CRITÉRIOS PARA A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

a palavra de Deus enquanto livro sagrado

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Introdução

 

Nesta série de quatro artigos, deveremos refletir sobre interpretação bíblica. Difícil dizer se há tema mais fundamental para um cristão do que a interpretação das Escrituras. Uma vez, no final de uma aula de hermenêutica (para hermenêutica, cf. o artigo anterior), um aluno ao que tudo indica um pouco atordoado com as dificuldades que a interpretação da Bíblia impõe ao estudante que deseje estudá-la com seriedade, desabafou que seria melhor deixarmos todas as questões "técnicas" e, segundo suas palavras, "ficarmos com Jesus".

 

O leitor deve perceber que há um equívoco no comentário do aluno. Ora, qual é nossa fonte de autoridade - mesmo de informações - sobre Jesus? Claro que é a Bíblia. Logo, só podemos obter informações sobre Jesus lendo e estudando a Bíblia. Portanto, não há a mínima possibilidade - se estamos interessados em viver a vida cristã com seriedade e compromisso com a verdade - de contornarmos as dificuldades de interpretação da Bíblia com a desculpa de que "temos Jesus". Sim, porque se o cristão não estuda a Bíblia com seriedade, que garantias tem de que as idéias que tem a respeito de Jesus sejam corretas? Todo e qualquer pensamento objetivo sobre Jesus deve derivar do estudo das Escrituras. Caso contrário, podemos mesmo inventar um "Jesus" que nem de longe corresponda ao Jesus da Bíblia.

 

Os Princípios Batistas insistem que o estudo da Bíblia deve ser feito "com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração" (Princípios Batistas, I.2. Em: Impacto - Realidade Batista. Niterói: CBF, 2001. p. 11). Chamo a atenção para as expressões estudar, mente aberta e pesquisa. Nenhuma delas nos autoriza a tratar a Bíblia com negligência, ainda que em nome de uma aparente espiritualidade cristã.

 

 

1. Pensando a Bíblia como Livro Sagrado Inspirado

 

 

Em nenhum outro lugar a necessidade de uma reflexão séria e cuidadosa sobre temas importantes da interpretação bíblica é tão evidente quanto a reflexão a respeito do tema da inspiração. Portanto, não só descalcemos nossas sandálias, porque o território que pisaremos é santo (cf. Ex 3,5), mas principalmente estejamos dispostos à renovação de nosso entendimento (Rm 12,1-2), bem como preparados a dar a razão de nossa esperança (1 Pd 3,15).

 

Se o quisermos dizer de outro modo, recorramos aos mesmos Princípios Batistas, que ainda insistem no seguinte ponto: "a fé e a razão aliam-se no conhecimento verdadeiro. A fé genuína procura compreensão e expressão inteligente" (op. cit. p. 20). Ora, inspiração é um tema da ; se essa fé é genuína, devemos perguntar-nos sobre o que é a inspiração.

 

A inspiração não pode ser tabu. Não se pode deixar de perguntar pelo seu significado. Como cristãos, as Escrituras nos conclamam a pensar nisso (Fl 4,8). Como batistas, somos constrangidos a tanto: "nossas igrejas devem defender e proteger o direito de o povo perguntar e criticar construtivamente" (idem, p. 20).

 

Por tudo isso, portanto, devemos assumir a pergunta pelo sentido da inspiração. Devemos fazer algumas perguntas importantes: o que é a inspiração? Como ela se processou? A inspiração alterou a capacidade dos escritores bíblicos de refletirem a partir de sua própria realidade? A inspiração impõe ao texto um sentido diferente do que o autor escreveu historicamente?

 

Vamos enfrentar introdutoriamente essas perguntas. E vamos fazê-lo de uma forma nova. Não serão novos pensamentos, mas uma forma nova de pensar velhos pensamentos da história da Igreja. Vamos analisar as possibilidades de compreensão da inspiração a partir de três modelos teóricos.

 

 

2. Os Modelos Teóricos para o Tema da Inspiração das Escrituras

 

 

É comum a classificação teológica que procura pensar a inspiração usando proposições assim: a) a Bíblia é a Palavra de Deus; b) a Bíblia contém a Palavra de Deus e c) a Bíblia se torna a Palavra de Deus. Particularmente, não me sinto à vontade com essa classificação. No fundo, ela é tendenciosa. Procura deixar subentendido que apenas o grupo a) tem a Bíblia como Palavra de Deus, e que os grupos b) e c) relativizam esse dogma e essa fé.

