Imagem e Forma

Análise semântico-fenomenológica de celem e Dümût na Bíblia Hebraica

(semantic-phenomenological investigation: celem and Dümût)

(Osvaldo Luiz Ribeiro)

 

RIBEIRO, Osvaldo Luiz. Imagem e Forma. Análise semântico-fenomenológica de celem e Dümût na Bíblia Hebraica. Via Teológica, Curitiba, n. 8, p. 103-128, 2003.

Resumo: a pesquisa exegética do Antigo Testamento deve partir dele mesmo. A compreensão de termos da Bíblia Hebraica deve pressupor a pesquisa histórico-social – os termos devem ser ouvidos como eram pronunciados. Gn 1,26 faz uso dos termos celem e Dümût, cuja precisa compreensão demanda investigação semântico-fenomenológica. Inserida no complexo criação-dilúvio, a passagem deve ser lida levando em conta a função social do complexo – a partir da qual a proposição teológica funcionava. O presente ensaio consiste num passo intermediário, mas incontornável, na investigação da função social do complexo criação-dilúvio em Israel.

Palavras-chaves: exegese, Antigo Testamento

 

Introdução

Este artigo consiste num primeiro movimento indispensável à redação do terceiro artigo da série Vento Tempestuoso. É parte de uma série, que está relacionada à pesquisa histórico-social sobre a função político-religiosa dos complexos criação-dilúvio em Israel. A função social da proposição teológica de Gn 1,26 demanda esforços também especificamente exegéticos, cuja divulgação é o objetivo do presente ensaio. Todo o esforço concentra-se na tentativa de determinação do sentido das expressões celem e Dümût, e a metodologia de análise consiste no levantamento semântico-fenomenológico de todas as ocorrências das duas raízes na Bíblia Hebraica. Pretende-se analisar o sentido com que cada uma delas é empregada, para, finalmente, se perguntar pelo sentido com que devem ser tomadas em Gn 1,26.

 

17 são as vezes e 15 são os versos em que a raiz do substantivo masculino hebraico celem aparece nos textos da Tanak, que, por sua vez, testemunha em 25 vezes e em 22 versos o uso da raiz do substantivo feminino hebraico Dümût. Em três passagens, celem e Dümût aparecem relacionadas.

 

O Dicionário Bíblico Hebraico-Português de Luis Alonso-Schökel dá para esses substantivos os seguintes significados potenciais:

  • celem – "imagem, figura, reprodução, estátua, escultura Nm 33,52 1Sm 6,5.11 2Rs 11,18 Ez 7,20 16,17 23,14 Am 5,26; o homem imagem de Deus Gn 1,26s 9,6; o filho do pai 5,3; sonhos Sl 73,20; em imagem, como fantasma 39,7" (ALONSO-SCHÖKEL, 1997, p. 561);

  • Dümût – "com referência a um termo de comparação: semelhança, imagem, cópia, retrato, reprodução, imitação, desenho; sem referência explícita: aparência, figura, forma, fisionomia; para evitar a precisão da imagem ou comparação: espécie de, à maneira de, como se, dir-se-ia. Imagem, cópia, imitação Gn 1,26 + Dümût imagem; 5,1.3 Is 13,4 40,18 Sl 58,5 Dn 10,16; cópia, desenho e 2Rs 16,10 Ez 23,15. Ez recorre com freqüência a comparações pouco precisas para descrever suas visões: caps. 1 e 10; 8,2" (ALONSO-SCHÖKEL, 1997, p. 158).

 

A julgar pelos dois dicionários consultados, logo se vê que os dois substantivos prestam-se a representar as mesmas grandezas semânticas, o que é acentuado pelo fato de serem empregados em relação recíproca em três ocasiões: Gn 1,26.27; 5,1.3 e Ez 23.14.15. As duas raízes comportam-se da mesma maneira quando submetidas a um exame semântico-fenomenológico em todas as suas 42 conjuntas ocorrências na Bíblia Hebraica? É o que temos de ver.

