Crer e saber

– ensaio e nudez alguma coisa entre intempestivos e extemporâneos

Osvaldo Luiz Ribeiro

17/08/2007

 

 

 

Por lo tanto, las nociones de insondable, inconcebible, inexplicable nos plantean el problema crítico de las posibilidades y los límites de nuestro entendimiento. El problema cosmofísico se convierte al mismo tiempo en el problema del conocimiento humano: se conecta, entonces, al problema filosófico radicalmente planteado por Kant al mismo tiempo que al nuevo problema que exploran las ciencias cognitivas.

 

(Edgar MORIN, La Relación Ántropo-bio-cósmica, Gazeta de Antropología, n. 11, 1995).

 

 

 

Gosto de escrever por encomenda. Talvez só se escreva por encomenda. Aqui, a vida parece encomendar uma poesia. Ali, a urgência cotidiana clama por uma prosa. Hoje, Vitor pediu-me um ensaio sobre a relação entre crer e saber. Vitor é uma vida inteira que se exprime em poucas palavras.

 

O tema é ambicioso. O tema é um ciclope de vinte e sete metros. Tem uma clava de madeira envelhecida, acostumada a bater em crânios e a abatê-los com ela. Seus ouvidos estão acostumados ao grito de medo, e ele sabe que se trata do som do instinto de morte. Sinto a clava cortando o ar, na direção da minha cabeça. Sou moço demais para o tema. Moço demais para descer tão fundo. E fraco demais para o peso da clava.

 

E, contudo, Vitor me instiga. Suportarei o peso da clava, e, se chegar a ter o crânio esmagado, recolherei os ossos, e voltarei para o vale, para tentar outra vez, antes que o sol definitivamente se ponha sobre a minha cabeça, e, como Jacó, eu desça ao caminho de toda terra, e nunca mais possa arriscar a ousadia de tentar.

 

Mas advirto – não estou pronto. O que direi, di-lo-ei tremulamente, como quem segura uma vela, cuja chama bruxuleia, animada por fantasmas imemoriais do fogo, um elemental vermelho-laranja na ponta do pavio, e busca luz no quarto escuro. Talvez mais sombras surjam, que, de fato, iluminação. Talvez se arranquem os olhos.

 

Mas – como saber?

 

Desde cedo, advertir que a própria aproximação ao tema já é uma resposta prévia ao tema. O fato de eu me aproximar da relação nervosa entre crer e saber por meio das Ciências Humanas, já é uma resposta. Eu poderia entrar no quarto, e acender a lâmpada da fé, e voltaria de lá com um comentário peremptório, que entregaria, com ar superior, ao Vitor: ora, Vitor, tanto tempo de igreja, e não sabe o óbvio? Crer é saber, como você deveria saber, desde Hebreus. Mas eu não o faço. Não acendo a luz da fé. E é justo que não a acenda, porque eu sei que Vitor me provoca pelo que eu lhe tenho dito em sala de aula – de que crer não é saber. O que Vitor quer é uma explicação minha. O de que Vitor necessita é que eu diga por que crer não é saber, em que sentido crer não é saber, como eu sei que crer não e saber, e como fica quem crê, cuidando que sabe?

 

Não lidamos com palavras, aqui. Lidamos com práticas vivenciadas, com cosmovisões da catequese, que tenho lentamente, como traça invisível, corroído, aula após aula. Mais que escritor de livros, tenho sido uma traça, que os devora, para fazer deles pó. Um iconoclasta dos livros, rindo deles, até que surja um, dois, três, são poucos os livros que não devorarei. Não os devorei, porque não eram escritos de papel, mas de carne humana. Deixo o pó na estante, e carrego, nas patas, um punhado de alfarrábios insolentes.