 

Pretendo tratar do tema de outro modo. Interessa-me aqui dialogar com aqueles para quem a Bíblia é Palavra de Deus. Podemos recorrer à Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira: "A Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana" (DDCBB. Rio de Janeiro: JUERP, 1991. p. 5). Sobre esse tema, poder-se-ia refletir no capítulo "Revelação Bíblica" (W. T. Conner, Revelação e Deus. Rio de Janeiro: JUERP, 1979. p.79-101). Por ora, devemos nos perguntar de que forma podemos pensar a Bíblia como Palavra de Deus.

 

Tanto a palavra inspiração quanto a expressão Palavra de Deus são muitas vezes usadas como "palavras mágicas". É como se não tivessem conteúdo próprio, mas apenas fossem usadas para manter os ouvintes absolutamente passivos e sob o controle de quem as usa, não interessando se com boas ou más intenções. A manipulação das massas é nociva e nefasta, sejam boas ou más as intenções (cf. o Apêndice em A. Huxley, Os Demônios de Loudun. São Paulo: Círculo do Livro, 1992. p. 315-329: "produzir a intoxicação das massas - mesmo que em nome da religião e supostamente 'para o bem' do intoxicado - não se justifica moralmente").

 

Tanto quem usa os termos inspiração e Palavra de Deus, quanto quem os ouve, deve ter uma noção clara e consciente do que significam. E podem significar pelo menos três coisas diferentes e irreconciliáveis entre si.

 

 

2.1 Teoria da Inspiração Proposicional Direta

 

 

Chamo assim todas as teorias que dizem que a Bíblia foi ditada por Deus. É uma teoria, porque a própria Bíblia não dá conta de como a totalidade dos seus textos foram produzidos. É uma teoria proposicional, porque quem adota essa explicação para a inspiração, parte do pressuposto de que Deus ditou palavras aos escritores bíblicos. E é conseqüentemente direta, porque as palavras que os escritores bíblicos escreveram não são suas, não são históricas, nem têm relação nenhuma com os sentimentos desses mesmos escritores - mas são diretamente proferidas pelo próprio Deus.

 

A teoria da inspiração proposicional direta, portanto, é a teoria que explica a inspiração como o processo através do qual, Deus usou escritores bíblicos para escreverem as suas próprias (de Deus) palavras, ditando-as.

 

Há algumas implicações que se impõem à reflexão. Primeiro, os autores bíblicos não têm participação na elaboração do texto, de forma que não importa quem o teria escrito, nem quando, nem porquê; assim, não há como explicar nenhuma passagem à luz de condicionamentos históricos e/ou antropológico-culturais. Segundo, inspiração é tanto processo quanto conteúdo; o texto bíblico nasce na mente de Deus, e ele o dita para o escritor. Terceiro, não pode haver conflitos ou contradições nas Escrituras.

 

 

2.2 Teoria da Inspiração Proposicional Indireta

 

 

Classifico assim as teorias intermediárias entre a teoria da inspiração proposicional direta e a teoria da inspiração cósmico-histórica (cf. adiante). A teoria da inspiração proposicional indireta difere da teoria da inspiração proposicional direta apenas num detalhe - Deus, em vez de ditar os textos, propõe um tema (daí continuar sendo proposicional a teoria). De posse do tema que Deus teria proposto, o escritor sagrado é que o desenvolveria de acordo com suas características pessoais.

 

A teoria da inspiração proposicional indireta, portanto, é a teoria que explica a inspiração como o processo através do qual Deus propõe um tema aos escritores bíblicos, os quais desenvolvem o tema de acordo com suas próprias características pessoais.

 

Também há implicações importantes. Primeiro, há certa liberdade de participação humana no processo de elaboração do texto bíblico; o tema é proposto por Deus, mas como o homem o desenvolve, pode fazê-lo usando suas próprias características; o escritor escolheria o gênero literário, o tamanho do texto, sua estrutura, etc. Se for um bom escritor, escreverá um belo texto; se for um escritor mediano, não alcançará tanta glória literária. Mas o conteúdo do texto continua sendo originalmente divino. Segundo, o leitor assume um papel crítico, porque deve distinguir no texto o tema divino ao lado das particularidades do escritor bíblico.

