Enfim, a Bíblia Foi Inspirada, Revelada ou Iluminada?

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Trata-se, afinal, do tema para muito leitor da Bíblia – a Bíblia foi inspirada, revelada, ou iluminada? É, afinal, o que faria a Bíblia diferente dos outros livros – porque, se a Bíblia for como os demais livros, qual a sua importância? E como ela poderia ser considerada, nesse caso, especial para o crente?

 

Trata-se, contudo, de um tema que muitas vezes é contornado com o recurso a “palavras-mágicas”. Palavras mágicas são palavras que usamos sem ter o seu sentido muito claro, mas que as usamos mesmo assim porque elas produzem, em nós e nos outros, uma sensação de supersentido, de reverência, de anestesiamento, de entorpecimento. Às vezes essas sensações são desejadas e mesmo produzidas intencionalmente, mas às vezes nos submetemos a elas por costume ou pelo prazer da própria sensação, que faz com que nos sintamos entregue ao mundo das sensações divinas, e por isso elas fazem tanto sucesso.

 

Inspiração, revelação e iluminação, contudo, não são palavras-mágicas – são palavras técnicas, de caráter teológico. Têm conteúdo específico, e servem para tentar traduzir a forma como os respectivos conteúdos de cada uma delas deve ser compreendido. Cada uma delas a seu modo pretende descrever um determinado processo. Nesse caso, em lugar de submetermo-nos aos efeitos eventualmente mágicos delas – sempre nos casos em que, não tendo muito preciso o seu significado, adotamos um comportamento meio irracional e emocional mais do que compreensivo diante do pronunciamento delas – deveríamos sempre exigir clareza no significado com que são empregadas. Sem isso, sem clareza, sem precisão, são palavras-mágicas, nem sempre inocentes e inofensivas.

 

Antes de tudo, devemos admitir que se trata de questão de . Não é tarefa da ciência, da filosofia ou de qualquer outra expressão do conhecimento humano fundamentá-las; mesmo a teologia, o mais que fará é formalizá-las. Não há fundamento para elas que não a pessoal. São dogmas. E como dogmas, ou são aceitos, ou não são aceitos. O problema é que nos acostumamos a julgar e ser julgados pela forma como aderimos ou não aos dogmas – o que é um problema, porque, mesmo dentro apenas do Cristianismo, cada sistema denominacional tem os seus, muitas vezes uns em contradição com outros, o que, pela definição tanto de dogma, quanto da exigência da atitude do crente diante deles, soa como uma tremenda contradição.

 

Se inspiração, revelação e iluminação são assunto de fé, não prescindem da teologia e da razão para lhes dar corpo. São elas assunto de fé enquanto adesão a doutrina. “Adesão a doutrina” não é a única definição de fé – e, me parece, nem de longe a melhor – mas é uma delas (cf. Judas, onde fé é sempre o corpo de doutrinas recebido pela tradição). Bom seria que nos acostumássemos a perguntar a qualquer que a use o sentido que se dá à palavra fé, posto que é polissêmica a palavra. Aqui, fé é a atitude de concordar ou não com uma doutrina – aliás, a atitude necessária de concordar com ela, recebendo-a passivamente, docilmente, posto que a possibilidade de pensar em não receber a tal doutrina, de discordar dela, é já, assim, falta (desse tipo) de fé.

 

Recebida docilmente a doutrina, o crente deve, por essa linha de raciocínio, ser esclarecido. O sentido daquela doutrina deve ser explicado, a fim de que o crente “entenda”. Claro que se trata de uma explicação “viciada”, isto é, a explicação é fruto de uma perspectiva particular, e não tem o caráter de investigação, mas de justificativa. Não se trata de pesquisa – mas de catequese. Catequese é a mesma palavra para “classe de catecúmenos”, isto é, o lugar onde o catecismo ocorre. O catecismo é a forma de explicar a para o crente“explicar” no sentido de justificar; “fé” no sentido de adesão a um corpo de doutrinas; “crente” no sentido de neófito, iniciante.

 

Caso concordemos que se trata de um modo “viciado” de doutrinamento, também deveríamos concordar que não parece haver outro modo institucional de um crente ser iniciado na doutrina daquela instituição. Deverá haver tantas catequeses quantas forem as classes de catecúmenos, porque as instituições religiosas cristãs modernas decidiram caracterizar-se mais pelas doutrinas que professam do que pela vida que vivem, e se são as doutrinas que professam que as caracterizam como melhores umas em relação às outras, tanto mais necessidade de doutrinamento e de zelo doutrinário. Assim, parece que as classes de catecúmenos têm um lugar relativamente seguro no tipo cristão-doutrinário de instituição.