 

Levantamento semântico-fenomenológico de celem e de Dümût na Bíblia Hebraica

 

Vamos proceder à tradução de todos os versos em que os dois substantivos ocorrem, e depois procederemos à análise do comportamento das respectivas raízes em cada uma das ocorrências.

 

As ocorrências da raiz de celem na Bíblia Hebraica

 

Na seqüência sincrônica em que aparecem na Bíblia Hebraica, os versos traduzidos em que é utilizada a raiz de celem são:

  • Gn 1,26

WnteWmd>Ki Wnmel.c;B. ~d'a' hf,[]n: ~yhil{a/ rm,aYOw:

E disse ´élöhîm:

"Façamos um homem como (a) imagem de nós, conforme (a) forma de nós".

  • Gn 1,27

Aml.c;B. ~d'a'h'-ta, ~yhil{a/ ar'b.YIw:

Atao ar'B' ~yhil{a/ ~l,c,B.

`~t'ao ar'B' hb'qen>W rk'z"

E criou ´élöhîm o homem como (a) imagem dele,

como (a) imagem de ´élöhîm (ele) criou ele;

macho e fêmea (ele) criou eles.

  • Gn 5,3

hn"v' ta;m.W ~yvil{v. ~d'a' yxiy>w:

`tve Amv.-ta, ar'q.YIw: Aml.c;K. AtWmd>Bi dl,AYw:

E viveu ´ädäm cento e trinta anos,

e (ele) gerou como (a) forma dele, conforme (a) imagem dele;

e chamou (o) nome dele šët.

  • Gn 9,6

%peV'yI AmD' ~d'a'B' ~d'a'h' ~D; %pevo

~d'a'h'-ta, hf'[' ~yhil{a/ ~l,c,B. yKi

O derramador do sangue do homem

pelo homem (o) sangue dele será derramado:

porque como (a) imagem de ´élöhîm (ele) fez o homem.

  • Nm 33,52

~k,ynEP.mi #r,a'h' ybev.yO-lK'-ta, ~T,v.r;Ahw>

~t'YOKif.m;-lK' tae ~T,d>B;aiw>

WdBea;T. ~t'koSem; ymel.c;-lK' taew>

`Wdymiv.T; ~t'moB'-lK' taew>

E expulsareis todos os habitantes da terra d(as) faces de vós,

e destruireis todas (as) estátuas deles,

e todas (as) imagens de fundição deles destruireis,

e todos os altos deles demolireis.

  • 1 Sm 6,5

~k,yrexoj. ymel.c; ~t,yfi[]w:

#r,a'h'-ta, ~tiyxiv.M;h; ~k,yreB.k.[; ymel.c;w>

E fareis imagens d(os) tumores de vós,

e imagens dos ratos de vós, os devastadores da terra.

  • 1 Sm 6,11

zG:r>a;h' taew> hl'g"[]h'-la, hw"hy> !Ara]-ta, WmfiY"w:

`~h,yrexoj. ymel.c; taew> bh'Z"h; yreB.k.[; taew>

E colocaram a Arca de Yahweh sobre o carro, e o cofre,

e os ratos de ouro, e as imagens d(os) tumores deles.

  • 2 Re 11,18

l[;B;h;-tyBe #r,a'h' ~[;-lk' WaboY"w:

AtxoB.z>mi-ta, WhcuT.YIw:

bjeyhe WrB.vi wym'l'c.-ta,w>

E atacaram todo (o) povo da terra (a) casa do Ba’al,

e (eles) derrubaram ela com os altares dela,

e as imagens dela (eles) quebraram completamente.

  • 2 Cr 23,17

WhcuT.YIw: l[;B;h;-tyBe ~['h'-lk' WaboY"w:

WrBevi wym'l'c.-ta,w> wyt'xoB.z>mi-ta,w>

E atacaram todo o povo (a) casa do Ba’al e derrubaram ela,

e os altares dela, e as imagens dela (eles) quebraram.