 

Assim, devo confessar-me ter olhos científico-humanistas. Esse termo – científico-humanista – é adjetivo para designar tudo quanto chegue eu a pensar a partir das Ciências Humanas. O que quer que eu diga da religião, por exemplo, pretende-se científico-humanista. O céu não fala por meio da minha boca, e, se chegar a falar, ainda assim, é a minha boca. Como eu penso da eventual verdade de que Deus esteja por trás de cada palavra das Escrituras. Sim, pode estar. Até gosto de pensar que esteja. Mas das palavras, como elas foram ditas, quando o foram, por quem o foram, com a sua intenção emergente desde os intestinos e a garganta dele ou dela. E lá, espiando, Ele. Assim, posso pensar. E assim posso pensar-me.

 

Falo eu, pois.

 

Aprendemos na catequese – e saiba-se, catequese evangélica, catequese carioca, catequese brasileira, catequese batista, catequese tradicional – que crer é saber. Você crê? Então você sabe. Diz-se que essa lição nossos pedagogos a aprenderam em Hebreus 11,1. Ali, numa das lições da tradição, a “fé” apresentar-se-ia como um fundamento firme e uma prova. Fundamento da esperança. Prova do que não se vê. E essa lição de fé como fundamento e prova é-nos passada nas catequeses. Lição antiga essa. De dois mil anos. Velha como as árvores.

 

Eu escrevi um livrinho: O Que é Fé?. Não gosto muito dele. Às vezes, bate-me uma vergonha. Está mal escrito. Dele, salva-se a classificação quanto à fé. A classificação que ali vai, que ajudei a desenvolver, depois de muitas leituras, é aquela com que lido dia a dia. Digo ali – e ainda o digo – que a fé pode ser quatro coisas: fé-enquanto-encontro, fé-enquanto-ensino, fé-enquanto-encanto e fé-enquanto-entrega. Deixemos as duas últimas para outro dia, que não nos tocam tanto assim, hoje. Não é o caso, contudo, das duas primeiras.

 

A primeira, fé-enquanto-encontro, reservo-a ao silêncio. Lugar de e do mistério. Solidão interna da espécie humana, quando toca o infinito sobre a sua cabeça. Trata-se da faculdade humana de intuir o mistério – enquanto mistério. Mistério enquanto mistério é aquilo que permanece absolutamente como mistério. Não é uma coisa, um detalhe, que não entendemos em Deus. Isso não é mistério. Mistério é não entender nada, nem mesmo Deus. Mistério é não saber nem se Deus é Deus – e nem poder, jamais, saber. Acredito na experiência religiosa primária como “encontro” entre a solidão profunda do homem, seu medo, sua fragilidade, sua face suja da terra, e o vento, e as nuvens, e o azul profundo, e o mar apavorante, antes que vento, nuvens, céus e mar recebam seus nomes divinos, porque nomes divinos já é outra fé. A fé-enquanto-encontro é um soluço, um choro, uma lágrima. É uma dor que não tem cura, e para a qual buscamos, até hoje, e talvez para sempre, cura. Ferida mortal na espécie humana, sua glória e seu drama. O preço que pagamos pela ousadia de sair do lodo e olhar para as estrelas, que, pela ousadia, nos cobram a dor da solidão. Somente as almas que ainda sentem-se no lodo experimentam-na. A civilização erigiu-se com o seu obumbramento. Aprenderam-se os jogos das dissimulações. Aprendeu-se a dar nomes. Mistério é pura retórica religiosa. E ela, a fé-enquanto-encontro, acaba aí. A fé-enquanto-encontro é uma noite eterna, cujo sol jaz nascimorto, aos pés das trevas espessas da consciência.

