Precisamos de uma teologia brasileira?

uma discussão sobre teologia contextual

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Os textos bíblicos refletem as reflexões de seus escritores

 

 

Leia Lv 19,17-18: "não aborrecerás a teu irmão (...) não te vingarás (...) mas amarás o teu próximo". Agora leia Jr 50,15 e Sl 137,8-9: vingança! Lendo esses textos, percebemos como os escritores bíblicos possuem sentimentos e atitudes diferenciados e que os registram assim. Se a legislação diz: "não te vingarás", por outro lado o salmo canta a vingança, e o profeta anuncia uma palavra do Senhor: "vingai-vos dela; como ela fez, fazei-lhe a ela".

 

Leia Sl 113,5-8: Deus se compadece do pequeno e do necessitado. Agora leia Sl 2,1-5: o Senhor é posto a zombar dos projetos de libertação dos povos contra o rei de Jerusalém. Lendo esses versos, percebemos que os textos bíblicos denunciam perspectivas diferentes em relação à forma como seus escritores concebem a relação entre Deus e os homens.

 

Sem uma tentativa aparentemente zelosa de conciliar essas diversidades de expressão no que diz respeito às atitudes pessoais e religiosas e aos comprometimentos político-religiosos dos escritores bíblicos, convém pensarmos um pouco sobre a Palavra de Deus e sua relação com as palavras humanas de seus escritores, e, então, apontarmos exigências para uma teologia brasileira.

 

 

A Bíblia é a Palavra de Deus encarnada nas palavras humanas

 

 

Este é um tema delicado: enquanto Palavra de Deus, cremos que a Bíblia encerre o sopro divino. A Declaração Doutrinária da CBB trata a Bíblia como Palavra de Deus em linguagem humana, o que implica no fato de que aquele sopro divino chega até nós não mais em forma divina, mas em forma humana. Significa dizer que o sopro divino por trás das Escrituras está agora encarnado nas palavras humanas dos homens que inspirou. A Bíblia se nos apresenta então como um livro divino e humano, não é uma questão de escolha entre um livro divino ou um livro humano: como Palavra de Deus, a Bíblia está encarnada em palavras humanas. E se trata de uma encarnação crida de tal forma que a única maneira de se distinguir a Palavra de Deus é ouvir as palavras humanas que a sustentam textualmente. Ler a Bíblia com intenção de ouvir a Palavra de Deus implica da parte do leitor um esforço por compreender as palavras humanas com que foi escrita.

 

Dizer que a Bíblia seja Palavra de Deus encarnada em palavras humanas pode ser ilustrado com outro paralelo da fé cristã: a história de Jesus. Cremos que o filho de Maria é a encarnação de Deus como homem. Se até aquele dia, Deus havia apenas encarnado as suas palavras nas palavras humanas, agora o próprio Deus encarnava como homem. A aceitação pela fé da encarnação do próprio Deus como homem em Jesus e da encarnação das suas Palavras nas palavras humanas dos escritores sagrados exige do crente a mesma disposição de ânimo, a mesma boa vontade. Não se entende que a encarnação do próprio Deus seja aceita, enquanto que a afirmação de que a Bíblia seja a encarnação da Palavra de Deus nas palavras humanas cause espécie às consciências cristãs.

 

Como resultado da encarnação da Palavra de Deus nas palavras humanas temos que tais palavras dos escritores sagrados são deles. A Bíblia consistiria na expressão da fé dos escritores sagrados sob a inspiração do Espírito Santo (2 Pd 1,21). Tem-se pensado que os escritores sagrados não tinham controle pessoal sobre o que escreviam, de forma que as palavras dos textos bíblicos são literalmente palavras ditas por Deus. Esse artigo, contudo, acredita que a Palavra de Deus está encarnada tão inseparavelmente às palavras humanas dos escritores da Bíblia que para ouvirmos as Palavras de Deus temos de fazer um esforço para ouvir as palavras dos homens que escreveram as Escrituras.

 

É uma questão de fé que tem repercussões na forma como vamos compreender a Bíblia, o que pode ser exemplificado nos dois primeiros parágrafos deste artigo. Ali, verifica-se que os textos bíblicos testemunham pontos de vista diferentes sobre diferentes assuntos. Pode-se explicar essa percepção pelo fato de que os homens que escreveram a Bíblia a escreveram enquanto homens. O processo da inspiração não os torna outra coisa: eram homens antes de escreverem, permanecem homens enquanto escrevem, e continuam homens depois. O paradoxo é que o que escreveram é tanto compreensão sua, tanto objeto de sua própria fé pessoal e histórica, quanto expressão do sopro divino.

