Platão, Aristóteles e o Romantismo

– a crise epistemológica contemporânea

Osvaldo Luiz Ribeiro

25/11/2006

 

Venho de terminar um “módulo” de um curso livre na área de Teologia, em que apresentei, para quatro alunos, em mais ou menos seis horas, uma perspectiva histórico-filosófica dos três eixos em que, segundo percebo, o pensamento epistemológico humano historicamente se desdobrou. Falei-lhes de Platão, de Aristóteles, e do Romantismo Alemão. Insinuei-lhes Karl-Otto Apel (Transformação da Filosofia) e Edgar Morin (O Método). Mas não tínhamos (mais) fôlego.

 

Quero, aqui, tanto reiterar minhas posições ali defendidas, quanto, à luz de um artigo de Luiz Fernando Dias Duarte, aprofundá-las.

 

Inicio citando o “resumo” de A Pulsão Romântica e as Ciências Humanas no Ocidente, do Luiz Fernando:

A cultura ocidental moderna articula-se em torno da tensão entre um universalismo primordial e o seu constante contraponto romântico. O espírito científico é uma das manifestações fundamentais da disposição universalista, tendo cabido ao espírito romântico criticá-lo e modulá-lo em sentidos e direções inicialmente insuspeitados. A emergência das "ciências humanas" (originalmente concebidas sob a forma das Geisteswissenschaften ou "ciências do espírito") foi um dos resultados dessa tensão, impondo uma concepção de realidade e de conhecimento muito diferente da que tinha prevalecido na orientação universalista originária. Os temas da "diferença", da "totalidade", da "singularidade", do "fluxo", da "pulsão", da "experiência" e da "compreensão" instigaram ou desafiaram todos os grandes pais fundadores das ciências humanas - com resultados muito diversos - e continuam a operar na dinâmica do campo, seja como argumento instaurador de toda pesquisa antropológica, seja como veículo das especulações ditas "pós-modernas". (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092004000200001&lng=pt&nrm=iso).

 

Desde já, informo concordar com “essa” afirmação conclusiva do Luiz Fernando, ainda que ela não evidencie todos os pontos tratados no corpo do artigo propriamente dito, com os quais, na sua totalidade, não poderia exatamente concordar, também dada uma falta de informações específicas aqui e ali. Para mim, contudo, tanto quanto para ele, ao que tudo indica, a "epistemologia romântica" (e cheguei ao artigo do Luiz Fernando justamente porque digitei "epistemologia romântica" no Google)  desdobra-se historicamente nas Ciências Humanas. Não podia ser diferente. Talvez eu tentasse, outro dia, verificar se o Romantismo já não é, ele mesmo, em germe, o próprio início delas. Mas, aqui, tanto quanto no curso que vim de dar, basta-me estabelecer a dependência histórica destas em relação àquela. Dependência, aliás, determinante.

 

O artigo do Luiz Fernando vai além de minhas preocupações imediatas, e interessa-me extrair dele, apenas, essa coincidência de “leitura”. Lamento, contudo, que Luiz Fernando tenha preocupado-se em “mapear” relações filosóficas dos séculos XVII e XVIII, algumas das quais de meu conhecimento e concordância, outras, não, tendo, ainda, traçado uma investigação sobre os “rastros” românticos do Romantismo até muito proximamente de nós, relacionando-o, em um fértil insight, ao que se tem considerado “pós-modernidade”, mas que não tenha tentado traçar, de outra parte, os movimentos ancestrais do Romantismo. É verdade, porém, que o enfoque que ele dá ao seu texto prescinde dessa investigação. Seja como for, minha exposição no curso referido deu-se exatamente nessa “lacuna”, a partir da qual, alinho-me razoavelmente bem aos postulados do artigo.

 

Para iniciar minha exposição, portanto, tomo uma expressão do “resumo”, “disposição universalista”, que caracterizaria o “espírito científico”, para, com e a partir dela, voltar um pouco mais na História.

 

 

A Epistemologia Platônica

 

 

Da forma como vejo, a epistemologia platônica é a responsável distante, e, logo, também imediata, daquela disposição universalista que Luiz Fernando vê no “espírito científico”. Ainda que, ali, ele a relacione ao “fisicalismo” desenvolvido no século XVII. Essa epistemologia de pretensões universalistas, contudo, me parece ter origem mais remota.

 

A epistemologia de Platão é ontológica, teológica e religiosa. É curioso que no Ensino Fundamental, quando nós, alunos, de ontem e de hoje, estudamos os grandes “filósofos” e “cientistas” do passado, sejamos informados de suas constituições exclusivamente filosóficas e científicas, mas não das outras. Platão é filósofo. Ponto. Newton, cientista. Ponto. E pronto. A redução das reduções, ilustrando de forma magnífica nosso espírito abstrativo-reducionista. Ora, nem Newton era “cientista”, posto que alquimista e cristão, sobretudo, nem Platão era “filósofo”, posto que teólogo, antes de qualquer outra coisa, ainda que, também, filósofo. No passado, mesmo nesse mais remoto, "ciência" e "filosofia" eram aspectos de uma considerável mais dinâmica e difusa cosmovisão, da qual constavam, na qualidade de constituintes, disposições teológicas e, mesmo, esotéricas. Fui informado de que, no Curso de Física, da UERJ, tem-se incentivado Monografias de Bacharelado que se interessem pelos "teólogos" da Alta Idade Média e do início da Era Moderna. Entende-se que a Física dos "físicos" de então eram desdobramentos racionalizadores de suas respectivas teologias e cosmovisões. Vale o mesmo para a "Filosofia" de Platão.