 

Nesse tipo de cristianismo – que se traduz numa opção histórica, num modo de ser – o conceito de inspiração, revelação e iluminação precisa ser compartilhado por todos os membros da comunidade. Se o sentido não for compartilhado, as palavras viram magia, tornam-se elas “palavras-mágicas”.

 

 

Revelação

 

 

O conceito de revelação é um conceito relacionado à coisa revelada. Falar de revelação é falar daquilo que se torna perceptível, conhecido, declarado, mostrado, e que, antes desse fenômeno, não era perceptível, conhecido, declarado ou mostrado. Não se trata, ainda, do processo, mas da coisa em si. Com essa distinção evitamos muitas confusões desnecessárias na tarefa da dar expressão à doutrinária acerca do tema revelação, distinguindo-o de inspiração e, mais ainda, de iluminação.

 

Pois bem, se com revelação estamos querendo fazer referência à coisa revelada, estamos, então, diante do tema mais relevante relacionado às três palavras com que estamos trabalhando. Vamos caminhar um pouco...

 

Você compra uma máquina fotográfica. Quer inaugurá-la. Usa-a tirando um retrato da fachada de sua casa. Algumas máquinas cospem em poucos segundos uma “foto” por uma abertura especial na própria máquina; outras, as mais modernas, simplesmente convertem a “imagem” num arquivo de memória para computadores – as máquinas digitais; mas a maioria ainda exige que se leve o rolo numa loja de revelação de filmes. Ali se deixa o rolo e, depois, pega-se a fotografia – revelada. Esse é um sentido muito comum de revelação. Outro sentido pode ser o da inauguração de uma estátua. Ela está ali, já instalada na praça ou no museu, mas coberta por um pano qualquer, especialmente preparado para a ocasião solene. Na hora h, alguém tira o pano de cima da estátua.

 

Nos dois casos – o da fotografia e o da inauguração da estátua, o que acontece? Em termos gerais, uma coisa que estava lá, mas não se podia ver, agora é vista. Por quê? Porque aquilo que impedia que a coisa que já estava lá fosse vista foi retirada – e se pode ver, assim e agora, a coisa – a foto ou a estátua. Espera-se que esse seja o modo como se compreenda revelação em Teologia: uma verdade que estava lá desde sempre, mas que por qualquer razão, não era sabida, conhecida, agora o é, não por um meio natural, mas por um movimento sobrenatural. Assim, uma verdade necessariamente divina torna-se conhecida dos homens porque um movimento divino a torna perceptível.

 

Em Teologia, portanto, revelação é um termo técnico que, dependendo de quem o use, de onde seja usado, quer significar uma verdade divina apresentada por Deus. Não nos esqueçamos – trata-se de uma forma de os homens explicarem para si mesmos como pode ser divina uma idéia que eles mesmos transmitem uns aos outros, no tempo e no espaço – isto é, na História.

 

Por exemplo, quando a Tora foi promulgada pelo Templo de Jerusalém, em algum momento entre os séculos V e III a.C., ela foi apresentada como tendo origem no próprio Deus. Desde os Dez Mandamentos, mas não só eles, todo os códigos legais constantes de Êxodo, Levítico e Números foram apresentados como definitivamente pronunciados por Deus. Nesses termos, a Tora escrita foi revelada. Por ser divina, sempre existira. Entra, contudo, na História num dia x; nesse dia, por uma dádiva, um dom, um movimento de Deus, torna-se conhecida dos homens. É revelada.

 

Mas espere! A Lei Escrita – essa mesma tomada como revelada por Deus – ela precisa de interpretação, porque não fala sozinha; deve ser lida, compreendida, praticada. Lida, e não compreendida, é revelação de quê? Na prática, de nada. É como um barulho na floresta, sem ouvidos que o ouçam – há barulho? Se os homens não a compreendem – ainda que exista – não pode ser considerada revelada... Mas espere de novo! Se deve ser interpretada, compreendida – essa interpretação, essa compreensão, elas não são humanas? Sim, são. Então quer dizer que um movimento tomado como divino – a revelação da Lei – torna-se finalmente humano porque gera necessidade de interpretação? Sim. E não vai acabar significando que não houve revelação alguma? Sim. Por isso mesmo, os próprios judeus – na verdade os fariseus – vão fazer outra afirmação: não somente a Lei Escrita, a Tora, o “nosso” Pentateuco, os Cinco Livros de Moisés, foram revelados a Moisés no Sinai – mas também a sua correta interpretação foi revelada a Moisés no Sinai. Moisés então, transmite às gerações seguintes, desde Arão e Josué, não somente a Lei Escrita, mas igualmente a Lei Oral – a correta compreensão da Lei. Assim podem os fariseus descansar tranqüilos, porque têm uma dupla revelação com que guiar o povo – a Lei Escrita e a Lei Oral; aquela, revelação da vontade divina; esta, revelação da correta interpretação daquela.

