500 Anos em 50

Exegese e teologia histórico-críticas

Osvaldo Luiz Ribeiro[1]

 

500 Anos em 50. Exegese e teologia histórico-críticas. Fragmentos de Cultura, Goiânia, nov/dez, p. 1507-1521, 2004.

 

Resumo: discutem-se duas proposições do documento da Pontifícia Comissão Bíblica, A Interpretação da Bíblia na Igreja: a Bíblia deve ser estudada a partir do método histórico-crítico, e a teologia (dogmática/sistemática) deve ser elaborada a partir dos resultados do trabalho da exegese. Defende-se que sejam essas proposições que podem levar a práticas exegéticas mais conseqüentes à formulação reformada do sola Scriptura do que as próprias práticas exegéticas evangélico-reformadas, comprometidas mais com modelos teológico-filosóficos com os quais se lê a Bíblia do que com os pronunciamentos histórico-sociais em que consistem os seus registros. Comenta-se que as proposições vão ao encontro do “sonho” de Hans Küng do que ele considera a única teologia digna de estar na universidade (a teologia histórico-crítica), mas vão de encontro às declarações de Augusto Nicodemus Lopes, contrárias ao método histórico-crítico por considerá-lo pernicioso à Igreja.

 Palavras-chave: exegese histórico-crítica, teologia histórico-crítica, Escrituras Cristãs, intentio auctoris, sola Scriptura.

 

Meu pronunciamento se dá um tanto quanto atrasado – para ser exato, desde 23 de abril de 1993. Contudo, meu ingresso no Doutorado em Teologia, na PUC-Rio, em 2004, pôs-me  em contato com o documento da Pontifícia Comissão Bíblica, “A Interpretação da Bíblia na Igreja”, e o pronunciamento que agora faço se dá por força dos sentimentos engendrados pela leitura do formidável livrinho (Loyola, 2002).

Mais uma informação pertinente: quis a Providência que caíssem em minhas mãos, ao mesmo tempo, esse documento pontifício, o livro de Hans Küng, Teologia a Caminho, e o livro de Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e seus Intérpretes. Li-os os três, ao mesmo tempo, e numa assentada só. Foi uma experiência psicodélica – e divertidíssima!

O presente artigo pretende registrar mais do que minhas impressões sobre as três leituras. Sinto-me tomado por expectativas excitantes, que poderia resumir num fôlego: se os cristãos católicos tratarem com seriedade as afirmações contidas em seu documento, pressinto que uma nova era no estudo da Bíblia e no labor teológico se avizinha, e meu coração bate aceleradamente quando penso nisso, agora, pelo fato de talvez estar vivo quando essa bendita hora finalmente chegue... De que hora é esta é que trata este artigo.

 

Da Dei Verbum ao A Interpretação da Bíblia na Igreja

 

O Concílio Vaticano Segundo legou aos cristãos católicos a encíclica Dei Verbum. Trata-se de um pronunciamento conciliar a respeito das Escrituras Cristãs. Enquanto cristão vinculado à tradição evangélica batista, e professor de seminário(s) batista(s), tenho desde já algum tempo levado meus alunos a lerem em conjunto a Dei Verbum e um documento batista, publicado por órgão oficial da Convenção Batista Brasileira: Princípios Batistas. É interessante a comparação, porque, na letra, são representativos das duas tradições. A Dei Verbum, trocando em miúdos, orienta os cristãos a não só lerem as Escrituras Cristãs, mas a estudá-las mediante as ciências acadêmicas, envidando todos os esforços exegéticos necessários à grandeza da tarefa que, então, se avizinhava, como “novidade”, da comunidade de fiéis católicos. Ao mesmo tempo, contudo, arrematava a questão, afirmando que, não obstante, as matérias de pronunciamento teológico oficial e ortodoxo cabiam ao Magistério da Igreja.

Tal pronunciamento, claríssimo, naturalíssimo, em se tratando de um pronunciamento católico, representa a expressão da economia católica: Escrituras e Tradição são consideradas, igualmente, fundamentais e normativas. Assim, ainda que uma boa exegese entenda x, a Igreja pode entender y, sem que, contudo, haja, aí, contradição. Estão oficialmente “separadas” as instâncias, por assim dizer, e julgo legítima a operação.

