Conceitos de Hermenêutica

– garatujas pré-históricas

(de mim para mim mesmo)

Osvaldo Luiz Ribeiro

21/07/2005

(revisto e corrigido em 29/08/2007)

 

 

Não saberia, honestamente, dizer quando a idéia se materializou em minha consciência. Honestamente. Já li muita coisa sobre "hermenêutica". Coisas boas, coisas ruins. Algumas dessas coisas sequer as considero, agora, qualquer coisa a respeito de "hermenêutica", senão pelo fato de usarem essa palavra. O fato é que, há uns dois ou três anos, venho fazendo um grupo de estudantes de teologia de cobaia. Coitados. Bem, confesso que foi uma experiência interessante. É mesmo uma turma interessante, porque sinto, estarei certo?, que se trata de uma turma com quem posso "ensaiar" vôos. Na disciplina "Hermenêutica", ensaiei um vôo. E foi lá, com eles, essa turma de teologia de Nova Iguaçu, que vi nascer, da minha boca, essa criança certamente gestada pelas leituras anteriores, quantas! Vamos a ela.

 

HERMENÊUTICA. Antes de tudo, que fique claro: hermenêutica não é, não como a vejo, "coisa que se faz". Se puder dizer, diria que hermenêutica é a condição em que "me" vejo para fazer qualquer coisa. Não é que eu pare de "viver" e, então, "faça hermenêutica", isto é, quando eu, "vivendo", de repente sento para ler um livro, coisa que exigiria de mim, então, porque parei de simplesmente viver, para, então, ler esse livro, o uso disso que seria, nesse caso, hermenêutica. Nem ler um livro, nem interpretar uma lei. Não. Se fosse assim, hermenêutica seria uma ferramenta, um instrumento, que eu usaria em função de meus objetivos ali e então, aqui e agora. Não penso assim. Não mais.

 

Para mim, viver é função hermenêutica. Diria mesmo que hermenêutica é uma função biológica, que faz parte da estrutura físico-biológica dos seres humanos. Coisa da estrutura cerebral. Uma emergência da estrutura cerebral. Deveria ser procurada a sua emergência em paralelo com a consciência, porque eu considero a hermenêutica a mãe da consciência. A consciência, para mim, nasce da faculdade hermenêutica do ser humano, de sua capacidade de "intuir" a disjunção "eu - não-eu", a disjunção "sujeito - mundo". Sim, sim, beiramos a Piaget e a Freud aqui. Indesculpável. Incontornável. Mas falamos com esses senhores outro dia...

 

Dizer que hermenêutica consiste, em princípio, numa faculdade físico-biológica, é reconhecer que se trata de uma operação relativa à estrutura do "corpo". É a configuração das moléculas, dos tecidos, dos órgãos, do "sistema" como um todo, que determina a sua operação. Não acredito que haja uma "glândula" responsável por ela. Acredito mais que o sistema como um todo, "holisticamente", proporcione a sua emergência. Assim emergindo do sistema cerebral, a hermenêutica proporciona a oportunidade da eclosão da consciência. Se parece confuso, diria, contudo, que é possível "hermenêutica inconsciente", mas não "consciência não hermenêutica". Vejam os senhores o que "achei" em A Gaia Ciência, do velho Nietzsche, e que corro para reproduzir aqui, claro, para corroborar e porque corrobora essa minha intuição: "11 - A consciência - A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico (grifo meu), por conseqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema" (p. 47). Traduzo: a consciência eclode naturalmente no ser humano mercê de sua estrutura físico-biológica. Ele nasce para isso. É assim  que ele é e funciona. Mas ocorre que esse estado de consciência pode desenvolver-se sem a percepção de seu funcionamento de fundo. O ser consciente pode simplesmente confundir consciência com "percepção absoluta da realidade", ao passo que o processo inteiro de consciência é inexoravelmente facultado e dirigido pela estrutura hermenêutica, a emergência cerebral mais determinante da condição humana. Um sujeito é dotado de consciência porque é um ser hermenêutico. O que não significa, contudo, que tenha consciência dessa consciência hermenêutica. Pode simplesmente "funcionar", e pronto.

