ele quem as faz serem pronunciadas, assim como não é ele que me faz louco para ouvi-las, porque eu simplesmente poderia tornar-me louco para falar vozes, do que ouvi-las, e nisso sequer haveria o dedo Dele. Não, não. Não é ele mesmo quem fala nem faz falar. Ele apenas pretende que eu ouça isso que Ele mesmo ouviu – e é o máximo aonde posso ir, no meu mito.

 

É como se, lá e então, Ele mesmo as tivesse ouvido. Constrangedor pensar que Ele tudo ouça e tudo veja, e até certo ponto, contraditório, porque Adão e Eva, afinal, esconderam-se. Em todo caso, no meu mito, Ele as ouviu. Como são falas humanas, ele as julgou. Ou as achou boas de serem ditas, ou malditas. Num ou noutro caso, não fez, porque não faz, nada. Mas reconhece o potencial para o bem e para o mal dessas vozes que ouviu. E cá estão elas, para que eu as ouça, e, exatamente como Ele fez, decida-me, eticamente, pelo valor de cada uma delas – isso se faz, isso não se faz, isso quero pra mim, isso não quero pra mim, isso farei, isso não farei. No fundo, Deus quer que eu possa fazer o que não queriam que Adão e Eva fizessem: decidir-me.

 

Aqui há dois problemas: um, de eu trazer Deus para o meu lado, mas não permitir que ele interfira em meu trabalho. E essa é a questão que aqui me arrebanha, ainda que formulada de cá pra lá – se Deus não o permito que interfira em meu trabalho, como o posso trazer para o meu lado? A outra é que, se sou exegeta, e exegeta histórico-social, histórico-crítico, como posso fazer exegese com vistas a juízo ético? A história julga? Claro que sim. Coloco-me ao lado de Karl-Otto Apel, quando o ouço dizer que “o observador que apenas descreve as coisas sem qualquer juízo de valor é incapaz de se conectar cognitivamente a algo como a história” (Transformação da Filosofia, I, p. 38-39). Não se trata, para mim, evidentemente, de mandar almas para o purgatório ou já para o inferno. Trata-se de avaliar a atitude, o comportamento, com vistas a decidir se eu gostaria de ser objeto deles. Se não, não farei isso a outrem. Se sim, é um caso a se pensar. Nem tudo o que é bom para mim é necessariamente para os outros, mas é um princípio ético concreto – impõe diálogo e perspectivismo antropológico, para citar uma expressão que descobri ser cara a Nietzsche, e epistemologicamente mais pertinente do que relativismo, porque “relativo” remonta à coisa em si, e “perspectivismo”, à perspectiva com que o observador observa. Não são tanto as coisas que são relativas, somos nós, observadores, que fundamentalmente as enquadramos sob (nossa) perspectiva.

 

O problema pragmático-ético que levanto, já está resolvido. Há um precipitado didático na minha tarefa. É verdade que não faço o que faço para aprender a viver, absolutamente. A viver se aprende vivendo. Mas é inegável que aprendo a viver, quando paro para escutar as minhas vozes do além-túmulo, porque, quer eu queira, quer eu não queira, minhas tripas reagem. Ou eu sorrio, feliz, ou me aborreço, entristecido. Em nome de Deus são feitas coisas as mais terríveis, e na Bíblia não haveria de ser diferente. Mas também se fazem coisas louváveis.

 

Mas que seja sabido: leio a Bíblia para entender a Bíblia. Quero entender a Bíblia, para entender seus textos, reduzidos à sua condição de fala. É tanto prazer quanto esforço. Alguns colecionam selos, eu, faço exegese. Naturalmente que filatelia tem poucas condições de promover processos heurísticos sócio-antropológicos, ao passo que a exegese é um cadinho alquímico desse tipo de conseqüência, porque, ali, deparamo-nos com a vida nua e crua, com a política escancarada, com as ideologias estampadas, tremulando sobre mastros de cedro e acácia.

