Auto-ajuda. Sério?

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Amor virou sentimento. Explico: amor não era sentimento. Explico: na prática cultural do antigo Israel, amor era ação. Amar não era gostar. Você nem precisava gostar. Mas tinha que amar. Gostar é olhar pra pessoa e sentir afinidade. O coração se sente confortável. Amar não exige isso. Você não precisa gostar da pessoa. Não precisa querer passar a tarde com ela. Não precisa querer ficar conversando com ela. Não precisa querer ir ao cinema. Mas tem que amá-la. Tem que fazer o bem pra ela. Tem que ajudá-la. Tem que estender a mão. Tem que protegê-la. Tem que cuidar dela.

 

Ah, mas o amor virou sentimento. Agora, você nem precisa sentir misericórdia pelo sofrimento do próximo, misericórdia que é a alavanca das suas mãos, estendendo-se, para ajudar. Não precisa mais. Agora, basta gostar. Agora, basta abraçar. A gente se reúne, canta, aperta as mãos, se abraça, sorri – ah, o amor...

 

Mas isso não é amor. Isso é gostar. Quando é gostar, porque, às vezes, é hipocrisia mesmo. Seu mestre mandou abraçar, a gente abraça, e que Deus nos perdoe. Uma desgraça. Quando amor era amor, eu não precisava abraçar. Eu me abaixava, ajudava a pessoa a se levantar, e, resolvida a situação, podia seguir meu caminho. Podia fazer isso até resmungando, porque ia perder o horário para a novela, droga. Não faz mal, desde que eu ajude. Se eu pudesse além de ajudar, gostar, maravilha. Mas o que me era exigido era a ajuda, a ação para o bem, a misericórdia – as obras, as boas obras. Eu tinha que saber que era preciso ajudar, que era meu dever ajudar. Gostasse eu ou não de ajudar, sabia que não havia escolha.

 

É curioso que essa faculdade de gostar nem seja propriamente "humana" - é propriamente "mamífera". Não é pelo fato de sermos pessoas, mas pelo fato de sermos mamíferos, e não répteis, por exemplo, que dispomos da capacidade de gostar. Trata-se de afetividade. É biológica a afetividade. Como o cio. Mamíferos têm afetividade. Mamíferos têm cio. Instintivamente. Nos mamíferos, contudo, isto é, sem contar aí a espécie humana, mamífera, mas para além dessa condição, "ser humano", tanto o cio quanto a afetividade respondem a processos biológicos de manutenção da vida. Cio de tempos em tempos, e afetividade para cuidar das crias. A tartaruga desova, e vai-se. As tartaruguinhas nascerão meses depois, já soltas na vida, largadas na vida, abandonadas. Nascem sem afeição as tartaruguinhas. Não os coelhinhos, cujas mamães lá estão, para cuidar deles.

 

Em nós, tanto o cio quanto a afetividade deixaram de ser processos puramente biológicos. Tornam-se processos noológicos. Nunca deixarão de ser também biológicos, mas, doravante, são também idéias - podem dar prazer, e podemos nos concentrar no prazer que dão. Podemos, por exemplo, gostar não só dos filhos, mas até, incrível, dos vizinhos. É verdade. Nós podemos até escolher de quem vamos gostar, e se vamos gostar, e quanto, e quando. Mas isso nada tem a ver com a consciência da necessidade de socorro do outro. Afetividade não é amor, amor não é gostar de. Afetividade é mamífera. Amor, é humano. Amor é poder dizer à Natureza - chega, eu ajudarei o fraco. Chega - eu estenderei a mão.

 

Bons tempos.

 

Felicidade virou sentimento. Ah, meu Deus, outra desgraça. Dizem-me que eu ponha a cara diante do espelho, olhe nos meus olhos, e repita três ou sete vezes, que sou feliz, e pronto, está resolvido. Se eu não me “sinto” feliz, depois de dizer isso diante do espelho, é porque sou um infeliz, mesmo. Ou um imbecil.

 

Queria saber quem inventou essa desgraça. A do amor, eu imagino. Fomos nós mesmos, protestantes e evangélicos. Primeiro, caímos no individualismo teológico da Reforma – eu me resolvo sozinho, com Deus, e pronto. Depois, caímos no subjetivismo sentimental do pietismo: eu sinto Deus, pronto. Dissolvemos a experiência de Deus no outro numa espécie de sentimentalismo teológico. Posso gostar de Deus, agora. Posso senti-lo, é o que me dizem – e é o que acabo sentindo, sem me dar conta de que sinto meu sentimento. Quando se vai estudar Fenomenologia da Religião, ainda nos assombramos de que o professor não consiga entender que a gente sente Deus, e pronto.