 

Hermenêutica é, pois, na forma como a vejo, uma emergência biológica, física. Física, porque está inserida na estrutura da matéria cerebral - moléculas, tecidos, órgãos, o sistema como um todo; e biológica, porque é uma emergência do ser humano na qualidade de ser vivo. Mas físico-biológica de um lado, a hermenêutica é ainda mais do que isso: ela é, assim, necessariamente, uma faculdade psicológica. Na qualidade de emergência, a hermenêutica está incrustada na estrutura físico-biológica do cérebro, mas emerge na sua dimensão psicológica. É no funcionamento do sistema cerebral, na sua dimensão de "mente", que a hermenêutica se configura como condição e plataforma do modo de ser humano. A hermenêutica, então, constitui um cenário: é nesse cenário que toda a epopéia humana desse sujeito, toda a caminhada subjetiva desse ser humano de desenrola. Oh, sim, Schopenhauer. "O Mundo como Vontade e Representação". Mas também é Nietzsche, "A Gaia Ciência". Esse, confesso, li antes da vomitar essas garatujas na cabeça dos pobres diabos de Nova Iguaçu; mas aquele, Schopenhauer, só depois, e com alegria, naturalmente. E mesmo quando lia Nietzsche, não tinha idéia do que lia, e no que daria - julgando que esse mel que colho seja o vômito de Nietzsche, porque, relendo aforismos específicos de A Gaia Ciência, e achando lá as marcas da esferográfica, era como se os lesse ali, pela primeira vez. A cabeça da gente é muito, muito estranha.

 

Seja como for, devendo a quem dever, e como devo!, considero, então, que a hermenêutica não seja nada minimamente parecido com uma ação, com um gesto, com uma prática, com uma operação. Antes, qualquer ação, qualquer gesto, qualquer prática, qualquer operação é que se dá a partir da estrutura hermenêutica humana. Caminho hermeneuticamente. Acordo hermeneuticamente. Penso hermeneuticamente. Amo hermeneuticamente. Vivo hermeneuticamente. Sou o que sou, porque sou hermenêutico. Um ser hermenêutico. Tudo o mais decorre disso, desde a filosofia até as guerras.

 

Dizer que se vive hermeneuticamente é dizer que a vida humana acontece dentro de uma bolha hermenêutica. Não se trata de idealismo ingênuo: a vida humana acontece "no mundo", no "Universo", na dimensão física. Podia deixar de ser assim? Claro que não. O homem é irmão do carbono, filho do sol. Vem da tabela periódica, a que pode ser, eventualmente, reduzido; mas vem da ameba, com quem partilha o "milagre" da vida. Ainda carrega seus ancestrais nos intestinos. O acordo primitivo ainda vigora. Só que carbono e Ottoia, por exemplo, não têm consciência, não emergiu deles qualquer estrutura hermenêutica de base. De nós, sim. De tal sorte, que carbono e Ottoia vivem exclusivamente "no mundo", reagindo a ele, às pressões dele, às "ações" dele, nascendo dele e retornando para lá. Vivem no mundo, ao passo que nós vivemos no "nosso" mundo.

 

Dizer que vivemos no "nosso" mundo é dizer que, por conta da estrutura hermenêutica humana, de que decorre a consciência, o ser humano constrói para si representações desse mundo, com as quais interage, e nas quais vive. O ser humano está no mesmo mundo em que estão o carbono e o verme de Burguess Shale, mas, enquanto estes dois vivem nele, o ser humano, dele, constrói para si sua própria representação, e vive nela. É a glória da humanidade, mas, de certo modo, o preço caríssimo pela "honra".. Glória, porque, como disse Pascal, mesmo esmagado pelo Universo, o homem é "superior" a ele (será?) pelo fato de "saber" (saber?) que vive e morre, ao passo que o Universo nada sabe, sequer de si. Mas "preço", oh, sim, pelo fato de que não lhe é dado, contudo, não é permitido ao homem, contudo, "saber" - apenas "construir". Vou arriscar escrever aqui que Homo sapiens é mesmo uma ingenuidade pré-hermenêutica. Quero dizer, achar que nós, seres humanos, na qualidade de representantes da raça Homo sapiens, realmente "sabemos". Não creio - não "sabemos", construímos "saberes", sempre "à nossa imagem e semelhança". Deveríamos ser chamados de Homo hermeneuticus - não Homo sapiens.