  • Sl 39,(6b)7

(`hl's, bC'nI ~d'a'-lK' lb,h,-lK' %a;)

vyai-%L,h;t.yI ~l,c,B.-%a;

rBoc.yI !Wym'h/y< lb,h,-%a;

`~p's.ao-ymi [d;yE-al{w>

Sim, todo sopro, todo homem é levantado;

sim, como uma sombra vagueia (o) homem.

Sim, um vapor – (eles) se agitam – (ele) amontoará,

e (ele) não sabe quem colhe eles.

  • Sl 73,20

`hz<b.Ti ~m'l.c; ry[iB' yn"doa] #yqih'me ~Alx]K;

(...) como o sonho depois (do) despertar, ´ádönäy,

no despertar da imagem deles (tu) desprezarás.

  • Ez 7,20

Whm'f' !Aag"l. Ayd>[, ybic.W

Ab Wf[' ~h,yceWQvi ~t'bo[]At ymel.c;w>

`hD'nIl. ~h,l' wyTit;n> !Ke-l[;

(...) e a beleza dos ornamentos dele para arrogância (ele) destinou ela,

e as imagens das abominações deles – as coisas detestáveis deles – eles fizeram com ela: por isso fiz dela para eles uma imundície.

  • Ez 16,17

%Ter>a;p.ti yleK. yxiq.Tiw:

%l' yTit;n" rv,a] yPis.K;miW ybih'Z>mi

`~b'-ynIz>Tiw: rk'z" ymel.c; %l'-yfi[]T;w:

E (tu) tomaste (os) objetos da beleza de ti,

do ouro de mim e da prata de mim que (eu) dera para ti,

e (tu) fizeste pata ti imagens de macho,

e (tu) te prostituíste com elas.

  • Ez 23,14

ryQih;-l[; hQ,xum. yven>a; ar,Tew: h'yt,Wnz>T;-la, @s,ATw: 14

`rv;V'B; ~yqiqux] ~yYIDIf.k; ymel.c;

E (ela) continuou com as prostituições dela,

pois (ela) viu homens de gravura na parede,

imagens de caldeus desenhadas com zarcão.

  • Am 5,26

~k,ymel.c; !WYKi taew> ~k,K.l.m; tWKsi tae ~t,af'n>W

`~k,l' ~t,yfi[] rv,a] ~k,yhel{a/ bk;AK

E levastes siKKût, (o) rei de vós, e Kiyyûn, (as) imagens de vós,

(a) estrela dos deuses de vós, que (vós) fizestes para vós.

Depois de traduzirmos a série de ocorrência da raiz de celem na Bíblia Hebraica, precisamos organizá-las de forma a elaborarmos um quadro sintético das acepções com que a raiz é empregada.

 

Comecemos deixando Gn 1,26.27 de lado, uma vez que o levantamento semântico-fenomenológico tem por objetivo contribuir para uma melhor compreensão daquelas ocorrências. Sendo assim, podemos classificar as demais ocorrências em torno das seguintes acepções:

  1. ocorrências da raiz em que celem significa "imagem" (= estátua): Nm 33,52; 2 Re 11,18 e || 2 Cr 23,17; Ez 7,20; 16,17; Am 5,26;

  2. ocorrências da raiz em que celem significa "imagem" (= escultura [ex-voto]): 1 Sm 6,5.11;

  3. ocorrência da raiz em que celem significa "imagem" (= desenho): Ez 23,14;

  4. ocorrência da raiz em que celem comporta o sentido de "imagem" (= memória): Sl 73,20;

  5. ocorrência da raiz em que celem comporta o sentido de "sombra": Sl 39,7.