 

A Teologia de Platão co-determina sua epistemologia. Dualista par excellence, de um ponto de vista “teológico” (metafísico-religioso), Platão concebia a realidade como constituída por duas camadas, uma física e outra metafísica. O mundo físico, “mau”, e o mundo das idéias, o mundo das Idéias, o mundo da Providência. Esse mundo das Idéias é o mundo. O mundo físico, não – apenas arremedo, sem valor ontológico. Aliás, sempre em termos teológicos, mítico-filosóficos, ele constitui mesmo “prisão” para as almas, as quais, libertas, retornam para o Mundo Ontológico. Aplicam-se aí todas as considerações relativas ao conceito de “universalidade” que Luiz Fernando concorda entrever voejando nos séculos XVII e XVIII. Quer-me parecer, contudo, que o inseto alçara vôo séculos, muitos, antes. Naturalmente, contudo, deve-se saber que são “tipos” diferentes de “universalismo”, porque o platonismo é, primeiro, metafísico, e, só depois, físico, ao passo que esse fisicalismo denunciado por Luiz Fernando é aquele propriamente aristotélico, que escorregará até lá. A Física de Newton, sem Tempo, já sabe Prigogine (As Leis do Caos e O Fim das Certezas), por exemplo, é a secularização “aristotélica” da ontologia platônica.

 

Mas cá, então, na matéria, estão as “almas platônicas”. O “retorno” dessas almas, corresponde à “salvação” delas, obtida por meios gnósticos, mas mercê exclusivamente do favor da Providência. O estado das almas, na matéria, é de absoluta amnésia noológica. A recuperação da “memória” é graça da Providência. Em Platão, pois, a Verdade é puro logos – e logos "revelado". A Verdade sequer é a adequação da mente ao objeto, posto que os objetos sequer “são”. A Verdade é a própria Idéia. Trata-se de “uma” Verdade, sob a qual se aglomeram, como “partes” necessárias dela, todas as demais Idéias. Cá embaixo, as almas, como passarinhos, de boca aberta, diante de cuja cena a Grande Mãe, comiserada, responde, despejando bocados, de bico em bico. Confesso que descrevi, tanto irônica quanto metaforicamente, o significado da epistemologia platônica: passivo, ao homem cabe, tão somente, receber a(s) Verdade(s) – ontológica(s) – da Providência. Ou da República, para fazer, autorizado pelo filósofo-teólogo-político, uma transposição política de sua filosofia-teologia.

 

A meu ver, é na República, segundo a lê Marcel Detienne (A Invenção da Mitologia), que se pode perceber a “falácia” da epistemologia platônica. Lá, está claro que a Verdade constitui o programa de governo dos governantes. Estes, tendo decidido o que cada cidadão deve fazer “para o bem da cidade”, contratando para tanto os mitoplastas, pagam-nos para a elaboração de mitos, que deverão ser instrumentalizados, lúdica e liturgicamente, desde as crianças até os velhos, passando pelos coros da cidade. Enfeitiçar, convencer, encantar – nesses, e com esses, três verbos resume Marcel Detienne o “programa republicano” de Platão. E não se vá esquecer de expulsar da cidade dos “filósofos” os poetas andarilhos – vírus noológicos indesejáveis, posto que, na cidade, deve-se ouvir "uma e uma única voz". A "filosofia" de Platão não é só "teológica" e "religiosa" - é explicitamente "política".

 

Na sua epistemologia, contudo, Platão, na qualidade de hierofante, esconde-se. Que a Providência revele às almas a verdade, ele o diz. Que as almas devem pôr-se, pacíficas – e cantando – diante da Providência, ele o diz. O que ele não diz é que, na prática, a Providência é o “filósofo”. Mas é. Como, na República, o “deus” é o governo. É o Poder. Faz todo sentido que, agora, revisando o texto, me recorde do que Nietzsche tenha dito a respeito do “bom e velho” Lutero, em A Gaia Ciência: que, teria dito o bom Lutero, Deus, para evidenciar-se, necessite de homens inteligentes, mas que, Lutero não teria dito – naturalmente – é que, para “prevalecer” e “permanecer”, Deus precisasse de homens ignorantes. Dir-se-ia o mesmo de Platão. Aliás, na República, perguntam a Sócrates se a cidade acreditará nos mitos que os governantes inventam para enfeitiçar seus moradores. A resposta, lúcida: “estes” nem tanto, mas seus descendentes, sem dúvida.

 

Minha avaliação política da política de Platão, contudo, não deve distrair minha intenção de precisar o esquema que entrevejo em seu projeto. Em síntese, na epistemologia platônica, a Verdade está fora do homem – é ontológica. A Verdade vem ao homem. O homem deve comportar-se de forma passiva diante dessa Verdade que vem a ele. O homem recebe essa Verdade. Obviamente, já o disse, inclusive, quem tiver um bom par de olhos, logo poderá ver que a boca da Providência e a boca do "filósofo" (ou do governante) sejam coincidentes - sacramento uma da outra. Recorda-me, aqui, o mesmo discurso, aplicado ao sacerdote judaíta do século VI e V a.C.: ele fala "boca a boca" com Yahweh (Nm 12), e de sua boca procede a sabedoria e o conhecimento (Ml 2,7). Não admira, pois, que, no Ocidente, Platão tenha sido encarnado inúmeras vezes. No Cristianismo, até hoje, mesmo no Protestantismo. Uma diferença fundamental entre o Catolicismo Romano e o Protestantismo, é que aquele afirma-se platônico. Este, não tem coragem. Conquanto o seja. Agostinho ainda angaria olhares mornos.

