rûªH e Saul em 1 Sm 16,14-23

breves lições de exegese

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

1.      Tradução de 1 Sm 16,14-23

 

 

14 E (o) espírito de Yahweh apartou-se de Sha'ul, e o atormentava um espírito mau da parte de Yahweh.15 E disseram os servos de Sha'ul a ele: "Eis, por favor, um espírito de Deus mau atormenta-te. 16 Que mande, por favor, nosso senhor teus servos de diante de ti buscarem um homem que saiba tocar com a cítara, e será que, estando sobre ti um espírito de Deus mau, e (ele) toca com sua mão, então é bom para ti". 17 E disse Sha'ul aos seus servos: "Vede, por favor, para mim um homem que toque bem, e trazei para mim". 18 Respondeu um dos servos e disse: "eis que vi um filho de Yishay, o belemita, que sabe tocar, (é) um valente guerreiro, e (é) um homem de guerra, e (é) bom de palavra, e (é) um homem de aparência, e Yahweh (é) com ele. 19 E enviou Sha'ul mensageiros a Yishay e disse: "Envia-me David, teu filho, que (está) no rebanho. 20 E tomou Yishay uma medida[1] de pão e um odre de vinho e um cabrito de cabras de uma vez[2] e enviou pela mão de David, seu filho, a Sha'ul. 21 E foi David a Sha'ul e permaneceu diante dele. E (ele) o amou muito, e o tornou escudeiro. 22 E enviou Sha'ul a Yishay, dizendo: "Que permaneça, por favor, David diante de mim, porque encontrou graça aos meus olhos. 23 E era que vindo um espírito de Deus a Sha'ul, então tomava David a cítara e tocava com sua mão, e acalmava-se Sha'ul, e (era) bom para ele, e apartava-se de sobre ele o espírito mau.

 

 

 

2.      Esquema das ocorrências de rûªH em 1 Sl 16,14-23

 

Verso 14a

hw"hy> x;Wr 

espírito de Yahweh

Verso 14b

hw"hy> taeme h['r'-x;Wr

espírito mau da parte de Yahweh

Verso 15

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espírito de Deus mau

Verso 16

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espírito de Deus mau

Verso 23a

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espírito de Deus

Verso 23b

h['r'h' x;Wr

o espírito mau

 

 

Em 1 Sm 16,14-23, a palavra hebraica para espírito aparece em seis expressões, conforme o gráfico acima permite observar. Essas seis expressões referem-se a duas grandezas diferentes. A primeira grandeza é rûªH Yahweh (espírito de Yahweh) e encontra-se sozinha em 14a. Todas as outras cinco expressões se referem à outra grandeza, que se poderia resumir numa expressão simplificada: espírito mau.

 

Neste artigo, a grandeza rûªH Yahweh não será comentada. O objetivo deste breve estudo é analisar as cinco expressões que em 1 Sm 16,14-23 se referem a espírito mau. Com isso, pretende-se tentar compreender um pouco do conceito que o autor do texto tinha a respeito de espírito(s) mau(s).

 

 

3.      Quem fala em 1 Sm 16,14-23

 

 

Devemos começar fazendo uma distinção importante em termos de leitura. No texto, tanto o próprio narrador se refere a espírito mau, quanto faz personagens da narrativa também se referirem a ele. O próprio narrador usa as seguintes expressões: espírito mau da parte de Yahweh; espírito de Deus e o espírito mau. E o narrador faz os servos de Saul usarem duas vezes a expressão espírito de Deus mau.

 

 

a) falam os servos de Saul

 

 

Comecemos nossa análise pela fala dos servos de Saul. Na língua original, tanto mau quanto espírito são palavras de gênero feminino. Isso nos ajuda a perceber que a expressão espírito de Deus mau constitui-se de um substantivo composto (espírito de Deus) e um adjetivo (mau). A expressão não quer dizer um espírito de um Deus mau, mas um espírito mau de Deus. A rigor, esse espírito que atormenta Saul é um espírito de Deus, e é mau.

 

Dessa primeira análise, devemos concluir que os israelitas (pelo menos esses servos de Saul e provavelmente o narrador de 1 Sm 16,14-23) acreditavam na existência de espíritos maus de Deus. A conclusão pode se basear no fato de que as palavras desses servos soam como palavras de quem conhece essas coisas. O tormento de Saul devia ser comum, e o povo devia ter suas receitas populares para lidar com coisas desse tipo.

 

Poderíamos, contudo, imaginar que o narrador do texto não estaria necessariamente endossando essa concepção popular de que existiriam espíritos maus de Deus que atormentam pessoas, e que podiam ser enxotados com música de cítara. O narrador estaria apenas citando o conselho dos servos de Saul, sem comprometer-se com ele. Porém, também a fala do narrador leva-nos a concluir que também ele admite a existência de espíritos maus da parte de Yahweh.