 

Com isso, restam as cinco ocorrências de Gênesis: 1,26.27; 5,3 e 9,6. As cinco ocorrências formam uma série em que se percebe uma certa dependência traditiva. Já sincronicamente, Gn 5,3 dependeria de Gn 1,26.27, assim como Gn 9,6 dependeria de Gn 1,26.27 (e 5,3). As expressões em que nessas passagens celem é empregado são:

1,26 Bücalmënû como a imagem de nós;
1,27 Bücalmô como a imagem dele
Bücelem ´élöhîmcomo a imagem de ´élöhîm;
5,3 Kücalmô conforme a imagem dele;
9,6  Bücelem ´élöhîm como a imagem de ´élöhîm.

   

     

Para a tradução de celem nessas passagens – se dependermos da série já analisada anteriormente – dispomos dos sentidos de imagem enquanto a) estátua, b) escultura [ex-voto], c) desenho e d) memória, bem como o sentido de e) sombra. Os sentidos d e e parecem dispensáveis sem necessidade de maiores explicações, senão o fato de que não parece adequado conceber que Gn 1,26.27 descreveria a criação do ´ädäm como uma memória ou uma sombra. Restam, pois, os sentidos físicos concretos: estátua, escultura e desenho.

 

O presente ensaio propõe que se admita o sentido concreto de estátua. O ´ädäm criado por ´élöhîm é criado como a estátua de ´élöhîm. Dito de outro modo, ´élöhîm não precisa de estátuas – sim, porque ele mesmo fez a sua estátua: ´ädäm. Desse modo, os israelitas prescindem de estátuas, porque eles mesmos –  ´ädäm – enquanto criaturas de ´élöhîm são as estátuas de ´élöhîm: "E disse ´élöhîm: "Façamos um homem como (a) imagem de nós". Dizer que os israelitas prescindem de estátuas é dizer que o Templo de Jerusalém não precisa de estátuas. Essa é, afinal, a questão – Gn 1,26, especificamente, constitui um programa anicônico relacionado à cosmogonia de fundação do Templo de Jerusalém: um templo sem imagens.

 

Nessa mesma direção pode ser analisada a ocorrência de Gn 1,27, com a ressalva de que se poderia considerar a ocorrência como uma glosa tardia. A relação entre a cosmogonia e o dilúvio não exigiria uma leitura diferenciada para a ocorrência de celem Gn 9,6 – salvo se essa passagem constitui, como parece, uma glosa. Finalmente, Gn 5,3 deve consistir, aí sim, numa glosa tardia, cuja redação reflete uma interpretação abstrata para celem enquanto imagem. Em Gn 5,3, šët é gerado como uma cópia de ´ädäm.

 

A decisão de adotar-se para Gn 1,26 um sentido atestado na Tanak – ou mais precisamente, a decisão de não se adotar um sentido específico para Gn 1,26 é metodologicamente justificável? Propor-se um sentido teológico para Gn 1,26 – ao que parece mais derivado da história dos efeitos da passagem do que propriamente do sentido e da sintaxe presentes nela (não é o que o Dicionário de Alonso-Schökel faz quando apresenta a acepção particularíssima de celem em Gn 1,26 como "homem, imagem de Deus"? São todas observações e questões provisórias. Por ora é conveniente que se analise como a raiz de Dümût se comporta, agora, em suas respectivas ocorrências.

 

As ocorrências da raiz de Dümût na Bíblia Hebraica

 

Recordamo-nos que são 25 as ocorrências da raiz de Dümût. A apresentação sincrônica da tradução dessas 25 ocorrências apresenta o resultado a seguir.

  • Gn 1,26

WnteWmd>Ki Wnmel.c;B. ~d'a' hf,[]n: ~yhil{a/ rm,aYOw:

E disse ´élöhîm:

"Façamos um homem como (a) imagem de nós, conforme (a) forma de nós".

  • Gn 5,1

~d'a' tdol.AT rp,se hz<

~d'a' ~yhil{a/ aroB. ~AyB.

`Atao hf'[' ~yhil{a/ tWmd>Bi

~a'r'B. hb'qen>W rk'z"

Este (o) livro das gerações de ´ädäm:

no dia do criar de ´élöhîm (o) homem,

como (a) figura de ‘´élöhîm (ele) fez ele;

macho e fêmea (ele) criou eles.