 

A segunda, a fé-enquanto-ensino, diz-se amiga da primeira. Até o seria, soubesse seu lugar. Mas ela não sabe. Ela tem um lápis 6B na mão. Faz desenhos taquigráficos. E o mistério evapora-se, como uma naftalina que se vai. O desespero sublime da alma, agradece, coitado. Mas a fé tornou-se alienação. Bastava que a alma cansada da solidão refletisse que, se ela, alma cansada, deparou-se com o mistério, e só soube chorar a dor do mistério, como pode esse que aí a tenta consolar, saber para além dela mesma, alma cansada? Ainda que o consolador se apresente vestido de Hermes, de Mercúrio, ou de Exu, todas divindades que aproximam os mortais dos deuses, como os melakim, de Jacó, ou os “anjos”, de Jesus, se a alma cansada confiasse em si mesma, se não estivesse tão assustada, se o frio não fosse tão cortante, a solidão, tão profunda, ela poderia, a alma cansada, saber que não é verdade que se saiba, e que se diga que se saiba. Não há – ela sabe – cura para o mistério. E- ela devia saber – se lhe apresentam a cura, roubam-lhe o corpo. Os olhos, principalmente, arrancados, são postos no copo, desnecessários que são, agora, uma vez que a mão já escreveu com o 6b todas as coisas, e se sabe tudo quanto se deve saber, tudo quanto se pode saber. Essa fé é doutrina. É pura imaginação – imagens em ação, desenhadas à mão, com um 6b político, e contadas ao ouvido doloroso da saudade, murmuradas, mantricamente, encenadas diante dos olhos, que verão, pela ultima vez.

 

Segue-se-lhe um conforto profundo. A alma cansada deita-se na esteira da doutrina, e dorme. Está, definitivamente, protegida. Não sente mais solidão. Nem frio. E, agora, sabe quem é, para onde vai. Conheceu o gozo dos anjos – que, contudo, não o conhecem.

 

Essa é a fé que se considera saber. Se a pergunta: “crer é saber?” for feita dentro de seus muros, desde os torreões, ouvir-se-ão respostas peremptórias, e acusadoras da própria pergunta: sim. Sim. Sim! Ela, a fé-doutrina, a fé-verdade, é ensinada e aprendida. O mistério recebe a cor da sua tinta. Não é de todo suprimido, mas adestrado, domesticado. O que quer que esteja fora da esfera do discurso dessa fé-doutrina, perde seu status ontológico – não tem existência real. Do que tem existência real, somente quem entende é essa fé-doutrina. Que, naturalmente, já não é mais “fé” – crença – é saber – “episteme”.

 

Para todos os fins, essa fé sabe. Para todos os efeitos, todos os que aderem a ela sabem. Ela já está em Judas, fé definitiva – de uma vez por todas - Jd 3. Uma vez que ela é discurso – ela é dita – pode-se lembrar dela, o tempo todo, de seu conteúdo, de suas palavras – Jd 5. Os apóstolos as disseram – Jd 17. Ela perdeu – se teve algum dia – a inteligência de si como palavras humanas, palavras carregadas de vontade de verdade, mas, contudo, apenas palavras carregadas dela.

 

Já à época desconfiava-se desse tipo de “episteme”. Sabia-se que a crença religiosa, a fé doutrinária, é pura imaginação religiosa. O problema é que isso é fácil de constatar diante da fé que os outros têm. Quando um cristão, por exemplo, ouve um romano falando de Mitra, ele fica horrorizado. Como pode alguém acreditar em fábulas? Veja que a pergunta, ele a faz em relação ao romano, mas, jamais, a si mesmo. Não pode. Narciso só acha feio o que não é espelho, tem-se dito.