 

 

b) fala o próprio narrador de 1 Sm 16,14-23

 

 

O narrador começa o texto dizendo que rûªH Yahweh apartou-se de Saul (14a) e que "o atormentava um espírito mau da parte de Yahweh" (14b). Com uma expressão diferente de espírito de Deus mau, o narrador refere-se à mesma grandeza: um espírito mau da parte de Yahweh. Bastasse esse verso, estaríamos com evidências suficientes para compreender que se tratava de crença comum então a existência de espíritos de Deus maus e que tais  espíritos podiam atormentar pessoas.

 

Há porém mais uma evidência, ainda, e a mais interessante. Trata-se do verso 23. Ali, duas expressões diferentes encontram-se mutuamente relacionadas, e descrevem a mesma grandeza. Refiro-me às expressões espírito de Deus (23a) e espírito mau (23b). Nesse verso, duas coisas acontecem:

 

a)     primeiro, o narrador confirma a receita que os servos apresentaram a Saul - um bom tocador de cítara seria capaz de afugentar o espírito de Deus mau (16). Com efeito, quando David toca a cítara, o espírito mau aparta-se de Saul (23b).

 

b)     segundo, o narrador coloca em paralelismo sintático as expressões espírito de Deus  e espírito mau. O texto do verso 23 diz que quando um espírito de Deus vinha sobre Saul (para o atormentar), David tocava a cítara, e (esse) espírito mau (que viera atormentá-lo) apartava-se.

 

Podemos concluir, portanto, a) que o texto fala de um espírito mau; b) que esse espírito mau provém de Deus (fala-se dele como um espírito mau da parte de Yahweh e como um espírito de Deus mau); c) que esse tipo de espírito de Deus mau costuma atormentar pessoas e d) que um remédio contra esse tormento é uma boa audição de cítara.

 

Como compreender o fato de que 1 Sm 16,14-23 refere-se a espírito(s) de Deus mau(s)?

 

 

4.      Pensando sobre espírito(s) de Deus mau(s)

 

 

O fato de 1 Sm 16,14-23 tratar esse espírito mau como um espírito mau da parte de Yahweh ou como um espírito de Deus mau deve fazer-nos supor que esse texto tenha sido escrito em algum período anterior à hegemonia dos persas no Próximo Oriente Antigo[3]. Foi depois do cativeiro que Israel teve contato com a religião persa, adquirindo assim um conceito diferente de espíritos maus.

 

O encontro com a religião persa deu oportunidade aos israelitas de reformularem dois conceitos tradicionais: primeiro, que Deus era o autor tanto do bem quanto do mal; e segundo, que os espíritos maus eram espíritos de Deus. Essa reformulação que é tanto teológica quanto religiosa e cultural pode explicar a seguinte questão: por que 2 Sm 24,1 afirma que teria sido o próprio Yahweh que teria incitado Davi a fazer o recenseamento do povo, enquanto 1 Cr 21,1 afirma que teria sido um satã? Observe as duas tradições:

 

 

2 Sm 24,1

E continuou a ira de Yahweh a irar-se contra Israel,

e incitou David contra eles, dizendo:

"Vai, conta Israel e Judá".

 

1 Cr 21,1

E permaneceu um satan sobre Israel e incitou Davi a contar Israel

 

 

Enquanto 2 Sm 24,1 afirma que "a ira de Yahweh (...) incitou Davi", 1 Cr 21,1 corrige a afirmação, dando-nos conta de que o responsável pelo recenseamento teria sido um satan[4]. Essa mudança de perspectiva[5] explica-se pelo fato de que os textos foram escritos por autores diferentes e numa época bastante diferente: 2 Sm 24,1, no período monárquico, antes da influência da teologia dualista dos persas. 1 Cr 21,1, por sua vez, no período pós-exílico[6]. A reflexão teológica de 1 Cr 21,1 deixa transparecer o resultado do encontro entre a cultura israelita e a persa.

 

Os persas criam na existência de duas grandezas equivalentes: o bem e o mal[7]. Cada grandeza era representada por uma divindade com poderes equivalentes, e cada uma delas se fazia acompanhar por uma série de auxiliares: à divindade boa equivaliam auxiliares bons; à divindade má, correspondiam auxiliares maus. O universo persa é diariamente palco de uma luta entre o sumo bem e o sumo mal. É um universo dualista.

 

O universo israelita antes do contato com os persas era monista. Tanto o bem quanto o mal se concentravam na mesma divindade. Yahweh podia tanto fazer o bem quanto o mal, tanto havia espíritos de Yahweh bons quanto espíritos de Yahweh maus. Os espíritos de Deus podiam comportar-se tanto bem quanto mal. É por isso que 1 Sm 16,14-23 trata naturalmente e sem qualquer problema de consciência aquele espírito mau (23b) como um espírito de Deus mau (15 e 16), chegando mesmo a tratá-lo como um espírito de Deus (23a).