 

E Deus, no meu mito, lê comigo. Não me diz coisa alguma, porque Deus não sabe ler. Descobri isso em minha fantasia – Deus não sabe ler. Eu é quem devo ler para ele, e, além disso, dizer o que eu penso disso que leio, disso que ouço. Imagino que ele entenda tudo, mas nada fala. Como minha mãe, ah, e como eu detestava isso, ia anotando na carteirinha cada estripulia, cada arte, cada desobediência, até que ela estivesse cheia demais para mais anotações, é como se Deus fosse ouvindo, anotando, enchendo seu bloco de anotações.

 

Que, contudo, não tem linhas finais. Deus nunca se enche.

 

Talvez eu me comporte como um filho de sete anos, que vai jogar futebol. O pai o incentiva, dá-lhe uniforme novinho, que a mãe, tendo lavado com amaciante, deixa perfumado e macio. Leva-o, de carro, até o clube, onde ele treina, três vezes por semana. Dá dicas, compra chuteira de marca, torce, orienta, participa. Até que o menino entra para o time, e chega o dia do jogo, e o pai fica na arquibancada, observando, experimentando um serpentear de emoções, que vão dos píncaros da alegria eufórica, até os vales úmidos da emoção paterna. O pai não pode jogar. É o filho quem joga.

 

Mas Deus nem chega a ser exatamente pai, pra mim, porque pai é coisa que não tive, e não posso inventar ter tido, para saber como é. Deus, para mim, também não chega a ser como minha mãe, ainda que a eternidade sabe que foi minha mãe quem pariu Deus na minha experiência. Eu a vi parindo Deus desde pequeno, e o recebi, menino, em meus braços, e dormia com ele até meus quinze anos, ou dezesseis, um de um lado do colchão, o outro, do outro, boa noite, Deus. Deus, para mim, nesse meu mito, comporta-se como a inocência de uma criança de meus contos de adolescente, com a pureza de uma amizade gratuita, de gostar de estar com, de querer estar perto. Deus é um amigo, à semelhança da Bel, minha amiga. Sou honestíssimo com Bel, e ela sabe tudo quanto faço e fiz, tudo quanto penso, mas Deus é um pouco mais do que isso, porque eu nem preciso dizer nada para ele, porque, como os personagens dos contos, ele sabe o que vai no outro, porque é o narrador quem os faz agir de um jeito e de outro. Entre Bel e eu, ainda cabem perguntas: tudo bem? Sim. Mas entre Deus e eu, se elas cabem, são, contudo, absolutamente ridículas. Basta olhar um para o outro, e tudo está sabido. Deus está um pouco mais dentro de mim do que Bel, que chegou à beira da minha alma, e tem as pernas balançando sobre o meu espírito abissal. Bel me olha no profundo dos olhos. Deus, desde eles.

 

Não estaria mentindo se, agora, confessasse que, no fundo, tanto eu quanto Deus somos personagens meus, em meu mito, e que tanto Deus quanto eu nos comportamos fantasticamente. Se não houvesse o mundo real, o mundo físico, das estrelas e da Tabela Periódica, meu mito seria imaculado. Mas o real, como um gigantesco iceberg, põe-se à frente de meu pequeno barquinho de madeira, e meu mito balança, quase naufraga, e tem que engolir muita água, para sobreviver. Não me esforço, desesperado, a tirar água de dentro do barco, com uma caneca de louça. Que a água entre. Como é meu mito, que eu narro, não haverá naufrágio nessa história – salvo se o real for de tão impenetrável matéria que me leve a pique. E, ainda assim, será meu mito.

 

O conceito de “comunidade de interpretação” que Karl-Otto Apel tem defendido e desenvolvido (melhor, para tanto, o volume II da Transformação da Filosofia), permite-me posicionar-me num metaponto de vista epistemológico, desde o qual posso olhar-me a mim, enquanto escrevo essas linhas. E posso situar-me em duas esferas diferentes.

