Cabeça-dura - miolo mole

aprendendo a aprender (I)

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Você conhece um "cabeça-dura"? Cabeça-dura é aquele sujeito que não muda de opinião nem amarrado. Cada um de nós um dia ou outro entrou na fila dos cabeças-duras: crianças, adolescentes, jovens, adultos, anciãos; homens e mulheres; pobres e ricos. Em matéria de cabeça-durisse não há privilegiados!

 

Mas uma coisa é comportar-se como um cabeça-dura uma vez ou outra. Outra coisa é ser cabeça-dura a vida toda. Pior ainda é ter orgulho de ser cabeça-dura! Pedro comportou-se como um cabeça-dura em At 10. O Anjo do Senhor (v. 3) e a voz (v. 13) que Pedro reconheceu como "o Senhor" (v. 14) tiveram um duro trabalho para convencer Pedro. Mas parece que Pedro não era cabeça-dura; apenas tinha ataques de cabeça-durisse. A narrativa nos dá conta de que Pedro deixou-se convencer e assim os primeiros gentios foram batizados.

 

Sejamos francos: mudar de idéia é uma coisa difícil, não é? Aprender uma coisa nova já não é lá nada fácil, quanto mais ter que admitir que uma idéia que a gente tinha não era lá muito certa ou que teve o seu tempo. Ainda mais se essa era uma idéia religiosa. Aí então é que é um inferno, porque a gente costuma tratar as idéias religiosas (da gente) como verdades absolutas; então, quando a gente tem de mudar de idéia, é como se a verdade mudasse. Não é um trauma? Mas é um trauma porque a gente confunde nossa idéia religiosa com a verdade. Sejamos francos de novo - não costumamos fazer isso? Não costumamos tratar as nossas idéias religiosas como idéias verdadeiras? Não é por isso que tratamos as idéias dos outros como idéias falsas?

 

Precisamos aprender a aprender. Sim, nosso maior problema é que às vezes nos comportamos como carrapichos, sabe, aquelas sementes espinhosas que grudam na roupa da gente e não soltam, e quando a gente tenta tirar, até furam nosso dedo. Pois é: às vezes somos como carrapichos cabeças-duras. Então temos que primeiro aprender a aprender.

 

Se a ELNET me aturar por uns três ou quatro artigos, escrevei uma primeira série sobre esse tema: como deixar de ser um carrapicho cabeça-dura. E vou fazer isso começando por mostrar que na Bíblia há uma dezena de exemplos de como pessoas simples do povo aprenderam a aprender. Veja: não é que foram ensinadas - é que aprenderam a aprender. Foram a um só tempo e para si mesmas mestras e alunas.

 

Vou começar por uma mulher. O nome dela? Jamais saberemos - talvez no céu, se nos lembrarmos dela e de perguntar pelo nome dela. O texto de Jz 13 inteiro foi escrito por causa dela - mas não nos contam qual seja o nome dela. Apenas que é a mãe de Sansão. A gente logo percebe que o nome dos machos é dado: o filho dela será Sansão (v. 24). O nome do marido dela é Manué (ou Manuá, v. 2). Sabe-se até a tribo e a cidade de origem dele. Dela, nada se sabe. Até o nome de Deus se dá a saber: Yahveh (v. 16). Mas o nome dela, não se sabe. Só que é a essa mulher anônima que o Mensageiro de Yahveh aparece (v. 3). Dá instruções a ela (v. 3-5). Ela corre e conta ao marido (v. 6-7). Manué é seu nome. O nome dela? Não sabemos.

 

Manué não está satisfeito em que o Mensageiro de Yahveh revele essas coisas para a mulher. Ele quer ouvi-las por si mesmo (v. 8). Diz-se que Deus ouviu Manué (v. 9a), mas também se diz que o Mensageiro (de Deus) volta a falar com a mulher (v. 9b), e não com Manué, como ele queria. Repare que ela está sentada no campo quando o Mensageiro de Deus fala com ela, e nos lembramos que quando Moisés tem aquela experiência com a sarça ardente ele também está cuidando da vida, literalmente, das ovelhas (Ex 3,1). Ah, e quando Elias chama Eliseu, parece que estava lá ele a cuidar também de sua vida, literalmente, a arar a terra com doze juntas de bois, ele mesmo agarrado à última parelha (1 Re 19,19).

 

É, parece que a escola é a vida. Melhor dizendo - para o bom aluno, para quem aprende a aprender, qualquer lugar é escola: principalmente a vida! E lá vai ela, anônima, já sabemos, avisar o marido - Manué é o nome dele - inconformado em que se contem de novo essas coisas a ela, antes que ao macho. O primeiro a aprender, no entanto, parece ter sido Manué: "levantou-se, seguiu sua mulher e foi ter com o homem" (v. 11).

 

[Ah, Manué, nesse dia você aprendeu que se aprende sendo humilde, sem colocar rótulos nos outros. Alguém havia dito para você, Manué, que Deus fala ao macho, e que a mulher cuide das coisas que a mulher tem que cuidar (lembramo-nos de Marta e Maria, não? Lc 10,38-42). Mas agora você percebeu que quem ensinou isso para você esqueceu que Deus é livre para falar com a mulher também. Aprendendo, você seguiu sua mulher e encontrou o homem de Deus - e você nem imagina, Manué, que se encontrou com o próprio Deus! Mas vai descobrir (v. 22b), e aí terá de aprender outra lição - que sua anônima mulher vai aprender e compartilhar com você].

 

Mas aí temos de esperar para o próximo artigo. O que será que a mulher anônima de Manué, mãe de Sansão, vai aprender, ensinar ao marido e a todos nós? Até a próxima semana...

 

Cabeça-dura - miolo mole: aprendendo a aprender (II)

 

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 29/06/2008 00:37:46