 

Depois do encontro entre as culturas israelita e persa, o povo de Yahweh refletiu sobre a questão do mal e sua relação com Yahweh. O resultado não foi a adoção do dualismo, mas uma adaptação do dualismo persa ao monismo javista[8]: o mal provém dos espíritos maus, que são adversários de Yahweh. Não é mais o próprio Yahweh que faz o mal acontecer, mas são os espíritos maus os seus responsáveis. Os israelitas não admitiram a existência de um mal que se comparasse a Yahweh. Esse satan não foi pensado como um deus rival, mas como um espírito mau.

 

O fato de o povo de Yahweh ter refletido na questão do mal e na sua relação com Yahweh levou-o a rever algumas de suas tradições, que se haviam desenvolvido na época passada, quando Israel cria que tanto o bem quanto o mal eram causados por Yahweh. Agora que refletiram à luz da cultura persa e parece terem chegado à conclusão de que o mal seria causado pelos espíritos maus, e não por Yahweh, reconhecem que algumas antigas tradições deveriam ser revistas. Uma delas é a antiga tradição que considerava o próprio Yahweh culpado pela contagem de Israel e Judá que Davi fizera (2 Sm 24,1). Agora parece que os israelitas entenderam que não fora Yahweh que incitara Davi, mas um adversário, um espírito mau, um satan (1 Cr 21,1).

 

 

5.      Conclusão

 

 

Através dos textos bíblicos, podemos tomar conhecimento dos conceitos que o povo de Yahweh tinha a respeito de diversas expressões de sua cultura, religião e teologia. O conceito de espírito mau em 1 Sm 16,14-23 representa um estágio pré-exílico da teologia israelita, quando o povo de Yahweh cria em espíritos de Deus maus, porque cria que tanto o bem quanto o mal vinham de Yahweh. Com o encontro entre Israel e os persas, os espíritos de Deus maus emancipam-se. O povo de Yahweh passa a imaginá-los como adversários de Yahweh e verdadeiros responsáveis pelo mal.

 

Se o conceito de espírito mau em 1 Sm 16,14-23 reflete o estágio em que o pensamento teológico de Israel se encontra quando esse texto é escrito, então devemos nos perguntar se a expressão que deixamos de lado também deveria ser compreendida à luz desse mesmo estágio. Assim, se Israel se referia a espíritos de Deus maus a partir de sua compreensão teológica, devemos imaginar e compreender que quando falavam de espírito de Yahweh era também a partir de sua compreensão que falavam.

 

Assim, um estudo sobre as expressões espírito de Deus e espírito de Yahweh no Antigo Testamento exige que estejamos, primeiro, dispostos a muito trabalho, porque as ocorrências passam da casa dos trezentos[9], e, segundo, dispostos a ouvir e compreender o que o povo de Yahweh tinha a dizer sobre rûªH ´élöhîm e rûªH Yahweh, e como podemos compreendê-los com toda sinceridade cristã.

 

 


Notas

 

[1] Segundo o aparato crítico da Bibia Hebraica Stuttgartensia, um gomer (cf. Os 3,2); na BJ, propõe-se hamishah: cinco pães.

 

[2] Segundo SCHÖKEL, Dicionário Hebraico-Português, p. 39: "como advérbio: (de) uma vez, do mesmo modo, igualmente, à uma".

 

[3] Cf. DONNER, H. História de Israel e dos Povos Vizinhos. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1997. p. 443-489.

 

[4] SCHÖKEL, Dicionário, p. 641: "!j'f' [satan]: adversário, contrário, opositor, contendente".

 

[5] Cf. CARUS, P. The History of the Devil and the Idea of Evil. New York: Gramercy Books, 1996. p. 70.

 

[6] Já em 1908 os livros de Crônicas eram datados "não muito antes de 300 a.C" (DUMMELOW, J. R. (ed) The One Bible Volume Commentary. New York: Macmillan Publishing Company, 1936. p. 248.

 

[7] Cf. ELIADE, M., COULIANO, I. P. Dicionário das Religiões. São Paulo: M. Fontes, 1995. p. 277-285.

 

[8] Cf. ELIADE, M. História das Crenças e das Idéias Religiosas. De Gautama Buda ao triunfo do Cristianismo. Das provações do judaísmo ao crepúsculo dos deuses. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. p. 35.

 

[9] A palavra hebraica para espírito, rûªH, ocorre cerca de 352 vezes no Antigo Testamento. Algumas dessas ocorrências estão tratadas em minha homepage www.ouviroevento.hpg.com.br.