A Teologia é os Teólogos

Osvaldo Luiz Ribeiro

26/07/2008

 

Quero dizer com isso que, diferentemente das demais disciplinas das ciências, sejam as duras, as ditas da natureza, e as moles, as ditas humanas, a teologia é aquilo que teólogos e teólogas fazem de conta que ela é. “Fazer de conta” aí é literal. “Faz de conta” que é verdade tudo quanto em que a gente acredita. Ponto. Agora, fazendo de conta que tudo em que a gente acredita é verdade, vamos “raciocinar”. Aí, nasce a racionalização teológica, de que se enchem os livros, às toneladas, e gemem as florestas.

 

Mas a situação da teologia, no Brasil, agora no MEC, vai chegando ao ponto do constrangedor. E não vi, ainda, nenhum sinal de que o constrangedor esteja sendo flagrado e admitido por nós, teólogos e teólogas. Pelo contrário. Só agora é que se tenta pôr no papel o estatuto epistemológico da teologia – mas não para “pensá-la”: tão somente para tentar-se legitimar o que é ilegitimável.

 

Por que constrangedor? Porque se fizermos como a teologia que aí está quer, isto é, se fizermos de conta, e levarmos a sério essa série de fazeres-de-conta, agora, quando se aceitam – e tem de se aceitar mesmo! – uma “nova” composição de “atores” (teólogos não apenas “cristãos”, mas, também, umbandistas, e, logo, kardecistas e todos os demais), há de se perceber – se ainda não arrancamos os olhos da cara, naturalmente – que, entre si, os “fazeres-de-conta” são concorrentes, antagônicos, irreconciliáveis. O constrangedor se dá, justamente, porque a condição de faz-de-conta dos sistemas teológicos racionalizados torna-se, agora, ainda mais gritante, mas iniludível, mais ineludível, e, contudo, apesar disso, parece, ao mesmo tempo, que a comunidade dos teólogos e das teólogas nem se dê conta. Os teólogos cristãos nem se deram, ainda, ao trabalho de prestar atenção no fato de que o termo “teólogo” não lhes pertence mais.

 

Não vejo a hora da invasão, das colisões de fazeres-de-conta, da exposição vexatória dessa situação ameaçadoramente constrangedora. Vai ser um pega pra capar. Teólogos desesperados, atrás de uma maneira de manter o (seu) faz-de-conta intocável – a criatividade deverá ser maior do que a retórica da teologia como metáfora! [Falar em poesia daquilo que não se sabe do que se está falando, e ainda dizer que isso é uma forma legítima de falar daquilo... Ah, Feuerbach, se a minha impaciência é tanta, imagine-se a tua!] O problema dessa nova situação – a “metáfora” pretendia, apenas, dourar a pílula do faz-de-conta com uma aura de aceitabilidade moderna, um lenitivo para consciências constrangidas, mas arraigadas no solo da tradição inalienável – é que não se trata de uma nova plataforma paradigmática, que é fácil contornar com retóricas, mas o confronto de mundos, de teologias, de imaginações fantásticas, assumidos em suas diversas frentes, todos esses mundos, sob regimes retórico-racionalizadores.

 

Como não? O que um teólogo cristão, logo, monoteísta, vai dizer a um teólogo umbandista? O que um vai dizer ao outro, quando seus respectivos fazeres-de-conta se chocarem – na “pesquisa”? Deus? Um Deus? Vários? Pessoal? Pessoais? Energias? Reencarnação? Ressurreição? Predestinação? Livre-arbítrio? Pecado? Carma? Purificação? Condenação? Ou se chega a um acordo sobre a condição de faz-de-conta dessa verborragia teológica milenar, ou cada um vai brincar com seu brinquedo em sua salinha de brincadeiras – mantendo o constrangedor chamar isso de ciência – alternativamente, faça-se como Zabatiero quer: não se lhe chame de ciência, pra continuar fazendo a coisa do jeito que ela tem sido feita. Qui prodest?

 

Nesse sentido, os teólogos originais eram mais coerentes. Como criticar um Justino, que fez teologia alegórica num mundo em que o “valor” era a alegoria? Como reclamar de um Ireneu, que fez a alegoria casar-se com a tradição, se, no seu mundo, tradição e alegoria são “valores”? Que dizer de um Tertuliano, que viu, no casamento Justino-Ireneu, a “verdade”, e apenas acrescentou a ela a idéia de “direito” romano? Inventaram o cristianismo, esses dessa trindade patrística, com os tijolos do seu mundo. Deles, de sua criação, saíram, coerentes, Orígenes, Agostinho – até um Aquino! Se bem que Aquino já inaugura a espécie de teólogos modernos/contemporâneos. Enquanto a comunidade dos teólogos pré-Aquino cozinhavam seus fazeres-de-conta com/no caldo de sua cultura, Aquino começa, castrando Aristóteles, a obliterar a cultura, a mitigá-la, a sufocá-la. Depois de Aquino, perde-se completamente a vergonha. O faz-de-conta vira “realidade”, contra a própria realidade.

 

Melhor do que Aquino – tão pior quanto! – foi Barth. Aquino castrou Aristóteles, Barth, todos os monstros do século XIX. Aquino castrou um homem, e o alvorecer de uma cultura. Barth, um cultura madura, viva – e a teologia cristã pós-Barth é de um constrangimento assombroso. Nada mais anacrônico, porque nada, absolutamente nada, na epistemologia cristã pós-Barth tem a ver com a cultura, seja do século XIX – que século, o século! – seja do XX. Ser teólogo, hoje, é, obrigatoriamente, inapelavelmente, inexoravelmente, ser medieval. Corpo e cabeça medievais. Mas gestos modernos, modernas retóricas.