 

A questão se torna compreender esse processo. Se nos reportarmos aos dois artigos anteriores, veremos que teologia é a expressão de uma fé. Nesse sentido, os textos bíblicos contêm teologia: a teologia dos seus escritores. Os escritos bíblicos encerram sob o sopro divino um acervo histórico de testemunhos de homens que, vivendo, participaram ativamente da vida de seu povo e de seu Deus. Assim vivendo, refletiram, julgaram, analisaram, sempre de acordo com suas condições culturais, sociais e, econômicas; sob a influência de suas opções políticas e religiosas; e condicionados por sua situação sexual e racial.

 

 

Condições para uma teologia bíblica brasileira

 

 

Pensar os textos bíblicos dessa forma modifica a impressão que se tem dos textos bíblicos como fotografias sobrenaturais da vida, como uma leitura feita da história a partir de uma situação fora da história. Pelo contrário, pensar os textos bíblicos da forma como aqui estamos tentando pensar implica em perceber que os escritores bíblicos, ainda que sob o influxo do sopro de Deus, pronunciaram-se sobre os temas sobre os quais escreveram a partir de sua própria situação de vida, conforme criam, conforme compreendiam e conforme queriam.

 

Se essa é uma visão correta dos textos bíblicos, como pensar uma teologia brasileira? Não há como sequer arranhar a superfície do assunto aqui, mas podemos discernir pontos a serem investigados pelos leitores.

 

Primeiro, uma teologia brasileira, se bíblica, deveria empreender esforço para compreender o pronunciamento histórico-existencial de cada texto bíblico, e tomá-lo em si mesmo. Ainda que a regra hermenêutica de que as Escrituras expliquem as Escrituras possa ter sua validade em termos histórico-culturais, essa caracterização dos textos bíblicos como pronunciamentos histórico-existenciais de seus autores mercê do sopro divino propõe um valor próprio para cada pronunciamento bíblico. As mais das vezes, aquela máxima hermenêutica apenas dá ocasião para que uma teologia pessoal seja utilizada como critério para a leitura de todo e qualquer texto bíblico, sob a alegação, nesse caso falsa, de que as Escrituras explicam as Escrituras.

 

Segundo, um teólogo brasileiro deveria ter sobre mira o fato de que também o escritor sagrado era um teólogo. A diferença é que o teólogo brasileiro decidir-se-ia por fundamentar sua perspectiva teológica no testemunho do escritor bíblico, e por isso deve compreendê-lo tal qual ele se expressou. Contudo, deve perceber que o pronunciamento daquele teólogo bíblico atende às circunstâncias de seu próprio pronunciamento. Portanto, o teólogo contemporâneo deverá se perguntar de que forma aquele tema seria pensado agora sob os mesmos princípios e critérios com que foi pensado lá e então pelo escritor sagrado. Se por um lado a exegese esforça-se para ouvir o pronunciamento original do escritor sagrado, o teólogo contemporâneo, partindo da exegese, deve perguntar-se pelo desdobramento daquele pronunciamento em sua terra e em seu tempo. Não se deveria descuidar tão pouco de verificar os comprometimentos político-religiosos discerníveis no pronunciamento bíblico.

 

Terceiro, não é a terra e o tempo do teólogo que devem determinar a sua compreensão do texto bíblico. Antes, o esforço deve ser no sentido de desdobrar as reflexões teológicas do escritor bíblico em face da situação contemporânea. Em termos de uma teologia brasileira, exige-se do teólogo que, de um lado de posse das informações histórico-sociais sobre determinado pronunciamento bíblico, e de outro, de posse de uma leitura crítica da sociedade brasileira e de seus problemas, possa propor desdobramentos daquelas reflexões para o enfrentamento destes problemas de sua terra e de sua gente.

 

Não é tanto que seja possível uma teologia brasileira. O fato é que não parece haver possibilidade de uma teologia que não esteja pisando sempre determinado chão, e refletindo sempre em determinada hora. O jeito é fazer teologia com coragem e humildade, no Brasil ou em qualquer parte do mundo.