 

Uma vez dava uma aula. Teologia, claro. Mas sei lá por que, acabei falando de física quântica, apenas para exemplificar alguma coisa sobre teologia. Disse, lembro-me, que nem o físico quântico sabe do que está dizendo, apensar de saber exatamente o que está dizendo. Havia um estudante de física na classe, um aluno que fazia tanto teologia quanto física. Balançou a cabeça negativamente, e, àquilo que interpretei com o a pergunta de uma aluna, a ele, sobre se o que eu falava tinha sentido, ele disse "não". Fiquei quieto. Não era físico. Mas me senti mal. Agora leio A Religação dos Saberes, uma lebre que comprei por gato, achando que era de Edgar Morin, quando era, na verdade, uma coletânea. Mas a lebre mostrou-se saborosa, de qualquer jeito. Lá está uma palestra de Jean-Marc Lévy-Leblond, cujo título "é possível ensinar a física moderna?" (subentendido, "no segundo grau") prepara o leitor para um "não" sonoro que o palestrante, professor de física e epistemologia, dá, e justifica: "a teoria quântica permanece num estado epistemológico relativamente insatisfatório" (p. 71), e continua: "certos debates dos anos trinta, por muito tempo ocultados, acabaram por reaparecer e nem por isso foram elucidados até agora" (p. 71). Lendo isso, mesquinho que sou, retornei àquela aula e disse um sonoro "toma!", demonstrando para mim mesmo como estamos, sempre, em guerra, queiramos ou não admitir.

 

Seja como for, Lévy-Leblond ainda diz que parte dessa impossibilidade de ensino da física quântica no segundo grau deriva da insuficiente inserção dessa tecnologia na vida cotidiana. Ela até está no dia a dia, por exemplo, diz ele, no laser dos gravadores de CD-ROM e DVD-ROM, mas quem sabe disso? Não se vê isso, e não se pode, assim, tomar como "mundo", e como "metáfora" para a teoria, de sorte que escapa o conceito. Digamos que a física quântica ainda é coisa apenas no "mundo", mas ainda não pôde ser incorporada ao "nosso" mundo. Está aí, mas ainda não pôde ser capturada hermeneuticamente. E apenas o será, quando puder constituir nosso mundo, coisa que os físicos, que lidam com ela, vão fazendo aos trancos e barrancos. É esclarecedor que não se saiba do que se está realmente falando, e, no entanto, já se possa até fazer aparelhos tecnologicamente avançados com isso do que não se sabe estar falando. Não importa, afinal. Importa, na prática, é saber usar. Esse é o "nosso" mundo, mundo em que as coisas são tornadas "nossas", pelo critério de utilidade.

 

A hermenêutica, então, constitui, logo de cara, uma emergência da estrutura físico-bio-psicológica dos seres humanos. A máquina humana está ligada? Então essa emergência está funcionando, e ser humano é ser físico-bio-psicologicamente hermenêutico. Ah, a máquina hermenêutica físico-bio-psicológica hermenêutica não está ligada? Então não temos diante de nós um ser humano. É a hermenêutica que faz sermos o que somos, fazer o que fazemos, viver o que vivemos, e morrer o que morremos. O "sentido" é uma invenção da hermenêutica. Humana, porque hermenêutica.

 

E aqui se desdobra a questão. O "sentido". Se o ser humano é constituído basicamente do conceito de hermenêutica, o desdobramento fundamental dessa emergência particularmente importante é a semântica. Esse desdobramento hermenêutico - o sentido - é, contudo, complexo. Não é unidimensional, mas multidimensional. O mais simples seria dizer tridimensional.