A distinção operacional e oficial entre Escritura(s) e Tradição representada na e pela Dei Verbum faz-me reportar-me ao que Richard Popkin (1997) dá conta como se tratando do diálogo entre Lutero e Erasmo, lá se vão quase meio milênio, acerca do princípio do “livre-exame”. Lutero defendia-o, Erasmo contra-argumentava. O contra-argumento de Erasmo dizia que, na prática, o “livre-exame” das Escrituras gera(ria) confusão, e, mais do que confusão, confusão com legitimação escriturística. Mas Lutero discordava da opinião de Erasmo, porque considerava legítimo entender que “o verdadeiro crente” entenderia corretamente a Bíblia. Não houve consenso entre os dois... até hoje...

No que me diz respeito, tomo o partido de Erasmo, apenas naquele seu parecer de que o princípio do “livre-exame” torna extremamente difícil, se não, “impraticável”, o controle eclesiástico da doutrina – e essa é a questão para Erasmo... Não tomo, contudo, o seu partido, uma vez que seu coração foi posto na “ordem eclesiástica”, em detrimento da(s) Escritura(s). Tomo o partido de Lutero, quero dizer, apenas na sua defesa – teórica! – do “livre-exame” das Escrituras. Mas não tomo o seu partido, quando ele tenta resolver o difícil dilema ostentado por Erasmo, dizendo que “o verdadeiro crente” entenderia a Bíblia.

Não posso concordar com a solução de Erasmo, porque sou exegeta. Não posso concordar que a teologia, o dogma, a Igreja, um credo, uma fé, uma doutrina, uma instituição, controle(m) o estudo das Escrituras. Segundo creio, e segundo penso ser a legítima expressão do labor exegético, as Escrituras devem ser estudadas, se exegeticamente, mediante todos os esforços para se recuperar, tal qual lá e então, os pronunciamentos histórico-sociais representados pelo “texto”. Enquanto exegeta, meu esforço é recuperar de forma transdisciplinar o evento histórico subjacente a cada intervenção social em que se constituía o que, hoje, constituem as perícopes do texto sagrado cristão. Logo, não são instâncias, quaisquer que sejam, posteriores, que determinarão o que, ortodoxamente, se deve entender de Gn 1,1-2,4a ou de Cl 1,15-20. E, mesmo a exegese, do alto de sua absurda pretensão de arqueologia histórico-social por meio de textos (ironizo minha própria fé profissional...), se o há de fazer, não será por si mesma, mas senão, e incontornavelmente, mercê do arrimo de diversas outras ciências, humanas, exatas e naturais. Não, a exegese, se não é livre de pressupostos, como o quer(ia) Bultmann, deve ser metodologicamente livre de “instâncias” verificadoras de ortodoxia e veracidade – salvo o conjunto das próprias consciências envolvidas na paixão pela coisa, iniciados ou não...

Não posso, por isso mesmo, concordar com Lutero, porque a (suposta [e histórica]) saída dele é a mesma de Erasmo, mas “diferente”. É a mesma, porque remete as Escrituras a um critério de ortodoxia (“verdadeiro crente”); é a mesma, porque quem há de definir quem é, afinal, o verdadeiro crente, é, ainda, uma “instância” – Lutero há de dizer quem são, afinal, os luteranos, e Calvino, os calvinistas, como um bom batista sabe-se exatamente quem o é, e também um bom católico.... Na prática, “verdadeiro crente” é aquele que “crê” conforme a sã doutrina dessa ou daquela denominação, de modo que será considerado “verdadeiro crente” aquele que interpretar a Bíblia corretamente, ou seja, aquele que a interpretar de acordo com o conteúdo já dado e posto pela instância de verificação. É a mesma, então, mas é diferente, porque Erasmo apela para a Igreja, Lutero, para o Espírito Santo. Erasmo pede submissão à instituição, Lutero, a diviniza...

Trata-se do mesmo caminho, pois, os de Erasmo e Lutero, e, por ele, meu coração exegeta não pode andar. Não pode, porque a exegese não pode entrar em regime de submissão a qualquer instância. A exegese está, sim, a serviço da Igreja, mas o serviço que ela deve prestar à Igreja não é como aquele que doceiros prestam: encomendam-se cajuzinhos, e são preparados cajuzinhos... A Igreja tem a seu serviço a exegese que, em seu serviço à Igreja, intui, investiga e reflete de forma autônoma, metodológica e crítica. Se a Igreja quer comer cajuzinhos, deve contratar doceiros. Os quitutes da exegese algumas vezes são de um gosto ao qual o paladar da Igreja não está acostumado.