 

De forma mitigada, mas não menos incisiva, Platão reencarna em Descartes, para quem o pensamento é o fundamento e a garantia do fundamento da Verdade. Talvez Descartes esteja tentando uma “secularização” da epistemologia platônica, tendo percebido que, afinal, há um elemento importante naquela intuição, qual seja o de que, a rigor, o homem lida com idéias. E isso é fato. Não podiam, contudo, um e outro, transformar essa “idéia” em fundamento de coisa alguma – posto que não é. Admirável a simplicidade com que, referindo-se ao processamento químico-calórico das mitocôndrias celulares, Edgar Morin tenha reduzido o fundamento cartesiano da “certeza” metódico-epistemológica de sua empreitada filosófica a um fenômeno bio-físico-químico (O Método, 3). Fortuito. Acabada a última célula viva, a Idéia está morta. Contudo, é verdade: não fora a idéia, o Universo, então, ao menos nos termos em que o concebe o homem, estaria igualmente morto. Pascal sabe que o Universo não sabe que o homem sabe que é um caniço quebrado, e que o peso dele o esmaga. O que Pascal deixa de dizer, se viu, é que não é senão mercê do Universo que ele pode saber disso.

 

Platão e seus descendentes histórico-ideológicos tomaram a idéia, a idéia da coisa, pela coisa, e a valorizaram acima dela, como valor para além do valor da coisa idealizada. Mesmo aí, a abstração ideal das coisas não tem existência autônoma, mas constitui, antes, faculdade hermenêutico-epistemológica da consciência humana. Seja como for, contudo, trataram, ao menos, de indicar a coisa, ainda que para eles fosse algo entre “má” e “insignificante”. Ao lado da coisa, não, minto, acima da coisa, a Idéia.

 

Onde quer que haja pressão sistêmica em torno de “idéias”, lá ressuscitado está Platão. A Teologia, meu campo de origem, tem sido platônica. Como sempre começa pela doutrina, pelo logos, está mortalmente ferida de platonismo, e não tem saída - constitui inexorável racionalização fideísta-voluntarista. De Paulo a Bento XVI, de Justino a Karl Barth, sobre todos, a figura de Platão, inspiradora. E não tem jeito.

 

Não que Teologia deva ser, até o fim, platônica. Não é preciso que seja. Mas, para ser o que, majoritariamente, é e tem sido, deverá reconhecer sua ancestralidade helênica ali. Seus defensores, apologistas, todos terão de reencarnar o velho filósofo da República. Não é à toa que não apenas a Teologia seja platônica, mas que seu suporte político-cultural, histórico-social, a Igreja (as igrejas) seja, então, nesses rigorosos termos, “republicano”. Ontologia exige Poder. Poder impõe Ontologia. Um gosta do outro, nutre-se do outro. Mas nem Teologia precisa ser Ontologia, nem a Igreja precisa ser Poder. Se forem, contudo, a cartilha já está escrita. E Platão tem lá a sua letra.

 

 

A Epistemologia Aristotélica

 

 

O mundo físico não é mau, a crer em Aristóteles. Pelo contrário. Impregnado pelo logos, ele é, inclusive, inteligível. Infinitamente menos “teológico” – o que, nesse contexto, equivaleria perfeitamente a dizer: “infinitamente menos platônico”, Aristóteles considera o homem perfeitamente capaz de “conhecer” a Verdade. Não que seja, a rigor, “poder” – mas “dom”. É a presença universal do logos que permite à razão humana ascender das coisas próximas às distantes, das mínimas, às máximas, das particulares, às gerais, do grão, ao sol, porque, afinal, da gota ao mar, reverbera o logos. Não deixa de ser teologia, ainda. Mas que sutileza para o perceber.

 

Mas, cá entre nós, há um elemento infinitamente menos “sacerdotal” aí. Claro, para Aristóteles, a Verdade continua lá fora. A Verdade ainda é um ideal ontológico. Mas não há um “sacramento” filosófico na epistemologia aristotélica. Não há um “filósofo” escondido entre a Verdade e o homem, a quem caberia, disfarçado de “revelação” e “Providência”, levar a Verdade ao homem. Se há um filósofo escondido – e nesse caso ainda há um provincialismo aqui – é dentro de cada homem. É cada homem que, levantando-se, vai descobrir a Verdade. Ela, lá, espera, ansiosa. Quer ouvir os galopes, os cascos nas rochas, o brilho das faíscas do ferro contra o pedra, quer ver chegar os Argonautas. Que chegam. A Verdade é tal que, cuida, sejam os homens feitos à sua semelhança.

 

Para Platão, a Verdade está lá fora. E para Aristóteles, também. E aí termina o que os dois filósofos têm de semelhante – grosso modo. Para Platão, a Verdade vem ao homem. Para Aristóteles, o homem deve ir a ela. Para Platão, o homem recebe a verdade. Para Aristóteles, ele a descobre. Para um, o homem deve ser passivo. Para o outro, atrevido.

 

Se em Platão está disponível a instrumentalização racionalizadora de toda e qualquer elaboração noológica na qualidade de Verdade Ontológica, pela simples afirmação de que seja assim, e pronto – pedagogia da autoridade, em Aristóteles, não, já se presume que apenas o que está disponível à perquirição humana pode ser conhecido. Mas pode. E é. Quando Luiz Fernando descreve, naquele parágrafo-chave, o fisicalismo do século de Voltaire, bem se poderia transportá-lo, quase inteiramente, para o século de Alexandre.

 

É desse aristotelismo, restrito, de um lado, ao cognoscível, mas, contudo, universal, que emergirá, logo mais, o “espírito científico”, de que fala Luiz Fernando. Mas só depois da noite dos tempos.

 

O Ocidente acolheu Platão. Por mil anos, a cristandade dormiu um sonho platônico, e sonhou sonhos platônicos. Até que os árabes, então, levaram Aristóteles para a Europa, fazendo tanto barulho os cascos dos seus puros-sangues, que começaram a despertar do sono, a estragar os sonhos. Ano mil, para ser escolhida uma data cabalística.

 

A Grande Catedral Cristã dorme tranqüila. O rei, sonha. Os súditos, tremem e temem. Não deixam de ser os antepassados de Cândido. Até que a “praga” invade a Nave. A “praga” não são os árabes, que serão, mais ou menos facilmente, mais aqui, menos ali, vencidos, por todos os meios. A “praga”, contudo, não. Ela é Aristóteles.