 

É que a fé-doutrina transforma-se imediatamente em política. A fé-encontro, não. A fé-encontro é fatalmente estética – encontro de si consigo mesma, no mistério da impossibilidade do dizer. Mas, quando se espreme o tubo, e sai a pasta, o silêncio transforma-se em verborragia, e torna-se política. E política, sabe-se, é uma coisa que pessoas fazem. Às vezes, para o bem. Um cristão acha bonito imaginar anjos europeus, de asas de pena de ganso, branquinhas, subindo e descendo as escadas de Jacó – cena que o próprio Jacó jamais teria imaginado, logo, sonhado. Mas quando o cristão pensa num grego e em seu Hermes, persigna-se. Quando pensa num romano e seu Mercúrio, horroriza-se. Num africano e seu Exu, exorciza-se. E, contudo, que diferença? Tudo questão de fé. Mas não mais para o cristão, a quem foi dito que fé-crença é o que os outros têm, mas ele, não, o que ele tem é fé-certeza, fé-saber, fé-verdade. Ah, é? É. E ele crê. Crê que o que crê é saber. O que ele crê, mas não o que aquele hindu ali crê.

 

Enquanto a Igreja Cristã Universal, romano-imperial, mandou e desmandou, a fé apresentou-se em praça pública como saber. Houve, sim, quem contestasse. Mas não quero transformar esse ensaio num libelo de sangue. Passemos ao largo das desgraças perpetradas, das violências praticadas, dos corpos torturados pelo saber, digo, pela fé. Interessa passar rápido pelos séculos vermelhos, e chegar à aurora da epistemologia moderna.

 

Pariu-a a Revolução Francesa. Não sua mãe, talvez, mas sua avó, ou bisa. O fato é que o movimento iniciado pela republicanização do Ocidente – a separação institucional entre Igreja e Estado, permitiu que se duvidasse de ser saber o que se suspeitava fé. Com a naturalidade com que um cristão “sabe” que a crença do kardecista em espíritos reencarnando é uma imaginação lúdico-religiosa, a cultura emancipada ocidental “soube” – sempre se soube, é verdade – que a crença dos cristãos era – também, a seu tempo e modo – “imaginação”. Isonomia. Sem sursis. O Estado Democrático de Direito, o Ocidente, apesar de sua implacável consideração de que as crenças religiosas são crenças religiosas, que é o mesmo que dizer que não se trata de “saber”, mas de mito, permitiu que as religiões continuassem suas práticas, ensinassem seus credos, seus catecismos, realizassem seus ritos. Todos os religiosos. No início, nem todos. Os cristãos ainda seguraram, por um bom tempo, o martelo do juiz, e o capelo da cátedra. Mas a cada dia que se punha sobre o vale republicano, a fé que a igreja publicava em livros ia tornando-se mais e mais “crença”, equivalente estrutural da crença de muçulmanos, budistas, kardecistas, umbandistas, afro-religiosos (ketu, jeje). Sim, umas são mais “racionalizadoras” – mas nem por isso “racionais” –, enquanto outras são mais explicitamente mitológicas, até anímicas. Mas é uma questão de conteúdo. A forma, toda, é imaginativa, criativa, fabulosa, conquanto, muitas vezes, baseada em “histórias”.

 

Fora do controle político da epistemologia cristã, ainda que não de imediato, a cultura ocidental, contudo, sentiu-se acossada pela necessidade de elaborar uma epistemologia emancipada. Platão foi deixado de lado. Um projeto reduzido de platonismo, mas comprometido com a esfera antropológico-sociológica – humana, claro – tratou de pensar o pensamento como forma de acesso ao real (cartesianismo). Na Inglaterra, o empirismo de laboratório desenvolveu-se mais do que esse idealismo mitigado de Descartes. Os dois, contudo, entrelaçam-se num abraço teórico-metodológico, no Ocidente.

 

Por sua vez,o Romantismo engendra os esboços teórico-metodológicos das Ciências Humanas, e o mundo é rasgado ao meio. Surgem cientistas de laboratório – ciências duras – e cientistas da rua – ciências moles. Ciências da Natureza, Exatas, Matemáticas, da Vida, e Ciências Humanas, do Espírito, Humanidades. O conflito, até hoje, não está consensualmente sanado.

