O Profeta Fala Para Seu Tempo E Seu Lugar

breve estudo sobre Zc 2,1-4

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

RIBEIRO, O. L. O Profeta Fala para seu Tempo e Lugar. Breve estudo de Zc 2,1-4. Revista da Bíblia, Rio de Janeiro, ano VII, n. 27, 3t02 2002, p. 12-14.

 

 

Zc 2,1-4

 

tAnr'q. [B;r>a; hNEhiw> ar,aew" yn:y[e-ta, aF'a,w"  2,1

Levantei meus olhos e vi,

E eis quatro chifres.

hL,ae-hm' yBi rbeDoh; %a'l.M;h;-la, rm;aow"  2

tAnr'Q.h; hL,ae yl;ae rm,aYOw:

 ~l'v'WrywI laer'f.yI-ta, hd'Why>-ta, WrzE rv,a]

Disse ao anjo que falava comigo: que (são) estes?

Respondeu para mim: estes (são) os chifres

Que dispersaram Judá, Israel e Jerusalém.

~yvir'x' h['B'r>a; hw"hy> ynIaer>Y:w::  3

E Yahweh me fez ver quatro harashim[1].

tAf[]l; ~yaib' hL,ae hm' rm;aow"  4

hd'Why>-ta, WrzE-rv,a] tAnr'Q.h;a hL,ae rmoale rm,aYOw:

   aAvaro af'n"-al{ vyai-ypiK.

tAnr>q;-ta, tADy:l. c~t'ao dyrIx]h;l..c bhL,ae WaboY"w:b

Ht'Arz"l. hd'Why> #r,a,-la, !r,q,,, ~yaif.NOh; ~yIAGh;

Eu disse: o que estes vieram fazer?

Ele disse a dizer: estes (são) os chifres que dispersaram Judá

de sorte que um homem não levanta a sua cabeça.

E vieram estes fazer estremecer os que apontam os chifres,

as nações que levantaram os chifres contra a terra de Judá para dispersá-la.

 

 

 

O presente artigo tem por objetivo ilustrar, através de uma breve análise da chamada segunda visão de Zacarias (Zc 2,1-4), à luz das chamadas primeira e terceira visões (Zc 1,7-17 e Zc 2,5-9.10-17) que os pronunciamentos proféticos têm compromissos específicos com seu momento histórico, com seu destinatário preciso e com seu lugar geográfico. O profeta fala para seu tempo e sua gente. Mesmo as visões têm intenções precisas, e a sua compreensão exige que se empreenda um esforço de reconstrução do ambiente histórico-social em que ela é produzida. Perder de vista esse ambiente histórico-social pode por a perder a compreensão do texto bíblico.

 

Schökel  chama Zc 2,1-4 de segunda visão[2]. Estruturalmente é uma nova visão, mas a essência da narrativa e as personagens são as mesmas. Ainda é o anjo que falava comigo que vai se pronunciar em Zc 2,2. O profeta permanece na cena. Surgem os quatro chifres. E o profeta, reconhecendo estes quatro ferreiros (2,3-4), precisa apenas saber o que vieram fazer. Não é que não saiba quem são - o que o profeta quer deixar claro é o que eles vieram fazer.

 

O cenário é novo. Em 1,1-17, a visão se dá no Vale dos Harashim (1 Cr 4,14; Ne 11,35). Aquela visão constitui uma epifania[3] encenada e carregada pela presença dos harashim[4]: o Vale dos Harashim, à noite (1,8) ; os próprios harashim (1,8.10.11) como que hipostasiados em companheiros do anjo de Yahweh (o homem que estava montado sobre um cavalo vermelho). São os harashim de Zc 1,8.10.11 que, em número de quatro, se transportam da cena do Vale dos Harashim para a segunda cena. “O que vieram fazer?”[5].

 

A primeira coisa com que devemos ficar aturdidos é a presença de Yahweh em Zc 2,3 – não falam mais o homem que estava montado sobre um cavalo vermelho (1,8), nem o homem que estava entre os harashim (1,8), nem o anjo (1,9) , nem o anjo de Yahweh (1,12). Todos esses eram imagens para referir-se ao angelus interpres[6], o intermediário de Yahweh. Saem todos de cena. Ficam por lá mesmo os mensageiros. São insuficientes os intermediários para a missão de anunciar os harashim. É Yahweh, em pessoa quem tem de vir. E vem com os harashim. E para que? Para fazer o profeta ver os harashim. E por que é Yahweh quem tem de fazer o profeta vê-los? Porque o que ele tem de ver, tem de ver de forma indiscutivelmente inquestionável. Mensageiros não poderiam fazê-lo. Era imperiosa a ipssissima vox Dei - era imprescindível a voz do próprio Deus.