  • Gn 5,3

hn"v' ta;m.W ~yvil{v. ~d'a' yxiy>w:

`tve Amv.-ta, ar'q.YIw: Aml.c;K. AtWmd>Bi dl,AYw:

E viveu ´ädäm cento e trinta anos,

e (ele) gerou como (a) forma dele, conforme (a) imagem dele;

e chamou (o) nome dele šët.

  • 2 Re 16,10

x;Bez>Mih; tWmD>-ta, !heKoh; hY"rIWa-la, zx'a' %l,M,h; xl;v.YIw:

`Whfe[]m;-lk'l. AtynIb.T;-ta,w>

E enviou o rei ´äHäz a ´ûriyyâ, o sacerdote, o desenho do altar

e o projeto dele para toda a feitura dele.

  • 2 Cr 4,2(3)4

qc'Wm ~Y"h;-ta, f[;Y:w: 2

bybis' lAg[' Atp'f.-la, Atp'F.mi hM'a;B' rf,[,

Atm'Aq hM'a;B' vmex'w>

`bybis' Atao bsoy" hM'a;B' ~yvil{v. wq'w>

Atao ~ybib.As bybis' bybis' Al tx;T; ~yrIq'B. tWmd>W 3

bybis' ~Y"h;-ta, ~ypiyQim; hM'a;B' rf,[,

`ATq.c;muB. ~yqiWcy> rq'B'h; ~yrIWj ~yIn:v.

hM'y" ~ynIpo hv'Alv.W hn"Apc' ~ynIpo hv'l{v. rq'B' rf'[' ~ynEv.-l[; dmeA[ 4

hx'r'z>mi ~ynIPo hv'l{v.W hB'g>n< ~ynIPo hv'l{v.W

`ht'y>B' ~h,yrexoa]-lk'w> hl'[.m'l.mi ~h,yle[] ~Y"h;w>

2 E (ele) fez o Mar Fundido.

Dez côvados de um lado dele ao (outro) lado dele (era) redondo em volta ;

e cinco côvados (a) altura dele;

e uma corda de trinta côvados circundando ele em volta.

3 E imagens de bois (havia) debaixo dele, em volta, circundando ele,

dez côvados rodeando o Mar em volta,

duas fileiras de bois fundidas no bloco dele.

Conservado sobre doze bois, três olhando para o norte, e três olhando para oeste, e três olhando para o sul, e três olhando para o oriente.

E o Mar sobre eles, por cima;

e todas as ancas deles (estavam) dentro.

  • Sl 58,5a

vx'n"-tm;x] tWmd>Ki Aml'-tm;x]

Veneno para eles, à semelhança de veneno de serpente.

  • Is 13,4

br'-~[; tWmD> ~yrIh'B, !Amh' lAq

Voz de tumulto nos montes, à semelhança de um povo grande.

  • Is 40,18

`Al Wkr>[;T; tWmD>-hm;W lae !WyM.d;T. ymi-la,w>

E a quem assemelhareis ´ël,

e que imagem disporeis para ele?

  • Ez 1,5

tAYx; [B;r>a; tWmD> Hk'ATmiW

`hN"hel' ~d'a' tWmD> !h,yaer>m; hz<w>

E no meio dela (a) forma de quatro feras,

cujas aparências {delas} (eram) (a) forma de homem para elas.

  • Ez 1,10

~d'a' ynEP. ~h,ynEP. tWmd>W

~T'[.B;r>a;l. !ymiY"h;-la, hyEr>a; ynEp.W

!T'[.B;r>a;l. lwamoF.h;me rAv-ynEp.W

`!T'[.B;r>a;l. rv,n<-ynEp.W

E (a) forma das faces deles (era) faces de homem,

e faces de leão à direita dos quatro deles,

e faces de touro à esquerda dos quatro delas,

e faces de águia para os quatro delas.