 

O que há de comum nessa “epistemologia” pós-medieval, cujos marcos didáticos são a Revolução Francesa (República) e o Romantismo (Ciências Humanas), que, enquanto expressões mais recentes do que as ciências duras, de Newton, por exemplo, estabelecem a assunção da “sociedade humana”, o Estado Democrático de Direito, é que o jogo que aí se joga assume, desde sempre, que só se pode tratar como conhecimento o que é próprio da matéria e do homem – o que pode ser transformado em “objeto”, e, de um jeito universal, escrutinado, perquirido, investigado, falseado. Palavras-chave: universalidade, objetividade, falseabilidade.

 

Não é que o que estiver fora da matéria e do homem vai ser tomado como não-existente. Absolutamente. As Ciências da Natureza não sabem, nem pode saber se há Deus ou alguma coisa parecida. Discute-se se um cientista pode crer. Creio que ele pode crer, sim, desde que seja sério, quando fizer pesquisa. Mas a Ciência, essa sabe a diferença – no jogo atual, que não é mais “controlado” pela teologia dogmática, graças a Deus – entre fé-crença-doutrina e saber científico-humanista

 

De modo bem simples. No jogo da epistemologia ocidental contemporânea, pós-cristã, mas eu diria pós-dogmático-teológica, melhor do que pós-cristã, pode-se saber alguma coisa sobre a pedra (matéria – ecosfera), o peixe (vida – biosfera), a pessoa (antropologia – sociosfera) e o pensamento (idéia – noosfera). O que passar desses níveis – ecosfera, biosfera, sociosfera e noosfera – ou seja, os submundos dos mitos, e os céus das mitologias, não é conhecimento. Não para essa epistemologia. É o que, então? Crença, mito, imagem, qualquer coisa. Conhecimento, não.

 

Ainda que o sujeito possa tornar-se recalcitrante. Pode agarrar-se, de forma fundamentalista, a sua idéia. Nem por isso, para a epistemologia moderna, tornou-se saber o que é, assim, mito. Ainda que, equivocadamente, recorram-se aos sentimentos e às experiências. Tal recurso apenas aumenta a força do argumento de que o comportamento religioso pré-moderno é alienação epistemológica. Porque as experiências são, sempre, o que a cosmovisão em que elas se dão afirma serem. Assim, a experiência extática humana pode ser interpretada como incorporação de orixás (ketu), como possessão demoníaca (cristianismo), como vôo astral (xamanismo), como mediunidade (kardecismo). Ora, a experiência em si permanece inexplicável – epistemologicamente, enquanto não reduzida a suas dimensões psico-antropo-sociológicas. Assim, para um cristão, é “óbvio” que se trate de demônio e encosto. Para um afro-religioso, contudo, toca-se é num orixá. Ah, sim, e um pode, ainda, “explicar” a experiência do outro – e, claro, aí já se avança para além da experiência, porque, se é a experiência o critério, a minha explicação da experiência do outro não tem a menor validade, e o outro só pode ele mesmo explicar-se. O engano, contudo, seja auto-engano, ingênuo e inocente, seja o engano acintoso e político da catequese interessada, denuncia-se a si mesmo quando pretende fundamentar o suposto saber na experiência, quando, afinal, é a interpretação da experiência quem determina o saber. Mesmo aí, o suposto saber é doutrina, e doutrina que se desdobra politicamente sobre si e sobre os demais, ciente ou não da alienação moderno-epistemológica de que se nutre. Experiências e sentimentos são retóricas epistemologicamente equivocadas. Mas funcionam psicologicamente, politicamente.

 

É verdade, contudo, que a questão do saber não está resolvida. É mais correto afirmar que a epistemologia moderna sabe mais o que é não-saber, e quando alguém não sabe, do que o que é saber, e quando alguém sabe. Não há, de todo, um consenso confortável.