 

A cena nos remete a At 10,1-11,18. O que temos ali? Antes de mais nada, uma narrativa primorosa, que coloca o leitor em suspense por todo o tempo. Mas há mais, e, podemos crer, um paralelo perfeito, em todos os níveis aplicável a Zc 1,7-2,17, particularmente à luz da interpretação de somos levados a ver. Trata-se, em At 10,1-11,18 da inclusão dos gentios: “eis que Deus concedeu também às nações pagãs a conversão que conduz à vida” (At 11,18). Observe-se que em Zc 1,7-2,17, trata-se do tema da inclusão dos harashim. Dita assim, aquela frase de At 11,18  não libera todo o impacto que pretende no conjunto de At 10,1-11,18. Mas quem a pronuncia são os do partido da circuncisão, que agora há pouco queriam a cabeça de Pedro por ter justamente batizado gentios (At 11,2). Aproximam-se de Pedro, assim que ele retorna a Jerusalém, e se amontoam completamente descontrolados (At 11,18) e iniciam uma séria discussão com ele (At 11,2). Por quê? Porque tinham “ouvido dizer que as nações pagãs acabavam, por sua vez, de receber a palavra de Deus” (At 11,1). Mas como?! Sempre descontrolados, imaginamos, indignaram-se:

 

“_Tu entraste (...) na casa de incircuncisos notórios, e comeste com eles!” (At 11,3). Pobre Pedro, está a ponto de sofrer um ataque, não o mesmo ataque apoplético que sofrem, nesse mesmo instante, os da circuncisão, mas um ataque físico, porque estes não custam a partir para as vias de fato por conta de seu descontrole emocional. A sorte de Pedro é que o próprio Jesus lhe falara do céu:

 

“_Vamos, Pedro! Mata e come!” (At 10,13a). Sim, é claro que a voz é a voz de Jesus, porque, resolutamente, Pedro responde à voz que se dirigira a ele:

 

“_Jamais, Senhor”. A resposta de Pedro é clara: não podia fazer nada – o Senhor mandou-me batizar aqueles incircuncisos (At 10,48).

 

"_Mas tens certeza, Pedro? Não te enganaste?", querem saber os descontrolados religiosos.

 

"_Como?! Por três vezes a voz se me foi dirigida. E antes ainda que eu compreendesse o que significam tais palavras, as coisas foram acontecendo", explica Pedro, como a dizer: não tive culpa - Jesus mandou! Tem razão Pedro, porque, de fato, temos o testemunho, sempre escrito, de que “o Espírito lhe disse: ‘Aí estão dois homens que te procuram. Desce logo e põe-te a caminho com eles, sem nenhum escrúpulo: sou eu que os envio” (At 10,19b-20). O que Pedro podia fazer?

 

Estava explicada a inocência de Pedro. A essa altura, “os ouvintes recobraram a calma” (At 11,18). Foi o Senhor, afinal, quem mandou que fossem batizados. Mas, por quê? E Pedro explica: “_Não te atrevas a chamar de imundo o que Deus tornou puro!” (At 10, 15). Deus os purificou (At 10,15). O anjo do Senhor apareceu a eles (10,3.30). O Espírito Santo caiu sobre eles (10,44). Então, “a essas palavras os ouvintes (...) deram glória a Deus” (11,18a). Os gentios foram recebidos pelo Senhor – o Senhor em pessoa o declarou. Sim, sim, o texto de Atos presta-se por um lado a ratificar que a aceitação dos gentios é obra pessoal e direta de Jesus - Pedro apenas podia obedecer.

 

Voltemos a Zc 2,3: não é rigorosamente isso que faz Yahweh, pessoalmente? Como Jesus fará mais tarde, não está Yahweh a concertar as coisas do ponto de vista teológico? Não está Yahweh em pessoa fazendo o profeta ver os harashim pela mesmíssima razão de que não fora a intervenção de Yahweh, os harashim não seriam considerados dignos para a obra de reconstrução do Templo?