 

Quando a experiência de Deus se dava no encontro com o outro, e quando não amar o outro era não amar Deus, não estava disponível para mim a afirmação programática de que meu dever era apenas gostar do outro, que o bom cristão é aquele que tem bons sentimentos pelo mundo, que acorda de manhã, abre a janela, e diz para todos – e para ninguém – que ama o mundo. Não era possível isso como exercício do amor. Hoje, sim. Ter bons sentimentos. Pelo outro, e em mim.

 

Bons sentimentos em mim é o que se diz ser a felicidade. Eu tenho a capacidade, o dever, de ser feliz. Felicidade é estado de espírito. Felicidade é orgasmo anímico. Felicidade é sublimação do corpo. Felicidade é zen.

 

Às favas. Veja você o caso de shalom. Shalom é paz. Mas o que é paz? A superação da violência e da guerra? Não. Isso até está contido no conceito de paz enquanto shalom, mas shalom é muito mais do que isso. Se a África miserável superar seus conflitos civis, a África estará em paz? Claro que não. Enquanto houver um faminto, esquálido, exangue, barrigudo de vermes e cabeçudo de desnutrição, shalom não desembarca naquelas praias. Shalom é o conjunto das condições materiais para a vida. Tudo – terra, casa, família, trabalho, pão, lazer. Não haverá shalom no céu, porque almas não precisam de shalom. Corpos, sim. Shalom é para nós. Aqui. Agora.

 

Felicidade não é sentir-se feliz, como se felicidade fosse sentimento que se sente. Os livros de auto-ajuda tentam promover esse sentimento de ser feliz: upa, cavalinho, upa. Muito bonito: querem que dona Maria, chão de terra, panela suja e vazia, filhos remelentos, de olhos pousados de moscas, escorados, sempre, aos portais das palafitas, sinta-se feliz, que felicidade é isso, coisa de sentir. Você sopra o balão, ele infla – você respira fundo, e pronto, fica feliz? Ora, faça-me o favor. Deviam ter vergonha.

 

No vigésimo sétimo andar da Barra da Tijuca, vá lá. Bora na garagem. Conta no banco. Filho na UFF. Paris no álbum. Banda-larga. TV de plasma. Se um infeliz desse não sentir-se pleno de realização existencial, faça uma avaliação de sua cabeça, e de sua vida, que uma das duas, senão ambas, vai mal. Mas dona Maria? Tem dó.

 

Quando se repete trezentas e dezoito vezes que a pessoa pode sentir-se feliz assim como ela está, independentemente de como ela esteja, o que isso põe em marcha? Primeiro, uma segunda desgraça na cabeça da pessoa. É já uma miserável, porque não tem na vida o mínimo que a vida deveria dar a quem traz para si. Não pediu. Nem sabe se queria vir. A vida traz, e mete nessa situação. Uma desgraça. Olha pra a renca de filhos, e se sente incapaz, impotente. Não tem educação, não dá educação. Não tem feijão, não dá feijão. Que dor dessa mãe. Que dor desse pai. Que vida. Vida? Agora, vem o moço do livro, a moça da reportagem, até o senhor da igreja, e diz que a falta de felicidade é até pecado. Desgraça dupla. Tripla. Os agentes das desgraças não são os desgraçados. Desgraçados são os pobres. Os agentes são desgraçadores.

 

Dona Maria tem direito de ser triste. De chorar. De saber que não tem vida, que vida não é processo mitocondrial. Vida é conceito ecológico. Há amebas mais felizes que mais da metade da população mundial. A África é infeliz. A América do sul tem bolsões de infelicidade. A Ásia contrasta bolhas de felicidade com universos inteiros, mundos inteiros, de infelicidade e desgraça. Há menos, mas há, infelizes na Europa, na França, e na América do Norte, New Orleans que o diga. Quem dera três, quatro, cinco bilhões de livros de auto-ajuda, heim?, para essa gente pobre ler e se sentir feliz. Heim? Que maravilha. Felizes como estão – como estão – não vão querer o que eu posso ter, e não damos pra todos, só pra uns. Que seja eu.

