Teologia Bíblica e Teologia Sistemática

diferenciações e observações

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Enquanto cânon, a Bíblia é o livro sagrado do cristianismo. Uma biblioteca especial que encerra os pronunciamentos de profetas, sábios, salmistas, teólogos e redatores reais, legisladores, e uma série de personagens históricos. Há entre eles representantes da corte, do templo e do povo. Tratar a Bíblia como Palavra de Deus não deve diminuir o interesse por esses personagens como indivíduos que viveram em determinado tempo e lugar, sujeitos a determinadas concepções da vida, do mundo e de Deus. Cremos que falaram movidos pelo Espírito Santo (1 Pd 1,21), e que o que escreveram constitui Escritura (2 Tm 3,16), mas essas afirmações teológicas não devem impedir que aqueles mesmos autores sagrados sejam ouvidos naquilo que eles mesmos tinham a dizer ali e então. É justamente o que eles falaram que constitui a Palavra de Deus.

 

 

Teologia Bíblica como interesse pela teologia dos autores bíblicos

 

 

É quando o leitor da Bíblia se pergunta pelo sentido das palavras dos próprios escritores bíblicos que se apresenta o tema da Teologia Bíblica. A Teologia Bíblica está preocupada em prestar atenção às afirmações dos autores bíblicos, de acordo com seu tempo e lugar. Como os escritores bíblicos não viveram todos no mesmo lugar nem no mesmo momento, está atenta às suas diferenças de opinião teológica. Será se um legislador pensa como um profeta? Um salmista tem as mesmas concepções teológicas que um sábio? Não é difícil compreender que um escritor do ano 1.200 a.C. que viva nos primeiros anos da formação do que então viria a se tornar Israel, pense de forma diferente de outro escritor que viva cerca de 550 a.C., quando Israel já deixara de ser uma nação livre.

 

Costuma-se dividi-la em Teologia Bíblica do Antigo e do Novo Testamentos. A JUERP publicou dois livros muito bons sobre esse tema: Teologia do Antigo Testamento - questões fundamentais no debate atual e Teologia do Novo Testamento, de G. F. Hasel. Uma Teologia Bíblia do Antigo Testamento está interessada em pensar sobre os conceitos teológicos  dos autores do Antigo Testamento, e como os relacionavam à vida em todas as suas dimensões (social, política, econômica, religiosa, sexual, cultural, etc.). Por sua vez, a Teologia Bíblica do Novo Testamento  está interessada em ouvir os pronunciamentos teológicos dos autores do Novo Testamento. Claro está que se tratam de obras teológicas distantes no tempo. Ambas as Teologias Bíblicas sabem que, por mais comum que lhes seja o substrato cultural e religioso, as expressões teológicas do Antigo e do Novo Testamentos possuem peculiaridades que não podem ser negligenciadas. Mesmo dentro de um e de outro há peculiaridades que precisam ser observadas.

 

Se a levarmos a sério, chegaremos à conclusão de que a Teologia Bíblica não tem apenas um discurso. Numa palavra: cada livro da Bíblia possui sua própria maneira de compreender a vida, o mundo e Deus. Muitas vezes, por se tratarem de livros compostos por coleções de textos de vários escritores, um mesmo livro da Bíblia pode conter perspectivas diferentes sobre a vida, o mundo e Deus. Portanto, a Teologia Bíblica sempre prestará atenção àquele pronunciamento teológico específico registrado naquele texto bíblico que o teólogo examina. Cada autor bíblico representa um fenômeno histórico-social independente, muitas vezes relacionado a outros autores, a outros textos, a outros fenômenos histórico-sociais. Faz sentido, porque, a rigor, a tradição afirma que foram homens que falaram movidos pelo Espírito Santo. O que quer que tenham falado, está escrito. Ler o que falaram aqueles homens, compreender o que disseram, como criam, em que criam, por que criam e o que faziam com suas crenças é tarefa da Teologia Bíblica. São as delícias da Teologia Bíblica... que deve ser crítica e honesta consigo mesma.