  • Ez 1,13

tAr[]Bo vae-ylex]g:K. ~h,yaer>m; tAYx;h; tWmd>W

tAYx;h; !yBe tk,L,h;t.mi ayhi ~ydIPiL;h; haer>m;K.

`qr'b' aceAy vaeh'-!miW vael' Hg:nOw>

E (a) forma das feras – das aparências deles – como brasas de fogo ardentes

– como a aparência das tochas era, vagando entre as feras.

E um brilho para o fogo, e do fogo saía faísca.

  • Ez 1,16

vyvir>T; !y[eK. ~h,yfe[]m;W ~yNIp;Aah' haer>m;

~h,yfe[]m;W ~h,yaer>m;W !T'[.B;r>a;l. dx'a, tWmd>W

`!p'Aah' %AtB. !p;Aah' hy<h.yI rv,a]K;

A aparência das rodas e dos efeitos delas (era) como olhos de topázio,

e a forma de cada dos quatro delas – e a aparência deles e os efeitos deles –

(era) como se estivesse a roda no meio da roda.

  • Ez 1,22

hY"x;h; yvear'-l[; tWmd>W

`hl'[.m'l.mi ~h,yvear'-l[; yWjn" ar'ANh; xr;Q,h; !y[eK. [;yqir'

E uma forma sobre as cabeças das feras: um firmamento como olhos de cristal terrível estendido sobre (as) aparência deles, por cima.

  • Ez 1,26

~v'aro-l[; rv,a] [;yqir'l' l[;M;miW

aSeKi tWmD> ryPis;-!b,a, haer>m;K.

`hl'[.m'l.mi wyl'[' ~d'a' haer>m;K. tWmD> aSeKih; tWmD> l[;w>

E acima do firmamento que (havia) sobre a cabeça deles, como (a) aparência de uma pedra de safira,(havia) a forma de um trono.

E sobre a forma do trono (havia) uma forma, como (a) aparência de um homem sobre eles, por cima.

  • Ez 1,28

~v,G<h; ~AyB. !n"['b, hy<h.yI rv,a] tv,Q,h; haer>m;K.

hw"hy>-dAbK. tWmD> haer>m; aWh bybis' Hg:NOh; haer>m; !Ke

s `rBed;m. lAq [m;v.a,w" yn:P'-l[; lPoa,w" ha,r>a,w"

Como (a) aparência do arco que aparece na nuvem no dia da chuva, assim (era) a aparência do brilho em torno dele – (a) aparência da forma da glória de Yahweh.

E (eu) vi, e caí sobre (as) faces de mim, e ouvi uma voz falante.

  • Ez 8,2

wyn"t.M'miW vae hJ'm;l.W wyn"t.m' haer>M;mi vae-haer>m;K. tWmd> hNEhiw> ha,r>a,w"

`hl'm;v.x;h; !y[eK. rh;zO-haer>m;K. hl'[.m;l.W

E (eu) vi – e eis uma forma como (a) aparência de fogo:

desde (a) aparência dos quadris dele para cima como (o) resplendor do fogo, como os olhos do electro.

  • Ez 10,1

ryPis; !b,a,K. ~ybiruK.h; varo-l[; rv,a] [;yqir'h'-la, hNEhiw> ha,r>a,w"

`~h,yle[] ha'r>nI aSeKi tWmD> haer>m;K.

E (eu) vi – e eis sobre o firmamento que (havia) sobre a cabeça dos querubins como uma pedra de safira, como (a) aparência da forma de um trono apareceu sobre eles.

  • Ez 10,10

~T'[.B;r>a;l. dx'a, tWmD> ~h,yaer>m;W

`!p'Aah' %AtB. !p;Aah' hy<h.yI rv,a]K;

E (a) aparência deles, da forma de cada dos quatro deles,

(era) como se estivesse a roda dentro da roda.

