A DIFERENÇA

[empréstimo para uma discussão da teoria literária]

Osvaldo Luiz Ribeiro

 


Um homem rico estava muito mal. Pediu papel e pena. Escreveu [O AUTOR] assim:

 

"Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres" [O TEXTO]

 

 

Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava ele a fortuna? Eram quatro concorrentes [O LEITOR].

 

O sobrinho fez a seguinte pontuação:

 

“Deixo meus bens à minha irmã? Não, a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.”

A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:

 
“Deixo meus bens à minha irmã, não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.”

O alfaiate pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele:

 
“Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho jamais!
Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.”

Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:

 
“Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres.”

Assim é a vida. Nós é que colocamos os pontos. E isso faz a diferença.

 

 


 

 

O texto acima parece ser bastante útil para discutir-se, num ambiente claramente sem relações com a revelação, o tema das proposições teóricas a respeito da sede do sentido em relação ao texto escritointentio auctoris, intentio operis e intentio lectoris. Com isso tocamos o tema da teoria literária.

 

O pequeno livrinho de Umberto Eco reconhece as três proposições teóricas (ainda que, ali, não se pronuncie imparcialmente). Ei-lo num trecho escolhido:

 

Poderíamos objetar que a única alternativa a uma teoria radical da interpretação voltada para o leitor é aquela celebrada pelos que dizem que a única interpretação válida tem por objetivo descobrir a intenção original do autor. Em alguns dos meus escritos recentes, sugeri que entre a intenção do autor muito difícil de descobrir (e freqüentemente irrelevante para a interpretação de um texto) e a intenção do intérprete que (para citar Richard Rorty) simplesmente ‘desbasta o texto até chegar a uma forma que sirva a seu propósito’, existe uma terceira possibilidade. Existe a intenção do texto.[1]

 

Portanto, no que diz respeito à hermenêutica, em que a crítica é não só necessária, mas imprescindível, devemos, primeiro, compreender o que tais teorias defendem. O que significa falar de intentio auctoris, intentio operis e intentio lectoris?

 

Usamos, em sala de aula, o exemplo da tradução de rûªH em Gn 1,2: a BJ traduz vento; a TEB, sopro e, as demais, Espírito. A pergunta fora: a quem devo perguntar qual o sentido intencional de rûªH na hora da tradução.

 

Pois bem: a intentio auctoris responderia: pergunte ao autor. A intentio operis responderia: pergunte ao texto. A intentio lectoris responderia: pergunte ao leitor.

 

Perguntar ao autor significa, a partir do texto, reproduzir a intenção semântica e cultural de rûªH no evento a que aquele mesmo autor está submetido no ato de pensar e escrever seu texto. Esse homem, que escreve o texto, ele é meu objetivo. Uso seu texto apenas para reproduzir a sua intenção, i. é, a intenção do autor. Isso, precisamente, significa ouvir. Dialogar é secundário, no sentido de que é a segunda coisa a fazer. A primeira, é ouvir. Ouvir é dar atenção existencial e real à intenção do homem que fala, e fala através do texto, registro de sua fala e intenção.

 

Perguntar ao texto, em conformidade com a intentio operis, não pode ser compreendido em relação ao seu autor. Recordemo-nos: para a intentio operis, o autor está duas vezes morto. O texto é uma auto-referência autônoma, polissêmico por si mesmo, uma vez que o suporte sintático e semântico de que se utiliza é veículo para a possibilidade de leituras variadas e, todas, com base em si mesmas. Portanto, qualquer tentativa de fugir à utilização do termo autor, para refugiar-se numa pretensa modernidade face às teorias, mormente francesas, de estruturalismo e intentio operis não é verdadeira adoção do princípio da intenção do texto. A intenção do texto é, na verdade, as intenções [polissêmicas] do texto.

 

Perguntar ao leitor é, finalmente, considerar que tanto esteja morto o autor, como passivo o texto, e que, na verdade, é o pronunciamento ideológico – a práxis – do leitor quem deve decidir-se pelo sentido a ser lido. Trata-se de autêntica eisegese – colocar sentido no texto, antes que exegese – pressupor retirar sentido do texto. Para os defensores da intentio lectoris, o leitor só tem olhos para seu pronunciamento hermenêutico incontornável, seu olhar eisegético e sua práxis fundante.

 

Não se trata, ainda, de concordar com qualquer das teorias. Trata-se de entender seus pronunciamentos e postulados.

 

Pois bem, se nos reportarmos ao caso do testamento da ilustração com que se abre o presente artigo, como nos comportaremos? Onde reside o sentido do testamento? Na intenção do [já] defunto (intentio auctoris) – então só há uma interpretação correta [chegar a ela é que é o problema, mas tal constatação não invalida a primeira]. No texto – então tanto faz, o problema é que o tanto faz não há de satisfazer aos quatro hermeneutas e suas pontuações intencionalíssimas... Creríamos que um juiz o dissesse: “_ Tanto faz”? Finalmente, o sentido do testamento estaria no leitor? Mas aí, então, todos, apesar de dizerem coisas radicalmente diferentes sobre o sentido do testamento, estariam, todos, exigindo que a sua interpretação fosso acatada – o que se traduziria em ficarem, cada qual, com toda a fortuna do defunto.

 

A quem, portanto, cabe a pergunta: o que isso significa?, a saber, as informações necessárias para a compreensão, no sentido de ouvir um pronunciamento, uma fala, um discurso, uma intenção registrada? Ao autor? Ao texto? Ao leitor? É uma pergunta incontornável, ainda que nos furtemos dissimuladamente a ela. Porém, sua resposta gera, necessariamente, posturas não só hermenêuticas específicas e precisas, mas conseqüências relevantes para os passos seguintes à interpretação.

 

É tarefa do estudante de hemenêutica compreender criticamente os postulados da teoria literária, posicionar-se e ser coerente.

 


[1] Umberto Eco, Interpretação e Superinterpretação. Martins Fontes. p. 29. Leia-se, ainda, P. Ricouer, passim, e J. S. Croatto, Hermenêutica Bíblica.