 

É mortalmente ferido, não morto, por Aquino, que se me apresenta não como um “teólogo aristotélico”, mas como um “domador de tigres”, cuja função consiste em amansar a fera, castrar-lhe, tirar-lhe as presas, tornar o felino um gatinho a serviço da Idéia. Extraordinário serviço faz o teólogo. Acreditava mesmo Tomaz de Aquino que uma vasectomia assim resolveria o problema?

 

Porque o vírus permaneceu solto. Aristóteles é uma flor venenosa, que solta pólen, que o vento carrega. A “sociedade” é contaminada. Dorme a Cristandade, acorda a Renascença. Que coisa: considerar os mil anos de Cristianismo um túmulo. Não admira o perigo que a Igreja entreviu naquele mouro de fala grega. A Renascença constitui a primeira emergência da febre humanista – que vai arder. Pura opinião pessoal, não conheço período tão extraordinariamente fértil em expressões artísticas, todas, quanto essa Ressurreição. Parece que, depois de crescer aos pés do Pai, Platão, o púbere Ocidente queira, agora, cuidar da própria vida. Como sói acontecer com nossos adolescentes. Que contudo, voltam para casa, nós sabemos, se foram perfeitamente amados. Ou, seria melhor tê-lo dito, se perceberam-se amados. Aristóteles foi, para aquela Europa, o que toda a testosterona e toda progesterona são para as nossas adolescências – um coice de autonomização irretorquível, incontrolável, inexorável, irrenunciável, sôfrega de avidez e luxúria.

 

A Una Europa Cristã, “o” Ocidente Cristão, começa a trincar. Não está rachado, ainda. Mas vê-se, tanto uns quanto os outros, uma falha no interior do vidro. De um lado, o Poder Platônico – o(s) clero(s) e a(s) coroa(s). De outro, uma sociedade incipiente em processo de emancipação, de autonomização. Estamos aí entre os doze e quatorze anos desse adolescente a vazar hormônios sexuais pelos poros.

 

Disse que Tomaz de Aquino feriu Aristóteles, agora, eunuco de Sua Majestade. Mas não o matou. Umberto Eco sabe das coisas quando escreve O Nome da Rosa. Ainda dolorido de suas genitálias extirpadas, levanta-se, trôpego, e, como um fantasma terrível, como um demônio indesculpável, como um trasgo, um ogro, um monstro, um íncubo, vai atormentar o pobre monge luterano.

 

Aristóteles começa a espalhar-se na Igreja através de Lutero. A meu ver, não era essa a intenção do reformador. Tão pouco o é a da Reforma – a de ontem, e as de hoje. Penso que explica-se a instrumentalização aristotélica de Lutero apenas pela sua situação circunstancial de elemento fraco no confronto político-retórico-ideológico contra a Igreja-Instituição. Enamorou-se, naturalmente, do Humanismo, mas, aposto, tanto quanto Aquino, do leão – e contudo, castrou-o, que, sabe, ele morde. Mas Aristóteles dá poderes a Lutero de reivindicar o direito de “examinar” a Bíblia, ele mesmo, segundo “sua” interpretação evangélica. Aristóteles dá a Lutero forças para ele dizer ao Papa que ele, Lutero, é e deve ser seu próprio sacerdote – leia-se: e não tu. Platão cai do trono. Lutero está em confronto. Não faz análise das epistemologias. Utiliza-as. Melhor: instrumentaliza-as. A favor de sua situação.

 

Tanto é que, perdendo a briga, deixa Aristóteles rapidamente (demais) de lado, e abraça, como sempre abraçara, Platão, tirado do trono de Roma, para ocupar o da nova igreja. É pelo menos o que penso, e o que posso deduzir, além disso, de um interessante comentário de Richard Popkin, a respeito de uma discussão dos dois amigos humanistas, Erasmo e Lutero, a respeito das idéias tresloucadas deste de dar a Bíblia ao povo a ler. Loucura, naturalmente, afirma Erasmo, porque vai dar um confusão dos diabos. Literalmente! Lutero sabe, contudo, que Erasmo não entendeu seu projeto: com a Bíblia na mão, o povo poderá aprender a ler o Evangelho, e vai entender as Escrituras. Resultado do qual Erasmo não está, nem quer-se deixar estar, convencido. Para ele, é o que diz ao amigo, que logo, por isso?, não mais o será, que cada crente vai ler as Escrituras, e vai entender cada qual de seu jeito. Inocente?

 

Lutero, então, percebe o erro em que incide Erasmo. Não é verdade que os crentes, cada um, lerão, cada qual a seu jeito. O crente lerá a Bíblia de forma correta. Correta, intervem Erasmo, será, segundo cada qual, a sua própria leitura, porque cada um vai ler do seu jeito, e vai considerar que seu jeito é o correto. Afinal é assim que acontece, quando textos são lidos. Mas não no caso das Escrituras, sabe Lutero, porque os “verdadeiros” crentes lerão “corretamente” as Escrituras.

 

Bem, quanto a mim não sei de onde Popkin extraiu esse diálogo (História do Ceticismo, de Erasmo a Spinoza. Nova Fronteira, 2000). No mínimo, porém, ele serve para ilustrar a dinâmica do uso das Escrituras, logo, a epistemologia “aristotélica” (pseudo-aristotélica), nas igrejas protestantes – sem privilégios: crente verdadeiro é aquele que lê as Escrituras segundo a Verdade, e a Verdade é a Verdade dessa igreja aqui que diz a ele seja assim a Verdade. Platão tem assento ali em cima. Na prática, o discurso pode até ter ares, mas só ares, de epistemologia aristotélica. Na prática, contudo, nem de longe – o crente tem o direito de esforçar-se, para “descobrir” que a Verdade das Escrituras é aquela que, ontem, acabou de ser ensinada na catequese. Cuja ilustração, para desgosto de alguns, quer-me parecer ser a proposição de abertura de Hebreus. Afirma-se que Deus, até então, falara, e de muitos modos, aos filhos, mas que, agora - e doravante - falou através do filho. Ora, como sabemos que não é o filho quem fala aí, mas alguém que fala em nome dele, a fala desse alguém sobre o filho torna-se o próprio filho. O filho torna-se doutrina - como se pode ver, inescapavelmente, em Judas. Doutrina, sim, e definitiva.

