Das Duas Teologias

Osvaldo Luiz Ribeiro

14/05/2007

 

Pode-se falar de uma “Teologia Pré-Moderna”, pelo fato de haver uma “Teologia Moderna”. Pode-se chamar aquela de “Medieval”, também. Ela é “ontológica”. Ela diz que “sabe” coisas sobre Deus, às vezes coisas pequenas, analógicas, às vezes, coisas grandes, revelações insondáveis.

 

Medieval ou Pré-Moderna, essa Teologia é mítica. Inteiramente. Guarda os modos de pensar, e de pensar o pensamento, próprios da “Era Pré-Moderna”, quando cristãos eram não apenas teólogos, mas filósofos, alquimistas e, à sua maneira pré-moderna, cientistas. Quando não havia fronteiras muito bem delimitadas entre “teologia”, “filosofia”, “alquimia” e “ciência”.

 

Não é que, eventualmente, uns e outros pudessem ouvir os discursos daquela Teologia, sem dar de ombros, sacudindo ritmicamente a cabeça. Até podia haver quem o fizesse, mas não sem algum risco, porque, então, não se trataria, apenas, de uma heresia, ou de alguma coisa démodé, ou de mal gosto, mas de um “crime” – lesa divindade. Compreensivelmente, porque os senhores daquela Teologia guardavam, fielmente, as fontes do divino.

 

Tudo era muito simples. Deus se dera a conhecer, por intermédio de alguns homens. Esses tais, zelosos, guardaram o conhecimento em relicários teológicos, converteram-no em catequeses e liturgias, em sacramentos e ordenanças, e os dispensaram aos demais mortais, totalmente leigos, ou disfarçadamente leigos.

 

Reinava a paz teológico-filosófico-alquímica, sob a égide da lei canônico-civil.

 

Até que os árabes invadiram a Europa. Até que os invasores introduzissem Aristóteles ali. Até que Aristóteles contaminasse a civilização ocidental, iniciando o destronamento do rival platônico. Até que a Renascença eclodisse, raivosa. Até que a Reforma jorrasse lava escaldante. Até que as Luzes fossem acesas. Até que a República erguesse sua altíssima cabeça de medusa.

 

Enquanto isso não acontecia, um Aquino tentava domar o filósofo esquecido, com razoável sucesso. Aristóteles torna-se um castrato, coitado, e sua voz, agora melíflua, não causa mais terror. Não se conseguiu amordaçá-lo de todo, já que não se pode pensar a Reforma, contudo, sem ele. No entanto, também ali, depois de ter sido usado contra Roma, e ter sido responsável por muitos dos famosos princípios reformadores, Aristóteles veio a ser exorcizado. Aplicou-se-lhe uma magia racionalizadora, disfarçada de razão.

 

O catolicismo conseguiu viver bem com seu castrato, até que o Vaticano II, se conscientemente, não se sabe, se inconscientemente, vai-se saber, devolveu-lhe a virilidade. Rugiu na Dei Verbum e libertou-se em A Interpretação da Bíblia na Igreja.  Por sua vez, o protestantismo pensou tê-lo domesticado, fazendo dele um serviçal de uma lógica bíblica racionalizadora e instrumental.

 

Engano protestante.

 

De um lado, através do protestantismo, Aristóteles infiltrou-se na cultura européia, até fazer-se onipresente no Ocidente. Não há como pensar Ocidente, sem Aristóteles, agora. Além disso, mesmo amarrado ao pé da mesa do ofício dominical, Aristóteles soprou em muitos ouvidos protestantes e evangélicos, e a leitura da Bíblia, ali, nunca mais foi a mesma. Mesmo os ambientes reacionários, confessionais, utilizaram-se dele, para tentar, a seu tempo e modo, vencê-lo. E era tudo que ele queria.

 

E esse é o ponto. A “Teologia Medieval” ou “Pré-Moderna” não pode, em qualquer circunstância, e sob qualquer pretexto, negociar com Aristóteles. Nem que seja na tentativa de instrumentalizá-lo, pretendendo, com isso, obter vantagens racionalizadoras, através da aparência de rigor lógico.

 

A razão dessa interdição é simples. Aristóteles desemboca, necessariamente, em Kant, e todos os céus fecham-se, incontinenti. Sem janelas, sem privilégios, sem sursis. A dupla é científica, modernamente científica, e cética, metafisicamente cética. E seu cientificismo-ceticismo está impregnado em todas as suas ferramentas, sejam metodológicas, sejam noológicas. É usá-las, e ser enredado por elas.

 

Ora, quando a Teologia se deixa enganar, considerando que pode, impunemente, utilizar-se deles, são eles, mais cedo ou mais tarde, quem lhe arrancam um pedaço do tecido que ainda a cobre, esgarçado, coitado, nesses séculos temperados por Schopenhauer e sua troupe. Seus desdobramentos noológicos e sistêmicos, a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia, a Fenomenologia, em resumo, todos os filhos paridos e constitutivos da Grande Família das Humanidades, bem como seus aprofundamentos mais propriamente clínico-laboratoriais, como as Neurociências, ah, se uma vez tocados pela Teologia, as conseqüências são irremediáveis.

 

Das duas, uma. Ou a Teologia, pretendendo utilizar-se das Ciências Humanas e das Ciências da Natureza, ela, a velha Teologia ontológica, objetivando sua autolegitimação, termina por contaminar-se, e, então, quando dá por si, ei-la convertida em Teologia Moderna, em Exegese, em Antropologia da Religião, em Sociologia, Psicologia, Fenomenologia da Religião, metafisicamente muda, infante a correr pelos jardins floridos dos séculos XVIII, XIX e XX, ou, de outro modo, converte-se numa bolha de racionalização anacrônica, uma redoma incoerente, posto que, medieval, flutua sobre o mundo republicano do novo milênio ocidental.