 

Claro que se trata de Teologia para justificar um procedimento – mas é compreensível que tenha ocorrido, ainda que severamente criticado pelos saduceus, por exemplo. No caso da História da Igreja, algo muito parecido aconteceu. Se tomarmos os primeiros séculos da História da Interpretação da Bíblia, e se alinharmos três dos grandes Pais da Igreja – Justino, Ireneu e Tertuliano, veremos que o conjunto de seus esforços culmina no mesmo sistema farisaico: a Palavra de Deus é revelada por Jesus aos apóstolos – e com ela a correta interpretação até das Escrituras (compreendidas nesse contexto como o nosso Antigo Testamento); essa Palavra de Deus revelada por Jesus aos apóstolos corresponde à verdade – ainda que construída sobre alegorização das tradições judaicas consignadas nas Escrituras; os cristãos devem submeter-se a essa tradição Jesus – apóstolos, porque essa tradição corresponde à revelação.

 

Por que também a Igreja acaba relacionando operações humanas – a interpretação – e movimento divino – a “revelação”, como os fariseus fizeram? Provavelmente porque um texto revelado exige interpretação – e se qualquer um interpreta a seu gosto e modo, quantas interpretações haverá? E quantas revelações então?

 

Parece que essa questão entre revelação e interpretação não preocupou muito os espíritos antigos. E se chegou a preocupar, os representantes da Tradição souberam defender o sistema. Hoje é que, em pleno século XXI, não se pode contornar o problema de reconhecer que a revelação, tomada como as Escrituras, é como a foto sem revelar ou a estátua com pano em cima. Um texto revelado é, ainda, um texto cobertorevelação, mesmo, é a interpretação, porque é na interpretação do texto que o texto fala – e não antes. Se como crentes enfrentamos o desafio – tememos o risco da ameaça à fé, principalmente porque consideramos que saber a coisa certa é mais significativo do que fazer a coisa certa; se por outro lado, deixamos de ver o óbvio, corremos o risco de cegarmos os olhos para mantermos a luz acesa! Nem chus nem bus!

 

É preciso encarar a responsabilidade de assumir o risco. Só se torna revelado aquilo que se torna humano – uma revelação divina não prescinde de uma humanização dessa revelação. É por isso que muito mais força se faz nas escolas cristãs – as EBD – para ensinar o que a Bíblia diz do que para ensinar o povo a ler a Bíblia – é porque as Instituições sabem que revelação, na prática, acaba sendo o que se entende da Palavra, antes que ela mesma. Mas com isso, corre-se o risco de divinizar a doutrina – sempre histórica, sempre humana. Revelação é conceito relacionado ao movimento divino; doutrina, ao movimento humano. Ao gesto de Deus dar segue-se o gesto de o homem receber – e se trata de um receber tal que o que é recebido torna-se humano: paradoxalmente é divino enquanto pensado como dado pelo divino, mas é humano depois de pensado. E haverá outro jeito? Talvez seja esse o sentido da doutrina da encarnação – falar palavras humanas não parece ter sido o suficiente: foi necessário mesmo corpo e sangue. Foi necessário um conceito de humanidade no divino – e o risco foi – e é – a secularização.

 