  • Ez 10,21-22

dx'a,l. ~yIp;n"K. [B;r>a;w> dx'a,l. ~ynIp' h['B'r>a; h['B'r>a; 21

`~h,ypen>K; tx;T; ~d'a' ydey> tWmd>W

rb'K.-rh;n>-l[; ytiyair' rv,a] ~ynIP'h; hM'he ~h,ynEP. tWmd>W 22

`WkleyE wyn"P' rb,[e-la, vyai ~t'Aaw> ~h,yaer>m;

Quatro quatro faces para cada, e quatro asas para cada,

e uma forma de mãos de homem debaixo das asas.

E a forma das faces deles (era) aquelas faces que eu vira junto ao rio Kübär.

(As) aparências deles e eles (eram) de um homem:

para a frente das faces dele (eles) andavam.

  • Ez 23,15

~h,ynEt.m'B. rAzae yreAgx]

~h,yvear'B. ~yliWbj. yxeWrs.

~L'Ku ~yviliv' haer>m;

`~T'd>l;Am #r,a, ~yDIf.K; lb,b'-ynEB. tWmD>

Cintos de cingir os quadris deles,

pendurados de turbantes nas cabeças deles,

aparência de oficiais todos eles

– figura dos filhos de Babel, caldeus da terra do nascimento deles.

  • Dn 10,16

yt'p'f.-l[; [;gEnO ~d'a' ynEB. tWmd>Ki hNEhiw>

yDIg>n<l. dme[oh'-la, hr'm.aow" hr'B.d;a]w" yPi-xT;p.a,w"

`x;Ko yTir>c;[' al{w> yl;[' yr;yci Wkp.h,n< ha'r>M;B; ynIdoa]

E eis um conforme a forma dos filhos do homem toca nos lábios de mim,

e abri (a)boca de mim, e falei, e (eu) disse ao que estava de pé diante de mim:

"Senhor de mim, pela visão sobrevieram-me dores de mim sobre mim,

e não tive força".

 

Conforme se procedeu na seção sobre celem, requer-se, nesse momento, uma análise comparativa e sistemática das ocorrências de Dümût. Pois bem, as 25 ocorrências podem ser reunidas em torno dos seguintes sintagmas:

  1. ocorrência da raiz em que Dümût significa "imagem": 2 Cr 4,2-4 (trata-se das imagens dos doze bois que sustentam o Mar Fundido); Is 40,18 (trata-se da referência às imagens de ‘el);

  2. ocorrência em que a raiz de Dümût significa "desenho": 2 Re 16,10 (o desenho do altar projetado por Acabe);

  3. ocorrências em que a raiz de Dümût significa "forma" (= figura ou imagem): a série de Ez 1 [v.5.10.13.16.22.26.28); Ez 8,2; a série de Ez 10 (v. 1.10.21.22); Ez 23,15 e Dn 10,16;

  4. ocorrências em que a raiz de Dümût significa "como" (= termo de comparação): Sl 58,5 (têm veneno "como" as serpentes); Is 13,4 (o tumulto dos montes é "como" o de um povo grande).

 

Com isso restam as ocorrências de Gênesis: 1,26; 5,1.3. Para Gn 1,26 poderíamos mesmo propor o sentido de imagem (como nas ocorrências de Dümût em 2 Cr 4,2-4 e Is 40,18): o homem é o celem de ´élöhîm, feito conforme a Dümût de ´élöhîm [e de seus interlocutores?]. Se restringirmos a análise às ocorrências até aqui (prescindindo de Gn 5), parece correto afirmar que nada há que justifique – salvo os efeitos tradicionais da história dos efeitos de Gn 1,26 – uma tradução diferenciada, respectivamente, um sentido diferenciado para Dümût na passagem. Tanto celem quanto Dümût servem para indicar a imagem e a forma concretas de coisas representadas – e, quero crer, a intenção da passagem de Gn 1,26 é expressar, no contexto da polêmica anicônica, que ´élöhîm não tem representação compatível entre as representações humanas, pelo que não se devem fazer imagens dele – inclusive é por isso que ali, no Templo de Jerusalém, onde se recita a cosmogonia de Gn 1,1-2,4a em cuja narrativa se insere a passagem – porque o próprio ´élöhîm fez sua imagem e forma: ´ädäm. Sim, ´ädäm– e se levarmos em conta Gn 1,27: ´ädäm macho e fêmea.