 

Vivo no mundo que crio. A hermenêutica me permite isso. Não fora a hermenêutica, não teria condições de criar meu mundo e, logo, de viver humanamente. Mas sou humano, um ser humano. Logo, vivo hermeneuticamente, dentro do mundo que eu mesmo crio a partir do mundo físico. Mas como é que se dá a criação desse meu mundo? Se não é "saber", mas "construção hermenêutica", não é contudo, "cognitivo"? É cognitivo, sim. É primeiramente cognitivo. É mental esse mundo, claro. A hermenêutica é muito mental, muito conceitual, muito ideal, quero dizer, o funcionamento dela. Através dos sentidos - visão, tato, olfato, audição, paladar -, que funcionam para nós como tentáculos, capturamos o que do mundo físico se nos pode tocar: ondas, resistência, partículas, raios. O sistema hermenêutico recebe todas essas informações, e programa uma representação primeiramente sensorial, depois cultural, finalmente pessoal. Uma fase de cada vez e todas as fases ao mesmo tempo. É com essas representações-interpretações que lidamos. São essas representações que experimentamos, afinal, na forma de visões, sensações, audições, gostos, cheiros, e com as quais construímos um Universo, maior ou menor, dependendo de nossa perspectiva cultural. A cor, que é? O som? A dor? Hum? Representações. Não "alucinações", no sentido de que deveríamos nos livrar delas em troca da experiência da realidade. Puff! Que realidade? O preço de sermos humanos é vivermos, tudo bem, na realidade, mas fora dela, a partir dela, numa representação. Querer se livrar disso, como que de uma patologia, uma insuficiência, um defeito, um pecado, é querer não ser mais humano. E contudo, ainda assim, é ser humano.

 

Doravante, a realidade será, para nós, esse construto hermenêutico. Daí as cegueiras, os erros, os equívocos, de que falam Nietzsche, a seu jeito, e Edgar Morin, ao jeito dele. O erro não é tanto uma disfunção entre a representação e o real, mas entre a representação e a consciência da representação enquanto representação. O equívoco é tomar a representação, funcional, vital, como grandeza ontológica. A mente precisa trabalhar as informações vindas de fora, e construir com elas uma representação, e devolver à consciência essa representação, de tal forma que o corpo possa se mover nela. A certa altura da vida, esse processo torna-se apenas de ajuste fino. O ser humano já vive a tal modo em sua representação, que todo o aparelho trabalha incessantemente, claro, mas tão somente ajustando as percepções, acomodando ruídos, aperfeiçoando movimentos. Também há aquelas mentalidades que, conscientes da qualidade de representação do mundo vivencial, além claro, de sua inexorabilidade estatutária, procuram, não obstante, "corrigir" sua representação, criticá-la, submetê-la aos mais severos critérios de avaliação, uma outra espécie de sanidade. Uma ou outra forma são plenamente humanas, e não saberia dizer qual delas é "melhor", ainda que pense ser um representante da segunda categoria. O que não significa nada além de reconhecer que são aqueles os meus pares.

 

Então, eis a hermenêutica uma faculdade físico-bio-psicológica, cuja dimensão funcional é "cognitiva". Ela trabalha "trabalhando" os dados de fora. Transformando-os em "informações", vomitando-os na forma de ajustes críticos. É a mente "pensando", mesmo quando é o inconsciente pensando. Não é, contudo, a dimensão cognitiva do funcionamento da estrutura hermenêutica humana a única dimensão. Porque o real não é rigorosamente o real, mas aquilo que a mente transforma em real. E os dados que vêem de fora precisam ser classificados mediante critérios hierárquicos. Logo, há que haver um critério para a classificação, seleção, valorização dos dados. O "valor" aparece imediatamente ao lado do "conceito". É, não é; mas também: gosto, não gosto. Dimensão cognitiva, de um lado, mas dimensão afetiva de outro.

 

Não vamos aqui ver qual delas é mais importante. Uma sem a outra não funciona. Não há gosto sem conceito, nem conceito sem gosto. Não estamos falando de um dicionário, onde há ou pode haver de tudo. Falo aqui do ser humano enquanto vivendo na condição de ser humano. E a representação na qual esse ser humano vive é um a representação hermenêutica cognitivo-afetiva. Bastava dizer "representação", que, com isso, já saberíamos que só pode ser "representação hermenêutica". Aqui, a insistência é didática. Assim, igualmente bastaria dizer "representação hermenêutica", de tal sorte que, só isso, já sendo redundante, quanto mais acrescentar a isso a subclassificação "cognitivo-afetiva", porque, se é hermenêutica, só pode ser cognitivo-afetiva. Mas, repito, por ora, sejamos didáticos - e permitamos, e perdoemos, a redundância.