Se for verdade que revelação e interpretação caminham como duas peças de uma mesma engrenagem, como pensar esse fenômeno, se pensar também esse fenômeno é função da Teologia? É provável que haja três formas de pensar a relação revelação versus interpretação. Primeiro – a interpretação se torna revelação. Foi o que fizeram fariseus e foi o que a Igreja decidiu fazer na sua história. O risco? Transformar compreensão histórica humana, institucional, condicionada, partidária, em expressão absoluta, indiscutível, definitiva. Alguém já nos alertou sob o risco de idolatria pressuposto nessa solução para o paradoxo de revelação exigir interpretação. A segunda forma é inverter a saída – não há revelação, só interpretação. Na prática, é a relativização do dogma, a sua percepção histórica – necessária do ponto de vista da História do Dogma, posto que me parece ser condição indispensável para uma leitura da História da Igreja. Nem precisaríamos tomar essa saída como uma saída necessariamente atéia – é a saída atéia, sim, mas pode ser encarada com seriedade mesmo por crentes que se olham no espelho e se consideram sinceros (ainda que aos olhos de outro crente parecesse destituído da qualidade). Feuerbach é talvez o mais formidável sistematizador dessa saída – e, em que pese não a tomar como a minha saída, o paradoxo revelação x interpretação é tão evidente e, a mim, incontornável, que me parece condição indispensável pensar uma saída considerando a afirmação de Feuerbach de que Teologia seja Antropologia – em outras palavras, de que revelação seja outro nome para autocompreensão.

 

De um lado, a saída dogmática nos convida a fechar os olhos e acatar a força da Tradição como revelação – e quanto não se escreveu, se escreve e, decerto, se escreverá numa lógica interna de defesa dessa saída! De outro lado, a saída antropológica – humanístico-hermenêutica – nos convida a tomar a revelação como revelação do homem. Há um caminho intermediário? Ou, se não intermediário, alternativo? Penso que sim – a saída fenomenológica. Simples em si mesma, mas complexa nos pressupostos, digamos que a saída fenomenológica afirmaria que, sim, a revelação acaba sendo revelação sobre o Sagrado, mas por via antropológica. A saída fenomenológica vai necessariamente concordar com Feuerbach, quando ele diz que toda Teologia é Antropologia – mas vai tomar essa condição humana da Teologia a partir do impulso humano de buscar a sustentação do absoluto – do Sagrado. O que se pode saber do Sagrado está escrito em carne e sangue na vida humana – e tudo quanto se poderia “dizer” dele cá está, vermelho. Trata-se de uma revelação que é necessariamente silêncio – que nada diz, mas faz dizer. Nada diz não porque não tenha o que dizer, mas porque esse dizer não o podemos ouvir carne e sangue. Mais pressentimos do que sentimos e ouvimos – e esse pressentimento faz-nos falar, falar como que de Deus, mas falar de nós mesmos; e falando de nós mesmos, porque pressentimos o Sagrado em, e com, e por, e sobre, vivemos a relação que será sempre humana, se quer ser divina. Se quiser ser divina a revelação, torne-se humana; se quiser ser divina dizendo-se divina, talvez deixe de ser até humana...

 

Uma Bíblia revelada assim é divina enquanto fechada, e humana enquanto aberta. E se foi escrita, o foi para ser aberta – logo, para ser humana. Que seja humana, para alcançar-nos no que tem de divina.

 

 

Inspiração

 

 

Já falamos disso um pouco aqui e em outros artigos nessa mesma revista. Precisemos apenas que se trata não mais, agora, da coisa revelada, mas do processo. Se a revelação é movimento divino – que tipo de movimento é?

 

Dizer que é um movimento em que Deus dá a revelação não é dizer nada de significativo, porque esse é o sentido genérico de inspiração. Não nos baste o sentido genérico, porque esse é um sentido mágico, mais de palavra de ordem – quer fazer fazer – do que explicação. Penso que podemos tomar pela mão a série de crentes que tentaram explicar os possíveis movimentos divinos da revelação e reuni-los em dois grupos.

 

No primeiro grupo, há duas salas para reunir dois subgrupos. Esse primeiro grupo é o grupo dos que entendem que o movimento divino é um movimento de dizer alguma coisa. Trata-se de uma explicação intramuros, eu diria. Porque os crentes que constituem esse grupo – claro, e os dois subgrupos que o constituem – são eminentemente teólogos dogmáticos – as explicações são construídas com a matéria-prima do terreno em que vivem. Porque a Palavra é tomada como revelação tanto em si mesma quanto em sua interpretação – a revelação tem que ser a coisa dita, para que se possa dizer que a revelação é aquilo que se deve saber, e que isso que se deve saber se deve ensinar, e que isso que vem sendo ensinado é a revelação mesma de Deus. Ora, mas com isso revelação e tradição tornam-se praticamente sinônimos! Seja como for, coloquemos as explicações sobre a mesa.

 

O primeiro subgrupo é o dos teólogos da inspiração proposicional direta, nome técnico que cunhei para reunir sob ele todos os teólogos que acreditam que a revelação foi um movimento de Deus dizer ditando. Seja falando com a “boca” ou com o “pensamento”, Deis ditou a Bíblia. É a máxima expressão da identidade entre Revelação e Tradição.