 

Já disse o que penso a respeito da prática epistemológica protestante, e penso ser o bastante (http://www.ouviroevento.pro.br/publicados/exegeseeteologia.htm). Ao menos, por ora. Enquanto isso, o século XVI termina com a ratificação platônica explícita da Igreja Católica Apostólica Romana, no Concílio de Trento (Verdade é Autoridade e Tradição), com um protestantismo epistemologicamente disfuncional – discurso aristotélico, em parte, e pragmática platônica, in toto, e com uma sociedade em processo de emancipação humanista – doravante agravado pelo fermento protestante.

 

O Castrado continuará a fazer das suas. Depois de ter gerado o que, segundo Luiz Fernando, Alexandre Koyré, que não li, teria descrito como a “fisicalização” da epistemologia, no século XVII, fará redundarem suas diabruras na Revolução Francesa, século XVIII, e no Iluminismo, que aqui cito como “símbolos” de todos os processos de “emancipação” republicana, desde aí, até, ainda, o ainda próximo de nós século XX. Aí, justamente aí, aquela fissura, aquela falha geológica, converte-se em rachadura, em abismo.

 

Esse momento é nevrálgico.

 

No Ocidente Republicano, dentro do qual a Igreja platônica passa a ser um constituinte social, deixando de constituir o alter ego teológico da sociedade, Platão permanecerá reinando na Cidade de Deus – em pessoa, num caso, atrás do biombo, no outro. Mas a sociedade tornar-se-á “aristotélica” – em tese. Emergirá o princípio de autonomia, a “disposição universalista” e o “espírito científico”, de que fala Luiz Fernando. Sintomas da mesma afecção, são, percebo, filhos da epistemologia aristotélica.

 

E esse é justamente o problema. Contra a febre aristotélica, infusões românticas.

 

 

A Epistemologia Romântica

 

 

Platão quer abraçar o mundo com as pernas: sua Ontologia é Ontologia do Todo – por isso é ontologia. Platão “sabe” da terra e do céu. Aristóteles, só da terra. O espírito científico, primeiro, porque é aristotélico, sabe só da terra. Segundo, porque é, na origem, anti-cristão (entenda-se: porque tem de constituir-se como confrontação à Igreja, e não, necessariamente, porque seja constituído de um elemento essencial explicitamente contra-cristão – é, sim, contra-coercitivo, em tese), o espírito científico toma posse da terra, para domá-la, como exorta Leibniz. É tanto um domá-la, numa relação com ela mesma, quanto um tomá-la, isto é, pôr-se no lugar do "dono" anterior dela - a Teologia. É mesmo motivo para profundas reflexões a relação entre os homens e a terra. É tese de Marcel Mazoyer e Laurence Roudart, em História das Agriculturas do Mundo - do neolítico à crise contemporânea, que as grandes regiões desérticas do Saara, da Arábia e da Mesopotâmia chegaram à condição atual, desértica, a partir do roteamento das grandes florestas que lá se encontravam, há cerca de dez mil anos. A agricultura "original", no centro próximo-oriental, levou à desertificação aquelas terras.

 

Mas, não seja esquecido, também com Aristóteles, a Verdade ainda está lá fora. Não existe, ainda, o insight “romântico”. O “romantismo” será, a meu ver, e com o que concordo com Luiz Fernando, a “descoberta” quase-aristotélica do “mundo humano”.

 

Luiz Fernando menciona muito rapidamente um viés político-cultural para a origem do Romantismo, como resposta alemã ao Iluminismo francês. A tese encontra-se no professor José Carlos Reis, onde a achei, pela primeira vez, naquele seu instigante artigo, Dilthey e o Historicismo, a Redescoberta da História (História e Teoria, FGV, p. 207-246), bem como no artigo de Luiz Felipe Pondé, Elementos para uma Teoria da Consciência Apofática, Rever (http://www.pucsp.br/rever/rv4_2003/t_ponde.htm#footnote2nota#footnote2nota). Uma interessante ilustração do “caso” Alemanha versus França, nos termos em que aqui o confronto é considerado, pode ser ainda ludicamente degustado no filme Os Irmãos Grimm (http://www.europafilmes.com.br/hotsites/osirmaosgrimm/).

 

Mantendo o estilo, exponho a circunstância. Napoleão monta Bucéfalo – não (mais) o Cordeiro, melhor, não mais o Leão de Judá. Mas ainda tem os mesmo planos. Não pode, contudo, usar os mesmos argumentos. O Cavaleiro que montava o Cordeiro carregara, por mil e oitocentos anos, uma bandeira: “Deus. Salvação. Santidade”, estava escrito. Deus – legitimação. Salvação: demagogia. Santidade: economia. Essa bandeira, o republicano (e, nesse caso, como me parece cair bem dizer, “republicano como o da República”) Napoleão não a pode carregar. Seu significado, sim. Mantendo, pois, o discurso platônico-político (dispensável, esse “político”) da bandeira anterior, escreve nela, agora: “Razão. Libertação. Ética”. A Razão assume o trono, mas é o mesmo trono. E a Razão torna-se Deusa. Mas é o mesmo “deus”. O de Parmênides – Ser imóvel, imutável, eterno. Estático. Tudo. Sempre. O Iluminismo é o Cristianismo de Napoleão, nesse sentido político da legitimação. Não se trata, então, de “conquista” – como de resto nunca o foram as “campanhas” cristãs. Nem as Cruzadas. Trata-se de Libertação, inclusive das coroas e das mitras. Não saiu a dar com os pés nas costas, ou mais embaixo, por exemplo, Dom João VI?