 

 

2.3 Teoria da Inspiração Cósmico-Histórica

 

 

Incluo nessa classificação as teorias que tratam a Bíblia como Palavra de Deus em palavras humanas. Essa forma de explicar a inspiração entende que Deus escolheu palavras humanas para refletir as suas palavras. Isso significa que a Palavra de Deus é tanto palavra de Deus quanto palavra do homem que a escreveu. É um paradoxo. Como um paradoxo é a crença em Jesus Cristo, a um tempo divino e humano. Segundo a teoria da inspiração cósmico-histórica, Deus nem teria ditado o texto bíblico, nem proposto temas aos escritores. Afirma-se que Deus age na história, relaciona-se com os homens, e que os homens desenvolvem compreensões históricas a respeito dessas manifestações de Deus e de seus relacionamentos com os homens. Os textos bíblicos derivariam, em última análise, da compreensão que os homens adquiririam a partir de sua própria experiência religiosa, política e cultural. Deus teria escolhido essas compreensões específicas e teria movido os homens a registrá-las.

 

Nesse caso, a teoria da inspiração cósmico-histórica é a teoria que explica a inspiração como o processo através do qual Deus teria selecionado diversas compreensões humanas a respeito de temas relacionados ao próprio Deus, à sociedade, à vida, à morte, à guerra, à política, etc., movendo (= inspirando) os homens responsáveis por essas compreensões a registrá-las.

 

Há, claro, implicações. Primeiro, a Palavra de Deus coincide necessariamente com a intenção original do autor bíblico; ouvir a Palavra de Deus é ouvir necessariamente o que esse autor disse - a Bíblia, enquanto Palavra de Deus, é palavra de Deus em palavras humanas. Segundo, os textos bíblicos refletem necessariamente a compreensão histórica de escritores sagrados; essa compreensão está condicionada por sua situação histórica, cultural e política. Terceiro, não só é possível, como previsível que haja diferenças de opiniões entre os autores bíblicos, porque os escritores viviam sob condicionamentos culturais e religiosos diferentes, relacionavam-se com grupos sócio-políticos diferentes, e essas diferenças impõem compreensões diferentes seja do próprio Deus, dos homens e da vida. Quarto, os escritores bíblicos não foram usados no sentido de que teriam perdido a sua liberdade e autonomia; o que quer que diga a Palavra de Deus, era exatamente isso que dizia o escritor bíblico. Dito de outro modo, a Palavra de Deus diz o que o escritor bíblico podia dizer e dizia.

 

 

Conclusão

 

 

O que há de mais significativo nessa (breve e superficial) exposição é o fato de que todas as três teorias tratam a Bíblia como Palavra de Deus. São três compreensões muito diferentes entre si, mas é que as pessoas acabam tendo compreensões diferentes sobre o que é a Palavra de Deus. Nesse caso, não se pode tomar uma ou outra como mais "espiritual" - estão todas as três tentando dar "expressão inteligente", nos termos dos Princípios Batistas, à questão da inspiração. A questão é saber qual delas explica melhor a inspiração. E não há no mundo pessoa capaz de dar de forma irrefutável uma resposta definitiva. Cabe ao leitor da Bíblia decidir-se por si mesmo. Se por um lado a inspiração é um tema da fé, por outro, a sua compreensão é exercício pessoal e de responsabilidade única e exclusiva do indivíduo (cf. Princípios Batistas, II [O Indivíduo. 2 Sua Competência]. Op. cit. p. 12).

 

Claro está que cada uma das três teorias implica em metodologia de leitura específica. Particularmente, gosto de pensar a Bíblia como Palavra de Deus em palavras humanas. Não me apetece a imagem de uma Bíblia que tenha escritos que dizem uma coisa, mas que deve ser lida como se dissesse outra coisa. Da forma como penso, a Palavra de Deus coincide com a intenção original de seus autores. É bem como 2 Pd 1,20b.21b diz: "nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação... mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo" (IBB. 8ª ed. melhores textos. 1992).

 

Na prática, a Bíblia deve ser lida, conforme já vimos, com mente aberta (= abertura às palavras dos autores, que na maioria absoluta das vezes pensam bastante diferente de nós); com pesquisa (= uma investigação séria e responsável pelo sentido original da palavra dos escritores bíblicos, rigorosamente nos termos em que pensaram e escreveram); com atitude reverente (= profundamente convencidos de que por trás da intenção desses autores, e necessariamente relacionado a ela, está algo que Deus nos quer ensinar); e com oração (= suplicando a Deus que nos dê a suficiente abertura, a necessária capacidade de pesquisa e a conveniente postura reverente para ouvirmos sua Palavra encarnada nas palavras dos seus escritores humanos).