 

O (novo) caminho católico

 

Tendo-me decidido autonomamente por um coração exegeta, também (metodologicamente) autônomo, não foi sem (imenso) prazer que li A Interpretação da Bíblia na Igreja. A leitura da Dei Verbum já me fizera suspeitar de que se chegara “perigosamente” perto demais do fogo, quer dizer, para quem, oficialmente, pela primeira vez, recomendava o estudo das Escrituras, e estudo mediado pelas “ciências” exegéticas, históricas, da literatura. Houve quem interpretasse a Dei Verbum como uma condescendência da hierarquia “dogmática” e “tradicional”, e que, no frigir dos ovos, Bíblia que é bom, nada... Minha opinião era (e é) diferente, porque considerei e considero a menção tão explícita à pesquisa bíblica, mediada pelas “ciências”, como plataforma de argumentação possível de ser instrumentalizada nas e pelas instâncias católicas interessadas nesse caminho.

Essa minha opinião tem fundamento em minha própria experiência. Explico: meu cristianismo vivo-o mediado pela tradição batista. Sirvo-me muito de um documento nosso, Princípios Batistas, e, dele, sirvo-me amiúde da seguinte proposição: “o indivíduo tem de aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia com a mente aberta e atitude reverente, buscando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração” (PB, I.2). Sirvo-me filosófica e programaticamente da proposição, acentuando as palavras “mente aberta” e “pesquisa”, ornamentando-as com flores de devoção: “atitude reverente” e “oração”. O que consigo com isso é promover pesquisa acadêmica séria – e com isso me refiro ao método histórico-social, mediado pelo ferramental da metodologia histórico-crítica – em meios que, de outro modo, tanto dificilmente teriam acesso às perspectivas “científicas” de acesso às Escrituras, quanto desconfiam dele. Estou consciente de que aquelas duas palavras têm limites conceituais próprios, mas a metodologia acadêmica cai-lhes bem.

O caso das proposições da Dei Verbum, e mais tarde, de A Interpretação da Bíblia na Igreja, está no mesmo nível. Diz-se, por exemplo, que “o intérprete (...) deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar” (DV, III.12), porque se deve “descobrir a intenção dos hagiógrafos”, consignada de formas diversas nos textos, “ora de um modo ora de outro”, de tal forma que “importa, por isso, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições de seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de fato exprimiu” (DV, III.12). Tanto aí, quanto lá, isto é, tanto nos Princípios Batistas, quanto na Dei Verbum, métodos em si não são nomeados. Consta apenas o espírito de uma atitude, o animus de uma perspectiva – histórica, investigativa, consciente e crítica. Por isso gosto das duas proposições, e levo meus alunos a ter contato com ambas.

Certo é que também ambos os documentos arrematam-se “ortodoxamente” e “politicamente”. Natural! Quer-se quantos passos de uma vez? Os críticos que somos e os revolucionários de plantão em que nos convertemos algumas vezes esperamos que as instituições sejam capazes de atitudes e ações as quais nós mesmos não as tocamos com as pontas dos dedos... Seja como for, o simples fato da introdução daquelas proposições nos respectivos documentos pode ser otimistamente considerada a possibilidade de uma excelente plataforma de trabalho para o desenvolvimento das intuições que encerram: investigação, pesquisa, mente aberta, história...

Prefiro considerar a Dei Verbum um avanço, a considerá-la uma “condescendência”, mesmo porque, se há um quarto de condescendência ali, há três quartos de esforço consciente da comunidade exegética católica conciliar em cada “avanço”. Se por um lado manteve-se a instrução de que “tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da igreja, que goza do divino mandato e do ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus” (DV, III.12), por outro lado, a própria forma de o dizer coloca a “palavra de Deus” como tesouro, como foco, e, quando resolve-se por aprovar proposições a respeito da mediação hermenêutico-metodológica para a “palavra de Deus”, o Concílio Vaticano II está, a um tempo, atendendo a sistemáticos apelos e a insistentes gestões de uma parte do próprio clero (mas não só dele), e comprometendo a própria hierarquia com o “caminho” apropriado para a ciência das Escrituras! Afinal, se há Escrituras, se há hierarquia, instância de verificação dela, e se há exigências hermenêutico-metodológicas para a sua leitura, a segunda deve, também ela, desenvolver a terceira, e submeter-se a ela, se quer, honesta e eficientemente, manter-se no posto de “guardiã” da primeira.