 

E, assim, os exércitos franceses, racionalíssimos em sua atitude de libertação, invadem a Alemanha. Que, conforme sugere Luiz Fernando, e afirma José Carlos Reis, reage no campo da cultura – a rigor, da epistemologia!

 

Primeiro, coisa extraordinária a História, parindo o insight do “assombro” humano diante do Universo. Como Lutero, a Alemanha aqui defende-se. Mas que defesa! Diferentemente de Lutero, ela não voltará – não essa – aos braços de Platão. Quem falou que a razão, coitada, é instrumento para “compreender” a Verdade, seja do mundo, seja do além? Imprestável. A razão presta-se, apenas, e quando, para instrumentalizar as coisas do mundo – mas não para saber o que é o mundo. A razão é mesmo uma das intermináveis representações que o homem faz do mundo, criando, assim “seu” mundo. Tanto é verdade, que cada país, cada povo, cada lugar, cada tempo, cada cultura, tem sua “razão”, própria, peculiar, idiossincrática. Começa-se pelo “Assombro” – chega-se à “História”. A História é Romântica. Pode-se querer pôr Platão a tocar o gado – mas a manada, quando se descobre, sabe-se “romântica”.

 

Inventa-se o conceito de Mundo como Vontade e Representação – e, daí para cá, criam-se as Ciências Humanas. Românticas, sim – todas. Todas elas, seguindo “religiosamente” o Romantismo Alemão a que me refiro, e nos termos em que me refiro, remetem-se ao mundo noológico humano – ao Espírito. Ciências do Espírito e, finalmente, então, Ciências Humanas.

 

Em suma, a epistemologia romântica é noológica – não ontológica. Nela, a Verdade, as verdades, são construtos humanos, culturalmente determinados, historicamente condicionados. O homem constrói a verdade. E vive nela. Os homens vivem nelas.

 

Nesse sentido, é interessante refletir sobre a relação entre essas três epistemologias – que ainda estão aí, disponíveis, aí, atualíssimas, aí, em franco conflito. Proponho. A epistemologia platônica é ontologia – “sabe” da Verdade, que é da terra e do céu. A Verdade lógica do platonismo é “a” Verdade. O homem sequer é “pensado” nela. Sequer a noção de consciência representativa e co-participativa no e com o mundo é levada em conta. O homem é um quadro-de-giz, no qual a Verdade é escrita (por quem mesmo?). O elemento político é inescapável. Seja como for, é totalizante. Nesse caso, Luiz Fernando, penso que sua expressão “disposição universalista”, se extrapolada para uma metafísica ontológica, cabe perfeitamente bem à epistemologia platônica. É exatamente a pretensão da Teologia – que sabe “de tudo”, do “céu e da terra”, e “do “céu e do inferno”, porque Deus contou.

 

Se tentarmos depurar a epistemologia platônica, desmitologizá-la, como Rudolf Bultmann fez com o Novo Testamento, chegaríamos a um “querigma”: a Verdade é Ideal. Mas esse “ideal” aí é “ontológico”. Anote-se. Enquanto isso, a observação da epistemologia aristotélica permite dizer que ela é, concordo, universalista – mas é restritivamente universalista, se comparada à de Platão. Aristóteles “pensa” a Verdade como relação adequada entre “mente” (idéia) e “objeto”. Ela é, necessariamente, “materialista”. Objetos “inventados”, “pensados”, “fantasiados”, “imaginados”, “criados”, “cridos”, enquanto nessas respectivas condições, não podem ser avaliados pela epistemologia aristotélica. De sorte que o “espírito científico” é coerente com essa restrição. Do céu ele saberá, caso se trate do céu de Newton – de qual Newton? Do Newton físico, não do Newton cristão ou alquimista. Mas saberá, mesmo, da terra, e das coisas telúricas. Não admira que o aristotélico Comte tentará uma “sociologia” em nada parecida com a Sociologia, porque tentará pensar o “homem” como Natureza, esforçando-se por “descobrir” aristotelicamente as “leis” que governam sua mente, seu corpo, sua alma. As revoluções sociais não poderiam ser evitadas? Não se sabe, aí, ainda, da particularidade da consciência como criadora de mundo antropológico-noológico. O homem ainda é objeto. Só objeto.

 

Aristóteles é imprestável, pois, para o “homem”. Pode ser usado por ele, até certo ponto, para domesticação da Natureza. Mas não pode “conhecer-se” a si mesmo, digamos, aristotelicamente. Pode, decerto, analisar sua fisiologia, sua anatomia, sua biologia. Mas Fisiologia, Anatomia e Biologia não são Ciências do Homem – mas da Natureza, na condição de que analisam o homem como objeto do mundo - onde e quando ele deveras o é. Aristóteles só sabe do Homo sapiens. Mas o que sabe o Homo sapiens, e, principalmente, o que ele sabe de si,, só as Ciências Humanas podem dizer. A seu modo. A seu tempo.

 

E quem “inventa” esse Homem da Antropologia é aquele momento histórico extraordinário, no qual e do qual emerge a epistemologia romântica das “representações”. O Romantismo, na condição de epistemologia, é um apelo, uma conversão, ao homem enquanto homem consciente. E não sob a tese de que se trate de uma patologia, que o Final dos Tempos corrigirá, como, definitivamente, o pecado, que a graça apenas “esquece”, mas nem tanto, e que, a Teologia o reconhece, continua aí, fazendo das suas. A condição hermenêutica do homem romântico – ou dizendo melhor, a condição hermenêutico-romântica do “homem” é o que de mais propriamente humano há nele. Sujeito até a ameba o é – centro de seu mundo. Sujeito hermenêutico-consciente, só esse, romântico. É uma peregrinação para a Terra do Homem, depois de dezenove séculos de o Homem ter transitado entre a Cidade de Deus e a Natureza. Agora, romântico, o Homem sabe que está em casa.