 

A primeira esfera é a esfera técnico-metodológica. Ela tem regras próprias, estabelecidas pela comunidade exegética, que tem um compromisso profissional com o “real” – não com ideologia, ainda que a ideologia espreite, noite e dia, como o pecado. Mas, nela, é vício, não beatitude. Há céus repletos de ideólogos, mortos de martírio e mortos de cruzadas. Mas a exegese não quer céu algum – quer fazer o seu trabalho. Não faço exegese como “obra”, ou como “carma”. Faço exegese como exegeta, inserindo-me ativamente, conscientemente, programaticamente na comunidade de interpretação. Fazendo-o, dadas as suas regras internas, dada a substância das Ciências Humanas, posso mesmo corrigir-me em meus procedimentos, e denunciar improcedências operacionais de meus colegas, também deixando-me corrigir por eles, com base, sempre, e incontornavelmente, apenas nas regras universais, universalmente válidas. É uma redução epistemológica, a exegese, que, contudo, para reduzir-se, tem que levar em conta o “real”, não o mito.

 

No mito, vive minha outra parte, não mais o exegeta, mas eu. Mito que não vale uma cruzada, nem uma cruz. Mito, sim, porque não há expressão humana existencial que não seja mítica, porque a consciência humana é uma contraparte noológica da máquina biológica de domesticar o mundo à sua volta – comer o que é de comer, e fugir do que tem cara de fome. A consciência “come” o real, e pode “fugir” dele. Disse “pode”, porque é tudo quanto está à mão da máquina biológica. Mas, como é noológica, e como desdobra-se sobre si mesma, a consciência pode operar outras perguntas, e desligar-se da simples biologia. Quando o fizer, estará operando uma redução epistemológica, que, contudo, manter-se-á operacional apenas enquanto a concentração da consciência se mantiver interessada nela. Passado o interesse, retorna ao seu estado natural de criadora hermenêutica de mundo.

 

É nessa dimensão profunda da consciência que opero meu mito, onde Deus, sentado sempre a meu lado, ri, se rio, e chora, se choro. Tirei dele a vara da mão, e sou eu a usá-la, quando preciso dela, porque já passei da fase de precisar que papai e mamãe me ameacem com o Papai do Céu, ou que pregadores me ensinem o medo do inferno, para que eu aprenda para que serve Jesus. Passada essa fase da imaturidade epistemológica, não é que, ao contrário do que se pensa, o pecado suma. A maturidade antropológica sabe do pecado tanto quanto (d)os sacerdotes. Mas não faz dele uma questão ontológica. Lida com ele, honestamente. Dessa forma, Deus não precisa de vara. Deus resume-se, assim, à sua Presença, que, malgrado ser prolixa, é silenciosa por natureza.

 

No meu mito, Deus não se opera através de seus atributos articuláveis. Claro que, quando faz frio, ou chove, eu queria que ele fizesse alguma coisa. Claro que, quando quero muito alguma coisa, peço a ele. Ainda peço. Ainda insisto. Ainda digo pra ele que eu sou mesmo um idiota, pedindo coisas, e tantas, quando sei que ele não as fará. Não? Não as fará. Não? Mas o mito é meu, e eu digo a ele que queria tanto que ele fizesse alguma coisa. Quando a coisa, que eu pedi ele fizesse, acontece, até agradeço, mas sei que não foi ele. Ou pelo menos sei que não posso dizer que foi ele, porque, no fundo, não sei se foi. Há quem interpretará isso a partir de sua própria teologia, a partir de seu próprio mito. Nada posso fazer a respeito, salvo advertir que esse tipo de procedimento contrapõe mito a mito, e mais nada. O que posso dizer em minha defesa, antes que me tenham por louco, é que, sozinho, brinco com meu mito, onde Deus e eu somos felizes, e pronto. Quando despacho-me desde meu mito para o real, onde entrechocam-se todos os mitos de todas as pessoas, comporto-me civilizadamente, segundo as regras ocidentais, cuja função é permitir a comunidade humana. Meu mito é minha casa, e ando nu nela. Na rua, não. Ali, as regras foram feitas (por nós) para serem seguidas (por nós), para o bem de todos.

 

Com Deus, brinco em casa. É meu mito. Exegese, faço-a no meio da rua.