 

Diferente do mundo real, em que não há sentido nem preferência, a representação hermenêutica humana do real é ao mesmo tempo semântica e valorativa. Enquanto semântica, consiste na apropriação hermenêutica, conceitual, interpretativa desse real real. Real real, porque o real, ainda que , para mim, necessariamente representativo, é real em si mesmo, é duro, está lá. A mim, como ser humano hermenêutico, não me basta que esteja lá, de forma que esse real é tragado para dentro de minha representação "cognitiva", e, eu, para dentro dela. Enquanto afetiva, consiste na apropriação sob o signo do valor, sob a regência do gosto e do desgosto, daquilo de que eu gosto e daquilo de que eu não gosto. É esse gosto, esse valor, que determina a hierarquia dos conceitos, e esse valor que dá colorido ao mundo que, do contrário, seria indistinto. É mesmo nesse tópico que, a meu ver, instala-se a órbita da experiência do sagrado, que é uma experiência hermenêutica de "valor". Cognitiva? Claro, tudo (também) o é. Mas, sobretudo, "afetiva" - não no sentido de "sentimento" básico, mas de valor, que, é compreensível, desdobra-se, aí, sim, em sentimentos. Edgar Morin afirmou que "o sagrado é um elemento da estrutura da consciência, e não um estágio da história da consciência" (Mircea Eliade, Origens, p. 10). Concordo. E esse elemento da estrutura da consciência é um elemento hermenêutico, trifásico, mas, sobretudo, relacionado à hierarquia necessária ao mapeamento do real. Porque é necessário traçar rumos e caminhos no real.

 

Se a dimensão conceitual da hermenêutica é o que ela tem de própria e particularmente humano, a dimensão afetiva pode ter alguma relação com os mamíferos em geral. A tese nem é minha, mas a tomo de Edgar Morin. O afeto, de qualquer jeito, já está presente nos mamíferos, no cuidado das mães com suas crias, nas brincadeiras entre os filhotes. Pelo menos esse lado afetivo, enquanto comunhão, porque a afeição vista pelo lado da luta já está presente mesmo em toda a matéria viva. A fagocitose celular já é, de certo modo, uma dimensão básica disso que, em nós, sobredetermina-se na função dos valores.

 

Uma verdade, portanto, não é literalmente uma verdade. Quero dizer, não é ontológica. É ética e estética. Trata-se, sobretudo, de uma representação de que eu gosto, sob um ângulo que me agrada. E tenho de descobrir por que gosto dela. Nietzsche já falava sobre isso, quando criticava a ontologia da moral, desconsiderando a existência de valores em si mesmos. A seu modo, Karl-Otto Appel, hoje, tenta uma ética por via de um valor tomado assim, não como ontológico, mas como proveniente de uma comunidade de interpretação. Inescapável pesquisa essa, de cuja demora se ressente o planeta. Não capturamos o mundo lá de fora por meio de conceitos, para viver nesses conceitos, movendo-nos neles para nos mover no mundo. Capturamos o real real por meio de conceitos-valores, e vivemos neles. Assim, o mundo é isso ou aquilo de que gostamos ou desgostamos.

 