 

Nesse sentido, é muito interessante perceber a relação entre platonismo e romantismo. Ambos “pensam” a idéia. Tanto que o Idealismo Alemão não deixa de ser outra forma de se pensar o Romantismo, e uma Trindade Romantismo – Idealismo Alemão – Ciências Humanas é uma boa metáfora, ao menos para traduzir minha opinião sobre os termos. A diferença incontornável é: a idéia platônica é Idéia, é ontologia, enquanto a idéia romântica é idéia, é noologia.

 

Nesse sentido, Kant é “romântico”, ainda que Luiz Fernando situe o Romantismo num impulso pós-kantiano: “O que é certo é que o romantismo representa a pedra de toque de todo o percurso pós-kantiano, dito "idealista", de Hegel a Heidegger, concentrando sobretudo sua força expressiva e sua capacidade de influência ampliada em Schopenhauer, Dilthey e Nietzsche”. Mas a “idéia”, em Kant, é já noológica. A ameaça de seu A Crítica da Razão Pura, às vésperas da Revolução Francesa, para a Teologia e a Igreja, é um rescaldo e uma reverberação da ameaça aristotélica da Renascença, da Reforma e do Iluminismo – mas é infinitamente mais lúcida, porque “sabe” – assume – que o homem jaz natimorto em seu mundo, que ele mesmo cria, para nele nascer, para morrer nele. O silêncio a que será obrigado traduz as conseqüências dessa “ameaça”. Que, amanhã, Schopenhauer vá reclamar de sua “covardia”, com o que Nietzsche concordará, não muda as implicações de sua tempestade e de seu véu. A Teologia só poderá sobreviver, como é, como era, se saltar “esse” Kant e o Romantismo, como fez Barth, e como se faz, amiúde. A alternativa, é tornar-se, de verdade, sem falsidades e dissimulações, Ciência Humana. O preço é um céu de chumbo.

 

Platão ainda quer ser dono da Verdade. É tolerado como idiossincrasia. As repúblicas ocidentais reconhecem sua paternidade, e permitem ao Ancião de Dias perambular pela casa. Lá fora, nas ruas, duas epistemologias, agora, reivindicam o Mundo – a “Ciência” (Aristóteles) quer o Mundo Físico, as Humanas, o Mundo “Humano”.

 

 

Hoje

 

 

Aristóteles, ainda hoje, tem um cacoete positivista. Ele ainda tem o vício, com exceções, de negligenciar o fato de que entre si mesmo e o “mundo físico”, que analisa, está sua própria idéia – que ele, é verdade, vai “corrigindo” a partir das percepções que lhe chegam “de fora”. Mas é a sua idéia que o põe em contato com o mundo físico. Mas ele esquece disso muitas vezes. Vai pagar o preso – ele e nós.

 

O Romantismo caiu no relativismo. Nada é verdade. Tudo é verdade. Tudo e Nada se equivalem. Vale tudo. Não vale nada. Esquartejado nas Ciências Humanas, cada noologia tende a tornar-se ontologia relativa, e os cientistas das humanidades tendem, que pena, a comportarem-se como cruzados. É que na falta de “base”, na crise da validade do conhecimento romântico, restam-nos os fuzis, resta-nos a barbárie da força – até da autoridade de cátedra.

 

O Estado de Direito foi uma invenção necessária, depois do Romantismo. Sem critérios objetivos de validação da verdade aceitáveis, excelente que se tenha erigido um tal sistema, em que a sociedade, em tese, estabelece juridicamente seu mundo e, juridicamente, o controla. Não é verdade, creio, que a supressão do Estado de Direito levaria a população de volta à barbárie das feras. Absolutamente. Mas exigiria um retorno rápido e rígido à Ontologia. Como sempre foi.

 

Se o Estado de Direito logrou resolver o problema da governabilidade social, mais urgente, é verdade, não se chegou, contudo, nesses tempos de romantismo, nem de longe, a ser resolvido o problema epistemológico da validade do conhecimento. É verdade que quando o Romantismo emergiu como intuição e proposição, correu-se às pranchetas para discutir-se o que era, então, dado o novo contexto, “conhecer”. Schleiermacher, Dilthey, Heidegger e Gadamer tentaram, cada um a seu jeito, e, até certo ponto, lograram, cada um a seu jeito, a propor uma “teoria do conhecimento” propriamente romântica.

 

 Começando pelo conseqüente psicologismo de Schleiermacher, passando pelo “historicismo hermenêutico” de Dilthey, desdobrando-se na “descoberta” da constituição hermenêutica fundamental do ser humano, em Heidegger, e correndo o risco de um naufrágio na tradição, em Gadamer, uma fundamentação do dar de ombros, eu diria, do qual desgosto até as tripas, tem-se, hoje, uma excelente idéia do que é “conhecer”. Quer dizer, em termos “humanos”, e no que diz respeito às Ciências Humanas.

 

Mas cada um desses avanços somente conseguiu aumentar o sentimento de insegurança, de angústia e de “relativismo” que paira sobre o Ocidente. Sempre se pode voltar a Platão – aí estão as centenas e centenas de Teologias práticas e teóricas acenando, com avidez. Sempre se pode enfiar a cara num tubo de ensaio, e desumanizar-se, porque, afinal, aí está a Tabela Periódica. Mas a condição epistemológica romântica, essa aí, das Ciências Humanas, está, ainda, fragilizadíssima, por causa de sua crise de validade.