 

Tomada em seu sentido de representação concreta, Dümût forma com celem uma espécie de endíade em Gn 1,26. Devem ser tomadas em sentido semelhante, praticamente sinônimos. A passagem de Gn 1,26 recebe eco em Gn 5,1. Com isso colocamo-nos diante da questão: trata-se da mesma mão ou de contexto redacional diferenciado? Gn 5 constitui uma genealogia independente do conjunto cosmogonia-dilúvio de Gn 1*-(6-9*)? A crítica literária terá papel decisivo na solução dessa dúvida teórico-metodológica – porque será o ambiente ideológico redacional que determinará o sentido com que tanto celem quanto Dümût foram sacados para a redação de Gn 5,1.3. Seja como for, se estivermos razoavelmente seguros quanto ao fato de que celem e Dümût comportam desde sua origem redacional sentido de representação concreta (imagem e forma), então não podemos perder de vista o fato de que, se, por um lado, não podemos afirmar categoricamente que também em Gn 5,1, pelo menos, esse mesmo sentido concreto esteja projetado nos substantivos, por outro lado parece bastante razoável afirmar que Gn 5,1.3 não podem projetar para Gn 1,26 o sentido com que usa celem e Dümût . Dito de outra forma – se Gn 1,26 não está projetado em Gn 5,1(3), certamente (a fortiori) Gn 5,1(3) não está projetado em Gn 1,26. E parece razoável supor que, malgrado a história dos efeitos de Gn 1,26, celem e Dümût comportam nessa passagem o sentido da representação concreta do homem em relação a ´élöhîm. Numa palavra –  ´ädäm é a imagem de ´élöhîm.

 

Conclusão

 

O levantamento semântico-fenomenológico das raízes de celem e de Dümût permite apresentar algumas afirmações quanto ao significado que esses substantivos comportam nas passagens veterotestamentárias em que ocorrem e foram analisadas:

  1. primeiro, que gravitam em torno dos mesmos sentidos de representação;

  2. segundo, que comportam não exclusivamente, mas prioritariamente, sentidos de representação concreta, desde a representação de uma forma e da indicação de uma figura, até a conotação de um desenho, chegando mesmo a descrever imagens tridimensionais – significativamente, imagens cultuais;

  3. terceiro, que tanto celem quanto Dümût são usados para indicar imagens cultuais – estátuas de metal fundido, esculturas de bois de metal fundido, imagens cultuais de ‘el;

  4. quarto, que logo um nível abaixo do sentido de representação tridimensional (estátua = imagem), as duas raízes comportam o sentido mais comum de imagem = forma = figura, sentido que se não descreve a estátua do ser representado, indica a própria coisa representada. Não se trata de uma representação abstrata – essa forma = figura = imagem é uma representação concreta, descritiva do próprio ser contemplado e identificado;

  5. quinto, se por uma opção teórico-metodológica, as passagens de Gn (1, 5 e 9) forem tratadas à luz da morfologia das raízes em todas as demais ocorrências da Bíblia Hebraica, restaria afirmar que não há indicativo seguro de que seja celem seja Dümût possam – até então – comportar o sentido de representação essencial: a representação é sempre concreta e formal.

 

Nesse ponto, parece portanto razoável propor que seja investigado o próprio texto de Gn 1,26 – e que seja lido à luz da narrativa inteira: Gn 1,1-2,4a – a fim de que se determine em termos histórico-sociais o que o texto queria dizer – e certamente o disse – quando foi escrito. O que significava, na cosmogonia de Gn 1,1-2,4a a afirmação: "Façamos um homem como (a) imagem de nós, conforme (a) forma de nós"?

 

Versões bíblicas

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