 

Não há um sequer. Citem-nos – Bultmann?, Tillich?, Pannemberg?, Moltmann?, Rahner? Um Küng chegou perto – no Teologia a Caminho, mas com aplicações apenas para a teologia cristã (de resto, talvez, para toda relacionada a livros sagrados, mas inaplicável à teologia umbandista, por exemplo – logo, uma solução doméstica, ainda) –, para, logo, afastar-se, de novo – no Por que ainda ser Cristão Hoje?  [aqui, o método histórico-crítico é citado, retoricamente, como "razão" para a fé!] Talvez tenham sido, todos eles, homens em conflito – desesperado conflito. Mas eram, acima de tudo, homens entregues ao faz-de-conta. Para todos eles, a retórica do faz-de-conta ainda é mais valiosa do que a cultura em que vivemos. Por que não adentramos nesse Novo Mundo, arrastando aquele Velho...?

 

E é aí que se tornam anões diante de Justino, Ireneu e Tertuliano, porque a trindade patrística construiu a teologia com os tijolos de seu tempo, e ela transformou-se no que se transformou, porque aquele era o tom do tempo. Já os nossos contemporâneos rejeitam os tijolos do tempo, do nosso tempo, e esforçam-se por manter o faz-de-conta no ar. À custa de nossos olhos. À hipnose de nossos ouvidos - porque a fé vem de ouvir...

 

Um amigo meu disse-me que, almoçando com um grande teólogo brasileiro, desses de freqüentar jornais e TV, esse teria afirmado, categoricamente, que o século XIX está morto, porque as suas críticas eram infundadas. Não é preciso mais nada – nessa fala, aí, justamente nesse diagnóstico, está o raio-X da teologia, dos teólogos: o maior terremoto da História, o século XIX, é, simplesmente, desprezado, jogado para debaixo do tapete, como quem esconde, assim, o lixo indesejável, mas que não se pode, de outro jeito, remover.

 

Não é que o século XIX inviabilize a teologia medieval – ele apenas deixa claro, incontornavelmente claro, que ela é um misto de imaginação e política, um faz-de-conta de gente adulta, mito político. Uma teologia sadia e séria tem de assumir essa crítica, e fazer-se a partir dela. Não se pode fazer nem levar teologia a sério, se o que se chama de teologia, aí, não combina com Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche, Marx, Freud, numa fórmula: o século XIX. Superá-los – e é preciso superá-los – não é recalcá-los, silenciá-los, corporativamente – e sem sursis.

 

Ou a teologia aprende o século XIX, apreende o século XIX, ou continua imprestável para o século XXI, como foi para o XX. Ah, como ficou feliz com o retorno da “religião”, depois da crise/crítica moderna... Nada mais triste, mais lamentável, mais inútil, mais fútil. O que a teologia ouvira do século XIX fora, apenas, que seu brinquedo era uma ilusão, e, quando a ilusão enche o mundo, ela contenta-se com isso. E ainda somos “doutores”!

 

Ah, um dia, ameríndios brincavam suas violências próprias nas terras ameríndias – e nós chegamos! Já muito se disse sobre essa chegada – destruidora. Ciências brasileiras – tremei, porque chegamos! Nós, os teólogos, as criaturas mais sagazes, mais ardilosas, mais corporativistas, mas ciosas de sua “missão”, chegamos, invadimos sua praia. Aceitem um conselho – não negociem! Não dialoguem! Vão perder. Fomos e somos mestres em conquistar mundos, construindo-os a nossa imagem, e, se vocês, cientistas, pesquisadores, titubearem, verão do que nós, teólogos, somos capazes - incluídas, aí, evidentemente, também as teólogas...

 

Mas sinto arrepios aqui. Já foi perdida a primeira batalha. Nós entramos, sem sequer batermos na porta. Maliciosos como nós sabemos ser, fomos diretamente ao síndico, que, sem sessão extraordinária, abriu-nos os portões do condomínio. Agora, é viver conosco dentro das casas, nos salões, sem que tenhamos demonstrado direito e dignidade de aí estarmos.

 

Não se vá perder a segunda batalha – não seja negociada a epistemologia. Não se vá cuspir na cara das Ciências Humanas. Se o MEC vai ter uma sala de loucos, que seja ela cheia de teólogos, apenas – mas pelo amor de Deus, mantenha-se a sanidade epistemológica no restante do condomínio.

 

Minha esperança é que, pouco a pouco, geração após geração, os teólogos e as teólogas venham a convencer-se do anacronismo e medievalismo que impera entre nós, e que – as coisas estão até mais fáceis, agora! – aceitemos as regras de nosso mundo, de nossa cultura. Acredito – piamente! – numa teologia terrena. Não porque os deuses estejam, agora, na terra – mas porque, no fundo, eles nunca saíram daqui.

 

Não gostaria de morrer antes de ver esse grande dia. Pelo sim, pelo não, dedicar-me-ei a fazê-lo nascer – nem que seja naquele espaço entre meu cérebro e minha retina... Há, de fato, uma ligação muito, muito estreita, entre sonho e carbono...

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

 

 

 

– página atualizada em 31/07/2008 12:14:42