 

O segundo subgrupo é o dos teólogos da inspiração proposicional indireta, que reúne os teólogos que acreditam que Deus tenha dito, sim, enquanto revelava o que tinha a dizer, mas que não teria ditado a Bíblia, mas apresentado conteúdos proposicionais – verdades, doutrinas, etc. – na forma de tópicos ou temas a que correspondiam já originariamente juízos, deixando por conta do escritor bíblico a redação do texto. Para diferenciar, o primeiro subgrupo pensa num ditado, e o segundo, numa redação – para lembrarmo-nos dos nossos exercícios escolares, quando as professoras entravam na sala e dizem, para nosso tremor e temor: “Turma: ditado!”, ou “Turma: redação. Tema: Um dia Feliz nas Minhas Férias”.

 

O segundo grupo é o grupo dos teólogos da inspiração cósmico-histórica. O nome não é lá bonito, eu sei. Aceito sugestões. Com ele, tenta-se definir um grupo de teólogos, crentes, para quem a revelação, posto que humana, não deve consistir apenas numa linguagem que os homens entendem, mas numa linguagem humana – essencialmente humana. Como movimento divino, a inspiração leva homens a registrarem seus próprios conceitos históricos e a formularem seus próprios juízos acerca de diferentes temas e questões.

 

Duas coisas devem ser ditas. Primeira, que a inspiração cósmico-histórica poderia ser descartada, e o conteúdo do texto seria o mesmo. É honesto dizê-lo. Já me foi dito. E é certa a inferência. Por que então mantê-la? Cada um responda por si – de minha parte, a resposta é existencial: a Bíblia se me apresenta como Palavra de Deus – ainda que eu “saiba” que ela é humana, demasiado humana. Mas é que nessa humanidade dela, algo de não-humano, de além-humano me fala, em silêncio. Quanto mais a leio, mais ouço os homens e as mulheres que falam nela e por ela; mais humana se me apresenta – e tão mais justamente por isso – e só por isso divina. Não tenho outra forma de chamar esse sentimento que não através do termo – não a fé doutrina, mas a fé enquanto fundamento de laços essenciais entre o humano e o divino, o apelo, a ânsia, que melhor expressão não encontro senão a do salmista no Sl 42,1. Mas cuidado – por esse caminho, a sede é mitigada no silêncio, no só da garganta, muito mais do que na multidão das palavras da Teologia, da Doutrina e do Dogma.

 

A segunda coisa é que essa saída tenta levar a sério as Ciências Humanas – desde a Sociologia até a Filosofia. Tomadas como dádivas divinas, penso que podem e devem ajudar-nos a compreender as diversas faces de nossa relação com o Sagrado. Não as temo, e tento usá-las, até onde Deus nos concede, para compreender a própria Palavra, posto que se me apresenta como um dom de Deus que devo eu mesmo compreender e trabalhar, como a terra, que cavada e aguada pelo homem, produz o dom divino da vida...

 

 

Iluminação

 

 

Nesse último parágrafo tocamos do tema final da iluminação. Se revelação tem a ver com a coisa revelada, e se inspiração tem a ver com o movimento divino pressuposto na revelação, a iluminação tem a ver com o movimento humano – como o homem toma pé da revelação.

 

O mais comum de ouvirmos é um complemento do binômio revelação x interpretação nos termos em que um se confunde com o outro. Quer dizer, Deus revela, o homem recebe como revelação também a interpretação da revelação, e o que o homem entende dessa interpretação é também “revelação”, isto é, iluminação. Como se tudo fosse uma coisa só – simples: da fábrica ao consumidor, sem intermediários.

 

Há outras formas de encararmos a questão. Uma vez discutiram Lutero e Erasmo. Eram os dois então amigos – de cristianismo e de humanismo, um mais o outro menos, mas os dois no mesmo barco. Eram dias da Reforma. Vão-se 500 anos. E parece ontem!

