Aforismo 129

– crer, descrendo, descrer, crendo

Osvaldo Luiz Ribeiro

09/12/2006

 

 

 

  • 129 – As condições de Deus – “o próprio Deus não poderia subsistir sem os homens sábios”, disse Lutero, e com muita razão, mas “Deus ainda menos poderia permanecer sem os insensatos”, foi o que esse bom Lutero não disse” (Nietzsche, A Gaia Ciência).

 

 

 

Gosto de Nietzsche. Pensei ser uma boa idéia começar dizendo isso. Acho que gostei dele desde o primeiro dia que me disseram que ele não prestava. É. Disseram-me que ele não prestava. Ele e Voltaire. Passei a gostar dos dois. De Nietzsche, mais. O que não significa que sejam perfeitos. Não gosto deles, porque sejam perfeitos. Não gostaria nem de mim, se fosse assim que gostamos das pessoas. Gosto deles, e de Nietzsche ainda mais, porque falam coisas de que gosto. Porque me vejo em muito do que eles dizem. Não em tudo. Mas em boa parte.

 

Esse aí de cima sou eu escrevendo. Quem dera. Muitos outros leitores de Nietzsche já devem ter experimentado esse sentimento, de querer ter escrito isso que ele escreveu. Eu sinto isso, porque coisas que leio, que ele escreveu, são coisas que eu poderia ter escrito, isto é, não pela capacidade, ou estilo, ou que, nesse caso e momento, eu esteja me comparando a ele, não se trata disso, de nada disso, se trata de eu dizer que isso que ele escreveu, essa coisa dita, essa proposição, é tão a minha cara, é tão aquilo em que eu acredito, é tão “eu”, que, nesse sentido, eu poderia ter escrito isso.

 

Esse aforismo 129, eu o quereria ter escrito. Mas ele demorou tanto tempo pra ser lido. Chegou-me tão tardiamente. E, no entanto, nunca se está preparado para ele, se nunca se encontrou com ele. É preciso deixar-se sacudir por ele, como quem sacode alguém em crise histérica, com o risco, naturalmente, de se tomar nojo dele, justamente por isso, pela desfaçatez de vir Deus sabe de onde, intrometidamente, deselegantemente, vazando-nos os olhos, torcendo-nos as tripas.

 

Por outro lado, pode ser recebido, também, como a lama dos olhos que o Evangelho põe na mão de Jesus e, daí, nos olhos do cego, somente para, depois, mandar que ele a lave e limpe, no Tanque do Enviado. Nada do milagre, ali, o que interessa mesmo é a encenação da cegueira, curada no Tanque, mas, bem sabido, a salvação só vem quando o cego-agora-são sai de sua posição tradicional, ainda que forçado de dentro, e encontra, agora, assim, despido, aquele a quem esperava a vida inteira. Muito de uma lama que me tinham os olhos cobertos eu a lavei em Nietzsche. Saber se era mesmo lama, ou se agora é que me tenho enlameado os olhos, essa é uma questão que o risco da self-deception sempre impõe a mim.

 

Deus subsistir mercê de homens sábios é uma construção interessante. Uma vez que esses mesmos homens sábios afirmam que Deus se lhes chegou por meio de uma revelação, segue-se que Nietzsche está falando seja nos termos de Schopenhauer, de quem gostara muito, um tempo, ou nos termos de Feuerbach, seu contemporâneo. Em todo caso, Deus, aí, corresponde a um construto noológico, cultural, administrado de forma racionalizadora em sistemas teológicos situados. Não há, aí, uma discussão sobre a existência ou não de uma contra-parte não noológica desse Deus fora desse recorte proposicional teológico, assumido de forma fideísta-voluntarista pelo fiel teísta. Há, apenas, a consideração de que o andor desse Deus é carregado por um número importante de homens sábios.

 

Bem, essa leitura talvez se aplique a Nietzsche. Não, naturalmente, a Lutero. Lutero, evangélico, entende falar de Deus mesmo. Mas não estamos lendo Lutero. É Nietzsche que lemos. E, ainda que Nietzsche leia Lutero, ele não o toma na sua dimensão fideísta. Nietzsche toma Lutero em sua própria perspectiva, isto é, assumindo o Deus teológico-eclesiástico como representação cristã.