 

 

Teologia Sistemática como sistematização teológica dos dogmas cristãos

 

 

Contudo, Teologia Bíblica não é a única forma com que os homens têm pensado a Bíblia. Na verdade, nem é a mais antiga. Por incrível que possa parecer, a preocupação com aquilo que diziam os autores bíblicos é mais recente do que a preocupação com o sistema teológico sustentado pela igreja.

 

Historicamente, o dogma cristão tornou-se mais relevante do que as formulações teológicas dos autores bíblicos. O sistema teológico cristão acabou tornando-se uma espécie de descrição da verdade, nos moldes do sistema cultural greco-romano onde foi gerado. R. B. Zuck tem publicado pela Vida Nova um livro chamado A Interpretação Bíblica. Ali se descreve como nos dois primeiros séculos do cristianismo a igreja criou um sistema de interpretação bíblica e sistematização teológica baseado na alegoria, na tradição e na autoridade. Zuck chega a afirmar que se dizia (Justino) que "o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos. Mas essa pertinência (...) era percebida por meio da alegorização" (p. 39). Mas a única alegorização correta, dizia-se também (Ireneu), "é o da fé, preservada nas igrejas mediante a sucessão apostólica" (p. 40). No auge da definição do sistema, Tertuliano defendia que a autoridade da igreja devia impor-se às alegorizações não conformes à regra de fé (p. 40).

 

Parece que Zuck pensa descrever uma outra igreja. O sistema alegoria-tradição-autoridade teria durado apenas até a Reforma (p. 51). Se Zuck pensa realmente assim, parece incorrer em dois equívocos: primeiro, o processo de criação do sistema não pertence à história de outra igreja (cf. Compromisso. JUERP. 4/2001, p. 5.); segundo, a Reforma adotou o mesmo modelo sistemático. Não é de se estranhar que o primeiro movimento da Reforma seja por isso mesmo conhecido como Ortodoxia Protestante.

 

A Teologia Sistemática é parte da História da Igreja e está indissoluvelmente ligada a ela. A grande tentação da Teologia Sistemática sempre foi descrever Deus e as coisas de Deus - tentação a que se cede, não sem riscos, a partir do momento em que o teólogo sistemático tem da teologia aquela idéia de se tratar de estudo sobre Deus. Se para o teólogo sistemático, teologia é o estudo sobre Deus, então a Teologia Sistemática é, para ele, a sistematização do conhecimento de Deus. A Teologia Sistemática, nesse caso, possuiria conhecimento de Deus e das coisas de Deus e entenderia que sua missão seja apresentar esse conhecimento de tal forma detalhado que os crentes possam ter de seu Deus a melhor compreensão teológica possível.

 

Uma outra forma de se fazer Teologia Sistemática a trata como o estudo das formulações teológicas cristãs. Por consistir em formulações, é disciplina humana; por serem teológicas, tais formulações são fruto de reflexão sobre os conceitos históricos que a igreja tem de Deus; por ser cristã, é já um olhar teológico definido, histórico, hermenêutico. O que significa? Significa que a Teologia Sistemática não deve ser encarada como o conjunto das verdades de e sobre Deus, mas como esforço humano para pensar as expressões teológicas cristãs elaboradas no curso de sua caminhada. São as delícias da Teologia Sistemática... que deve ser crítica e honesta consigo mesma.

 

 

Teologia Bíblia versus Teologia Sistemática

 

 

São pronunciamentos radicais: enquanto a Teologia Bíblica reflete sobre um pronunciamento teológico histórico específico (o do autor [israelita ou cristão] de determinado texto bíblico [do AT ou do NT]), a Teologia Sistemática reflete sobre uma corrente teológica específica (a(s) tradição(ões) teológica(s) cristã(s)). Se a perspectiva for bíblico-teológica, talvez seja mais interessante um esforço de Teologia Bíblica. Se a perspectiva for histórico-eclesiástica, a Teologia Sistemática, ao lado da História da Teologia, pode contribuir para o esclarecimento de temas importantes da Teologia. Essas duas formas de fazer teologia têm seu lugar e importância.