 

Para além das mitologias religiosas, e da política das instituições religiosas, há críticas ao status de “saber” das Ciências Naturais e Humanas – em seu aspecto mais abrangente de “ciências da modernidade” - advindas da filosofia, por exemplo. O pragmatismo de um Richard Rorty, por exemplo, transforma toda a “realidade” em acordo semântico. Os homens inventam palavras-decalques para coisas, e devem aprender a jogar o jogo de usar as palavras. O real, ou não existe realmente, é uma ilusão dos sentidos, ou é inacessível, logo, dá no mesmo. Os homens armam camas-de-gato, e brincam seu jogo social de e na linguagem. Tudo são palavras. Não há o que “saber”, senão que aprender a como usar as palavras.

 

O filósofo italiano, católico, Gianni Vattimo gosta da idéia. Afirma que o real não existe, senão nossas palavras. E, então, dá de ombros. Afirma que, sendo assim, melhor é continuar a ser católico – cristão –, porque, segundo as palavras que ele usa, ser ocidental é ser cristão.

 

Não é de todo fácil sair da armadilha pragmatista (nada a ver com “pragmática”). O pragmatismo retórico-filosófico de um Rorty incita-nos ao sarcasmo. Mas responder epistemologicamente não é tarefa fácil. Aqui não é o lugar para uma segunda tentativa.

 

Por sua vez, pesquisadores como Edgar Morin e Karl-Otto Apel têm se debruçado sobre a questão da validação do conhecimento. Edgar Morin refunda o pensamento na matéria, superando, é a minha opinião, o idealismo cartesiano, de um lado, e o puro empirismo inglês, de outro, e estabelecendo uma epistemologia complexa que lida, ao mesmo tempo, com a ecosfera, a biosfera, a sociosfera e a noosfera, sem separá-las, sem simplificá-las, mas tratando cada sistema como sistema, e, não, como “ser”. Assim, a realidade mostra-se constituída de níveis sistêmicos, nos quais, e em cada qual, sistemas independentes dos anteriores e dos subseqüentes, formam-se, contudo, daqueles, formando, ao mesmo tempo, estes. Deve-se enfrentar O Método. A meu ver, a obra do século XX.

 

Karl-Otto Apel não chega à altura de Morin – eu diria. Mas seus dois volumes de A Transformação da Filosofia tentam resolver a discussão entre ciências “duras” e “moles”, sem reduzir umas as outras, mas relacionando-as às respectivas comunidades de interpretação, sem, contudo, cair no pragmatismo ou no relativismo retóricos.

 

Encerro meu ensaio com três gestos.

 

Primeiro, recapitulando que se pode acessar o problema da relação entre crença e saber de três modos. Primeiro, dogmaticamente, no seio dos sistemas doutrinários, sejam religiosos (cristianismo, por exemplo) ou políticos (comunismo histórico soviético, por exemplo). Aí, a crença torna-se saber, e o saber, verdade. Deus encarna num papa qualquer, seja em Roma, seja em Witemberg, ou num “chefe do partido”. Para o sistema dogmático, a “sua” fé é saber. A dos demais, loucura, heresia, pecado, crime, sem que estes possam expor suas perspectivas, somente submeter-se. Segundo, a epistemologia moderna, aquela relacionada, de um lado, às ciências duras (relacionadas à natureza, ao Universo, à matéria, às matemáticas, ditas de prancheta ou de laboratório, um pouco mais antigas), e, de outro, às ciências humanas (ou do espírito, relacionadas ao universo humano), nesse jogo social do Ocidente, o “saber” é fruto de um consenso heuristicamente determinado, universalmente constituído, retoricamente disputado e constitutivamente histórico. Crença religiosa e folclore tornam-se valores culturais. Legítimos. Constitutivos da sociedade. Mas, não, saber. Ali, não se sabe. Ali, se crê. E, finalmente, e mais para constar, no pragmatismo retórico-filosófico, onde o saber é reduzido à expertise lingüística. Minha posição é claríssima: eu assumo inteiramente a epistemologia moderna, e sigo as pegadas de Edgar Morin. Até aqui, integralmente, até onde posso ter consciência de minhas próprias pegadas. E a assumo, integralmente, até quando me olho como ser religioso, sendo religioso.