 

Nesse caso, eu só posso agir, hoje, como Nietzsche. Não posso agir como descrevi Lutero, acima. Não é que alguém me impeça. Eu me impeço. Sei que, ao falar de Deus, pobre de mim, estou falando de minha idéia sobre Deus, e, como bem o disse Feuerbach, estou, então, falando de mim mesmo, que Deus é como eu sou.

 

Eu posso crer em Deus, e, até certo ponto, creio. Não posso encher a boca com a palavra “creio”, porque ela está uma palavra corrompida, e, na maioria das vezes, implica a concordância entre a palavra Deus e uma proposição teológico-doutrinária. Nesse sentido, não creio, porque, se alguém me der uma série de opções, numa prova, com base numa série de “credos” históricos do cristianismo, e eu tivesse que marcar um xis na alternativa que mais me parecesse adequada, imediatamente devolveria a prova, caso ali faltasse a opção “nenhuma das alternativas anteriores”. E, nesse caso, não que faltasse ali uma confissão de fé que me parecesse adequada, mas pelo fato de eu achar que nenhuma confissão de fé é “adequada”.

 

Por outro lado, não posso dizer que não creio, porque, nesse caso, eu deveria ter ido ao mundo das crenças possíveis e, depois de tê-las olhado, desgostasse delas. Mas simplesmente não posso dizer nem sim nem não a Deus. Posso apenas olhar para a sua possibilidade, e assumir o risco, numa atitude complexa de crer, descrendo, e descrer, crendo. Assim me definiria, hoje: creio, descrendo, e descreio, crendo.

 

De modo que Nietzsche é meu contemporâneo, ainda que cem anos mais moço. De modo que Nietzsche não me estranha, o que me estranha é a náusea que ele causa. É como se o ar causasse alergia. E deve ser, depois de tanto tempo no porão...

 

Mas eu quero ar – e ainda mais. Ainda sinto que sufoco. Nietzsche não me pôs a caminho. Ele me fez parar de andar. E preciso, doravante, decidir para aonde.

 

Na bagagem, contudo, algumas anotações importantes e, a maior delas, é essa: Deus não é Deus. Deus é uma construção noológica, cultural, histórica. O Deus, que Deus não é, contudo, não é isso – se é o que se diz ser, não é isso. E, contudo, não pode ser dito o que ele seja. Para que seja, tem que ser deixado na sombra. Deixado na sombra, pode ser, mas não pode ser dito. Se quiser ser dito, deixa de ser. A “malandragem” retórica da teologia, quase que se pode generalizar aqui, é justamente esconder esse risco, é começar a falar, e não parar mais de falar, sem anunciar, sem denunciar, que não poderia falar. Aí, assim meio constrangidamente, a teologia tem de, de quando em quando, assumir uma certa distância analógica de seu objeto, concessão irritante, porque, nesse momento, todo poder é ameaçado de dissolvição, e o teólogo, arrepia-se-lhe os cabelos de que tudo quanto é sólido se desmanche no ar.

 

Pois eu quero é arrepio, da nuca aos calcanhares, que é isso que eu sinto quando Bel me beija, e não pode ser ruim também aquele que as ameaças noológicas nos causam. Há um link límbico entre nosso cérebro mais primitivo, erótico, violento, e nosso cérebro mais adolescente, noológico, e é natural que as ameaças de fantasmas levem propriamente ao arrepio dos poros, como até os gatos sabem.

 

A questão é: medo de quê? Da falta de chão? Então é isso? Não se trata de teologia – se trata de psicologia pessoal, ou se psicologia social? Que Nietzsche tire o chão de debaixo de muitos pés, de que pode ser acusado? Por que não mudamos o final da história, e aquele menino termina levando uma surra de bicho por conta de ter dito a todos que o rei andava com as vergonhas a experimentar a fresca?

