Os escritores da Bíblia sustentam a Palavra de Deus

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

O Sl 14 e o Sl 53 são quase iguais. Há diferenças. O que têm a nos dizer essas diferenças? Significam alguma coisa?

 

 

Provável história da revisão de um salmo

 

 

A principal diferença se encontra em Sl 14,5b-6 versus 53,5b. Na Melhores Textos (IBB, 8ª imp. 1992), Sl 53,5b está assim: "porque Deus espalhará os ossos daqueles que se acampam contra ti. Tu os confundirás, porque Deus os rejeitou", que traduzo assim: " porque Deus espalhou os ossos do que te sitiava. Tu te envergonhaste, porque Deus os rechaçou". Por sua vez, Sl 14,5b-6 está assim: porque Deus está na geração dos justos. Vós quereis frustrar o conselho dos pobres, mas o Senhor é seu refúgio". Vê-se que, em relação ao Sl 53, o Sl 14 tem um versículo a mais, que é 14,6.

 

Além dessa diferença principal, há outras diferenças menores, mas nem por isso menos significativas. Para apontar algumas:

 

1)     o escritor sagrado do Sl 53 usou 7 vezes apenas o nome ´élöhîm (= Deus, nos versos 1a.2a.b.4b.5b.c.6b); por sua vez, o Sl 14 usa apenas 3 vezes o nome ´élöhîm em 1a.2b.5a, enquanto altera as outras 4 vezes para o nome Yahweh (nas versões evangélicas = Senhor) em 2a.4b.6b.7b,

 

2)     Há algumas alterações de palavras e alterações gramaticais nos versos 1, 3 e 4 (5b é completamente diferente de 14,5b-6); os versos 2, 5a e 7 são rigorosamente iguais nas duas versões do salmo;

 

O Sl 14 é uma revisão do Sl 53. Trata-se de uma adaptação com alterações, mais ou menos como algumas adaptações que o HCC fez de algumas letras de hinos do CC. A pergunta é: se um escritor sagrado decidiu-se a rescrever um salmo, por que o alterou?

 

Sl 53,5b é um estíquio (parte de um versículo) de difícil interpretação. Tanto hoje, quanto provavelmente logo depois do tempo em que foi escrito. Há textos cujo sentido está ligado a algum acontecimento histórico. Se as informações sobre esse acontecimento se perdem, perde-se o sentido do texto. Provavelmente é o que aconteceu com o Sl 53. Originariamente, dizia respeito ao cerco militar de uma cidade (provavelmente Jerusalém [seria o cerco de 701 a.C. que Senaqueribe, rei da Assíria, empreendeu contra Jerusalém e Ezequias? Cf. 2 Re 18,13-19,37]). Anos depois, o cerco descrito em 53,5b tornara-se coisa do passado, e o salmo tornou-se incompreensível. Era, contudo, guardado com respeito e religiosidade na liturgia. Um escritor sagrado então decide-se por adaptá-lo de forma a que sua leitura fosse mais compreensível. Pode-se perceber como a leitura de 14,5b-6 é aparentemente mais clara do que 53,5b.

 

Diz-se que o período do cativeiro babilônico (século VI a.C.) teria privilegiado o nome Yahveh. Portanto, o revisor teria alterado quatro das 7 ocorrências de ´élöhîm do salmo original para o tetragrama, o nome sagrado: YHVH. Talvez possamos ter como provável que o Sl 53 tenha sido escrito por volta do início do século VII e que o Sl 14 consista em uma releitura elaborada no século VI em diante.

 

 

Os textos bíblicos têm história porque são históricos

 

 

O que aprendemos com essas diferenças de versões do salmo, uma representada pela versão mais antiga (53) e a outra pela mais recente (14)? Aprendemos que os textos bíblicos têm história. Assim como cremos que Jesus é a história de Deus, ou Deus na história, Deus encarnado, Deus homem, também devemos estar preparados para ler a Bíblia como Palavra de Deus na história. Ora, se Deus na história é Deus tornado homem, a sua Palavra na história é também palavra tornada humana. Toda humana. Tão humana que os homens lidaram com elas, porque eram tanto de Deus quanto suas.

 

 

Quando a Declaração Doutrinária da CBB diz que a Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana, devemos perceber na sua leitura cuidadosa, no seu estudo criterioso e sério, zeloso e com mente aberta, que se trata de linguagem humana porque também humanas são suas palavras. Sim, Palavra de Deus. Sim, inspirada (2 Tm 3,16). Mais: inspirada porque seus escritores foram inspirados pelo Espírito Santo (2 Pd 1,21). Seus escritores foram homens. Homens que falaram. Isso que falaram, diz-se ter sido inspirado. Ouvir a Palavra inspirada é ouvir isso que aqueles homens falaram. Dizer então com o título desse artigo que os escritores da Bíblia sustentam a Palavra de Deus é dizer que Deus encarnou sua Palavra na palavra dos homens que inspirou. A Palavra de Deus encarnou em forma humana tanto quanto cremos tenha encarnado como homem o próprio Deus.

 

Lendo a Bíblia, podemos ver esses escritores sagrados escrevendo. Podemos perceber seus gestos. Deixaram vestígios, porque respeitavam o texto que produziam. Lendo a Bíblia, podemos crer que isso que vão esses homens escrevendo e nossos olhos lendo se trata de Palavra de Deus. Não há como separar a palavra dos homens da Bíblia da Palavra de Deus. Ler a Bíblia é ouvi-los. Ouvindo-os, cremos estar ouvindo a Palavra de Deus...