 

Situemos melhor o caso. Erasmo era católico – e malgrado o amigo Lutero, que se tornou protestante, protestando – permaneceu católico. O que discutiram, o católico humanista Erasmo e o recém-protestante e humanista Lutero? Discutiam como os crentes podiam interpretar a Bíblia. O livro de onde aprendi a história me falta agora, História do Ceticismo de Erasmo a Espinosa, e o cito de memória. Lutero quer que cada crente interprete a Bíblia – livre-exame das Escrituras. Erasmo acha uma loucura – literalmente. Alega que a Igreja deve determinar o sentido das Escrituras – como havia 1500 anos vinha fazendo, a seu ver, positivamente. Não para Lutero. Mas Lutero, dizia Erasmo, vai dar uma confusão enorme, porque cada crente vai interpretar do seu jeito. É melhor ouvir a Tradição, que apresenta uma única interpretação – pelo menos há ordem. Lutero não quer ouvir. Está convencido de que cada crente deve examinar a Bíblia – ter o direito de o fazer, contudo, não significa ler do jeito que quiser, ele dirá. O crente verdadeiro, esse saberá interpretar a Bíblia de forma conveniente. Erasmo avança – dirá que cada um dirá que sua interpretação é a verdadeira, e que a confusão estará instalada. Lutero, então, faz a afirmação: o verdadeiro crente, que tem o verdadeiro Espírito, interpretará a Bíblia de forma correta. Se foi por causa dessa conversa não sei, mas que deixaram de ser amigos, deixaram...

 

Que tipo de saída é a de Lutero? Erasmo, católico, de um lado, diz: deixa isso com a Tradição – a Igreja resolve. Lutero, protestante, contradiz: não – o Espírito iluminará o crente para que ele interprete a Bíblia de forma correta. Trata-se de uma disputa, parece. Os protestantes dirão que Lutero ganhou. Não penso assim, contudo. Para mim, tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes. Explico: como é que Lutero pode falar de interpretação correta? Como ele vai julgar a interpretação de um crente para saber se ela é correta e, sendo correta, e só se for corrreta, iluminada – pelo Espírito? Sabe como? Da mesma forma com que Justino, Ireneu e Tertuliano – desde que a interpretação do crente fosse igual à de Lutero. Se fosse igual – era correta, iluminada, do Espírito. Se fosse diferente – errada, sem luz, sem Espírito. Qual a diferença entre Lutero, então, e Erasmo? É que Erasmo sabia que a interpretação da Igreja Católica era dela; agora, Lutero vai afirmar que a sua própria interpretação é a interpretação, a revelação, a iluminação do Espírito. Não é à toa que não durou pouco havia centenas de igrejas – e hoje, milhares, cada uma dizendo uma coisa – e cada uma dizendo que é o Espírito – o mesmo – falando! Algo está errado.

 

Uma coisa é confiar na ação do Espírito, submeter-se de sol a sol à fé irresoluta de que o sopro de Deus há de guiar. Outra é dizer que essa interpretação que eu faço aqui, agora, é do Espírito. Isso é poder, controle e manipulação, disfarçados em reverência, temor e tremor.

 

A doutrina da iluminação é um paradoxo tão grande quanto a doutrina da revelação. No silêncio, enquanto não abrimos a boca, pode-se pensar tanto numa quanto na outra – mas se abrimos a matraca, já não é mais revelação e iluminação, mas doutrina e opinião.

 

Como exegeta, penso que cada crente deva examinar a Bíblia. Concordo com Lutero – mais com seu lado humanista do que com seu lado de pastor protestante cioso de dirigir seu rebanho. Não quero tornar-me inimigo de Erasmo, a Tradição é importante – mas como ponto de partida, não de chegada; como trampolim, não como piscina; como foguete, não como lua. Uma roda-viva, indivíduo e tradição fazem-se mutuamente – e gosto disso. Como exegeta, e como crente, quero eu mesmo interpretar a Bíblia, e saber se interpretei certo. Confio na ação do Espírito. Mas não vou ousar dizer, em nome do que tipo de fé se pretenda, que essa ou aquela interpretação seja do Espírito. A rigor, para mim a única interpretação válida é a interpretação que me permita captar o sentido histórico-social do texto – falo como exegeta, e devo ser perdoado por isso. Isso que tento descobrir, isso para mim é a Palavra de Deus. Ela está sempre à frente. O problema ainda sem solução é – como saber que a alcancei?

 

Em resumo, a Bíblia envolve os conceitos de revelação, inspiração e iluminação. Mas são conceitos que precisam de conteúdo – e quem dá os respectivos conteúdos é o próprio leitor. Cada leitor, já tendo os conteúdos com que entende essa pequena trindade teológica, há de extrair da Bíblia suas interpretações. Quaisquer que sejam esses conteúdos, uma coisa me parece certa – serão sempre interpretações humanas, demasiado humanas...

 

Divina, só a Palavra...