Princípios (batistas) de Interpretação Bíblica

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Gosto de basear minha leitura da Bíblia nos Princípios Batistas. Trata-se de um documento histórico, relativamente recente. Escrito em 1964 nos EUA por um grupo de 19 pastores, foi publicado em 1985 pela JUERP e em 2001 pela Convenção Batista Fluminense (= Impacto - Realidade Batista, pp. 11-21; as páginas citadas adiante são sempre desse livrinho). Ler a Bíblia é uma questão de gostar e de impor-se princípios.

 

 

Lendo a Bíblia com reverência

 

 

"Estudar a Bíblia (...) com atitude reverente" (p. 11). Nada de confundir atitude reverente com preconceito. A reverência é atitude devida ao sagrado, não a doutrinas. A doutrina é sempre função das Escrituras, mas é fácil inverter a ordem e ler as Escrituras sob a escravidão da doutrina. Pr 2,1-6 ilustra de certa maneira que a reverência é uma exigência para a compreensão do temor do Senhor (verso 1 e 2). Mas repare que a reverência ali vem antes do desejo de compreensão (verso 3) e do trabalho pela compreensão (verso 4). Logo, a reverência não é função de conhecimento doutrinário, mas resultado da consciência da presença misteriosa do sagrado.

 

As doutrinas têm seu lugar na história da igreja, mas são sempre provisórias, porque são humanas: são tentativas da igreja compreender e explicar as Escrituras. Contudo, as Escrituras devem estar sempre acima delas, e um sistema doutrinário, por melhor que seja, não pode colocar-se acima da Bíblia. A Deus sempre é que se deve reverência.

 

 

Lendo a Bíblia com oração

 

 

"Procurando o significado de sua mensagem através de (...) oração" (p. 11) Ops! Cuidado aqui. Não se pode transformar oração em método de estudo, porque oração não é método de leitura da Bíblia. Oração é demonstração de desejo de compreensão, mas o caminho para a compreensão é maior do que apenas desejo. Pr 2,3 fala desse desejo. O filho deve ter reverência diante das Palavras do Pai (versos 1 e 2) e deve desejar compreende-las (verso 3). Esse desejo é expresso por meio da oração. Mas não pára no desejo. Se pára, nada acontece. O verso 4 acrescenta que se deve trabalhar para compreender as Palavras do Pai.

 

Mas se não há desejo, se não há oração, normalmente não haverá trabalho. Um desejo vazio, um resultado vazio. Mas se a oração move o coração, os olhos e as mãos do crente a ler, estudar e meditar as Escrituras, haverá compreensão.

 

 

Lendo a Bíblica com trabalho

 

 

Trabalho é como leio Pr 2,4. Repare no trabalho de mineração e na busca pelos tesouros escondidos. Os Princípios Batistas falam desse trabalho com algumas palavras importantes:

 

a)     "Estudar a Bíblia, com a mente aberta" p. 11). Ai! Ai! Quantas vezes nos comportamos como verdadeiros cabeças-duras, heim?! Um cabeça-dura dificilmente poderá estudar a Bíblia com mente aberta. Como vamos entender o que foi escrito há 3.000 anos atrás se não tivermos a mente aberta? Impossível! Faça um exercício: leia Gn 1,1-2,4a e vá desenhando o mundo que está sendo criado. Se você desenhar correto, seu desenho será a representação do mundo segundo aquela mentalidade.

 

b)     "Procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa" (p. 11). A inspiração não da Bíblia outra coisa que não livros. A inspiração produziu justamente livros. Agora, se não se gosta de ler, e se não se lê direito, como compreender? É necessário aprender a lidar com textos. É preciso muito estudo para uma compreensão adequada das Escrituras, por mais que preferíssemos que as coisas fossem mais fáceis, e por mais que digamos que realmente o sejam.

 

 

O trabalho de compreender a Bíblia

 

 

Segundo esses princípios, a compreensão da Bíblia dependeria das seguintes ações: 1) atenção para com o texto que se está lendo, porque o texto é a única ponte entre nós leitores e o escritor inspirado; 2) atenção para com a mensagem do escritor inspirado, e não uma predisposição para submeter o texto bíblico à determinada teologia; 3) atenção para com os destinatários originais do texto, porque é para eles que o escritor inspirado está escrevendo; 4) atenção para com as circunstâncias históricas, econômicas, religiosas e sociais que o texto deixa transparecer, porque o que o escritor inspirado escreve é função dessas variáveis humanas; 5) atenção para com as intenções que o texto deixa transparecer, porque os escritores bíblicos têm suas preferências e suas intenções; 6) atenção para a forma com que o texto é escrito, porque as palavras podem ter sido usadas em sentido figurado e o tipo de literatura empregado pode exigir uma atenção especial.

 

 

Conclusão

 

 

A Bíblia é a Palavra de Deus. A Palavra de Deus já tem sua forma e sua mensagem. Sua forma é a biblioteca bíblica, e sua mensagem é aquilo que os escritores sagrados escreveram. Ler a Bíblia segundo os Princípios Batistas é estar aberto a essa mensagem e submeter-se às exigências da forma com que ela se apresenta.