Diferentemente da opinião de alguns de que A Interpretação da Igreja é a mesma condescendência em novo rótulo, quero crer que consiste muito mais na conseqüência incontornável, presente no argumento do parágrafo anterior: deixou-se a coceira se instalar, agora é aprender a coçar...

 

A Interpretação da Bíblia na Igreja

 

No discurso que fez em 23 de abril de 1993, João Paulo II entregou à cristandade católica o documento elaborado pela Pontifícia Comissão Bíblia, os cardeais presentes, os representantes das missões diplomáticas, a própria Comissão, e os professores do Pontifício Instituto Bíblia (de Roma) ouviram-no dizer: “O que impressionará à primeira vista neste documento, é a abertura de espírito com que foi concebido (...) Porque a exegese católica não tem um método de interpretação próprio e exclusivo mas, começando pela base histórico-crítica (...) ela utiliza todos os métodos atuais, procurando em cada um a ‘semente do Verbo’” (Discurso, 2002, p. 16).

 É um documento longo, e me interessa trazer à discussão dois pontos, duas declarações que considero de extraordinária riqueza e valor inestimável para a história da exegese, e, por que não?, para a História da Igreja. A primeira afirmação é a declaração categórica de que a Bíblia deve ser estudada a partir do método histórico-crítico. Se sozinha ela já seria suficientemente relevante, fez-se acompanhar de outra, ainda mais “bombástica”: a teologia (dogmática) deve servir-se dos resultados do trabalho dos exegetas...

 

Exegese histórico-crítica

 

Longo demais para um documento, e pequeno demais para um tratado sobre exegese, em I. Métodos e Abordagens para a Interpretação A. Método histórico-crítico, A Interpretação da Bíblia na Igreja afirma: “o método histórico-crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos. Como a Santa Escritura, enquanto ‘Palavra de Deus em linguagem humana’, foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes, sua justa compreensão não só admite como legítimo, mas pede a utilização deste método” (p. 37). Lá adiante, concluirá: “conseqüentemente, os exegetas devem se servir do método histórico-crítico” (p. 125). É o oposto do que leio em Augustus Nicodemus Lopes, para quem a abordagem histórico-crítica às Escrituras “já se demonstra inadequada e perniciosa para a Igreja” (2004, p. 26). Roma está louca!

Não, não está. Trata-se de perspectivas diferentes. Penso que reflitam duas atitudes fundamentais: uma, tendo assumido a Tradição de forma honesta (e aqui menciono um fato, não o julgo), tendo agora diante de si a tarefa de “ler” as Escrituras, o fará mediante a utilização dos modernos instrumentais de leitura do que esses textos realmente são – textos antigos; a outra, não assumindo ter também ela assumido a Tradição, mas tendo-a assumido, e entrevendo, pela fresta da porta, que o método histórico-crítico tem algumas coisinhas interessantes a dizer sobre algumas interpretações uzeiras e vezeiras, opta pela manutenção da “verdade”, em lugar de questionar se a sua representação é adequada. A rigor, o método histórico-crítico assusta menos a quem tem a Tradição para se agarrar, ou, para o dizer melhor, daqueles que “podem” assumir agarrarem-se à Tradição...

De qualquer forma, não julgo livre de risco o risco assumido por Roma com a Dei Verbum e com o A Interpretação da Bíblia na igreja, e, aposto, a exegese histórico-crítica fomentada pelo último documento levará a profundas revisões teológicas. Durante os últimos quinhentos anos, os protestantes tiveram a oportunidade de tratar a Bíblia historicamente. Os tempos foram outros, e avanços extraordinários foram obtidos (os séculos XVI a XIX não foram o que foi o século XX e o que será o XXI!), mas, seja como for, parece que o bastão de Wittenberg foi passado para  a Basílica de São Pedro, no caso do revezamento bíblico-exegético... A Ortodoxia Protestante teve lá suas virtudes – todos têm as suas – mas está longe de ser um serviço à compreensão da Palavra de Deus, ainda que o seja na preservação dos dogmas protestantes. O Pietismo, filho de seu tempo, mais interessado em devoção do que em Bíblia, não tinha plataforma exegética teórico-metodológica. Os primeiros rabiscos, esboços, rascunhos, esparsos, individuais, assistemáticos, nasceram aqui e ali, mas jamais se tornaram expressão da Igreja. Pelo contrário, mesmo nos anos de Spinoza, Jean Astruc, Richard Simon, e, depois deles, dos “heróis” do desbravamento teórico-metodológico do séculos XVIII e XIX – coloquemos aqui Wellhausen como ícone terminal do processo inaugural – esses homens foram o que foram, mas não como “homens da Igreja”, mas como “homens da cátedra”, ainda que, todos, “homens da Igreja”. Mas é que a Igreja não lhes queria como “homens da cátedra”, e seus compromissos com a crítica lhes custaram empregos, promoções, benefícios...