 

Quem ganha com o discurso da auto-ajuda? Naturalmente que, antes de todos, os escritores de livros de auto-ajuda. Mas escrevem, porque vendem. Ganham as editoras e os editores, sempre à caça do que vende. Ganha uma parcela da sociedade que vê adiada a revolta dos infelizes, a gritar que é injusto que uns tenham, e tanto, e outros não, e nada. Enquanto vamos acreditando na auto-ajuda, na panacéia psicológica e psicotrópica, a cada vez maior massa de famintos vai sendo instruída a perceber que pode ser feliz, assim, como está, do jeito que está, mudar pra quê?

 

Quem perde? Perdem os pobres. Quanto mais pobre, mais perde. Terá anestesiada a sua indignação pessoal, aviltada até pelo sentimento de que é um absurdo existencial que não seja feliz, a vida lhe deu tanto. Assim anestesiada, talvez sofra psicologicamente menos do que se chegasse à consciência terrível de que sua vida miserável é mantida assim, miserável, pela absoluta falta de comprometimento da sociedade como um todo. Imagina se chega a essa compreensão de sua miséria, e nada vê possível como solução. O mar inteiro não terá sal para as lágrimas. Nesse caso, a anestesia é até um benefício.

 

Mas não para os pobres. Benefício para a desgraça que lhes fazemos, quando transformamos a vida deles num joguinho de psicologia barata. Psicólogos de terceira categoria gostam de auto-ajuda. Religiosos de terceira categoria gostam de auto-ajuda. Políticos de terceira categoria gostam de auto-ajuda. Filósofos de terceira categoria gostam de auto-ajuda. Pra os outros, os pobres, que para eles mesmos, dim-dim no bolso, carrão na porta.

 

De minha parte, não aceito a tese. Felicidade não é sentimento. Felicidade é o conjunto de condições imprescindíveis a uma vida digna. Felicidade é terra, é casa, é família, é pão, é festa. Felicidade é ter uma terra para plantar e colher, sejam hortaliças, sejam flores, sejam estacas e tendas. Felicidade é uma casa com portas e janelas, pelas quais entre o sol e a família. Felicidade é uma mulher de perfumes, um homem de chamegos, é filho, é filha, é netos. Felicidade é a mesa posta, a panela no fogo, o chiado da pressão, o aroma do café, o gosto da água gelada. Felicidade é comer e beber, porque para isso aqui viemos. Se nos trouxeram aqui não para isso, ao inferno todos eles.

 

Somos monstrinhos de músculos e neurônios. Daí que, é provável, é certo, que haverá pessoas tristes, mesmo quando felizes. A mente humana pode querer sempre outras coisas – e deve ser assim. José terá tudo isso, mas vai querer, talvez, a Maria do João. Coisas de Josés, Marias e Joões. Essa constatação não ab-rogaria minha recusa de tomar a felicidade como sentimento. Sinônimo de condições dignas de vida, a alegria seria companheira mais assídua, mais honesta, da felicidade. A questão da adequabilidade da mente às condições concretas da vida é uma questão séria. Mas nada tem a ver com a felicidade. A felicidade tem a ver com justiça social, com solidariedade, com fraternidade, com democracia.

 

Um país infeliz, como pode se dizer democrático? Um país com fome, sede e peste, como pode ser democrático? Não há nem pode haver nenhum valor dito democrático maior do que o desejo de ver o povo inteiro feliz – e, feliz, já se sabe, é a plena posse da terra, da casa, do pão, e o pleno gozo da família e da festa. Terra para todos – Reforma Agrária. Casa para todos – Programas Habitacionais. Trabalho para todos – Desenvolvimento com Distribuição de Renda. Família para todos – Educação e Planejamento Familiar. Festa para todos – Cultura, Esporte e Lazer.

 

Feliz não é a nação cujo deus é o Senhor, não, que tem muita gente tendo por Senhor um sinhozinho qualquer. O Nordeste que o diga. Feliz é a nação cujo povo vive em dignidade, em condições dignas de vida, que tem terra, que tem casa, que tem pão, que tem família, e pode agradecer, aí sim, ao Senhor, pela vida.

 

Não posso dizer que não seja feliz. Mas posso dizer que a maioria do povo brasileiro não só é infeliz, como ainda tem que acreditar que é ou pode sentir-se feliz, enquanto nós, que repetimos essa barbaridade, podemos olhar no espelho e ir dizendo que nada temos com isso. De Deus, da vida, deles mesmos deve ser a culpa. Nossa, não.