CRITÉRIOS PARA A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

a palavra de Deus enquanto livro

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Introdução

 

 

A Revista da Bíblia encomendou-me uma série de quatro artigos sobre Hermenêutica. Hermenêutica é a área do conhecimento humano que lida com interpretação. No caso da Bíblia, trata-se de interpretação de textos.

 

Hermenêutica enquanto nome dessa disciplina vem de Hermes, que entre os gregos era o porta-voz dos deuses. Em At 14,12, o povo de Licaônia trata Paulo como Mercúrio. Mercúrio era o porta-voz dos deuses entre os romanos: "começaram a chamar (...) a Paulo de Mercúrio, porque era este quem tomava a palavra". Hermenêutica então vem a calhar como nome da série de conhecimentos indispensáveis a uma boa compreensão da Bíblia.

 

De um lado, porque a Bíblia é literatura. A Bíblia é uma biblioteca de sessenta e seis livros no cânon protestante. A Bíblia é uma coleção de centenas, ou mesmo milhares de textos. Logo, mais do que justo que haja uma ciência do texto - Hermenêutica. Por outro lado, nós cristãos tomamos a Bíblia também como Palavra de Deus. Como os protestantes e por conseqüência os evangélicos não reconhecem porta-vozes divinos (At 14,15), salvo o próprio Espírito Santo, logo, a Hermenêutica enquanto disciplina assume a responsabilidade de ajudar a cada leitor da Bíblia a ouvir a voz da Bíblia.

 

Nesse primeiro artigo, desejo falar sobre a leitura da Bíblia como livro, independente de ser Palavra de Deus, assunto que trataremos no segundo artigo. Enquanto livro - porque é um conjunto de livros e de textos - a Bíblia tem critérios próprios. Quais são?

 

 

1. Os critérios literários da Bíblia enquanto livro

 

 

Antes de tudo, deve ficar claro que a própria Bíblia não trata do tema. A Bíblia não pára para nos dizer como devemos lê-la, já que ela é um livro. O que chamamos aqui de critérios literários são critérios válidos para qualquer literatura. Isso significa que é o fato de a Bíblia ser um livro ou uma série de livros e textos que nos impõe a pergunta sobre sua leitura adequada.

 

Sendo um conjunto de livros, sabemos que não são todos eles do mesmo tipo. Há diferentes tipos de livros na Bíblia: pequenos e grandes, mais ou menos antigos, poéticos ou em prosa, histórico-teológicos ou sapienciais, simples ou complexos, etc. Não se trata, ainda, de perguntar como se lê cada um desses tipos de livros. Trata-se da pergunta de fundo: qual o critério para se ler um texto. Trata-se da pergunta sobre onde está o sentido de um texto. E há três teorias sobre onde está o sentido de um texto.

 

 

2. O sentido do texto está na intenção do leitor do texto

 

 

Essa teoria diz que um texto é sempre uma coisa que o leitor manipula. O leitor é que acaba fazendo o texto dizer o que ele quer dizer. O argumento é duplo: a) de um lado, o autor do texto não está mais presente para controlar a sua intenção; b) de outro, os homens são movidos por suas ideologias, e o leitor lê sempre ideologicamente os textos.

 

 

Um bom exemplo disso é o que diz Justino. Em seu livro Diálogo com Trifão, escrito no séc. II d.C., Justino diz ao judeu Trifão que os livros dos judeus não são (mais) dos judeus, mas "nossos" (Paulus, 1995. p. 152). Zuck faz um comentário em seu livro A Interpretação Bíblica: "Justino afirmava que o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos, mas essa pertinência, dizia ele, era percebida por meio da alegorização" (Vida Nova, 1994. p. 10). Na constituição dogmática católica Dei Verbum, afirma-se que "a Igreja logo, desde os seus começos, fez sua aquela tradução grega antiqüíssima do Antigo Testamento" (Paulinas, 1966, p. 26). Quando a igreja se apropria dos textos judaicos e os lê como textos cristãos, está dizendo com isso que o verdadeiro sentido daqueles textos está com ela, e não com os autores dos próprios textos. Quando a igreja faz isso, consciente ou inconscientemente ela está dizendo que o sentido desses textos está no leitor cristão. Umberto Eco chama essa teoria de intentio lectoris - intenção do leitor (Interpretação e Superinterpretação, Martins Fontes, 1993, p. 27-29).