 

A partir do final do século VIII, especificamente com a reforma de Ezequias; particularmente com a intervenção dos deuteronomistas; e especialmente com o II Isaías (Is 40-55) os harashim são afastados das relações formais com o Templo. Isso por conta de suas práticas religiosas heterodoxas, as mais das vezes relacionadas às formas de religiosidade mágico-terapêutica e especificamente por causa de sua relação com a fabricação de ídolos de metal, ouro, prata, pedra ou madeira[7]. Mas, agora, estamos no século VI, e há uma obra a ser feita: a reconstrução do Templo que os mesmos harashim construíram (quando foram aceitos pelo rei Salomão para a grande obra). Como entregar a construção da Casa de Yahweh a fabricantes de ídolos? Somente, como parece ser o caso, se Yahweh fizer com que se veja os harashim. Por isso, Zacarias põe em cena apenas as três personagens da visão: Yahweh, surpreendentemente Yahweh, o profeta e os harashim, surpreendentemente os harashim. É como se Zacarias dissesse: "Foi Yahweh que me fez ver os harashim, os construtores do Templo." Tudo bem, são também fabricantes de ídolos, mas que podia eu fazer?".

 

Estamos ou não estamos diante de uma etiologia qualificadora relativa à participação dos harashim na reconstrução do Templo de Jerusalém? Tudo indica para essa leitura. Mas quem serão os ouvintes da visão?

 

Com a incorporação dos harashim na epifania da primeira visão (Zc 1,7-17), Zacarias reconstrói a epifania de Is 6,1-7. Os harashim estão atrás de toda a cena de Is 6,1-7[8]. Por quê Zacarias age assim? Porque na primeira visão, Zacarias dirige-se aos próprios harashim. Sua intenção é mobilizar os próprios  harashim para a obra da construção do Templo. Depois de cerca de duzentos anos de desprestígio e perseguição, os harashim agora são requisitados como o foram para a construção do templo de Salomão. Zacarias precisa convencê-los agora: e, para isso, deve devolver-lhes seu status que a reforma deuteronomista extirpara. Se os harashim não aceitarem a obra, o Templo não poderá ser reconstruído.

 

A segunda visão dirige-se aos líderes religiosos de Jerusalém, porque se os líderes não se derem conta de que os harashim são imprescindíveis, a Casa de Yahweh vai permanecer um monte de ruínas. E, uma vez que a tradição deuteronomista desqualificara radicalmente as suas atividades, somente uma radical intervenção de Yahweh os poderia tornar, como por assim dizer, puros, para retomarmos a expressão de At 10,15b. É para tanto que Yahweh fala pessoalmente ao profeta e lhe faz ver os quatro harashim. O profeta por si mesmo não veria nos harashim a oportunidade que Yahweh concedia a Jerusalém para reconstruir a sua Casa. Zacarias não tem, portanto, culpa alguma de tê-los mobilizado – que poderia fazer, se é o próprio Yahweh quem o fez ver os harashim!?

 

Finalmente, e para nos mantermos apenas nas três primeiras visões, devemos perceber que o ouvinte modelo da terceira visão (Zc 2,5-17) são os cativos (a golah[9]). Essa alternância de ouvinte modelo está bastante assentada na estrutura teológica das três visões.

 

Visão

Ouvintes

Centro teológico

Primeira, Zc 1,7-17

Os harashim

O Templo deve ser reconstruído, para que Yahweh volte a Jerusalém

Segunda, Zc 2,1-4

Jerusalém e seus líderes religiosos

Yahweh é quem pessoalmente indicara os harashim para a construção do Templo

Terceira, Zc 2,5-9.10-17

os cativos

A golah deve repovoar Jerusalém, para que Yahweh esteja

 

 

O tema da presença de Yahweh é recorrente nas três visões. Na visão central, em relação à primeira e à terceira, Yahweh está, já, pessoalmente presente. Mas o desejo de Yahweh é tanto que sua Casa seja reconstruída (Zc 1,16), quanto que Jerusalém seja repovoada (2,8b-9), porque, nos dois casos, é assim que Yahweh retornará para Jerusalém e para sua Casa (Sl 126,1.4 TEB[10]). Steinmann afirma que as visões e os oráculos clássicos de Zacarias destinam-se a encorajar a reconstrução do Templo: “Javé queria a reconstrução do santuário nacional”[11]. Mas reconhece que é mais do que isso o desejo de Yahweh. Na mesma direção em que fomos, apontando para o fato de que em Zc 2,3 é o próprio Yahweh quem surge, surpreendentemente ele mesmo, para esclarecer a presença dos  harashim, Steinmann afirma que “o próprio Javé queria que se prosseguisse a obra da reconstrução”[12]. E, mais uma vez, acompanhando nosso raciocínio já a partir de Zc 1,16, mas principalmente a partir da terceira visão, Zc 2,5-9.10-17, fica também muito claro para Steinmann que “o profeta convidava também os exilados sempre em Babilônia, a voltarem a Palestina”[13].

