Cabeça-dura - miolo mole

aprendendo a aprender (II)

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Na semana passada vimos como Manué aprendeu a aprender. Aprendeu que às vezes Deus fala onde a gente acha que não falaria. Manué não era um cabeça-dura, e não se agarrou à sua opinião como um carrapicho. Resultado: acabou conversando com Deus (v. 11-21).

 

E aí acontece. Durante toda a narrativa de Jz 13,1-21, tanto a mulher quanto Manué achavam que estavam falando com um profeta (v. 6.10; homem de Deus é uma designação para profeta). Contudo, depois que Manué conversa com o Mensageiro de Deus e que ele, "subindo a chama do altar para o céu, subiu nessa chama" (v. 20), uma coisa acontece na cabeça de Manué: "Certamente morreremos (...) porque vimos a Deus" (v. 22).

 

Você deve reparar que aqui tanto Manué quanto a mulher dele têm a mesma reação inicial: "Manué e sua mulher vendo isso, caíram com o rosto em terra" (v. 20). Isso porque, quando o Mensageiro de Yahweh subiu na chama, eles entenderam que se tratava não de um profeta, mas do próprio Mensageiro de Yahweh (v. 21), que Manué trata como "Deus" (v. 22).

 

E daí? Por que tanto Manué quanto a mulher dele caem com o rosto em terra? O texto responde: eles "viram Deus". E qual o problema em "ver Deus"? É que se diz que quem "vê Deus" morre, porque não se pode ver Deus e ficar vivo. Essa é uma tradição que está presente em diversos textos bíblicos, mas a gente não vai tratar deles aqui. O que interessa é que os dois conhecem essa tradição. Os dois reagem da mesma forma à tradição. Os dois temem por suas vidas. Os dois são reverentes e tementes a Yahweh. A gente olha para o v. 20 e vê os dois com a cara enfiada no chão.

 

Mas olha a diferença: a mulher, mesmo com a cara enterrada no chão, não deixa sua cabeça lá em cima, sabe, como naqueles desenhos animados, em que o corpo do personagem cai, mas a cabeça fica um tempão lá em cima, até se dar conta de que o corpo já caiu. Pois é, aquela mulher, com a cara enterrada no chão, pensa. E ela pensa assim:

 

"Se Yahweh tivesse pretendido matar-nos (...) não teria aceitado nem o holocausto nem a oblação, e não nos teria feito ver tudo o que acabamos de ver, nem nos teria revelado, ao mesmo tempo, o que nos disse" (v. 23).

 

Caramba! Que mulher! Conhecia sua tradição. Respondia naturalmente e apaixonadamente a ela (meteu a cara no chão, temerosa). Mas não deixou de pensar. Essa mulher aprendeu a aprender, e aprendeu que as tradições são muitas vezes móveis, e devem ser atualizadas à luz da vida. Não, não era verdade que morreriam porque viram Deus. Sim, viram Deus, e se viram, e estavam vivos, é porque a tradição não dizia tudo. Era possível, dizia sua experiência, ver Deus e permanecer viva, porque Deus queria assim. "Se Yahweh tivesse pretendido matar-nos" (v. 22). Mas não pretendia.

 

Imediatamente no verso seguinte cumpre-se a promessa do v. 4: nasce Sansão. Parece quase um presente, não é verdade? E que presente nós recebemos com o fato de aquela mulher ter aprendido a aprender? É que nós também até devemos meter a cara no chão, mas que devemos levar a cabeça junto com o corpo. A fé deve ser vivida junto com a reflexão. Caso contrário, podemos virar cabeças-duras.

 

Até a próxima semana. Com quem será que aprenderemos a aprender?

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 29/06/2008 00:46:47