MATURIDADE E ORAÇÃO

O crente diante do paradoxo da resposta negativa de Deus

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

A fé cristã coloca o crente diante de uma série de paradoxos:

 

Ele conhece a verdade (Jo 8,32), mas por espelho, em enigma (1 Co 13,12a);

 

O crente possui a unção, e não tem necessidade de que ninguém lhe ensine (1 Jo 2,27a), mas o que ele conhece, conhece-o em parte (1 Co 13,12b), isso quando não, em vez de se ter tornado mestre com o tempo, “necessitais novamente que vos ensinem os primeiros rudimentos dos oráculos de Deus, e precisais de leite, e não de alimento sólido” (Hb 5,12).

 

Ele, o crente, recebeu do Verbo o poder de se tornar filho de Deus (Jo 1,12), desde já (1 Jo 3,2a); o próprio Espírito o testemunha (Rm 8,16) - mas, apesar disso, ele ainda não sabe como será (1 Jo 3,2a).

 

Libertado pelo Filho, o crente é verdadeiramente livre (Jo 8,36); em princípio, ele não peca (1 Jo 3,6a), mas corre sempre o risco de entregar-se novamente ao pecado (Rm 6,16-19).

 

Deus quer que todos os homens se salvem (1 Tm 2,4), e apesar de que “nenhum dos teus desígnios fica frustado” (Jó 42,1a), “quem não se achava inscrito no livro da vida foi também lançado no lago de fogo” (Ap 20,15).

 

A fé se depara com esses paradoxos não como contradições, mas como a característica fundamental da relação com o Sagrado: o encontro entre Deus e o crente é de tal ordem que a linguagem precisa descrevê-lo assim, utilizando-se de paradoxos. Não se pode demonstrar esse encontro, senão denunciá-lo obliquamente. E o lugar preferencial da linguagem que descreve o encontro entre Deus e o homem é o paradoxo: “e o Verbo se fez carne” (Jo 1,14a).

 

Também no âmbito da comunhão com Deus, o crente experimenta o paradoxo. Se por um lado, “tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei (Jo 14,13), por outro lado, o crente ouve o “não” de Deus. Esse “não” é o paradoxo. Não se esperaria ouvi-lo, principalmente depois de uma afirmativa tão categórica quanto a de Jesus: “se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei” (Jo 14,14). Contudo, esse “não” de Deus está presente na vida de cada crente. E nas Escrituras, também. Mesmo as maiores personagens das Escrituras receberam respostas negativas de Deus às suas orações.

 

Deus disse “não” a Abraão. Em Gn 18,23-33, todos os esforços de Abraão são inúteis. O máximo que consegue é que Ló e sua família sejam poupados, mas não as cidades. Claro que a razão de não ter Deus atendido a oração de Abraão permanece clara até no próprio texto: não havia justos naquelas cidades, por isso seus moradores não foram poupados. O que isso evidencia? Evidencia que Deus tem suas razões para dizer “não”.

 

Deus não atendeu a oração de Davi. Em 1 Sm 12,13-25, Davi buscou a Deus pela criança, jejuou e prostrou-se sobre a terra (1 Sm 12,16) e chorou (v. 22). Em vão. Impassivelmente, a mão de Deus não foi movida de sua intenção e a resposta que Davi ouviu foi “não”. Certo que poderíamos dizer, com Natã, que Davi estava sendo castigado (v. 14). Mas, com isso, que dizemos além de que Deus tem suas razões para dizer “não”?

 

A Jeremias Deus adverte antes mesmo que ore: “tu, pois, não ores por este povo, nem levantes por eles clamor” (Je 11,14a). Poderia Jeremias mudar a decisão de Deus?

 

Deus não atendeu as orações de Paulo: (2 Co 12,9a). Pedira a Deus que desviasse dele o espinho na carne. Foi uma oração insistente. Fez o pedido por três vezes.  Uma só resposta ouvir: “_Não”. A minha graça te basta. Deus tem suas razões para dizer “não”.