 

A bolha é racionalizadora, porque não se tratará, honestamente, de Aristóteles, Kant e Schopenhauer, mas de discurso apologético-catequético disfarçado de discurso dialogal moderno. Ah, a modernidade causa vaidades em muitos teólogos, na modernidade, tanto nos dogmáticos, quanto nos progressistas. Não se sabe, publicamente, se o que os move é o destino em direção à modernidade plúmbea dos céus contemporâneos, ou se o desejo cândido de revelação das coisas divinas. O que se sabe, contudo, é que, vaidosos, quando se deixam tocar pelas mãos dos Anjos Românticos, tornam-se, eles mesmos, sem que se dêem conta, Profetas do Ceticismo.

 

Também por isso ela é anacrônica, porque, medieval no espírito, no sistema, nos pressupostos, nas implicações, manejando esquemas noológicos e metodológicos modernos, ainda que dissociados dos pressupostos modernos, paira, incoerente, sobre as planícies ocidentais, ainda que grande parte da população e da maedia a sustente no ar. O povo, porque não distingue as Eras, apenas se deixa levar, pleno de fé e magia, carregado de esperança, ora de dor, ora de alegria, com lágrimas, sempre, credibilíssimo no carisma do hierofante. A maedia, seja porque dita o bom tom, ou o tenta administrar, seja porque é, afinal, também mítica em seus mecanismos teleológicos. Uma vez escrita a Crítica da Razão Pura, resulta bastante óbvio que a Crítica da Razão Prática chega a ser um argumento in extremis da Teologia Medieval para permanecer na cidade, coisa que até lhe é de direito, se há quem lhe deseje fazer companhia, mas cuja retórica de legitimação beira a incoerência. A Teologia Medieval só conhece Deus quando diz conhecê-lo, e lhe basta o dizer. Quando aceita argumentar no campo da gêmea louca, dana-se, e perde-se, e tanto a si mesma quanto a seus objetivos retóricos. 

 

Seja como for, duas teologias estão na praça. As duas, pretendem manejar Aristóteles, Kant, Schopenhauer e todos os demais Desbravadores. Uma, Moderna, porque tornou-se, ela mesma, Ciência Humana, caída, por assim dizer, mas não prisioneira, como queria Platão. A terra, como queria o diabólico Nietzsche, é sua casa, e ela, essa Teologia Moderna, só se faz de mãos sujas, cavando. Para dentro da terra, para dentro do homem, para dentro da história. A outra, Medieval, ainda carrega, orgulhosa, seus alfarrábios conciliares, suas bulas dogmáticas, e, preciosíssimo, o conhecimento de Deus.

 

Esta deve pagar o preço de ser Medieval. Porque conhece Deus, deve continuar a ser medieval. Nada de raciocínios humanistas, fundamentos humanistas, éticas humanistas, valores humanistas, porque, caso teime, terá dissolvidas as próprias carnes em ácido sulfúrico, porque as Ciências Humanas são tudo que se queira, exceto ontológicas. Deus é desconhecido entre elas, senão como representação, pelo que ganha, então, muitos, muitos nomes, e rostos, e vozes, e casas, e filhos. O conhecimento de Deus que ela tem expulsa-a do mundo dos homens modernos. Entre eles, sente-se mal, e faz com que também eles experimentem desconforto.

 

Aquela, porque fez-se moderna, porque trocou de patronos, não quis mais Platão, mas Aristóteles, mais Agostinho, mas Kant, mais Lutero, mas Schopenhauer, o preço que ela deve pagar é o silêncio. Não que ela tenha descoberto, fazendo-se moderna, romântica, que sua irmã, medieval, labora em erro. Ela perdeu foi os olhos, e já não pode mais varar as nuvens, e contemplar as glórias. Ela perdeu foi o movimento ascendente da cabeça, e não pode mais olhar pra cima, senão para mirar as nuvens, fitar estrelas, perder-se de sonhos. Sua rival tem olhos e flexiona bem a cabeça, e pode, assim, afirmar Deus. Não é que ela o desafirme. Ela não tem é como saber.

 

Quando caminham pela rua da cidade, lá vai uma, acompanhada de Platão, Agostinho, Lutero, Barth, Bento XVI. Se quer salvar-se, é com eles, e só com eles, que deve caminhar. Deve esquecer que um dia se falou de Ciências Humanas, antes que seu tecido se esgarce, irrecuperavelmente. A outra, vai a reboque de Aristóteles, Kant, Schopenhauer e, eu diria, um Morin genial e um Prigogine desconcertante. Uma vai pela calçada de um lado da rua, a outra, pela outra. No meio, entre elas, vamos nós.

 

Eu já deixei a rua, e caminho, agora, pela calçada que escolhi, tendo pago o preço. O silêncio não é tão assustador quanto parecia. Ainda posso fechar os olhos, ou não, e falar como que com Deus. Se lá está, para me ouvir, não sei. Se ouve, não sei. O que sei é que, tendo tornado-me romântico, não posso mais saber. Mas fui, um dia, mesmo quase ontem, ainda, um homem cristão da Idade Média, e um certo conceito de Deus me corre pelas veias. Deixo-o correr, sem lutar contra ele. Levo-o comigo, e lido inclusive miticamente com ele, na alegria do gozo, na tristeza do sofrimento, aqui e ali, quase sempre. Quando o faço, sei o que faço, como faço, por que faço e pra que faço. É o preço.

 

Se, lá fora, há Alguém me olhando...

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 09/09/2007 00:09:16