 

Meu segundo gesto de encerramento deste ensaio é ilustrar a relação entre saber e teologia, em Edgar Morin, mais especificamente em O Método. Morin aceita a existência dos deuses. Sim. Mas não como os mitos os apresentam – seres “ectoplasmáticos”, de uma dimensão geográfica do cosmo, ou duma dimensão metafísica. Se eles existem lá, Edgar Morin não pode saber. Mas assume a sua existência na noosfera – no “mundo” criado pelos homens. A noosfera é um mundo, como a ecosfera (matéria), a biosfera (a vida) e a sociosfera (os homens). De cá para lá, um mundo nasceu do outro. A sociosfera, da biosfera. A biosfera, da ecosfera. A noosfera, naturalmente, nasceu da sociosfera. E nutre-se dela. Criamos deuses e os alimentamos. Nós os mantemos vivos, e eles jamais morrerão, enquanto um cérebro humano os manter vivos. Vivos, chegam a controlar nossos pensamentos e músculos. Um, leva esse à castração. Outro, leva aquele ao sexo tântrico. Isso é real. E não faz diferença se há, nas estrelas, um deus que goste de castração, e outro que goste de sexo. O que importa é que há, na noosfera, um e outro.

 

Os deuses são perigosos, mesmo quando amam. O amor tem um poder absolutamente incontrolável. Mata-se pelo amor. Os deuses não são “mitos infantis”, mas histórias, quantas vezes, pornográficas. O saber que se pode ter deles, é ouvindo deles, através daqueles que os alimentam – “nós”. Por isso faço teologia. Para proteger-me. Quero ouvir os deuses falando pela boca de seus cavalos, para eu saber até onde podem ir os deuses e seus cavalos, e até onde eu mesmo corro o risco de ir, se não aprendo, definitivamente, que saber é saber, e crença, crença, mas que, crença por crença, elas tornam-se senhoras poderosas do meu corpo inteiro.

 

Tola foi a primeira leva da “ciência”, que tratou os deuses como ilusão. Não são ilusões. São reais. Mas de uma realidade nova, na história de bilhões de anos do Universos. São seres reais do pensamento humano. E vivem – realmente – lá. É o que podemos saber. Acabar com eles é impossível. Talvez o façamos, depois que tivermos destruído a própria espécie. Mas isso é incerto. Até lá, é preciso saber lidar com eles – enfraquecendo-os. Deuses fortes são um risco para nós.

 

Finalmente, encerro falando de mim. Descobri que eu sempre cri em Deus. Quando era adolescente, já cria nele. Aos quinze anos, não era raro eu dormir com dois lençóis e dois travesseiros, um para mim, e um para Deus. Não era raro eu pedir coisas a ele. Minha mãe nunca me catequisou, mas vivia com Deus pra cima e pra baixo, ela e seu salário-mínimo de dar a comer a quatro filhos. Como aquela história que se conta dos africanos que conheciam Jesus, ele teria passado por lá, eu conhecia Deus, porque ele morava lá em casa, com minha mãe e os quatro filhos dela.

 

Tornei-me batista aos dezoito anos. Nesse dia, e daí até uns cinco anos à frente, aprendi que crença – fé – era saber. Aprendi direitinho. Tornei-me um fundamentalista. Pregador fundamentalista de cultos fundamentalistas. Evangelizei de porta em porta. Tinha vergonha. Morria de vergonha. Mas era o que eu tinha que fazer. Imagina um menino criado até os quinze anos dentro de casa, agora, aos dezenove, batendo de porta em porta, entregando folhetos e uma religião antiga. Cada culto, cada visita, uma vergonha, mas era o que eu tinha que fazer.