E tem mais: a hermenêutica humana é, fundamentalmente, volitiva. A vontade é onipresente, na qualidade de sim ou de não, de quero ou não quero, de pathos ou de apatia. A vontade designa a terceira dimensão da estrutura hermenêutica: cognitivo-afetivo-volitiva. Minha projeção sobre o real dá-se não a partir dos estímulos de fora - exclusivamente - mas, fundamentalmente, a partir de meu impulso de apropriação de dentro para fora. Apropriação do ar, da comida, da bebida, do "outro", do sexo. Tudo dentro de mim me leva para fora de mim, em abertura, e, contudo, o instinto de preservação faz-me sempre retornar para dentro de mim mesmo, sob o risco de, do contrário, desintegrar-se lá fora. Bem lembra esse movimento os batimentos do coração, infla, desinfla, enche, esvazia, leva e traz. Poderíamos considerar que são os estímulos de fora que me forçam a reagir. Os estímulos que interpreto, forçado por eles, como luz, som, gosto, tato, cheiro, forçam-me a partir de fora, de modo que, quer eu queira, quer eu não queira, o mundo me aperta como um tubo de pasta de dente. Verdade? E o que falaremos sobre a "apatia", a "depressão"? Hum? Claro, disfunções químico-hormonais do cérebro, que levam à perda da dimensão do real. Mas essa dimensão que é senão a expressão da vontade sobre o mundo? Deprimida a vontade, o mundo se torna praticamente inexistente. Não o quero mais, ele não me encanta, não o quero, não há o que querer. Além disso, se leio corretamente a experiência, a depressão mostra que mesmo vontade e afeição são emergências físicas também: não são objetos psicológicos exclusivamente. São psicológicos porque são físicos. Sem hormônios específicos, nem sexo há, quanto mais o mundo.

 

Penso que a citação seguinte resume bem, a seu modo, o que venho de dizer: "sabemos que a nossa compreensão cognitiva da complexidade do real em nenhum caso pode ser separada de nossos procedimentos internos: de nossa consciência, nossos desejos, nossos sentimentos-emoções e nossas pulsões, que têm uma papel fundamental na maneira de perceber e/ou de construir o real" (Alfredo PENA-VEGA e Paula STROH, Viver, Compreender, Amar - diálogo com Edgar Morin, em A. PENA-VEGA e E. P. DO NASCIMENTO, O Pensar Complexo - Edgar Morin e a crise da modernidade, Garamond, 1999, p. 179-198 [p. 179]). Apenas ressalvaria que a consciência, o desejo e os sentimentos emoções não são equivalentes. Equivalentes são a cognição ("nossa compreensão cognitiva"), a volição ("nossos desejos [...] e nossas pulsões") e a afeição ("nossos sentimentos-emoções e nossas pulsões"). A consciência, por sua vez, é tanto a câmara hiperônima, à qual aquelas dimensões da hermenêutica se subsumem, quanto a emergência biopsicológica da relação complexa entre elas.

 

Até aqui, portanto, a Hermenêutica se constitui como a faculdade humana estruturalmente físico-bio-psicológica e funcionalmente cognitivo-afetivo-volitiva de apreensão do real. Com ela constrói-se o mundo, com ela construímos "nosso" mundo. Significaria, então, acrescentar àquela definição a função cosmogônica da representação: a "função" da hermenêutica é a construção do mundo em que cada sujeito vive. Sim, sim, mas não é só isso, porque resta dizer como a hermenêutica constrói esse mundo. E, dizendo como ela faz isso, chegamos a descobrir que ela faz isso fazendo, ao mesmo tempo, outra coisa - construindo a identidade do próprio sujeito construtor do seu próprio mundo, e construindo esse mundo à luz dessa identidade, e essa identidade à luz desse mundo, ciclicamente, complexamente.

 

Mas fica para outro dia...

 

Por ora, e esperando aperfeiçoamentos conceituais:

 

Hermenêutica: biopsicológica e intrínseca faculdade humana de apreensão cognitivo-afetivo-volitiva de objetos e fenômenos da vida no processo de autocompreensão e cosmovisão operado pelo sujeito. 

Objetos e fenômenos da vida: coisas e acontecimentos da vida apreendidos pelo sujeito mediante operações interpretativas cognitivo-afetivo-volitivas no processo de autocompreensão e cosmovisão

Processo de autocompreensão e de cosmovisão: processo de apreensão cognitivo-afetivo-volitiva dos objetos e fenômenos da vida mediante o qual o sujeito constrói sua auto-imagem e imagem-do-mundo

Sujeito: feixe biopsicológico de estrutura hermenêutica em processo de autocompreensão e cosmovisão, mediante a apreensão cognitivo-afetivo-volitiva de objetos e fenômenos da vida.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 29/08/2007 14:12:42