O Protestantismo não teve, nunca, boas relações com a crítica – salvo uma tolerância diante da inexorável massa de fermento que teima em sair da fôrma. Reagiu-se na Europa com a neo-ortodoxia, boa a seu modo, mas não no que tange a uma compreensão histórico-crítica das Escrituras – e uma compreensão da Bíblia que se preze como compreensão histórica, e uma Bíblia que se preze como fundamentalmente fenômeno histórico para um Cristianismo que prima pelo discurso de ter um Deus-na-História, não prescindem do método histórico-crítico, com todos os riscos. Reagiu-se na América com o Fundamentalismo. Reagiu-se, reagiu-se, reagiu-se... Perdeu-se o bonde da História nos trilhos protestantes...

Enquanto isso, nas “sombras” católicas, alguma coisa acontecia. Seja lá o que tenha sido, um precipitado vazou do tubo de ensaio, e me consta que a Dei Verbum foi impressa em celulose fabricada com aquele precipitado! A defesa do método histórico-crítico pela Igreja é um fato histórico não insignificante. Enquanto as hordas de teólogos evangélico-protestantes-de-igreja escrevem manifestos: “Não!”, “Abaixo!”, “Cuidado”, “Pega!”, homens de batina trabalharam em segredo, e não surpreende que o tempo entre a promulgação das Encíclicas do Vaticano II e a publicação das primeiras obras críticas católicas, diga-se, de biblistas e teólogos católicos, sugira que na fase pré-Vaticano II, gavetas estavam sendo cheias... Claro, protestantes escreveram obras críticas no século XX, usaram como ninguém o método histórico-crítico, ei-la a Alemanha Protestante, por exemplo, mas vá lá ver o que se diz disso na Igreja. Pode-se dizer que “protestantes” abraçaram o método, mas não que a “Igreja Protestante” o tenha feito – e não há sinais visíveis de que o fará (a curto prazo) [mas que o fará, o fará]. O que caracteriza o momento atual, contudo, depois de a Dei Verbum e o A Interpretação da Bíblia na Igreja é que não “católicos”, mas a “Igreja Católica” está dizendo – “_Leiam-se as Escrituras! Estudem-se as Escrituras! E tomem aqui o método histórico-crítico, para começarem seus estudos...”. Sabe-se lá o que é isso?

Quero viver muitos anos (mais de cem), e quero-os viver lentamente. Mas queria também que ele corresse, o tempo, para eu ver no que vai dar isso. Minha alma, ingênua, romântica, imagina mesas em torno das quais sentar-se-ão exegetas de igreja, estudando a Bíblia não pelas cartilhas dogmáticas da catequese, mas segundo uma autonomia crítica fomentada por metodologias ensinadas na própria igreja. Será? É o sonho deste louco, e a loucura daqueles documentos...

Começar de novo? Posso considerar A Interpretação da Bíblia na Igreja uma nova (e tomara!) autêntica forma de sola Scriptura, dita (da boca pra fora) alhures? Ou também aqui é fogo-fátuo? Na vida da Igreja como conjunto, difícil dizer, mas na vida de milhares de cristãos de espírito livre, crítico e autônomo, o deserto ficará mais barulhento, porque muita gente que, obediente às hierarquias, até desconfiava, mas não tinha pés para ir lá, agora para lá irá, com a bênção da basílica, enquanto eu mesmo lá me vou com a dos Princípios Batistas, capítulo um, parágrafo segundo...