 

Minha inserção nesse tema é mesmo existencial. Não estou disposto, absolutamente, mas em nem um sentido sequer, a abdicar da possibilidade de um critério de validação para o “conhecimento” humano. Na prática, talvez poucos estejam. Mas, nas teorias engajadas, quanta gente. Não passei, nem pretendo permitir-me o luxo, pela fase relativista pela passou passou Jean Pierre Dupuy, segundo seu próprio testemunho, que François Dosse (Império do Sentido, EDUSC, p. 46) extrai de Ordres et désordres, enquête sur un noveau paradigme, Seuil, p. 274): "Eu tinha acreditado num universal abstrato; encontrava-me mergulhado no relativismo mais ingênuo, um niilismo do conhecimento pelo qual vale tudo, ou seja, nada vale". Dá-se nessa experiência “romântica” ignorada de si como tal, uma “tribalização”, uma revitalização do instinto de gueto, dentro do qual satisfaz-se com a idéia de verdade – partidária, mas verdade. Meu campo “profissional”, a exegese histórico-social da Bíblia Hebraica, é um campo “romântico” – noológico, ainda que seu suporte seja um “texto”, ou, antes, por conta disso mesmo. Não estou, contudo, disposto a conceder valor algum ao relativismo. Não me satisfaz a situação de performance de pizza do texto hebraico, do qual, cada um, conforme queira, tira “seu” pedaço, e ainda determina os ingredientes. A meu ver, trata-se de uma resignação temerária, e insuficientemente refletida, vencida, a meu ver, mais pelo interesse satisfeito do partidarismo ideológico atendido, do que pela admissão da impossibilidade da validação hermenêutica das Ciências Humanas. Não é por outra razão que amigos mais próximos insistam em considerar-me um neopositivista – e não sou, salvo se transformarmos todas as pressuposições do “tipo” de que deriva o nome. Há, até, quem mais de longe me veja um “positivista”. Aqueles pressentem minha angústia pessoal, e meu esforço teórico-metodológico, filosófico-epistemológico. Estes não têm a mínima idéia de que seja o Positivismo. Muito menos de quem seja eu.

 

Não é possível que as Ciências Humanas estejam relegadas à banalização epistemológica, e que, afinal, as cátedras se tornem blindados. É inadmissível que a retórica da prova seja administrada por "autoridade" de cátedra, ou por variados calibres. Não é admissível, ainda, que tenhamos, afinal, que aceitar a validade de tudo quanto quer que seja. E, contudo, em termos estritamente epistemológicos, fora do platonismo fideísta e voluntarista, topos por excelência da self-deception, a epistemologia romântica não sabe dizer qual conhecimento é válido. Não ainda.

 

 

Amanhã

 

 

Amanhã, talvez? Quem sabe? Dois monstros, um dos quais gênios, estão a serviço dessa empreitada.

 

O primeiro deles é Karl-Otto Apel – um monstro. Seus dois volumes de Transformação da Filosofia tratam rigorosamente disso: da superação da crise de validação do conhecimento. Não é aqui, nem agora, o lugar para uma resenha das obras. Mas basta mencionar que, reconhecendo a situação crítica da epistemologia “romântica” – a rigor, das Ciências Humanas, propõe uma síntese entre essa e a epistemologia aristotélica – propriamente, a das Ciências da Natureza, através do conceito heurístico-hermenêutico da “comunidade de comunicação”, cuja validade operacional e instância de verificação estaria na dimensão pressuposta de uma “comunidade ideal de comunicação”, a que todas as comunidades de comunicação particulares estariam remetidas epistemologicamente. Ainda há espaço a ser conquistado nesse sentido.

 

A rigor, muito das propostas de Karl-Otto Apel eu encontro na magistral epistemologia de Edgar Morin – O Método. Seis volumes. Ao que me cabe dizer – um gênio. Noologização de Platão, com argumentos transdisciplinares, noologização de Aristóteles, e “aristotelização” das Ciências Humanas, Edgar Morin propõe – e logra – a refundação da Noologia na Matéria, e da Matéria na Noologia. Trata-se de uma Epistemologia complexa, que considero, mas quem sou eu?, a “saída” para a crise epistemológica em que estamos atolados: a matéria da matéria, a vida da vida, o conhecimento do conhecimento, as idéias, a humanidade da humanidade, e ética, são os títulos, pela ordem, dos volumes da coleção. Sugestivos, todos. Deliciosos, cada.

 

(Ontem, em 29/11/2006, enquanto ainda revia este manuscrito, encomendei O Império do Sentido, de François Dosse. Isso, depois de ler os comentários que o próprio autor fez da obra em História e Ciências Sociais. Ele mesmo, historiador, de quem já lera o agradável História em Migalhas, e de quem leio, ainda, A História (tudo isso pela EDUSC - se decidir-me a fazer História, depois do Doutorado em Teologia, agrada-me a idéia de tentar a empreitada lá), ele mesmo, então, comenta muito favoravelmente os desdobramentos das Ciências Humanas, e termina por mencionar autores que tenho perseguido em minha busca concomitante pela História e pela validade do conhecimento - cita até Prigogine, vejam só! Talvez, depois da leitura, tenha de aumentar para três o número de meus monstros. É curioso, contudo, que ele afirme que a França esteja praticamente afastada dos centros de discussão do "novo paradigma" epistemológico... Ele até menciona sua participação na obra coordenada por Morin, A Religação dos Saberes. Não considera Morin o gênio que, considero, ele é?).

 

Interessado na questão, o leitor deve reportar-se àquelas leituras. Terá muito a ler. Quanto a mim, resta-me dizer que considero um privilégio estar vivo enquanto vejo nascer a Epistemologia Complexa. A questão é se terei tempo de fruir dela a sua máxima maturidade.

 

Enquanto ela não chega, definitivamente, faço-me “romântico”.

 

Já me foi jogado pejorativamente um comentário nesses termos. Eu adorei. Cuido, contudo, que quem me pretendeu classificar não tinha idéia das implicações de sua taxonomia.