 

Eu quero é muito Nietzsche, muito Prigogine, muito Edgar Morin. E para a teologia. Não para sepultá-la, mas para continuar sua peregrinação, que a jornada dela segue, de certa forma, o drama encenado na teologia da encarnação – de Deus a homem de dores. Pois a teologia nasceu deusa, em Platão, continuou deusa em Agostinho, para chegar à sua via crucis não tem nem duzentos anos, em termos mais ou menos aproximativos, com o Romantismo Alemão.

 

É muito elucidativo que a teologia tenha se tornado humana, demasiadamente humana, justamente na terra onde, segundo Nietzsche, o cristianismo encontrou sua ressuscitação potencial, na figura de Lutero. Nietzsche considera que o cristianismo ia moribundo, morto-vivo, nos estertores da morte, quando, de repente, renasce das cinzas, pelas mãos de um alemão. Nada mais irônico que também pela mão de alemães, os românticos, a teologia tenha se tornado mulher de dores, impossibilitada de saltar dois metros de altura, quanto mais ao céu.

 

Esse movimento alemão, esse sim, é a verdadeira Reforma, porque, a de Lutero, não passou de caricatura e paráfrase envergonhada de Roma. É com o século romântico que todo o edifício, não o escritório do gerente, é posto sob terremoto. Não é à toa, não, não, que toda a cristandade reagiu: Roma, com a Vaticano I, a Europa, com Karl Barth, e os Estados Unidos da América, com o fundamentalismo. Sepulta-se assim, deseja-se, a ameaça romântica.

 

Que a imprensa, contudo, guardou, e, como lava de vulcão, pode vazar pelo cone de cada encontro entre uma “alma” em emancipação e a intuição romântica, gestora das Ciências Humanas.

 

Sim, Nietzsche está certo em apontar para a sabedoria dos homens sábios, em garantirem a subsistência de Deus. Talvez, Deuses, ainda que essa palavra, no plural, com d maiúsculo, seja um nonsense ocidental. É preciso muito malabarismo retórico e homilético para tanto. É preciso capturar as consciências por meio de sua própria experiência mística situada. É preciso levar o individualismo ocidental a garantir-se como fundamento intocável da “verdade” teológica. O que os homens sábios dizem é garantido pelo que as pessoas “sentem”, de tal modo que não é mais pelo que os homens sábios dizem, mas pelo que as próprias pessoas sentem, que a “verdade” está garantia. Na experiência do fiel de Deus é que Deus subsistit in.

 

O que dá, mais uma vez, razão a Nietzsche, quando ele vai além do que disse o bom Lutero: “o próprio Deus não poderia subsistir sem os homens sábios”, disse Lutero, e com muita razão, mas “Deus ainda menos poderia permanecer sem os insensatos”, foi o que esse bom Lutero não disse”. Bate bem batido o moço, não? Bate e bate doído. E o pior é que tanto mais dói quanto mais se resiste à surra.

 

Aldous Huxley tem um apêndice extraordinariamente profundo em seu igualmente importante Os Demônios de Loudun. Ele discute, aí, os meios artificiais – ele diz “horizontais” – de autotranscendência. Quando fala das “reuniões”, das “massas”, ele discute a faculdade que os homens têm de se despersonalizarem, quando constituindo “grupo”. Daí, fala do uso religioso, para o bem, dessa despersonalização psicológico-sociológica humana. Para ele, isso é imoral. Também para mim.

 

Posso unir as duas afirmações, porque o que Huxley denuncia é justamente para o que Nietzsche está apontando. É necessária uma passivação, uma heterodoxação, para que o indivíduo simplesmente acate as construções sobre Deus, e as encarne. O processo retórico-homilético que isso envolve é complexo, já discutido em outros contextos, por exemplo, quando Paul Veyne pergunta-se por que mecanismos os gregos criam em seus mitos, e responde, entre outros elementos, com a “pessoa do narrador” (Acreditavam os gregos em seus mitos? Brasiliense: 1984), e por Marcel Detienne, quando, lendo A República, deixa a saber que há uma questão pendente no projeto ideológico do governo da cidade dos filósofos, que é saber se os homens vão acreditar nos mitos que o governo encomendou, para com eles enfeitiçar e encantar a cidade, o que se resolve com a explicação de que, se não a primeira geração, certamente a segunda e a terceira, sim, e daí em diante.