 

Enfiei-me até o pescoço em ler a Bíblia. A li, toda, cinco vezes. Ganhava gincanas. Qualquer uma. Fui para o seminário. Professores me aborreciam, porque falavam de filósofos – estúpidos – e não de Bíblia. Por outro lado, o professor e pastor Espanhol, ensinou-me um pouco de Morente, e abrandei-me, sacudi-me. O Élcio falou-me um pouco da crítica veterotestamentária, e eu meti o pé na jaca, até o fundo, e ele ficou todo melecado. Quando pronunciei meu discurso de formatura, porque tive a honra de ser escolhido por meus colegas, disse que entrara sabendo quem era Deus, e saía sem o saber. Para muitos, uma tragédia. Para mim, libertação.

 

Deus podia, de novo, ser Deus. Livre. Livre de mim. E eu, dele. Olhei nos olhos de Deus e disse que ele era inútil, agora, para mim. Que eu podia mandar ele embora. E ele me disse que sabia disso. E que eu estava certo. Mas ele olhou-me como quem tanto sabia disso, de que eu já sabia que ele era-me inútil, como quem sabia que eu não o ia mandar embora. Nunca Deus me fora útil. Não era útil dormir com ele. Era apenas bom. Eu apenas pensava que o futuro era incerto, mas, fosse o que fosse, meu amigo e eu iríamos juntos. Eu compreendera, através das Ciências Humanas, que a idéia de Deus era uma imagem, e eu não podia saber se ela era real ou não.

 

De novo, eu olhei nos olhos de Deus, e disse a ele que não sabia se ele era real ou não. Disse-lhe que sabia que a imagem que eu fazia dele era invenção dos meus antepassados, e que se traduzia em um mito. E ele ficou alegre de eu ter descoberto. Esperei que ele desaparecesse, porque me disseram que, quando eu descobrisse que Deus era um mito cultural-tradicional, ele desapareceria. Mas ele não desapareceu. Tornou-se mistério. É verdade que ele mudou. Eu não pude mais, nunca mais, pegar a mão dele, mas ainda posso – e gosto disso – de imaginá-lo ao meu lado. Eu não pude, nunca mais, pregá-lo, nem aos “pagãos”, nem aos meus alunos, nem a meus filhos, nem a minha amada Bel. Mas podia deixar que eles me vissem, nu, e que, se fossem capazes, que percebessem, na nudez, um cuidado. Quando me bate um delírio de falar de meu amigo, como quem sabe, e não para além do mito, meu deus-mito-menino me olha sério, e eu abaixo os olhos, ruborizado.

 

Eu me peguei na solidão, de novo, como aquela solidão que o primeiro homem sentiu. Senti o frio no rosto, o vento frio das noites de gelo, das catedrais da noite dos tempos. Senti a angústia do peso do Universo inteiro sobre mim. Senti a fragilidade e o abandono. Senti o chão sumir de sob meus pés. Senti-me só.

 

E lembrei do primeiro homem que sofreu essa dor. E sorri. Entre ele e mim há uma história de milhões de anos. Que eu não preciso repetir. Não, eu não preciso repetir. Sei para que servem os deuses. Sei como os inventamos. Sei do que eles são capazes. Sei do que eu posso fazer com eles. Sei do que eles podem fazer comigo. Sei, porque foi assim na História que escrevemos com corpo e sangue, história de milhões de anos.

 

Fiz um acordo comigo mesmo, e com meu deus-mito. Seremos como meninos. Apenas brincaremos. Eu nunca fecharei os olhos. Eu nunca dormirei. Eu nunca descansarei. Gostaria – e muito – que ele me pudesse ajudar, quando eu sofresse. Mas, se não, ainda assim olharei nos seus olhos, e pedirei para caminharmos um pouco, sob as árvores. Sobretudo serei grato a ele pela Bel – e talvez Bel seja a razão de minha sanidade. Talvez só seja possível um mito assim, uma paz assim, naquele colo.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 08/09/2007 14:51:18