 

Que os ouvintes ideais da terceira visão (Zc 2,5-17) são a golah parece bastante claro, senão de todo em 2,8b-9, certamente em 2,10a.11: “Eia! Eia! Abandonai às pressas a terra do norte – oráculo do Senhor (...) Eia! Escapa, Sião, tu que estás instalada em Babilônia”.

 

Mas interrompamos esse breve estudo aqui. A intenção foi tentar demonstrar que as palavras dos profetas são palavras dirigidas a ouvintes com que se relaciona histórico-socialmente. O profeta tem intenções específicas, e elabora sua profecia (sejam oráculos, sejam visões) com a intenção de alcançar seu objetivo. Por detrás de toda a cena, Yahweh é o ponto de argumentação principal. É sempre ele, Yahweh, que é apontado como sendo o verdadeiro responsável por essa palavra profética. Mas veja: essa palavra profética tem objetivos naquele tempo e lugar. Perder esse objetivo, e descuidar desse tempo e lugar faz perder a própria palavra do profeta. Ora, se é a palavra do profeta que constitui Palavra de Deus (2 Pd 1,21), perder de vista o objetivo do profeta, e descuidar do seu tempo e de seu lugar pode significar, Deus nos livre, perder a Palavra.

 

 


Notas

 

[1] Harashim, no Antigo Testamento, constituem uma categoria profissional indiferenciada, particularmente relacionada à manipulação de metais, mas também de pedra e madeira. Foram responsáveis pela construção do Templo de Salomão e, posteriormente, desprestigiados pelos deuteronomistas por conta de sua relação com a fabricação de ídolos de metal, pedra e madeira e suas práticas religiosas heterodoxas. A tradução corrente e mais comum ferreiros é aproximada, uma vez que somente o contexto pode dar a precisão semântica que o termo, isolado, não conhece.

 

[2] A. Schökel.  Profetas II – Zacarias. Paulinas. p. 1189.

 

[3] Epifania é uma manifestação do numinoso, do Sagrado.

 

[4] Cf. RIBEIRO, O. L. op. cit.

 

[5] Schökel, Profetas II – Zacarias, p. 1189.

 

[6] Angelus interpres  é o termo técnico para referir-se às categorias dos mediadores angélicos que passam a caracterizar a literatura bíblica a partir do período persa. A teologia judaica, aproximando-se da teologia persa, entende cada vez mais radicalmente que Yahweh mesmo mantém-se distante do povo, sendo intermediado pelos anjos.

 

[7] Cf. RIBEIRO, O. L. Nehushtan & Yahweh - pesquisa exegética, histórico-social e fenomenológica sobre Nm 21,4-9. Rio de Janeiro, dissertação de mestrado, STBSB, 2001. 310 p.

 

[8] Cf. RIBEIRO, O. L. op. cit.

 

[9] Golah é a expressão hebraica para referir-se ao grupo de judeus cativos na Babilônia, agora libertos por Ciro, rei dos persas, mas que ainda permaneciam em Babilônia. Precisava-se excitá-los e convencê-los do retorno para Jerusalém.

 

[10] TEB, Tradução Ecumênica da Bíblia, Loyola. A versão da TEB espelha melhor o texto hebraico: "1. Na volta do Senhor com os que voltavam a Sião (...) 4. Senhor, volta com os nossos cativos)". Não é apenas a golah que volta: Yahweh volta junto com a golah (cf. Ez 10,18-23, onde Ezequiel narra que a glória de Yahweh deixa o Templo e dirige-se, montada num querubim, para a Babilônia).

 

[11] Steinmann, O Livro da Consolação de Israel e os profetas da volta do exílio, p. 258.

 

[12] Steinmann, op. cit. p. 259.

 

[13] Steinmann, op. cit. p. 259.