A Bíblia sempre foi assim?

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Hoje é fácil a gente pegar a Bíblia inteira na mão e ler o livro que quiser. Pode-se comprar o tipo que se imaginar de Bíblia, desde aquelas muito pequeninas até as versões digitais. Essas se podem lê-las através de CD-ROM ou até mesmo na Internet. Uma busca por "bíblias on-line" no site www.alltheweb.com por exemplo resulta numa enorme quantidade de sites disponíveis, em diversas línguas.

 

Mas a Bíblia não foi feita como hoje ela se apresenta. Na verdade, nem havia no início alguma coisa que se pudesse chamar de Bíblia. Bíblia é uma forma de se referir à expressão grega ta bíblia, que significa os livros. Quer dizer que a Bíblia como a gente conhece hoje é uma biblioteca. A Bíblia é uma coleção fechada de livros escritos por diferentes pessoas e em diferentes ocasiões. E esses livros originais nada têm de parecidos com os nossos. Temos de pensar um pouco sobre isso...

 

 

Como eram os livros da Bíblia?

 

 

Acredita-se que as formas originais dos livros da Bíblia eram rolos. Os rolos podiam ser de papiro ou algum material vegetal apropriado, ou de pele de animais. Com papiros se formavam folhas; emendavam-se essas folhas umas às outras até resultar numa extensão suficiente para a escrita. Encontrou-se uma cópia do rolo do Profeta Isaías nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, na metade do século passado. Esse rolo tinha sete metros de comprimento. Na época de Jesus ainda era assim. Quando lhe dão o livro do Profeta Isaías, é o rolo de Isaías. Jesus desenrola o rolo e encontra a passagem (Lc 4,17).

 

Se o material utilizado era pele de animais, os pergaminhos, por exemplo, em vez de unir as folhas para formar uma enorme folha única enrolada, podia-se prende-las na lateral, com costura, formando os códices, que são os ancestrais dos livros modernos. Alguns textos antigos do Novo Testamento já eram assim. E as mais importantes cópias dos livros da Bíblia, através das quais se fazem as traduções modernas, também são códices.

 

 

Como eram os textos?

 

 

Poucos livros da Bíblia foram escritos de uma só vez. Acredita-se que os textos do Antigo Testamento sejam o resultado de um longo processo de redação. Na prática, os textos que foram escritos pelo escritor original foram sofrendo uma série de adaptações históricas, teológicas e culturais. Essas tinham o objetivo de tentar explicar alguma coisa no texto que com o passar dos séculos havia ficado obscura. Os textos da Bíblia, portanto, em sua grande maioria, são textos de várias mãos. Alguns poucos textos do AT e provavelmente a maioria dos textos do Novo Testamento parecem textos escritos de um só fôlego. Mas mesmo nesses, os estudiosos admitem pequenas intervenções aqui e ali, com aqueles mesmos objetivos.

 

Obviamente, o material em que esses textos eram escritos tinha uma duração curta. Tiveram de ser copiados centenas de vezes até que pudessem chegar até nós. Os originais desapareceram. Só nos restam cópias. As mais antigas são datadas em cerca de 100 a.C. Há variações entre essas cópias, e a crítica textual tenta recompor o texto mais fiel em relação ao texto original. Tarefa difícil, já que os textos foram escritos em hebraico, aramaico e grego.

 

 

Como eram os escritores desses textos?

 

 

Eram homens (quem sabe alguma mulher, ah?). Digo isso para que não se pense que os livros da Bíblia foram escritos por anjos. A Declaração Doutrinária da CBB afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana. Por que linguagem humana? Por que foram escritas por homens e para os homens. 2 Pd 1,21 nos adverte de que esses homens falaram movidos pelo Espírito Santo, de forma que deve haver um esforço da parte de nós leitores para entender o que esses homens falaram.

 

Os escritores dos livros da Bíblia foram dezenas. Se contarmos as revisões, as redações, as glosas (intervenções de esclarecimento nos textos quando eram copiados), sobe às centenas o número de mãos que produziram nossa biblioteca. Esses homens eram filhos de seu tempo e de sua terra. Escreveram segundo suas convicções, segundo sua cultura, sua fé, suas opiniões sobre a vida e a religião. Nós leitores temos de estar atentos a isso, porque a Palavra de Deus encarnou nas palavras humanas.

 

 

Conclusão

 

 

A Bíblia foi feita em mutirão. Centenas de livros foram escritos. Nasceram na forma de seu tempo. Cresceram de acordo com as mudanças de pensamento teológico, político e cultural em Israel. Em determinado tempo, separaram-se alguns dentre eles, nascendo o cânon. A biblioteca (= o cânon) das igrejas evangélicas é um pouco diferente do cânon católico, ortodoxo e judaico.

 

A fé de um povo inteiro está registrada na Bíblia, das mais variadas formas literárias, através das mais diferentes histórias. Acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus; façamos então um esforço para ouvir com atenção e sabedoria o que esses homens inspirados tinham a dizer. O que eles disseram encarna a Palavra de Deus.

 

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"Na metade do século passado" - isso quer dizer que escrevi esse texto após 2000. Não me recordo quando, nem para que veículo de divulgação - provavelmente, alguma das revistas da JUERP. Se e quando eu localizar a publicação, informo aqui.

Talvez o/a leitor/a gostaria de ler um artigo sobre o mesmo tema, mas bastante mais atual: Por que é preciso desinventar a Bíblia. É curioso. Quando reli esse texto, hoje, 28/06/2008, julguei que o teria escrito há uns quinze anos. Mas, não - não tem nem oito anos, ainda. Foram anos velozes, esses últimos. E, pelo visto, eu mudei bastante.

 

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 29/06/2008 00:22:26