 

Teologia histórico-crítica

 

Uns sonham, outros trabalham, e é difícil determinar o que será mais eficiente para a construção de um mundo onde, porque melhor, porque mais curado das doenças do espírito e da carne, possam cristãos (daqui e dali) sentarem-se à mesa não com Agostinho ou Aquino, Deus os tenha, mas com manuais de metodologia exegética histórico-crítica – e seus desdobramentos e aperfeiçoamentos que decerto virão. Leiam-se as próximas palavras, e decida-se se são sonho ou trabalho:

De fato, o abismo entre a exegese e a teologia sistemática é a grande falha na teologia dogmática atual! Com razão, Gerhard Ebeling insiste em que hoje uma teologia feita com responsabilidade crítica a partir das origens cristãs somente pode ser realizada com base nos resultados adquiridos pela exegese histórico-crítica. Deve-se insistir no fato de que uma dogmática a-histórica está tão superada como uma exegese a-histórica, por mais moderna que pareça. Uma teologia dogmática que assume resultados exegéticos de forma seletiva, é insuficiente. Uma dogmática que em vez de trabalhar criticamente permanece autoritária (no estilo católico, ortodoxo ou protestante), deixa de ser científica: tanto a dogmática como a exegese exigem uma atitude científica ante a verdade, discussão crítica dos resultados e comprovação crítica dos problemas levantados e dos métodos. Como a Bíblia (cf. Vaticano II), o dogma requer uma interpretação histórico-crítica. Como a exegese moderna, a teologia dogmática moderna precisa seguir uma hermenêutica rigorosamente histórica, e mantê-la sem compromissos.

Sonho ou trabalho, saiu das mãos de Hans Küng, em Teologia a Caminho, fundamentação para o diálogo ecumênico (p. 225). “É um livro apaixonante”, escrevi na contra-capa. E imagine-se ler, depois disso, A Interpretação da Bíblia na Igreja, e ler exatamente isso: “para interpretar a Escritura com exatidão e precisão, os teólogos necessitam do trabalho dos exegetas” (p. 133), “o exegeta estabelece as bases desta operação que o dogmático continua” (p. 134). Não é (quase) a mesma coisa? Não poderiam ser a mesma coisa (ainda), porque são ditas por instâncias “diferentes”. Hans Küng fala(va) enquanto sonhador e “agente”, como quem quer ganhar posições em terreno tomado por outras perspectivas. “Roma” fala justamente do QG daquele terreno sob mira por Hans Küng, e fala como aquele general que, no meio do confronto, vai tomar instruções de estratégia com seus oficiais, e, tendo-as tomado, decide que a melhor estratégia é, sim, abrir o território aos Hans Küngs da vida. Mas, diferentes na pronúncia, encontram-se nas operações práticas da teologia: “Teólogos, ouvi: doravante, consultai a exegese”.

Não é difícil acompanhar a série de argumentos que A Interpretação da Bíblia na Igreja usa para chegar até o ponto de dizer que a teologia é conseqüente com a exegese – e eu diria, e não o contrário! Observem-se as proposições:

  1. “A tarefa dos exegetas (...) é uma tarefa de Igreja” (p. 124);

  2. “Mas [a tarefa dos exegetas] é ao mesmo tempo uma tarefa científica” (p. 125);

  3. “Conseqüentemente, os exegetas devem se servir do método histórico-crítico” (p. 125);

  4. “Em toda a diversidade de suas tarefas, o exegeta católico não tem outra finalidade senão o serviço da Palavra de Deus” (p. 131);

  5. “‘O estudo da Santa Escritura’ deve ser ‘como a alma da teologia’ (Dei Verbum, 24)” (p. 128);

  6.  “Para interpretar a Escritura com exatidão científica e precisão, os teólogos necessitam do trabalho dos exegetas” (p. 133);

  7. “O exegeta estabelece as bases desta operação que o dogmático continua” (p. 134).

 A rigor não se está dizendo que exegetas são melhores do que teólogos, absolutamente, e não é isso que estou dizendo, também, nem nas entrelinhas, e nem no inconsciente! O que se está dizendo é que a teologia, se bíblica, bíblica tem de ser, e, para o ser, deve ser exegética, e, se exegética, então histórico-crítica. Das duas uma: ou o teólogo torna-se (também) um exegeta, para, iniciando sua reflexão, fundamentar-se nas proposições histórico-sociais contidas no texto bíblico, ou recorre a trabalhos exegéticos. O que não se recomenda são trabalhos como o de Éfrem que, lendo Gn 1,1-3, sabe que lá se trata do domingo, e eis, com rûahi, como que uma grande ave a chocar as águas da criação. É bonito, mas só isso...