 

Por que a porta de entrada na igreja evangélico-protestante é a catequese? Que seja assim em Roma, concebe-se, mas entre nós? Não é esse procedimento indicativo da “regra do jogo”, digo, da “regra de fé”? Não quer isso dizer que o cristão já tem algo a saber, e não algo a saber sobre como se produz o que se chama o saber? Não significa que o fiel deve já ir se acostumando a identificar, sem questionamentos, revelação e doutrina, se não já, revelação e pregação? Não significa que o fiel já está recebendo, como diz Judas, de uma vez por todas, a fé dada aos santos?

 

Sim, é uma afirmação de Judas, em três tempos, que a fé é doutrina (v. 3), que o fiel deve levar sempre consigo e lembrar-se dela, porque, de uma vez por todas (v. 5) a recebeu das palavras dos apóstolos, de modo que deve combater por ela (v. 3). O que coloca o próprio cristão diante de um conflito não apenas epistemológico, mas inclusive ético, porque, enquanto se articulam movimentos ecumênicos, a própria Escritura dá o tom, na ordem do dia: combater.

 

Diante disso, é necessário fazer uma distinção entre entender bem o que Judas diz, e concordar com o que Judas diz. Entendo. Discordo. Não posso combater pela fé, e sequer admitir que ela me veio de uma vez por todas. Essas palavras de Judas devem, sim, ser criticadas eticamente. Ou, então, assumidas como estão, sem que, depois, me venham encher os pacovás com conversas de ética e justiça, pelo amor de Deus. Se estamos metidos até o pescoço num problema de proporções inimagináveis, não é absolutamente culpa nossa, muito menos de “Deus”, mas, propriamente, da história cristã tal qual ela decidiu-se construir. Não posso, em nenhuma hipótese, ontologizar as arbitrariedades circunstanciais do cristianismo. Nem posso tomar as expressões do Novo Testamento como a-históricas, a-intencionais, a-políticas, a-éticas. São humanas. Humaníssimas. Ainda que me sói agradar ter nelas uma aura advinda do Inefável. E, se sim, também cá eu tenho minha aura advinda do Inefável, e contudo, tenho cá também meus, o quê?, seis, sete metros de intestino?

 

Não posso saltar sobre a História, e, como que fora dela, fazer afirmações não-históricas. E, se os textos bíblicos o fazem, é porque viviam em outra época. Vou lê-los, e leio-os – e como –, mas não assumi-los como um teólogo x, um pastor y ou um credo w me venham dizer, que eles sabem como eu deva ler a Bíblia, quando a própria Bíblia não tem seu próprio manual de leitura. Nem de Platão, que não me diz chus nem bus, me agrada, em sua empáfia, quanto mais qualquer homem ou mulher, que, me olhando nos olhos, me digam que eles receberam orientações especiais da Providência, que me faltam porque não as recebi. Que guardem para si esse saquinho de malícia.

 

Não é por isso que Nietzsche diz o que diz, que é necessário homens insensatos, para que aquele Deus subsista? Claro! O Anticristo, dele, é um libelo contra essa atitude domesticadora do cristão, que ele chama, ali, de “besta de carga”. Nesse sentido, de rês, a quem se põe jugo e cangalha, e se toca daqui para ali, e dali para aqui. Pode-se até dizer que tem quem goste disso – eu quero saber é se quem gosta disso, alguma vez lhe foi dito que não é necessário isso para que Deus goste dele. Ao homem que um dia viu a luz, até pode ser que lhe sejam preferíveis as trevas. Mas que os milhões de cristãos tenham decidido entregar-se na mãos de terceiros signifique, que, afinal, o povo não quer autonomia, é o cúmulo da instrumentalização da deseducação de um povo.