 

Como as teve diante da oração de Jesus. Segundo Mt 26,39 (cf. Lc 22,42), Jesus teria apelado a uma possibilidade: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice”. Já Mc 14,36 expõe a oração de forma mais plástica: “Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice”. Responda o leitor: essa oração de Jesus foi atendida?

 

O paradoxo de que se reveste todo encontro com Deus fica bastante claro quando comparamos essa oração de Jesus com o seu ensino sobre a oração. No modelo do Pai-nosso, é à vontade de Deus que se apela: “seja feita a tua Vontade na terra, como no céu” (Mt 6,10b). Sua oração se reveste dessa submissão à vontade do Pai, mas o faz em meio a tanta tristeza e angústia (Mt 26,37), que compartilha com os discípulos: “Minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38), a ponto de “o suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue que caíam por terra” (Lc 22,44b). Mesmo Jesus ouviu um “não” de Deus.

 

Essa série de orações não atendidas por Deus remete-nos à necessidade de compreendermos a oração diferentemente de uma atividade mágico-religiosa que põe a mover a mão de Deus. “Deus é espírito” (Jo 4,24a). A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira (DDCBB) compreende “o único Deus vivo e verdadeiro (como) Espírito pessoal (...) a quem devemos todo o amor, culto e obediência” (p6). O modelo de compreensão teológica da DDCBB não entende Deus como energia manipulável ou força a que se possa controlar. Deus é, antes, Deus pessoal, com quem o crente se relaciona.

 

É claro que o desejo de toda oração é ser atendida, e devemos esperar sempre que Deus nos ouvirá quando oramos (1 Jo 5,14-15). Mas a  fé deve pressupor que Deus tenha suas razões para não atender algumas orações. A oração deve desejar sempre o “sim” de Deus, mas, paradoxalmente, deve também pressupor que Deus possa dizer “não”.

 

Nessa capacidade de o crente lidar com o desejo de ser atendido e a liberdade de Deus em se decidir reside a maturidade. O crente tocado por uma fé amadurecida chega com ousadia e confiança ao trono da graça (Hb 4,16), como Jacó no Jaboque (Gn 32,26) e como a mulher cananéia (Mt 15,21-28; Mr 7,24-30) e, ainda, como a viúva da parábola (Lc 18,1-8). Esse crente sabe que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11,6a). Ele crê que “Deus (...) recompensa os que o procuram” (Hb 11,6b), e aprendeu que “aquele que pede, recebe” (Mt 7,8a), porque o “Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem” (Mt 7,11b). Contudo, sua oração confiante submete-se, sempre, à vontade do Pai. Deus é o “Pai que está nos céus” (Mt 6,9a) cuja vontade esse filho que ora deseja seja feita (Mt 6,10). Esse Pai já sabe de todas as suas necessidades antes mesmo que ele ore (Mt 6,8).

 

É na atitude de Abraão (“e Abraão voltou para o seu lugar”: Gn 18,33b), de Davi (“Então Davi se levantou do chão, lavou-se, pôs perfume, e mudou as vestes. Depois entrou no santuário de Iahweh e se prostrou”: 2 Sm 12,20), de Paulo (“Por conseguinte, com toda ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que pouse sobre mim a força de Cristo”: 2 Co 12,9) e de Jesus (“Basta. A hora chegou!”: Mc 14,41) que a maturidade do crente se manifesta. O crente deseja o “sim” de Deus, mas sabe ouvir o seu “não”.

 

A oração é encontro de duas grandezas livres. O homem é livre para desejar e pedir. Deus é livre para dizer “sim” ou dizer “não”. Os homens têm suas razões. Deus, as suas. A fé transita entre os homens e Deus, entre suas razões e as razões Dele. Ouvir “sim” é fácil. Difícil é ouvir “não”. A verdadeira fé nasce quando o crente compreende o paradoxo da oração com os olhos de uma fé amadurecida num Deus pessoal, o Pai nosso que está no céu.