Teologias (aparentemente) como as que essa metodologia é capaz de produzir já apareceram aqui e ali, como a de Harnack, por exemplo, mas a Igreja não soube o que fazer com ela(s) – quer dizer, soube. O caso é que, a se manterem o espírito e as proposições de A Interpretação da Bíblia na Igreja, a Igreja (Católica), a saber, os fiéis que a compõem, deverá aprender a fazer algo mais positivo com elas – porque serão suas! Teologia(s) histórico-crítica(s) da Igreja: alguém imaginava isso há dez anos? Ora, mas já faz onze que a proposição foi lida! Xi, então já estamos atrasados...

“Estamos”, não, que é uma proposição católica, e não necessariamente de toda a cristandade. Minha opinião, contudo, é de que ela está correta, e não deve ser abraçada apenas pelos católicos, mas por todos os cristãos: pensar teologia crítica e fazer teologia histórico-crítica. Fala aí, ô Hans: “Precisa-se de uma teologia feita a partir do atual horizonte de experiência, uma teologia rigorosamente científica, e, portanto, aberta ao mundo e orientada ao presente. Parece-me que só essa teologia merece hoje um lugar na universidade, ao lado das outras ciências” (KÜNG, 2004, p. 196).

 

Conclusão

 

Fui tentado a dar outro título a este artigo. Iria chamá-lo de “Farão eles o que nós não fizemos?”. O título então seria tanto uma síntese do artigo, quanto uma “torcida” – Oxalá façam eles o que não fizemos nós. Mas o “eles” e “nós” nos distanciaria mais do que já estamos distantes, e o deixei de lado. Mas só o título... Meu coração “protestante”, humanista, autônomo, crítico, (já) faz essa exegese e essa teologia defendidas, agora, pelo A Interpretação da Bíblia na Igreja: minha aproximação à Bíblia é histórico-social, e a teologia que elaboro é conseqüente com essa aproximação.

Na História da Igreja, desde a Reforma, protestantes e católicos, cada um de um lado, disputam sobre “fé” e “verdade”. Nós, protestantes, elegemos uma filosofia e uma teologia da História, dissêmo-la “idêntica” à própria Bíblia, que estava lá, e fizemos da Bíblia um conjunto de histórias, narrativas, poesias, leis, todas, para dizer uma única coisa: aquilo que dizemos que ela diz. A “fé”, isto é, o sistema doutrinário particular de cada denominação evangélico-protestante é, a rigor, o critério hermenêutico. Chamem a isso do que quiserem, eu chamo a isso “tradição”. Por sua vez, “eles”, os católicos, assumiram menos inconscientemente, menos disfarçadamente, menos dissimuladamente, a Tradição, e a colocaram do lado das Escrituras. Com isso, assumem na teoria e fazem na prática aquilo que os protestantes e evangélicos só fazem na prática: atrelar a Bíblia a quartos-de-milha doutrinários, teológicos e dogmáticos, sempre com o mesmo cocheiro, ainda que num dos casos, ainda se diga que lá vai o Espírito Santo, mas não vai não, quem vai mesmo é uma pessoa...

Católicos e protestantes-evangélicos vão bem, obrigado, felizes (?) com suas respectivas formas de expressão e de fé. Não escrevi este artigo para falar de católicos e de protestantes-evangélicos, mas para falar das Escrituras enquanto tratadas por eles. E, permitam-me dizer, minha opinião é a de que elas vão mal-tratadas. Objeto de concreta polissemia ritual e instrumental, de oráculo a talismã, livro que é, ou, perdão, livros que são, as Escrituras pedem tratamento enquanto aquilo que são – registro histórico de intencionalidades político-religiosas, enquanto vestígio histórico-arqueológico, e, em sua origem, instrumento de intervenção social enquanto peça das relações político-sociais. A tomada de posição, plena de fé, disso que foi instrumento de intervenção social e que agora é vestígio histórico-arqueológico, como “palavra de Deus”, penso deva ser feita de forma coerente, honesta, universal, como a “verdade” deve ser, e será. Seres históricos que nos descobrimos num momento da História, devemos nos aproximar das Escrituras também assim, historicamente, e também assim, historicamente, “tocaremos” a(s) verdade(s).

Considero essa uma tarefa a ser feita. As Escrituras apenas começaram a ser estudadas criticamente. Apenas as Universidades (algumas) as vêm tratando criticamente, mas, ainda assim, em espaços distantes da Igreja, como a ratificar que Igreja é lugar para catequese e dogma, e Universidades, lugares para pesquisa. Pois bem, eis novos tempos que chegam, onde a Igreja ou virará Universidade, ou teremos de rasgar documentos, quero dizer, tempos em que a Bíblia deve ser estudada criticamente desde a catequese.