 

Quanto a mim, prefiro acreditar que, tendo o direito de escolher, sendo diante dele colocado, honestamente, o jogo, que o jogador prefira o caminho de persegui-lo com os próprios pés, ainda que se dissolva a preferência pessoal num comunitarismo situado. É tão pouco educada a síndrome do sacerdote, deselegante e anacrônica para a cultura ocidental, quanto a atitude de consideração do povo pobre como gente sem senso de dignidade pessoal. Modifique-se o sistema educacional cristão, substitua-se a catequese pela discussão epistemológica, e aposto que teremos uma agradável surpresa.

 

No campo pragmático da teologia, os ministérios pastorais e seus desdobramentos, de que forma esse aforismo deveria ressoar nas consciências? Bem, pelo que me toca, num primeiro momento, dada a primeira parte do aforismo, na adoção de uma atitude e de um comportamento compatíveis com a compreensão de que o deus do discurso humano é, vejam só, humano, e que qualquer tentativa de “pregar” Deus caricatura-se em pregar deus. As conseqüências disso devem ser fruto de reflexão.

 

Num segundo momento, próprio da questão levantada por Nietzsche na segunda parte do aforismo, é recusar-se a, sob qualquer hipótese, manipular consciências, afirmar como universalmente válida uma proposição regional, esconder do público os pressupostos retóricos que compõem o programa pastoral, a circunstancialidade da teologia, o caráter antropológico da doutrina, sua fragilidade epistemológica fora do fideísmo voluntarista.

 

Transparência.

 

O que me faz recordar-me de um livro bastante antigo de Hans Küng: Veracidade, o Futuro da Igreja. Não apenas recomendo o livro – endosso a tese de que o caminho para nossa sobrevivência a médio prazo é a veracidade, a capacidade de sermos honestos, primeiro, com as nossas próprias consciências, e, então, com nosso próximo. Se não temos condições, contudo, de ser honestos com nossa própria consciência, se não nos damos efetiva, verdadeira e profundamente conta de nosso constante risco de self-deception, e se, levando-o a sério, não traduzimos isso em atitudes práticas, não há mais nada a ser feito.

 

A veracidade não propõe o ateísmo como alternativa à crise epistemológica que a cultura contemporânea, humanista, romântico-idealista, de um lado, e técnico-cartesiana, pragmática, instrumentalizadora e capitalista, de outro, impõe à “fé” – a saber, a fé-enquanto-doutrina, para cuja distinção em face das demais, fé-enquanto-encontro, fé-enquanto-encanto e fé-enquanto-entrega, sugiro meu livrinho bastante simples, publicado para o público evangélico popular da MK, O que é Fé? A alternativa é tão-somente a veracidade, o reconhecimento da fragilidade fragílima do estatuto ontológico da fé, que apenas não se dissolveu, ainda, depois dos últimos séculos de humanismo histórico, por conta de um acirramento da retórica teológica, um ensimesmamento denominacional cada vez mais anacrônico.

 

Na prática, pelo menos aquela que experimento, é olhar para o céu, ou para dentro de mim mesmo, e ter que dizer: Deus, eu creio em ti, e, ao mesmo tempo, dizer: Mas Deus, eu não tenho como crer em ti. A teologia cristã esteve nesse mirante há cem anos, mais ou menos. Disse isso a Deus. Mas recebeu, dele, um saquinho de doutrinas, e ela voltou para o púlpito, feliz, feliz, e danou a escrever livros de teologia. Voltemos lá, e recusemos o saquinho.

 

Que manhã alvorecerá depois desse sonho?

 

Só posso intuir, antever: será uma manhã em que se despertará crendo, descrendo, e descrendo, crendo. Crendo sem ter no que crer, nem como, porque aquele a quem a fé é dirigida, não se permitirá mais apontá-lo. Não é mais perguntar quantos caminhos levam lá, mas assumir que, afinal, não há caminho, porque a palavra é inútil. Como Deus deve tornar-se.

 

(texto baseado, a posteriori, em meu discurso paraninfal à turma de formandos 2006 do Curso de Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no templo da PIB do Rio de Janeiro. O discurso, sábado, 09 de dezembro. O texto, entre domingo, 10, e hoje, segunda, 11 de dezembro de 2006. Fica registrada minha honra em face do privilégio, ao qual busquei, a meu tempo e modo, honrar).

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 08/09/2007 23:44:00