 

Como leitores da Bíblia, devemos nos perguntar: lemos a Bíblia porque queremos ouvi-la, ou lemos a Bíblia porque nós é que sabemos o que ela deve dizer? Em outras palavras? O sentido dos textos bíblicos está no leitor cristão?

 

 

3. O sentido do texto está nas intenções do próprio texto

 

 

Faz sentido? O que significa exatamente dizer que o sentido de um texto está no próprio texto? Significa que o texto deve falar por si só, dizem os teóricos da intentio operis (Eco, p. 27-29) ou intenção da obra (do texto). Os teóricos afirmam que todo texto é polissêmico - ou seja, que tem muitos sentidos. Croatto explica isso muito bem em seu livrinho Hermenéutica Bíblica (La Aurora, 1984): toda vez que uma fala (que tem um único sentido) é escrita, passa a sustentar vários sentidos possíveis (polissemia). Assim, os textos bíblicos são passíveis de sustentar vários sentidos.

 

Não se deve confundir intenção do texto com intenção do leitor. Enquanto a teoria da intenção do texto diz que o texto tem vários sentidos, por outro lado, a teoria da intenção do leitor diz que o leitor enxerga apenas um único sentido. Digamos assim, o texto é potencialmente polissêmico; mas na prática, o leitor enxerga apenas um sentido dentre tantos possíveis.

 

Penso que essas duas teorias se prestam mais a explicar a prática da leitura da Bíblia e suas complicações em face da ausência do autor dos textos do que realmente propor uma teoria de interpretação. O próprio Croatto que defendia a intenção do leitor no seu livrinho citado, ultimamente decidiu-se pela intenção do autor, como se pode perceber de seus últimos artigos da Revista de Interpretação Bíblia Latino-Americana. Vamos, pois, analisar o que a teoria da intenção do autor afirma.

 

 

4. O sentido do texto está na intenção do autor do texto

 

 

Eco chama essa teoria de intentio auctoris, ou intenção do autor (Eco, p. 27-29). Segundo essa teoria, não importa se o leitor possui suas próprias idéias sobre a vida, o mundo, o homem e Deus (= ideologia); nem importa que realmente os textos tenham a capacidade de dizerem coisas diferentes. Para a teoria literária da intenção do autor, deve-se ler um texto para recuperar a intenção do autor que o escreveu e que é possível esse esforço. O sentido de um texto não estaria no leitor e na sua ideologia; o sentido não estaria flutuando solto como dentes-de-leão na polissemia do texto; o sentido está na intenção com que o autor escreveu o seu texto.

 

Gosto de citar 2 Pd 1,21b nesse contexto: "os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo" (Almeida, melhores textos, IBB, 1992) ou "os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (Almeida, rev. e cor. IBB, 1991). Odette Mainville tem algo a dizer: "compreender a intenção original de um texto permite evitar interpretações equivocadas, senão inteiramente errôneas" (A Bíblia à Luz da História, Paulinas, 1999. p. 10). Mas não confunda: "intenção original de um texto" só faz sentido na teoria literária da intenção do autor. O texto em si não tem intenção original, mas sentidos diferentes e iguais em termos de valor. Se estivermos interessados na intenção original, o que esse texto bíblico quis dizer lá e então quando ele foi escrito, então temos de nos esforçar para descobrir o que é que o autor do texto queria dizer com seu texto.

 

 

Conclusão

 

 

O leitor da Bíblia sabe que a Palavra de Deus é um livro. Enquanto um conjunto de centenas de textos escritos, a Bíblia deve ser lida e compreendida. Para compreender o texto, primeiro o leitor deve decidir-se onde ir buscar o sentido do texto. Enquanto disciplina que trata justamente do sentido dos textos, a Hermenêutica sugere ao leitor três possibilidades: a) leitor; b) texto; c) autor. O leitor deve escolher uma dessas possibilidades. Essa é sua mais importante decisão. Esse é o principal critério.

 

Esse artigo sugere que o sentido da Palavra de Deus seja procurado na intenção do(s) autor(es) do(s) texto(s) bíblico(s). Ouvir a Bíblia (ouvir o que Deus tem a dizer através da Bíblia) é preparar-se para ouvir o que os autores dos textos da Bíblia têm a dizer. Os homens inspirados falaram. Vamos ouvir o que eles têm a dizer.