Estamos longe disso? Quilômetros! Mas ainda mais longe está a teologia de sentar e ouvir a exegese. Talvez seja mais fácil fazer alunos de escolas bíblicas dominicais e de círculos bíblicos aprenderem a metodologia crítica do que convencer aos teólogos profissionais de que há alguma coisa da dogmática sem chão, se o chão é, deveras, o Tanak e o Novo Testamento Grego. Hans Küng assumia-se há alguns anos, colocando (apenas) Edward Schillebeeckx ao seu lado, como um teólogo que utiliza o método histórico-crítico. É um começo. Tantos (todos) teremos de abrir mão de trincheiras, sair das valas (e queiramos deixar lá nossas baionetas, por favor...), aproximarmo-nos do front, e, juntos, perceber que o esforço por estudar seriamente as Escrituras deve unir, não desunir, deve fazer com que cada um de nós se sente em torno dela, antes que se levante com ela nas mãos, a bradar discursos teológico-ontológicos. Há acima de tudo a necessidade de, como quisera Marc Bloch em relação à História, nós em relação à Bíblia, chegar às pradarias onde haja carne humana, ogros histórico-criticos, mais ou menos...

É mais do que pararem as guerras entre nós, é aproveitarmos então a paz assinada e entrarmos em diálogo, nós, com os seres humanos concretos responsáveis pela redação das páginas santas do cânon cristão, eles (um autor? uma autora? uma comunidade de autores?), seus destinatários, seus “porquês”, seus “para quês”, seus “então toma”, que é o que disseram, seus “o quês”, que disseram porque tinham “porquês” e “para quês”, e isso porque tinham seus “para quem”. O esforço histórico-crítico é enorme (conseguiremos um dia?): saltar da página escrita não exatamente para o/a(s) autor/a(s) da página, mas para o que acontecia com os seus destinatários, que o/a(s) levou/aram a escrever, a intervir. Sim, porque o sentido da página escrita (das Escrituras) é função do evento histórico-social que a determinou, e, enquanto registro de potenciais intenções intervencionistas e instrumento da atualização dessa potência, seu sentido está incontornavelmente preso a ele.

Diante da impossibilidade de verificação do êxito de identificar ineludivelmente a intenção histórico-social das narrativas bíblicas, pode-se partir para a elaboração de metodologias que elejam “texto” ou “leitor” como locus hermenêutico. É uma questão de perspectiva que apenas esconde o óbvio: gente humana, de carne e de osso, tinha o que fazer, logo, teve o que dizer, e, dizendo isso que tinha de dizer (para fazer fazer), escreveu. Escreve-se, eis o fato histórico. O que se escreveu?, eis o dilema exegético. Se vamos eleger os homens e as mulheres que escreveram como aqueles com quem queremos um dedo de prosa, viva todas as metodologias da intentio operis e da intentio lectoris, sejam felizes, mas servem apenas tangencial e secundariamente. Com toda a dor de cabeça e com todos os desafios verdadeiramente significativos da tarefa, eis-nos, diante daqueles homens e daquelas mulheres, obrigados a recorrer ao método histórico-crítico, imperfeito, insuficiente, pouco e parco, mas incontornável, e a fazer, se “bíblica”, uma teologia histórico-crítica.

Escolhi meu doce deserto. E acho mesmo muito interessante que Roma esteja mandando mais gente para cá...

 

Referências Bibliográficas

CONVENÇÃO BATISTA DO SUL DOS ESTADOS UNIDOS. Princípios Batistas. 3ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987. 24 p.

 KÜNG, H. Teologia a Caminho – fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999. 300 p.

 LOPES, A. N.  A Bíblia e seus Intérpretes – uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 287 p.

 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Discurso de Sua Santidade o Papa João Paulo II e documento da Pontifícia Comissão Bíblia. 5 ª ed. São Paulo: Loyola, 2002.

 POPKIN, R. História do Ceticismo de Erasmo a Spinoza. São Paulo: Francisco Alves, 1997. 275 p.

 


[1] Exegeta e teólogo histórico-crítico (histórico-social). Bacharel e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (Mestrado sob orientação do Dr. Haroldo Reimer). Doutorando em Teologia pela mesma instituição (Dr. Haroldo Reimer) e pela PUC-Rio, sob orientação do Dr. Emanuel Bouzon. Professor de Exegese e de Hermenêutica (Antigo Testamento). Coordenador do Curso de Teologia do STBSB.